sábado, 22 de Março de 2014

Catarina, depois da Trama

«Tu és como o Morrisey, depois dos Smiths», disse-me ele num bar qualquer da Bica. Foi há muito tempo. E esta manhã, sem que eu saiba explicar porquê, a frase perdeu todo o sentido. Em breve deixarei este blogue: estou finalmente pronta para nascer.

terça-feira, 18 de Março de 2014

sugestão do dia

Escolhe uma pessoa a quem possas dizer tudo o que sentes - e que essa pessoa não seja nem psicólogo nem amante mas alguém que, ouvindo o que dizes, não te cobra nem se assusta.

sexta-feira, 14 de Março de 2014

Surfamos em ondas altas.

Amá-lo absurdamente ou vê-lo como um inimigo a abater, eis a distância a que estou da via do meio.

a hipótese do «não vá ele desmarcar» confirma-se

estarmos ligados numa rede social desagua no descomprometermo-nos com maior rapidez. é fácil - eu faço o mesmo. olha, afinal não vai dar, desculpa, fica para a semana. é carnaval, ninguém leva a mal.

quinta-feira, 13 de Março de 2014

Há pessoas assim: filhas da bruta.

Percebi há bastante tempo que a minha brutalidade tem origens genéticas, familiares, históricas. Reconheci-o e compreendi-o, tentando ao mesmo tempo aceitá-lo e resolvê-lo. Só não esperava que a minha brutalidade fosse mais esperta do que eu e que, ultrapassando-me pela direita, investisse disfarçada de outras coisas, mais nobres, mais certas, mais justas.

like

Gosto que a C. me telefone só porque lhe falei de um livro e ela encontrou mais alguma coisa sobre o assunto. Gosto que ela me ensine: curiosidades do grego que o aproximam do mandarim, formas de explicar o condicional, bocados do que ela própria estuda e vivencia de tal forma que, sendo matéria, é mesmo palpável. É a partir dela que vou aos métodos (como quem vai aos ninhos).  

leitura matinal


Central de S. Domingos

Atrás de mim entrou um carrinho de bebé. A mãe foi-se embora e ele gritou desalmadamente durante o tempo suficiente para eu me repreender pela escolha do café. O pai, funcionário do estabelecimento, aproximou-se devagar, deu-lhe a chucha, consolou-o durante um minuto ou dois com uma voz dulcíssima, e fez-se silêncio, pelo menos até à minha saída. Apeteceu-me felicitá-lo, abraçá-lo, perguntar-lhe como é que aprendeu aquilo. Mas desta vez não fiquei a pensar nos meus filhos - no que já tenho e nos que ainda quero ter. Desta vez senti apenas que era a mim que aquele homem reconfortava, era a mim que ele devolvia a calma. Se somos um, se tudo é uno, não será de estranhar que aquele bebé também seja eu.

enxaqueca

A única coisa que fixei do livro do Alain de Botton tem que ver com o caso de uma mulher que, ao chegar a um local idílico com o seu não menos idílico amado, caiu à cama com uma enxaqueca brutal. Comigo aconteceu o mesmo: estávamos no Alentejo, na casa do Ruben A., e até tínhamos levado o Caranguejo (para além de vinho tinto, queijinhos, pão, todas essas coisas que, de Inverno, ilustram os amantes) mas a minha cabeça latejava de tal forma que a primeira coisa que fiz foi dormir. Não me interessa provar que há uma relação entre as minhas dores de cabeça e os momentos mais felizes. Mas, se quisesse, podia.

terça-feira, 11 de Março de 2014

segunda-feira, 10 de Março de 2014

A Carris e o Metro de Lisboa recomendam: abra os olhos e combata a fraude.

