terça-feira, 9 de Fevereiro de 2010

baile de máscaras #1



Vamos mascarar o Bolaño?


aceitam-se candidaturas.

esta semana, sem consumo mínimo


dos achaques

esta tarde, enquanto acabava de arrumar os saldos da Relógio D'Água, fui mexer na pilha de livros usados que continua por arrumar num canto junto ao balcão da cafetaria e, epifania, sai-me de lá um alexandra alpha, livro que esta livreira tem procurado com algum desespero nos últimos meses. estava ali, debaixo das minhas barbas, à espera que algum leitor o agarrasse. ainda bem que cheguei primeiro. não podem imaginar o terror que seria ver alguém aproximar-se da caixa com aquele livro na mão. eu chorava. a sério que chorava. agora está aqui, a olhar para mim, enquanto eu lhe dedico posts.


Diz que gostava da Sylvia por amor



"O teu rosto queria salvar-me
do que já estava decidido."

Tripla a conhecer


com cinco poéticas letrinhas apenas



Que doce esta imensa trama!
Teu corpo com minha alma, amor,
e meu corpo com tu alma.


(também este só custa 5€)

A subversão não é uma patetice, percebes?

Atenta à Athena

Verdadeiros hinos à noite

eu dava-te, só custa €5, mas tu não mereces

confiança é não comprar este porque tu já o tens


É impróprio ser famoso
pois não é isso que eleva.
E não vale a pena ter arquivos
nem perder tempo com manuscritos velhos.
O caminho da criação é a entrega total
e não fazer barulho ou ter sucesso.
Infelizmente, nada significa
como uma alegoria andar de boca em boca.
Mas é preciso viver sem pretensões,
viver de tal modo que no fim de contas
venha até nós um amor ideal
e ouçamos o apelo dos anos que hão-de vir.
O que é preciso rever
é o destino, não antigos papéis;
lugares e capítulos de uma vida inteira
anotar ou emendar.
E mergulhar no anonimato,
e ocultar nele os nossos passos,
como foge a paisagem na neblina
em plena escuridão.
Que outros nesse rasto vivo
seguirão o teu caminho passo a passo,
mas tu próprio não deves distinguir
a derrota da vitória.
E não deves por um só instante
recuar ou trair o que tu és,
mas estar vivo, e só vivo,
e só vivo - até ao fim.

os Poetas Russos estão em saldos, valha-me D.

alguém m'acuda


€5,00 cada

ai que me dá uma coisinha má


[€5,00 cada]

dos grandes nervos


diz que é a €5,00 cada

imitando a lebre


Agradeço-te porque agora permites-te andar muito tranquilo
Em relação a mim, não vá eu, desastrada, cair subitamente.
(...)
Inquietam-se comigo aqueles cujo maior motivo de sofrimento
É que não me entregue a um qualquer leito conjugal.

Sulpícia Elegia III, 16
Poemas de Amor - Antologia Poética Latina (I a.C - III)
Relógio D'Água, 2009

Querido J.



tenho cigarros espalhados na mala e um livro que, não sei porquê, associo a ti. comecei a escrever como te vi fazer: virando o caderno de lado e enchendo as páginas de sul a norte. não transcrevo para o blogue nenhum desses textos pensando em certa troca de mensagens que me dizia que guardasse essas ideias, que lhes desse tempo, que me certificasse se são justas ou se vêm expressas ao meu jeito. não sei muito bem o que é isso da Poesia 70 ou 71 mas às vezes penso que há qualquer coisa a escapar-me, que seria bom ter qualquer coisa em papel, embrulhada com outros textos, para que, contemplando-me de fora, pudesse sentir-me dentro. se calhar é pouco importante, não sei, diz-me tu, sem te rires.

sweets for my sweet, books for my honey

segunda-feira, 8 de Fevereiro de 2010

A subjectividade é a verdade #5




"O homem que não tem música dentro de si
Nem se emociona com a trama de doces sons
É propenso à intriga, à fraude e à traição."



in Mario Vargas Llosa, Os Cadernos de D. Rigoberto

(Obrigado Ágata)

Das Considerações


A diversidade de pontos de vista que se pode por exemplo ter relativamente a uma maçã: o ponto de vista do rapazinho que tem de esticar o pescoço para mal conseguir ver a maçã em cima da mesa e o ponto de vista do dono da casa que pega nela e a oferece livremente ao conviva.


-"Considerações sobre o pecado, o sofrimento, a esperança e o verdadeiro caminho" - Franz Kafka - Hiena Editores

Para a {anita}



-"Kiss & Tell" - Alain De Botton

Do Cinema

Do arrependimento



"No campónio, semelhante ao animal, a imitação existe, mas à superfície, e não, como na criança e no provinciano, vinda do fundo da alma; a emoção é pobre, porém não é vivaz, pois é concentrada e não dispersa; a vontade, se de facto é impulsiva, tem contudo a coordenação fechada do instinto, que substitui na prática, salvo em matéria complexa, a coordenação aberta da razão."


-"Aviso por causa da moral" - Fernando Pessoa - Hiena Editora

altos voos


€7,50 cada

"A sua unidade é a duma chuva de estrelas"



"A curva dos teus olhos dá a volta ao meu peito.
É uma dança de roda e de doçura.
Berço nocturno e auréola do tempo,
Se já não sei tudo o que vivi
É que os teus olhos não me viram sempre.

Folhas do dia e musgos de orvalho,
Hastes de brisas, sorrisos de perfume,
Asas de luz cobrindo o mundo inteiro,
Barcos de céu e barcos do mar,
Caçadores dos sons e nascentes das cores.

Perfume esparso dum manancial de auroras
Abandonado sobre a palha dos astros,
Como o dia depende da inocência
O mundo inteiro depende dos teus olhos
E todo o meu sangue corre no teu olhar".