Parece que agora, para além de pagarmos o passe, ainda temos que patrulhar as carruagens e os bancos de trás do 27 para denunciar os que topámos que não pagaram bilhete. Seremos bufos de impressionante zelo, chibos da vanguarda. A Carris e o Metro de Lisboa querem fazer-nos crer que as paragens de autocarro que não abrigam ninguém da chuva, que os horários que nunca são cumpridos, que as estações de metro onde chove inverno após inverno, que as carruagens onde tantas vezes não se consegue sequer entrar (e quando se entra pensa-se vagamente em campos de trabalho), que os bilhetes e passes cada vez mais caros, são responsabilidade nossa e que, por isso, teremos de ser utentes e fiscais, picas à paisana, gente do pior.

catarina barros, a feliz detentora de 4 galinhas, 1 poeta e 1 passado negro

eat my dust, bebés líricas.

bibliografia

Quando ia a subir as escadas do Torel lembrei-me daquela vez em que o P. me perguntou se eu tinha dado boas referências acerca dele e em que não me ocorreu responder-lhe que as minhas referências estariam por de mais desactualizadas para poderem ser dadas a quem quer que fosse - não contem comigo para induzir em erro uma amiga que seja. Foi então nessa escadaria, no exacto momento em que mais uma vez me ocorria uma resposta que podia ter dado se fosse mais rápida a pensar em respostas, que me apercebi também do tempo que passou desde então: sete anos. Estas coisas impressionam-me sempre muito.

sábado, 1 de Março de 2014

Vou para a aldeia mas pintei as unhas de vermelho e escrevo agora com os dedos bem esticados, enquanto o verniz seca. Tabari conta que quando Adão e Eva comeram o fruto proibido a sua pele "separou-se do corpo e a carne ficou a descoberto como está agora a nossa. A pele que Adão tinha no paraíso era semelhante às nossas unhas: quando se soltou ficou apenas na ponta dos dedos aquele pouco que agora temos. Assim, sempre que Adão e Eva olhavam para as unhas dos seus dedos, recordavam o paraíso e todas as suas delícias." Não me venham agora dizer que não faz sentido ir para o Éden arrancar ervas daninhas com as unhas pintadas de vermelho. Não sendo Eva, rumo directa às delícias.

terça-feira, 25 de Fevereiro de 2014

Volto a deitar-me tarde e a acordar cedo, eu que pensava que já não era capaz de nada, que a vida agora era só dormir e esperar. Deito-me tão tarde que a essa hora já perdi o sono e acordo tão cedo que já não tenho hipótese de o encontrar. O sono foge das minhas noites como o diabo da cruz e eu rio-me porque agora tenho trinta anos e posso simplesmente observar tudo isto como se isto não fosse eu ou, sendo-o, fosse de tal forma parcialmente eu que o máximo de mim nisso seria menos que um verso numa antologia do todo.





motivos diferentes, conclusões semelhantes

O J. queria por força conhecer a biblioteca da minha faculdade. Ontem lá consegui finalmente levá-lo.
- Onde é que estão os livros para crianças?
- ... não estão...
- E a banda desenhada?
- ... também não...
- Porcaria de biblioteca. Vamos embora.

domingo, 23 de Fevereiro de 2014

domingo

museu da cidade
horto do campo grande
chá de equinácea
como cortar uma orquídea
guache sobre papel

sábado, 22 de Fevereiro de 2014

cromos para a troca


Tipo de relação: aberta
Evolução: muito assíduo nos primeiros tempos, tende a aparecer menos vezes ao fim de alguns capítulos
Estilo: erudito, curioso, muito civilizado e, ao mesmo tempo, com algo de pueril ou até adolescente
Elemento: fogo
Principais qualidades: a intensidade e o entusiasmo mantêm-se a cada encontro; muito culto; apaixonado
Principais defeitos: não é exclusivo, fala das mesmas personagens em livros diferentes
Aparência física: muito sóbria (pouca resistência a malas de senhora)
Performance: duradoura (256 pp.)
Governo possui há anos listas com 900 edifícios que podem ter amianto (sobretudo escolas) - o que, como todas as questões de Saúde e Ambiente, está longe de ter alguma importância, sobretudo se atendermos ao facto de que  morrem 39 pessoas por ano com mesotelioma, o cancro causado pelo amianto. Eu tive oportunidade de conhecer uma dessas pessoas, à qual sobraram dois filhos e uma viúva, mas a nossa democracia lida com cidadãos, não com pessoas, pelo que as histórias de vida se diluem noutras contabilidades. Adiante.