-"Antologia" Paul Éluard - Colecção organizada por Alexandre O'Neill/ tradução de António Ramos Rosa -

Algo se passa com o livreiro


...quando envia um comentário e assim que lhe aparece a verificação de palavras, lembra-se que ainda tem na mesa de cabeceira, por ler, o "Finnegans Wake".

nem sempre o que está em cima é igual ao que está em baixo


€1,00 cada

para passar o tempo


quem adivinhar qual é a relação entre estes 2 livros recebe, sei lá, um beijinho (da clara pinto correia).

on pissing grape



€4,00 cada

da uva mijona



€7,50 cada - chegaram os saldos à pirâmide lá de cima

eu tenho o melhor sócio do mundo

4 leituras na Trama





Versão escrita com DVD interactivo que inclui versão áudio
Versão adaptada em Símbolos Pictográficos para a Comunicação (incluída no DVD interactivo)
Versão em Língua Gestual Portuguesa (incluída no DVD interactivo)
Versão em Braille e em formato Daisy

e agora com cinco islandesas letrinhas apenas

"A nossa trama é feita de tripas humanas e os nossos pesos são cabeças de homens"

O Canto das Valquírias
(excerto de um poema islandês do século XII com tradução de Maria Jorge Vilar de Figueiredo)
obrigada João :)

com cinco estéticas letrinhas apenas

"É isto, e não a trama dos momentos objectivos, que define a relação da arte à sociedade"
in Theodor W. Adorno, Teoria Estética, Lisboa, Edições 70, col. Arte & Comunicação, 1993: 16.
donne moi ma Trama, Fernando

vá, não é por estar mal escrito que não vão desculpar

"Acabei de apagar os dois textos de carácter mais ofensivo que escrevi sobre as criticas que fui alvo por parte da livraria trama e de outros blogues anónimos, por causa de ter criado a Nicotina. Desde já as minhas desculpas às pessoas que se sentiram ofendidas os incomodadas pelos mesmos. Não foi essa a minha intenção."

bom dia, "sê em ti mesmo o teu próprio culminar"


Max Stirner

Textos Dispersos

domingo, 7 de Fevereiro de 2010

o Mal-estar da Civilização #13


«Desde quando é que se tornou digno de louvor o facto de alguém possuir uma natureza de escravo? Depois de todos os símbolos do poder terem desaparecido, já não tinhas qualquer razão para obedecer, mas continuaste a fazê-lo. Que força misteriosa te impelia a obedecer às ordens de pessoas tão desgraçadas como tu, tão nuas e miseráveis como tu? Eras demasiado cobarde para tentares fazer como os outros, para experimentares dizer uma vez que fosse ao capitão: vai buscar lenha, preciso de me aquecer à fogueira. Não, tinhas descoberto uma outra solução; enquanto estavas ainda saciado, calculavas friamente que chegaria a hora em que a tua fome seria maior do que a dos outros todos. E então pensavas: em breve ficarei faminto, tornar-me-ei selvagem e sem escrúpulos, revoltar-me-ei, não abertamente, mas de modo dissimulado, contra estes terroristas. Com a cabeça fria, fazias projectos sobre a maneira como utilizarias a tua embriaguez, e é isso que é desprezível. Para que serve o desejo de revolta se te recusas a revoltar-te quando estás saciado?»

Stig Dagerman, "A Ilha dos Condenados", Antígona, 1990

Das linhas paralelas

Lê e resiste

A nossa necessidade de cantar é impossível de satisfazer



"As noites de Young são surrealistas de uma ponta à outra; infelizmente é um padre a falar, um mau padre, é verdade, mas um padre.
Swift é surrealista na maldade.
Sade é surrealista no sadismo.
Chateaubriand é surrealista no exotismo.
Constant é surrealista em política.
Hugo é surrealista quando não é estúpido.
Desbornes-Valmore é surrealista em amor.
Bertrand é surrealista no passado.
Rabbe é surrealista na morte.
Poe é surrealista na aventura.
Baudelaire é surrealista na moral.
Rimbaud é surrealista na vida vivida e em mais coisas.
Mallarmé é surrealista na confidência.
Jarry é surrealista no absinto.
Nouveau é surrealista no beijo.
Saint-Pol-Roux é surrealista no símbolo.
Fargue é surrealista na atmosfera.
Vaché é surrealista em mim.
Reverdy é surrealista lá em casa dele.
Saint-John Perse é surrealista na distância.
Roussel é surrealista na anedota.
Etc."


-"Manifestos do Surrealismo" - André Breton - Moraes editores -



sábado, 6 de Fevereiro de 2010

Teoria da Conspiração #12 (ou o peso da ferradura)



«Todos os homens são mais ou menos invejosos; os políticos são-no absolutamente. Quem se transforma num deles só o faz na medida em que não suporta ninguém acima de si ou do seu par. Lançarmo-nos na iniciativa de uma acção, seja ela qual for, e ainda que se trate da mais insignificante, é sacrificar à inveja, prerrogativa suprema dos seres vivos, lei e mola dos actos. Quando ela nos deixa, cada um de nós passa a ser apenas um insecto, um nada, uma sombra. E um doente. Ao passo que se ela nos sustentar, remediará as quebras do orgulho, velará pelos nossos interesses, triunfará sobre a apatia, operará mais do que um milagre.»

E. M. Cioran, "História e Utopia", Bertrand, 1994

Para quê?!?!



-"Para um teatro pobre" - Jerzy Grotowski - Forja

Resumindo: Camilo rules!



-"Inexorável Romancista, episódios da assinatura camiliana"- Abel Barros Baptista - Hiena Editora

Dobradinha do Sr Bataille

durante toda a tarde

rancho folclórico na associação recreativa dos ctt. hmpf...

era novidade em 83

uma faca nos dentes

Já não há tempo para confusões - a Revolução é um momento, o revolucionário todos os momentos.