sexta-feira, 21 de Fevereiro de 2014

dying we live

de tudo o que fazes, o que é que não poderias não fazer?

a hipótese de ser o canal hollywood

Qual é a hipótese de se ser uma empresária com a cara da Cameron Diaz, entediada como a Cameron Diaz, sem chorar há 15 anos como a Cameron Diaz, e ir passar uma semana a Inglaterra - a casa da Kate Winslet, que se conheceu através da internet - e de esta ser irmã do Jude Law, que por acaso é editor, e por acaso vai a casa da irmã a meio da noite (relembro que a irmã é a Kate Winslet) encontrando, em lugar desta, a Cameron Diaz, que por acaso está pronta para voltar para a América, mas que afinal não vai porque, enfim, o Jude Law lhe entrou em casa a meio da noite, e é editor, por acaso viúvo, e por acaso a melhor pessoa do mundo, com quem ela vai pinar logo nessa noite, e por acaso ser feliz para sempre?


«deus dá»

e se não der, dá a avó lili - quero dizer, o que interessa é que há sempre alguém que dá.

língua materna

Ela foi passear em Luanda - algo que a tinham aconselhado a não fazer - e passou duas horas a brincar com um grupo de miúdos na rua. Agora tu és a boss, disseram-lhe. E ela obedeceu.

dying we live

Só há duas coisas: a que tu podes fazer e a que tu não podes fazer. Por exemplo, tu podes escrever mas não podes estar um ano sem ver o teu filho. Podes ir viver para uma aldeia mas não podes deixar de atender o telefone à tua mãe. E não interessa o que tu queres porque só há o que podes e o que não podes.

quinta-feira, 20 de Fevereiro de 2014

Escrevo uma carta. Não é a primeira nem a segunda. Não envio.

A razão é esta: todos os dias venho para casa com um plano qualquer e todos os dias adormeço por cumprir-me. Suponho que seja uma das doenças do século, hipertrofia do tempo. É verdade que passei a sopa e que, sem as cascas da ervilha, foi muito mais agradável jantar.

ficou mal na fotografia

Sei que estou pejadinha de raiva e de maus sentimentos quando, apesar das doses industriais de Bhagavad-Guitá que ingiro, dos costumeiros snacks judaico-cristãos, das festas místicas onde não roda outra coca que não a de São João da Cruz, das horas de sono que faço substituir por traduções de livros herméticos, do vocabulário alquímico com que tricoto os últimos fios de cor antes de adormecer - enfim, apesar de tudo o que posso e não posso descrever, continuo a lidar com a hostilidade alheia como um ataque pessoal, ao qual prontamente reajo elaborando, por exemplo, uma lista de defeitos (mas não os meus).

they shoot horses, don't they?

Ao mesmo tempo que se publicam nos jornais notícias sobre as vantagens das "drogas inteligentes", tomando como exemplo "as grandes mentes de SiliconValley", a National Geographic divulga este mês uma longa reportagem sobre os irredutíveis Kaiapó, habitantes de uma das maiores extensões de floresta tropical virgem incólume no planeta que, depois de um século de maus tratos, estão novamente em crescimento (populacional, meus senhores, não façam confusões).


















Fico a saber da história destes homens, da forma como resistem aos interesses dos garimpeiros, madeireiros, seringueiros e fazendeiros, das suas pinturas corporais com jenipapo, do seu gosto por plumas coloridas e missangas e da sua luta contra o Estado brasileiro (e as hidroeléctricas) no mesmo dia em que leio sobre Kieron Monks, o jornalista que em Londres experimenta um "composto de melhoria cognitiva" - dez comprimidos brancos que chegam pelo correio - só para nos contar como foi. Que sorte. 

Ficamos assim a saber, graças ao metro world news, que desta experiência não vão emergir arquétipos, animais selvagens, avatares, nem qualquer espírito suspeito de significado; não se vai experimentar Deus nem testar nenhum dos seus desdobramentos psíquicos; nenhuma consciência do Cosmos despertará do seu sono milenar; do Todo, nem uma pista. Eis o que o jornalista consegue: permanecer concentrado durante uma entrevista telefónica; escrever um artigo; fazer uma hora extraordinária na redacção "sentindo-se fresco que nem uma alface" e, last but not least não se enervar com os atrasos dos transportes públicos. Se o objectivo era um acesso de genialidade, suponho que tenhamos partido de um patamar muito baixo. 

Já agora, uma das contra-indicações desta "droga" que promete acabar com a mediocridade é a possibilidade de pensamentos ou comportamentos suicidas. A minha pergunta é: deve falar-se com o médico antes ou depois? 

Impávido que nem Muhammad Ali





Índios kayapó fotografados por Martin Schoeller para a National Geographic

É mais fácil conversar com mulheres. Pelo menos para mim. Não sei se tem que ver com a experiência ou se essa facilidade decorre das semelhanças que sempre nos aproximam (blame it on the culture ou whatever), mas o facto é que, a maior das empatias que tive com homens, nunca chega a metade da que tenho, quando tenho, com mulheres. Não é costume, por exemplo, que um homem tenha facilidade em explicar o que sente. Ou talvez, por serem menos palavrosos, seja para mim difícil chegar ao centro do que têm para dizer. E não me parece que a excepção (porque sempre há um homem cuja ressonância combina com a minha) anule a impressão. Do mesmo modo que não seria justo fazer da impressão uma impossibilidade de acesso a outrem, apenas porque desacreditado desde o início. É que embora a razão, ou a vontade, me obriguem à permanente manutenção da ideia que faço dos outros (e, por conseguinte, de mim), a verdade é que nunca, em momento algum da minha vida, pude abstrair-me completamente de uma ideia geral de homem por oposição a mulher.

Há um nível em que isto é extraordinariamente embaraçoso, quero dizer, um nível em que é difícil assumir o que pode passar por conservadorismo ou, pelo contrário, por feminismo. O que acontece é que tenho cada vez menos disponibilidade para forjar as minhas crenças, pelo que me restam duas hipóteses, a de ficar calada (que ainda não descartei completamente) ou a de não ter medo de pensar como penso.

Dizia: é mais fácil conversar com mulheres. Mais demorado. Mais comprometido. Pelo menos para mim.

sexta-feira, 14 de Fevereiro de 2014

crash

Eu ia dizer-lhe que ela está insuportável mas depois parei e pensei: não, ela está só a comportar-se como eu.

terça-feira, 11 de Fevereiro de 2014

porque é que é ridículo que me atirem à cara que a tpm me deixa fora de mim?



vá, vá, e agora, é porquê? 

mas talvez eu não aguente cidade nenhuma

aconteceu qualquer coisa, não sei (tou instável como uma cascavel, como uma adolescente) || mood swing, chamou-lhe o jared, a propósito do filho que tem 11 anos || e serviu-me

estou a sentir-me demasiado, é isso » o exercício de rememoração do dia, para adormecer
devia servir para que eu fosse aprendendo a sair de mim » a ganhar distância do que acontece, a afastar-me do eu (talvez os resultados sejam subtis e eu sempre bruta bruta bruta ou talvez as minhas disposições sejam mais verdadeiras que todas as tentativas de harmonizar o caos » talvez eu oscile tanto porque os dias são bambus no deserto)

vivemos no Sahara - ninguém no seu perfeito juízo ia escolher a Europa

hoje pensei que devia ir ao médico para saber porque rendem tão pouco as horas que durmo porque acordo cansada porque estou tão pesada » pensei mas esqueci » fiz yoga » estiquei os braços ao som de palavras que não entendo » corri para casa e para não ouvir mais nada

comi no quarto

tudo me diz respeito, tudo é sobre mim

civilizações do futuro dirão de nós: "seres primitivos, felizmente dizimados por extraterrestres".