António José Forte, em
Corpo de Ninguém, Hiena Editora, 1989

gostar de duchesses


Outras vezes quando está frio
para andar a pé nos campos Marianna
embacia as vidraças com o bafo
e faz corações com o dedo indicador direito
dentro dos corações escreve
M. A. love Ch.
não apaga com a mão os corações nunca
para poder voltar mais tarde
a afastar o cortinado de veludo cor de canela
a cortina de terylene picada de traça
e a embaciar com o bafo outra vez a vidraça
a ver se os corações ainda lá estão
Adília Lopes, em
O Marquês de Chamilly (Kabale und Liebe), Hiena Editora, 1987

«O amor-próprio espicaçado é um movimento de vaidade; não quero que o meu antagonista leve a melhor sobre mim, e considero este antagonismo como o melhor juiz do meu mérito. Quero produzir efeito no seu coração e é por isso que vou muito para além do que seria razoável.
Por vezes, para justificarmos a nossa própria extravagância, chegamos ao ponto de dizer que este competidor tem a pretensão de nos enganar.
Como o amor-próprio espicaçado é uma doença da honra, é muito mais frequente nas monarquias e deve ser muito mais raro nos países onde reina o hábito de apreciar as acções pelo seu grau de utilidade (...).»
Stendhal, em Do Amor, Relógio D'Água, Dezembro de 2009, tradução de Júlia Ferreira e José Cláudio

sexta-feira, 5 de Fevereiro de 2010

o homem de quarta-feira #24



«Que seja esta a primeira destreza da arte dos entendidos: medir a ocasião com o seu artifício. Grande astúcia é ostentar-se o conhecimento, mas não a compreensão; alimentar a expectativa, mas nunca desenganando-a de todo. Que prometa mais o muito, e a melhor acção deixe sempre esperanças de outras maiores.
Que o varão culto a todos desculpe por lhe sondarem a fundura da sua torrente, caso queira que todos o venerem. Formidável foi o rio até se lhe encontrar o vau, e venerado o varão até se lhe conhecerem os limites das capacidades;»

Baltasar Gracián, "O Herói", frenesi, 2003

Exercício de aproximação



"O vazio. Ante os olhos fixos. Fixando-se onde podem. Ao longe e ao largo. Ao alto e em baixo. Aquele campo estreito. Não saber mais. Não ver mais. Não dizer mais. Só aquilo. Só aquele muito pouco de vazio."


-"Últimos Trabalhos de Samuel Beckett" -

quinta-feira, 4 de Fevereiro de 2010

electrocardioTrama #5 (ou a actividade interior do composto)



«O homem não é o mundo em viva síntese consciente? A Natureza, para o criar, serviu-se de todos os seus materiais. Nós somos um edifício construído por fora com toda a terra e iluminado, por dentro, com todas as estrelas. E nele, vive silencioso e prisioneiro, o fantasma do ser Arquitecto.»

boca a boca



apresente a Trama a um amigo e ganhe um vale de desconto no valor de 10% do total das compras que o seu amigo fizer até 31 de Março.

+ info aqui

Beckett, uma segunda tentativa (ou o chamado textinho de rabo na boca)

"Como alguém em pleno uso da sua razão quando finalmente sai ele mal sabia como é que ainda não tinha saído há muito tempo quando começou mais uma vez a pensar se estaria ou não em pleno uso da sua razão. Pois poderá ou não dizer-se dalgum que não está no pleno uso da sua razão que ele é capaz de se pôr a pensar se estar no pleno uso da sua razão e até a aplicar o que lhe resta da razão àquela perplexidade duma forma em que não se podia deixar de dizer que ele faz se é que se quer dizer que ele faz seja o que for?"

últimos trabalhos de samuel beckett, edição Assírio&Alvim e O Independente, tradução de Miguel Esteves Cardoso (1996)

respostas abandonadas


Toda a nossa habilidade consiste em renunciar à nossa existência, para existir.
Goethe, Máxima 126

(in Semear na Neve, Maria Filomena Molder, Relógio D'Água)

tenho a sensação

que acabei de escrever o meu último post serial killer.

bom dia, quem me dera poder pôr um título a piscar

Vamos congratular-nos porque há mais um blogue sobre literatura igual a todos os blogues sobre literatura. Desta vez até podemos congratular-nos um bocadinho mais: um blogue e uma editora.
No "editorial subversivo" podemos ler frases tão surpreendentes como "somos um país de poetas" e logo de seguida saber uma ou outra referência do editor - Eduardo Pitta e José Luís Peixoto. Congratulamo-nos e não ficamos desconfiados. Acontece que o editor se queixa, e nós congratulamo-nos por isso, dos portugueses que só compram antologias em vez de livros de poesia, dizendo mais concretamente que "Nós chegamos à livraria e não vamos comprar os dois pequenos livros de poesia do Peixoto, preferimos antes comprar uma antologia qualquer onde ele apareça (...)"
E acaba assim, o texto do editor, para que nos congratulemos ainda mais:
"(...) gostava também de viver num país que honra os seus poetas, que os estuda e que os ensina. Gostava de viver num país em que a poesia vende-se o que vendem os romances. Um país evoluído não pode viver de leitores brutamontes e pouco civilizados, para quem a poesia não é literatura. É caso para dizer que cada país tem os leitores que merece.
Na poesia os nossos leitores não merecem os autores que têm. É triste, mas é verdade. Houvesse mais gente a estudar e a divulgar as obras poéticas – houvessem mais Eduardo Pitta – e talvez o nosso panorama literário fosse um pouco menos nubloso."
sem dar grande importância à escorregadela no português (porque também não somos polícias e toda a gente se espalha de vez em quando) o curioso de tudo isto é que o primeiro livro desta editora se chama «Antologia de bolso do amor português», com 30 poemas escolhidos por João Villalobos.