[«Porque de tudo o pior, quando se espanca um animal, é não se lhe poder pedir perdão. Sendo, em seguida, de perdão do que mais se precisa.» Srig Dagerman, O Vestido Vermelho]

sempre que tenho pena de alguém ouve-se uma voz que diz "pena não é lá grande sentimento para teres pelas pessoas".

foi para não ofender ninguém que decidi só ter pena de mim.

rewind

ontem à noite repeti o exercício ao adormecer: rever todo o meu dia de trás para a frente até chegar ao momento em que estava na cama, de manhã. não fiquei ansiosa e fiz alguns progressos, por exemplo, ao invés de ver imagens separadas consegui, de facto, fazê-las retroceder, rebobiná-las. tento minimizar a linguagem enquanto recapitulo o meu dia, evitar pensar por sintagmas "antes disso estava...". distraio-me com pormenores: uma cruz, um quatro, um plano vertical. e depois há todo o espaço mundano, todas as pulsões, todo o tricot das biografias, que apetece espremer.

segunda-feira, 10 de Fevereiro de 2014

porque somos todos uns coitadinhos

também eu ganhei o hábito da maledicência interior quando dou por mim em apuros, sem dinheiro ou a subir as escadas do prédio com três sacos do minipreço - sim, alivia-me imenso pensar nas fraquezas dos outros.

746

pelo que pude apurar, os portugueses detestam chico-espertos no trânsito; detestam condutores embriagados; detestam o desrespeito na estrada; mas também detestam operações stop; e a polícia; e as multas.

vais arrepender-te do dia em que me deixaste trazer o teu kindle para casa (provavelmente no dia em que o quiseres usar e eu estiver calmamente numa esplanada da Sertã a ler o capítulo sobre a Madeira)

O marroquino, instruído ou não, pura e simplesmente não acredita em germes. Todos os aspectos da sua vida quotidiana dão disto uma prova eloquente. Uma das mais divertidas é a banca de aluguer de chupa-chupas no bairro de Guerniz onde as crianças pagam de acordo com o tempo em que mantêm o chupa-chupa na boca.  
"Mas os germes existem", reclamas tu. "Podes vê-los ao microscópio." O teu calmo companheiro responderá: "Para ti eles existem, logo poderão fazer-te mal. Para nós só existe a vontade de Alá."

Paul Bowles, Travels - Collected Writings 1950-93 [e-book: 2012, ed. Sort of Books]

Quando Bowles encontrou um desinfectante em Tânger que vinha com 3 aromas: lavanda, limão e «parfum du métro»


"Pergunto a Sidi Driss porque é que ele não está interessado em ver um automóvel. Ele responde: "O que é que isso tem de bom? As rodas andam depressa, sim. A buzina é alta, sim. Chegas mais depressa do que numa mula, sim. Mas porque é que havias de chegar mais cedo? O que é que fazes quando chegas lá que não poderias fazer se chegasses mais tarde?" [actualização]

dreeeeeeeeam

Não tenho andamento para os meus próprios pesadelos - às tantas falta-me imaginação para que sejam mesmo maus. Foi o que aconteceu esta noite: alguém vinha dar-me uma notícia terrível e, à medida que eu insistia para que me contasse, o meu cérebro ia esgotando os recursos criativos, isto é, não tinha nada de significativo para colocar na voz do outro - que acabou por balbuciar uma incongruência. Ser-se "negativo" deve ser isto, esperar o pior sem saber o que é realmente o pior.
Por outro lado, preocupa-me que os nossos filhos sejam uns anormais que não sabem andar na rua sozinhos. Têm oito e nove anos mas continuam a ser levados pela mão até à sala de aulas, de onde saem ao fim do dia com a respectiva trela. Não atravessam uma rua sem um adulto ao lado. Não fazem um recado, não vão à mercearia buscar a manteiga que se acabou. Vêm aí adultos esquisitos, é o que me parece. Mais esquisitos do que nós.

parecendo que não, são todos muito cá de casa

Mais do que a culpa (que pode conter um elemento que paralisa), interessa-me finalmente uma ideia de verdade que se constitua a si mesma como resultado de um trabalho de pesquisa que me permita vê-la sem recorrer a confirmações exteriores (isto é, a mestres). Não quero que me dêem o peixe, nem sequer que me ensinem a pescar: quero ter fome e imaginar a cana. O exercício da tradução obriga a um abrandamento semelhante: ao invés de comer o texto sou obrigada a desenhá-lo de novo, a criá-lo. É preciso tempo, é preciso dar tempo ao tempo. Eu já fiz perguntas para que alguém respondesse, isto é, só para que eu não respondesse. Será que perguntar é escapar à responsabilidade de responder?

Siddhartha espera que o rio lhe dê a resposta, isto é, não se põe a fazer perguntas. Estou convencida de que, a haver uma imagem para a noção de primitividade, esta seria boa - sobretudo porque não é intelectual mas simples como um conto de fadas. Mais do que a culpa, esta relação com o tempo - ou com a resposta que o tempo traz àquele que ousa não perguntar - pode ser um ponto de partida. E é aqui que nos podemos rir: um ponto de partida que faz tudo, menos partir.

sexta-feira, 7 de Fevereiro de 2014

this must be underwater love


contraste é a palavra que não serve os meus propósitos, que os contamina
o contraste entre o que sinto no momento em que acordo e o que sinto horas depois
o contraste entre os lugares que frequento
e a frequência em que me põem
há um tremendo contraste entre as saudades escritas e as saudades faladas
e um contraste no amor

(o meu amor é um avançado que gosta de ficar a conversar com o guarda-redes da própria equipa)

e depois todos aqueles contrastes quotidianos
o desejo de uma casa limpa e zero vontade de limpar
aquele plano de saúde inconciliável com o supermercado do bairro
o dia de folga onde tudo devia ter acontecido mas que acabou por passar com a leviandade de uma promessa política
o silêncio amachucado tipo saco de plástico na boca do tigre

vou trabalhar pela diminuição do contraste, aligeirar nas cores, tornar tudo pastel
e nunca mais bebo JP


quinta-feira, 6 de Fevereiro de 2014

vou odiar não me chamar johny


Pajaro me despertaste / Pajaro no sé por qué


xviii

Não sei como é que é com as outras pessoas mas a mim há palavras que dão vontade de rir. Acontece-me o mesmo com algumas posturas corporais - parecem-me cómicas. Acho que tem que ver com o contexto em que as coisas surgem, com o estar dentro ou fora delas, com o pertencer-lhes ou o observá-las. Deve ser também por esta razão que ainda não levo a morte a sério - ela nunca me tomou para si, nunca me arrancou flores das mãos.

quarta-feira, 5 de Fevereiro de 2014

terça-feira, 18:30 
- às vezes quando me vens buscar eu sinto uma coisa, acho que é raiva não sei.
- isso é capaz é de ser fome, não?

quarta-feira, 18:30
- tinhas razão, é fome.

o livro da dança

Sophia

paratexto

escrever as paracelsas 
enfeitar com parasalsa

hoje acordei assim


terça-feira, 4 de Fevereiro de 2014

Shangri-La


sms

Muita coisa se evitaria se as pessoas ao invés de acharem que têm direito de opinião achassem que têm o dever de pensar.