quarta-feira, 3 de Fevereiro de 2010

por outro lado

enquanto esperava que a aula de música acabasse (e ele vai sempre tão contrariado), tentei ler o Beckett que o Ricardo me emprestou. Só que não percebi nada. Nada, mesmo. Fiquei frustrada e fui enfiar-me na Barateira para comprar, por vinte e cinco cêntimos, um livro à minha altura.


ligação directa #1

Joaquim Agostinho da Silva

Filosofia de Alta Montanha

toda a leitura é desenvolvimento pessoal. se não for, não presta.


por exemplo, passo uma hora ao telefone com a minha mãe, leitora desatenta e de gosto frugal, explicando o que me interessa n'A Loucura da Normalidade do Arno Gruen. Começo por lhe ler este parágrafo, logo do início «Torno-me no que queres para tu tratares de mim. A minha sujeição é, a partir de agora, o meu poder sobre ti, com o qual te obrigo a dedicares-te a mim.» Faz-se silêncio no centro da Europa e é então que se encurtam as distâncias. Sinto que devo avançar e leio-lhe outra frase: «A queixa eterna do que se entregou a outro é, consequentemente: "Não fizeste o suficiente por mim."»
Sobrevoo Madrid e Paris e chego ao centro da minha mãe com as primeiras duas páginas de um livro. O que quero dizer, em boa verdade, é que não é tarde de mais, quase nunca é.

bom dia






Documentário "Agostinho da Silva - Um Pensamento Vivo" de João Rodrigo Matos (2001-2003)

terça-feira, 2 de Fevereiro de 2010

a poesia não me interessa #14



Tempos houve em que o meu demónio ria,
E eu era uma luz em jardins soalheiros,
Tinha jogo e dança por companheiros
E o vinho do amor que me inebria.

Tempos houve em que o meu demónio chorava,
E eu era uma luz em jardins de crueldade,
Tinha por companheira a humildade
Que a casa da pobreza iluminava.

Hoje o meu demónio não ri nem chora,
Eu sou uma sombra num jardim perdido,
E o meu companheiro, pela morte enegrecido,
É o silêncio vazio de antes da aurora.

Georg Trakl, "Outono Transfigurado", Assírio & Alvim, 1991

agora é espalhar a palavra







obrigada menina madrugada pela rapidez com que atendes esta livreira-em-corrida

com cinco letrinhas apenas

"algum dia atravessarás este monólogo? esta trama de nomes e apelos? este modo de te calar? Amo-te, esquecido no lugar onde digo: amo-te. De que falarás neste medo? Uma ave voou tão silenciosa que se perdeu. Toda a ave que voa é qualquer,"

in O Mensageiro Diferido de Rui Nunes, 2004 (1981), Lisboa, Relógio d'Água, 2ª edição

9 poetas para o século XXI


não é o lobby editoral, estou só a marcar a consignação da angelus novus

sinto-me observada

este silêncio está a enervar-me. nada no mail. nada no blogue. onde é que vocês estão, hm?

hey you


«O livro, qualquer livro é uma proposta feita à sensibilidade, à inteligência do leitor: são elas que em última análise o escrevem.» página 118
Arte de Sublinhar
de Gustavo Rubim (ed. Angelus Novus)

coisas que vão chegando e encantando




Jacques Derrida - Che cos'è la poesia?
João Cabral de Melo Neto - Poesia e Composição | A Inspiração e o Trabalho de Arte
Theodor W. Adorno - Poesia Lírica e Sociedade

agora que ando interessada no tema, pumba, cai-me isto em cima


O Formato Mulher - A Emergência da Autoria Feminina na Poesia Portuguesa
Anna M. Klobucka
Angelus Novus

chegou e trouxe uma amiga

compras tu ou compro eu?



atrás

Provas de Contacto - os 33 maiores fotógrafos de todos os tempos revelam os segredos das suas imagens
3 DVD | Duração Total - 7 horas | França | 1998-2004 | cor e p&b |

A partir de agora a Trama vai andar nas bocas do mundo



Apresente a Trama a um amigo
(Já foste à Trama? À quê? Trama. Drama? Não, Trama, pá.)
e ganhe um vale de desconto
no valor de 10% do total das compras que o seu amigo fizer até 31 de Março
(qualquer semelhança com uma promoção de uma operadora de serviços móveis é pura coincidência)


Como funciona?

1 - Traga um amigo à Trama, apresente-o aos livreiros de serviço e preencham a ficha de inscrição da campanha;

2 - Na ficha de inscrição deverão constar os seguintes dados: Nome, Morada, Telefone e E-mail (de ambos);

3 - A 31 de Março serão contabilizadas as compras do seu amigo e 10% do valor das mesmas reverterão para si, num cheque-livro;

4 - Cada cliente poderá trazer mais do que um amigo; neste caso, é feita nova ficha e, posteriormente, novo cheque-livro;

5 - O cheque-livro será usado sobre o preço de capa tanto nos livros novos como usados mas não poderá ser usado noutros artigos (música, cinema, papelaria);

6 - O cheque-livro terá que ser usado de uma vez, independentemente do valor. Caso o valor do cheque seja superior à compra não haverá crédito;

7 - O cheque-livro é válido até 30.06.2010;

8 - O Boca a Boca também é válido para dois novos amigos que queiram apresentar-se - neste caso cada um irá usufruir das compras do outro no mesmo período;

9 - A partir de 1 de Abril o novo amigo passará a usufruir das vantagens do cartão de cliente da Trama, cartão que não existe fisicamente (vamos lá poupar papel) e que funciona através de uma parceria entre a base de dados mental dos livreiros e a informática;

10 - Vantagens: desconto de 10% em todos os livros e material de papelaria; desconto de 5% nos artigos de cinema (DVD, posters); desconto de 5% nos discos; um sem fim de atenções que podem culminar com chuva de pétalas; também levamos clientes ao colo até ao metro.