sábado, 1 de Fevereiro de 2014

falar tem sido uma forma de existir e, até à data, não conheço outra

Saio do metro a pensar na quantidade de pessoas que hoje deram moedas ao cego. Como se uma onda de contágio propagasse o tilintar das carteiras, o cego agradecendo mais do que pedindo. Africanos, indianos, estrangeiros - todos davam enquanto eu, de cócoras entre duas carruagens, lia distraidamente a vida de Husayn ibn Mansur, o asceta. Não aguentei naquela posição até ao fim da viagem, sentei-me no Marquês. Na Baixa, no transe natural de uma manhã marcada pelas dores da língua, planeei para mim uma cura pelo silêncio: um dia, um dia sem abrir a boca nem dar à tecla. Há uns anos, quando ainda papagueava para a parede deitada num divã de couro, pensava que a resolução feliz dos meus assuntos privados poderia corromper-me a personalidade, tornar-me estranha para os que, apesar desses meus defeitos, ainda resistiam no amar-me. Esta manhã, enquanto meditava (porque caminhar é uma forma de meditar) voltei a ter um medo semelhante: o de que o silêncio me tornasse irreconhecível.

Husayn, de regresso a casa, depois de meditar sobre as suas amizades escreveu "os companheiros que frequento são, para mim, outros tantos véus: falando pouco ou muito, é comigo mesmo que falo: para quê procurar um interlocutor?"

Eu, que sofro sempre mais com o que não consigo do que me alegro com aquilo de que sou capaz, não sou dona das minhas palavras. E sofro. Sofro quando me apercebo que falei de mais, sofro quando não sou exacta, quando não encontro as palavras certas, quando descubro (de forma sempre extemporânea) as palavras que, noutra altura, me teriam servido - mas como, se sou eu que as sirvo a elas?

lunch time

continuo a não conseguir movimentar-me no trânsito da vida. leio - e enquanto leio o meu rosto parece iluminar-se, se não por fora, pelo menos dentro, onde o calor ascende. leio sobre a alegria - e alegro-me. mas quando paro de ler depressa entristeço. sou como um animal que precisasse de ser alimentado a toda a hora para viver, para não morder.

«passar do Não ao Não através do Não»


"Cheguei", escreveu Husayn ao mais jovem dos seus amigos, "à esplanada do Não-Ser e não parei de voar durante dez anos, até passar do Não ao Não através do Não. Depois chegou a privação e nunca deixei de passar através do Não para a carência, até faltar carência na carência e até ser privado da privação do Não, na carência da privação..."

Achados na Achada: todos os Sábados das 11:00 às 17:00 livros de 1€ a 5€ à venda no terraço da Casa da Achada









As cartas de Madame de Sévigné dizem que, conforme os dias ou os boatos, o chocolate ou fazia furor ou caía em desgraça na Corte. Ela própria se inquietava com os perigos da nova bebida, tendo adquirido o hábito, como outras pessoas, de o misturar no leite. Na realidade, há que esperar pela Regência para que o chocolate se imponha. O Regente deu-lhe o aval. Então, «ir ao chocolate» era assistir ao despertar do Príncipe, estar nas suas boas graças.

Achados na Achada: todos os Sábados das 11:00 às 17:00 livros de 1€ a 5€ à venda no terraço da Casa da Achada

- Querem vocês saber? Uma tarde, estava eu no Largo do Rossio...
- No Largo do Rossio?
- Sim, rapaz! - afirma Gadunha erguendo a cabeça, cheio de importância. - Estava eu no Largo do Rossio a ver o movimento. Vá de passar o pessoal para baixo, famílias para cima, um mundo de gente, e eu a ver. Nisto, dou com um tipo a olhar-me de esguelha. Cá está um larápio, pensei eu. Ora se era!... Veio-se chegando, assim como quem não quer a coisa, e meteu-me a mão por baixo da jaqueta. Mas eu já estava à espera!... Salto para o lado e, zás, atiro-lhe uma punhada nos queixos: o tipo foi de gangão, bateu com a cabeça num eucalipto e caiu sem sentidos!
Uma gargalhada acolhe as últimas palavras do Gadunha.
- Um eucalipto?
Apenas por um pormenor, estragou uma tão bela história.