10 - Pretende-se que esta espécie de cartão venha incentivar os novos clientes a fazer compras numa Livraria em vez de numa grande superfície de qualquer coisa;

11 - O cartão é atribuído ao seu titular, por tempo indeterminado, sem prejuízo do direito a cancelamento;

12 - O cartão de cliente é atribuído de forma gratuita a todos os clientes que o solicitarem;


Quem tem boca vai à Trama

segunda-feira, 1 de Fevereiro de 2010

O Idiota (uma história no plural) #2



« - Como vou anunciar uma pessoa como o senhor? - murmurou o camareiro quase sem querer.» (página 24)

Fiódor Dostoiévski, "O Idiota", Editorial Presença, 2007

1. há uma relação com este lugar (lugar?) que é sempre instável - é claro que uma coisa que assim é não pode deixar de ser o seu contrário. quero dizer, a instabilidade constante é uma forma de estabilidade, acho eu.
2. ao fim de todo este tempo, por exemplo, continuo a ter que alinhar o texto a cada parágrafo, só assim consigo prosseguir. é estúpido, isto. chateia-me que seja assim, que os meus olhos se tenham habituado de tal forma a esta caixa para meter palavras que as minhas ideias saiam de imediato formatadas: justificadas, algures a negrito, com frequência em itálico. aqui repousa alguma estabilidade, sim - e não lhe meço o valor.
3. depois há a recepção do que é escrito - que às vezes me preocupa e que às vezes não me preocupa.

momento alto e pára o baile.

Exchange Place



Fazia-me doer o seu olhar. Doía-me
ponto de engolir a saliva na garganta.
Nem sequer me limitei a encolher os ombros.

Aqueles olhos magoavam-me. Postos em mim.
Doía o seu olhar de treze anos
sobre o cru alvor da almofada.

Saí de casa. Está a chover agora.
Maldita seja a chuva e o seu olhar
sem lágrimas. Olhando. Aqueles olhos...

Terei que procurar outra mulher,
que saiba o que é um homem quando olhe.


-"Cidade do Homem: New York" - J. M Fonollosa

Lê e resiste

Este é para o IrmãoLúcia fazer um trocadilho

Mais uma dobradinha de esgotados

É tudo uma questão de método

Também este já foi livreiro

Só com receita médica

domingo, 31 de Janeiro de 2010

Perguntas Abandonadas #4


«O rouxinol! em cem pessoas, quantas dão por ele?»

D. T. Suzuki (1870–1966)

sábado, 30 de Janeiro de 2010

Teoria da Conspiração #11 (ou o encontro na sombra)



«FAUSTO:
De ti, ó ígnea imagem, não me escudo!
Sou eu, sou Fausto, igual a ti em tudo!

ESPÍRITO:
Nas vagas da vida, vendavais de acção,
Me vês subir , descer,
Tecer fios neste pano!
Nascer e morrer,
Eterno oceano,
Alternando a trama,
A vida uma chama,
E sentado ao tear vibrante do Tempo
Teço à divindade o seu manto vivo.

FAUSTO:
Tu, que a vastidão do mundo envolves,
Génio da acção, que perto estou de ti!

ESPÍRITO:
Tu és igual ao espírito que entendes,
Não a mim! (Desaparece.)»

Johann W. Goethe, "Fausto", Relógio d'Água, 2003

é para isto que uma mulher anda com uma pochette, não é?

um remake

PORTUGAL SACRO-PROFANO
aAO antes do Acordo Ortográfico
dAO depois do Acordo Ortográfico

não posso ler blogues sobre política

fico com vontade de gritar.

e agora um intervalo para uma coisa um bocadinho mais séria

é ESCANDALOSO estar a ler num blogue umas coisas sobre violência doméstica e deparar-me com o seguinte comentário de uma leitora:
«uma mulher que é violentada só tem de sair de casa e fazer os possíveis para meter atrás das grades o monstro. Se fica em casa e aguenta é porque não lhe desagrada a situação.»
há mulheres portuguesas que pensam assim. estas são as que mereciam mesmo levar porrada. só para experimentar.

além de grande editor


é tão giro, o Vítor Silva Tavares

foto retirada do baú onde esta noite me movo

sexta-feira, 29 de Janeiro de 2010

a claustrofobia



©Aronofsky,Darren;2008

vem aí o

Porque és o avesso do avesso do avesso do avesso

Trama's going Wilde



"No momento em que o artista, tomando conhecimento do que o público quer, tenta corresponder à demanda, deixa de imediato de ser um artista para passar a ser um comerciante, tão honesto quanto desonesto."

"Revelar a arte e dissimular o artista é o verdadeiro objectivo da arte."

"As mulheres são um sexo fascinante e caprichoso. Toda a mulher é rebelde, geralmente revoltada contra si mesma."

há coisa de uns minutos

tentaram pagar um livro com o "nosso cartão almedina". depois de eu ter explicado que o cartão tinha expirado (pronto, pronto, na verdade só disse que não somos a almedina), fez-se aquele silêncio... «então... quem são?»

ela disse "o caos, o horror, o drama"

o homem da quinta-feira disse "o caos, o horror, a trama"

ela disse "como se o rato tivesse roído"

eu ouvi "como se o Rato tivesse ruído"

quinta-feira, 28 de Janeiro de 2010

tudo


Retrato de Família #10



J. D. S. Karamazov (1919 –2010)

Right on!



Os cartazes que o Xavier Almeida fez para os concertos da livraria estão na Mostra de Jovens Artistas em Évora .

com cinco letrinhas apenas (cinco mas de bronze)

"Eu ficava um ror de tempo à espera em frente do portão. Um portão que vos não digo nada, destes bronzes gigantescos que eu sei cá, terrível trama de lanças espetadas ali assim, na escuridão de breu."
De Três em Pipa
, Louis-Fernand Céline (Tradução de Aníbal Fernandes, Ed. Assírio & Alvim)

escritores, copos&uma droga ou outra



Dorothy Parker (1893 - 1967) e Anne Sexton (1928 - 1974)
ver mais
aqui
oh

chegaram, chegaram

é para isto que uma mulher anda com uma pochette, não é?


«Sabes? Foi sempre um semi-empenhamento nos actos ou porque o peso dos livros antigos e dos romances em que a dúvida e o amor muito ardiam me doesse sempre, ou porque os objectos familiares valessem para mim mais do que as vitórias possíveis, ou porque não conseguia estabelecer a relação entre aquilo e o desejo da mudança radical das coisas, dos sentimentos, dos gostos, das ideias que ocupavam as cabeças e as mãos - não era mais ou menos assim uma revolução?»

à venda neste botequim

«PROPS é a nova publicação do Teatro Praga.
“Props” de adereço, propaganda ou slang para mostrar respect.
Não quer ser a reunião de textos de apoio, memórias descritivas, nem de ensaios sobre os espectáculos.
É uma outra criação em si mesma, que pode conter texto, desenho ou fotografia de gente que colabora normalmente com a Praga, de outros criadores de quem nos sentimos próximos, artistas, filósofos, escritores que passaram, passam, passarão pelo nosso trabalho e que convidamos para uma edição, um pedaço de edição, o que interessar no momento.
É uma fanzine, mas se calhar é uma revista ou um conjunto de folhas, um livro? O que é a capa, o que é o miolo? PROPS não tem respostas nem géneros, muito menos tema geral que nos conforte. Trata-se de um objecto paralelo, porque são necessárias outras formas de registar e porque a nossa identidade é uma identidade partilhada e colectiva e porque somos hiperbólicos e megalopsíquicos.»

há alguém por aí que goste de teatro?


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Lições dos mestres


"Houve alturas em que ia aos bares por causa do Zé e os bares estavam cheios de pintores que não pintavam e escritores que não escreviam, que diziam mal dos que pintavam e dos que escreviam...Às vezes pergunto-me se o facto de haver grupos não é uma prova de que há fraquezas individuais. Não imaginamos o Tolstoi em nenhum grupo, e no entanto, está a escrever ao mesmo tempo que o Pushkin, que o Lermontov, que o Gogol, que todos esses grandes escritores...Dizia que a Medicina era a mulher dele e a literatura era a amante.

Bom dia!

quarta-feira, 27 de Janeiro de 2010

o homem de quarta-feira #23



«Um Lavrador que se encontrava às portas da morte, tendo conhecimento que durante a sua doença os Filhos haviam deixado a vinha cobrir-se de ervas daninhas enquanto jogavam às cartas com o médico, disse-lhes:
- Meus rapazes, há um grande tesouro enterrado na vinha. Cavem até o encontrarem.
E foi assim que os Filhos arrancaram todas as ervas daninhas, juntamente com todas as cepas, esquecendo-se inclusive de enterrar o velhote.»

Ambrose Bierce, "Esopo Emendado & Outras Fábulas Fantásticas", Antígona, 1996



Beyond civic order:

l'AMOR


- Ezra Pound -

Ainda décadas à frente de todos nós

If we never write anything save what is already
understood, the field of understanding will never be
extended. One demands the right, now and again,
to write for a few people with special interests
and whose curiosity reaches into greater detail.

- Ezra Pound -

ela só escreve

Ricardo

que cool, a prenda. confesso que depois de todo o suspense com a prenda do ano passado (que nunca chegou), conseguiste surpreender-me. estou com vontade de aproveitar que foste almoçar e sentar-me aqui a ler um bocadinho. não te importas, pois não?

terça-feira, 26 de Janeiro de 2010

Chamada a pagar no destinatário #2

Tu o disseste meu caro, tu o disseste

Na Damaia era: "O Camandro da Borboleta"

Definitivamente, três seria demais

Andou esgotado

Dois é bom, três seria demais

Abram alas para o Jeffy

Atenção!Atenção!Atenção! Para ler até ao fim e respirar



III

Oh escuro escuro escuro. Todos vão para o escuro,
Os vazios espaços interestelares, o vazio para dentro do vazio,
Capitães, banqueiros comerciais, eminentes homens de letras.
Generosos patronos da arte, homens de estado e dirigentes,
Distintos funcionários superiores, presidentes de muitas
comissões,
Magnates da indústria e pequenos empreiteiros, todos vão
para o escuro,
Escuros o Sol e a Lua, e o Almanaque de Gotha
E a Gazeta da Bolsa, o Rol dos Directores,
E frio o senso e perdido o motivo da acção.
E nós vamos todos com eles, para o funeral silencioso,
O funeral de ninguém, pois não há ninguém para enterrar.
Eu disse à minha alma, está quieta e deixa vir o escuro
sobre ti,
O qual será a treva de Deus. Como, num teatro,
Quando as luzes se apagam, para ser mudada a cena,
Com um surdo rumor de bastidores, num movimento de
treva na treva,
E nos sabemos que os montes e as árvores, o panorama ao
longe
E a altiva fachada imponente estão todos a ser empurrados
para fora -
Ou como quando um comboio do metro, no túnel, pára muito
tempo entre estações
E a conversa se eleva e lentamente esmorece em silêncio
E se vê por detrás de cada rosto o vazio da mente aprofundar-se
E apenas resta o crescente terror de nada em que pensar;
Ou quando, sob o éter, o espírito está consciente mas consciente
de nada -
Eu disse à minha alma, está quieta e aguarda sem esperança
Pois a esperança seria na coisa errada; aguarda
sem amor
Pois o amor seria amor pela coisa errada; há ainda fé
Mas a fé e o amor e a esperança encontra-se todos no acto
de aguardar.
Aguarda sem pensar, pois não estás pronta para pensar:
Assim a treva será a luz, e a quietação a dança.
Sussurro de arroios a correr, e relâmpagos de Inverno.
O tomilho bravo invisível e o morango bravo,
O riso no jardim, repercutido êxtase
Que não se perde, mas reclama, aponta para a agonia
Da morte e do nascimento.