Achados na Achada: todos os Sábados das 11:00 às 17:00 livros de 1€ a 5€ à venda no terraço da Casa da Achada






Plena, a cidade
navega o dia. Ao lado,
o mar em que verte.
Passa lentamente,
à sombra, imposta, 
do seu meridiano.
Só um vidro faísca:
há séculos emite
sinais indecifráveis.

e mais...



na secção 3€...


sempre actual


sexta-feira, 31 de Janeiro de 2014

terça-feira, 28 de Janeiro de 2014

«It doesn’t matter. What matters?»

Quando encontro alguém que conheço mal gosto de falar-lhe daquilo que não percebo: o que é matéria viva? Falámos sobre isto o tempo todo, sobre a água e as pedras, sobre o movimento dos átomos, sobre cães e doenças de cães. 

Matéria, em inglês, diz-se matter. Isto deve significar que, para os ingleses, aquilo que importa é a matéria, a substância física (lembrei-me agora que ela também me disse que não tinha gostado dos Diários da Virginia Woolf e que o Blanchot também não gostava nada).

Mas o que eu queria dizer era isto: na próxima quinta-feira, às 18:00, vou falar d'As Ondas na Casa da Achada. A entrada é livre. A matéria não sei.


segunda-feira, 27 de Janeiro de 2014

elementar, meu caro watson

mãe, o que é que quer dizer ira-nara-nou?
You are not alone.

as falenas

Agora que faço a sopa na panela de pressão tenho menos tempo para pensar. Enquanto decido se mergulho n'As Ondas (o livro que levei 15 anos para ler) ou se me atiro ao Jung (estamos numa relação recente, ainda não sei o que vai acontecer), a água ameaça levantar fervura - ouço ao longe o primeiro vento do apito, quase um assobio, abafado pelo som da máquina de lavar roupa. Hoje a casa caiu-me nos braços, revelou-me todas as suas imperfeições. A casa é o meu espelho e hoje senti-me a mais feia de todas as construções. Mas agora está tudo no sítio. Lavei a loiça, tratei dos gatos, pus a sopa ao lume, deixei o J. tomar um longo banho-de-banheira com um daqueles explosivos perfumados - parecia que ele estava num vulcão. Quando a máquina acabar vou abrir a porta e sentir o cheiro do amaciador, misturado com os vapores do jantar, e isso fará com que eu me sinta mais limpa, mais resolvida, quase arrumada.
http://bookbloc-feminista.tumblr.com/

sábado, 25 de Janeiro de 2014

o culto do chá


o limão, foi ela que disse, fala numa língua que o meu corpo entende. eu posso tomar um medicamento para esta dor de garganta - a dor passa, fica tudo bem. mas se eu tomar este chá de limão não vou compreender nada, porque só o meu corpo entende essa linguagem, eu não. 

Segunda, 17 de Março de 1930

A pedra de toque de um livro (para um escritor) é o momento em que o livro oferece enfim um espaço onde, com toda a naturalidade, se pode dizer o que se quer dizer. Como esta manhã, em que pude dizer o que Rhoda disse. Isto vem provar que o livro tem uma vida própria: porque não esmagou o que eu queria dizer, antes me permitiu introduzi-lo mansamente, sem uma tensão, sem uma alteração. VW, Diário 1927-1941

na manso manso na fogo lentu

toda a manhã nos anos 30: o diário de virginia woolf

no seu 132º aniversário.


sexta-feira, 24 de Janeiro de 2014

the squid and the whale


Poucas pessoas conhecem tão bem a minha brutalidade como o meu filho. O que fazer desta tremenda falta de pudor?