Dizes que repito
Algo que disse antes. Vou dizê-lo de novo.
Digo-o de novo? A fim de lá chegares,
De chegares onde estás, de saíres de onde não estás,
Tens de seguir por um caminho por onde não há êxtase.
A fim de chegares àquilo que não sabes
Tens de seguir um caminho que é o caminho da ignorância.
A fim de possuíres o que não possuis
tens de seguir o caminho do despojamento.
A fim de chegares àquilo que não és
Tens de seguir pelo caminho em que não és.
E aquilo que não sabes é a única coisa que sabes
E aquilo que tens é o que não tens
E onde estás é onde não estás.

encomenda

vou carregada para santa maria da feira

lá fora

passa uma mãe a cantar uma música em francês, lalalala marcher!
a filha, que a segue atrás, diz pelo meio hop! hop!

Comover-me assim por nada mais que o silêncio
de repente a chamar as coisas todas juro valeu bem: toda
a morte que o amor nos ensina.
Bernardo Pinto de Almeida,
segunda pátria, &etc, 2005

are you talking about me?

a conspiração

Ontem o Chuang Tse e o Pedro disseram-me exactamente o mesmo: não vale a pena procurar, a seu tempo as coisas revelam-se, acontecem. Como canta o Lenine (ou o Kierkegaard?), o que é preciso é um pouco mais de paciência.

"Aquele que deseja saber todas as coisas não é sábio. Aquele que mostra parcialidade não é verdadeiramente neutro. Aquele que calcula os seus tempos, não tem sabedoria. Aquele que não vê para além do ganho e da perda não é grande. Aquele que procura reconhecimento e não segue aquilo que sabe, não revela compreensão. Aquele que perderia a vida sem ser verdadeiro para si mesmo não poderia nunca ser um mestre dos homens."

uma ou outra forma de enriquecer


meu deus, e a dificuldade em escrever esta palavra? primeira tentativa henriquecer, segunda tentativa enrhiquecer. juro que tive que parar para pensar.

Cómo Hacerse Rico, de Jeff Fisher, MediaVaca, 2009

bom dia

segunda-feira, 25 de Janeiro de 2010

esquece tudo o que te disse #8




passo a vida nisto


Adélia Prado
Com Licença Poética
(selecção de Abel Barros Baptista)
Cotovia

passei o dia nisto


e ainda arrumei uma coisa ou outra.

já?


[Ainda Não é a última novidade da Averno]

esta semana

quinta-feira, 28 de Janeiro às 21h30
Duo Paulo Curado + Miguel Mira
http://www.myspace.com/paulocurado
€3,00


sábado, 30 de janeiro às 21h30
KANALA AUER (Viena) e SADANAND MAGEE (Dublin)
Concerto de Sitar e Tablas
entrada livre

foi chuang tse que o disse

«o homem perfeito não tem ego, o homem santo não tem mérito, o sábio não tem fama.»

há dias em que tenho vontade de correr

às vezes quero vir aqui escrever

e não tenho rigorosamente nada para dizer. vou arrumar os livros lá em cima.

domingo, 24 de Janeiro de 2010

Orelhas de Elefante #11

Surrealismo

Massive Attack, "Heligoland", Virgin, 2010

Realismo

The Magnetic Fields, "Realism", Nonesuch Records, 2010

sábado, 23 de Janeiro de 2010

Momento Pergaminho #3



«Estás no valo a trabalhar. O crepúsculo que te envolve é cor de cinza, o céu acima é cinzento, cinzenta a neve no pálido lusco-fusco, os trapos dos teus companheiros são cinzentos, e também os semblantes deles são cor de cinza. Retomas outra vez o diálogo com o ente querido. Pela milésima vez lanças rumo ao sol teu lamento e tua interrogação. Buscas ardentemente uma resposta, queres saber o sentido do teu sofrimento e de teu sacrifício – o sentido de tua morte lenta. Numa revolta última contra o desespero da morte à tua frente, sentes teu espírito irromper por entre o cinzento que te envolve, e nesta revolta derradeira sentes que teu espírito se alça acima deste mundo desolado e sem sentido, e tuas indagações por um sentido último recebem, por fim, de algum lugar, um vitorioso e regozijante “sim”. Nesse mesmo instante acende-se ao longe uma luz, na janela de uma distante moradia camponesa, postada feito bastidor à frente do horizonte, em meio à cinzenta e desolada madrugada bávara “et lux in tenebris lucet”, e a luz resplandece nas trevas. Agora estiveste horas a fio picando o chão congelado, outra vez passou a sentinela e debochou um pouco de ti, e de novo recomeças o diálogo com teu ente querido. Tens cada vez mais o sentimento de que ela está presente. Sentes que ela está ali. Crê poder tocá-la, parece precisares apenas estender a mão para tomar sua mão. E com grande intensidade te invade o sentimento: Ela, está aqui! Eis que no mesmo instante – o que é aquilo? – sem que tenhas notado, acaba de pousar um passarinho bem à tua frente, sobre o torrão que recém cavaste, para te fitar atento e sereno...»

Viktor Frankl, "Em Busca de Sentido", Editora Vozes, 2006


Works with the chicks

E lá vamos assentindo as palavras do Sr B




"...a sede sempre
nunca a saciedade"

contra tudo e contra todos

réponse de femmes é uma curta de 1975 de Agnès Varda que descobri por acaso neste blogue. durante os sete minutos do filme oscilei entre uma sensação estranha de identificação e recusa. quase como se me sentisse envergonhada por um feminino em que não me revejo - um feminino que se quer demarcadamente feminino, contra o masculino - mas a que não consigo fugir completamente.
porque o que me interessa, nesta questão dos géneros, tem que ver com duas coisas distintas: quais são os meus obstáculos práticos (sociais) enquanto mulher e de que forma o meu sexo se intromete na minha arte.

o bandido que sabia latim



O bandido que sabia latim
é uma compilação de músicas de autoria do Paulo Leminski que acabei de descobrir num blogue brasileiro e que estou prestes a ouvir. Uma música chamada Xixi nas Estrelas deixa uma pessoa curiosa.

vou ali e já volto

tempo


A mim que desde a infância venho vindo
como se o meu destino
fosse o exato destino de uma estrela
apelam incríveis coisas:
pintar as unhas, descobrir a nuca,
piscar os olhos, beber.
Tomo o nome de Deus num vão.
Descobri que a seu tempo
vão me chorar e esquecer.
Vinte anos mais vinte é o que tenho,
mulher ocidental que se fosse homem
amaria chamar-se Eliud Jonathan.
Nesse exato momento do dia vinte de julho
de mil novecentos e setenta e seis,
o céu é bruma, está frio, estou feia,
acabo de receber um beijo pelo correio.
Quarenta anos: não quero faca nem queijo.
Quero a fome.
Adélia Prado,
Com Licença Poética, Cotovia, 2003

sexta-feira, 22 de Janeiro de 2010

Esta é para a miúda da Trama pelos vídeos do youtube e pelas conversas que já não são de parapeito



"Herdámos da morte o silêncio com que respiramos.
Temos escarpas altíssimas por dentro do corpo
E olhamos vertiginosamente para baixo,
Desejando cair cada vez mais desamparados."


-"Lábio Cortado" - Rui Almeida - Livro Do Dia

Toda a humilhação leva à morte #7



«A virtualização, de maneira geral, é uma guerra contra a fragilidade, a dor, a usura. Em busca da segurança e do controlo, perseguimos o virtual porque nos leva a regiões ontológicas que os perigos vulgares já não atingem. A arte questiona esta tendência e virtualiza, assim, a virtualização, porque procura, a partir do mesmo momento, uma saída do aqui e do agora, e a sua exaltação sensual. Ela retoma a tentativa de evasão. Ela ata e desata a energia afectiva que nos faz superar o caos. Em ultima instância, ao denunciar o motor da virtualização, ela problematiza o esforço incansável, por vezes fecundo e sempre votado ao fracasso, que empreendemos para escapar à morte.»

Pierre Lévy



"Amo o repouso no coração do lume"

- Eugénio de Andrade -

foi fulminante





foto: mcginley
poema: judith herzberg

este é especialmente para o pedro serpa e para a anita

Rethink Scholarship at Langara 2010 Call for Entries from Rory O'Sullivan on Vimeo.

(chegou até aqui graças à isabel que tem uns livros muito, muito bonitos, à venda aqui na botica)

quinta-feira, 21 de Janeiro de 2010

diário dos mesmos pesares #3




«Um Diário destes não magoa», pensa a rapariga, folheando
O seu caderno: «Apaga os passos que dei até aqui».
E imagina que a espera um espaço imenso. Páginas adiante,
A letra torna-se irregular, a simetria esvai-se confusa.
Não foi, certamente, o espaço que dela se abeirou. Não.
Também não foi o amor, como se poderia pensar.
Foi o Género. Pegou no Diário e fê-lo romance. É assim.
Só estranho o novo corpo que lhe foi dado.»

Maria Gabriela Llansol, "O Começo de um Livro é Precioso", Assírio e Alvim, 2003

razões para gostar das limpezas


Dada pourquoi?



Navio de Espelhos


"Vi o sol baixo, manchado de místicos horrores,
A iluminar de roxo enormes filamentos.
Parecidas, nos dramas antigos ao jogo dos actores,
Vagas que rolam, acolá, nos seus estremecimentos.

Desejei a noite verde com neves deslumbradas,
Beijo que subia aos olhos deste mar, dolente,
A circulação das seivas de todo inesperadas,
O fósforo cantor, de amarelo e azul nascente."


-"O Barco Bêbado" - Jean-Arthur Rimbaud - Hiena Editora

Da noção de mulher tramada

Perante o enorme entusiasmo de Gisnberg em conhecê-lo, aos 83 anos,Ezra Pound confidenciou:

"A minha obra , exceptuando meia dúzia de bons momentos, é pura vaidade."

Talvez o primeiro passo no caminho da humildade seja confessar a vaidade.
O primeiro passo para a pureza, confessar a impureza.

O primogénito de Gorki

Cara Trama, será que estou apaixonado?

Bela Sylvia, vai lá à tua vida !


"And then, bitterly, i say: do I love Richard? Or do I use him as an excuse for a noble, lonely, unloving posture, under the perverse label of faith? Using him so, would I want him on the scene, thin, nervous, little, moody, sickly? Or would I rather cherish the strong mind and soul and blazing potency alone, refines from the marring details of the real world? Coward."

Retrato de uma senhora



"The rented Beacon Hill flat gives our summer free peace. I write here, because i am paralyzed everywhere else. Compulsive. As if in reaction to the dance, the tarentella of the teaching year, my mind shuts against knowledge, study: I fritter gliddery - pick up this and that, wipe a dish, stir up some mayonnaise, jump at the imagined note of the mailman's whistle above the roar of traffic. I am disappointed with my poems: they pall. I have only a few over 25 and want a solid forty. I have distanct subjects. I haven´t opened my experience up. I keep discarding and discarding. My mind is barren of ideas and i must scavenge themes as a magpie must: scraps and oddments. I feel paltry, wanting in richness. Fearfull, inadequate desperate."

Entram sem pedir licença 2

Je ne mange pas de ce pain-là

Entram sem pedir licença 1