E os homens aglomeram-se em torno do poeta e dizem-lhe: «depressa, canta outra vez»

Quarta-feira, 19 de Junho de 2013

prove que não é um robô


«As coisas que sabemos melhor são as coisas que não nos ensinaram.» 
Luc de Clapiers Vauvenargues

Terça-feira, 18 de Junho de 2013

apontamentos de temas de ontologia

leitor: alguém que se abate sobre um livro e não tenta perceber o que está lá escrito. (NF)

apontamentos de filosofia medieval

Olhar uma árvore. Não é normal. Não tem nada de normal. Nem de anormal. A gente pode protestar que a vida é má, mas não podemos dizer que é feia. Uma borboleta, do ponto de vista estético, redime a existência. (NF)


(também é possível que se confunda o termo leitor com comprador. não sei se os instrumentos do mercado serão os mais indicados para se falar de poesia)

Romain et Jean


de todos os discursos que rodeiam hh o que mais me espanta é aquele que defende que o livro terá sido comprado por pessoas que o não vão ler. eu até percebo a ideia, mas levanta suspeitas (quem nunca comprou um livro que não vai ler que atire a primeira pedra). sobre hh todos os discursos têm um aspecto em comum: são chatos (honrosa excepção). 

XIII

       Leio nas Meditations que existem quatro tipos de memória: a memória automática ou mecânica, que funciona através das parecenças, afinidades e contrastes; a memória lógica, que usamos com esforço  racional (quando, por exemplo, para chegarmos à informação pretendida percorremos mentalmente outras informações auxiliares); a memória moral, nutrida pelo coração, semelhante a um acto mágico (trazida pela via dos afectos); e a memória vertical ou reveladora que não tem um sentido horizontal (hoje, ontem, anteontem) mas vertical (aqui, mais acima, ainda mais acima) que reproduz a experiência e o saber em transcendência. 

      Esta manhã, no autocarro, um grupo de velhos discutia sobre qual seria a melhor paragem para ir ao número 11 de certa avenida, consistindo a conversa numa repetição incessante das mesmas frases, como se a informação objectiva (racional, lógica) tivesse que ser dita várias vezes a fim de não ser esquecida, como se o sentido das coisas demorasse mais tempo a instalar-se, enfim, como se a realidade fosse precedida por uma enorme hesitação. E enquanto assistia a tudo isto pensava na facilidade com que recordariam aquilo que sentiram, há quarenta anos atrás, enquanto eu, que percebi em dez segundos qual a melhor paragem de autocarro, sou incapaz de perceber o que senti, sei lá, segunda-feira à noite? 

      Car on sait véritablement lorsqu'on comprend ce que l'on sait, lorsqu'on sent ce que l'on a compris et lorsqu'on met en pratique ce que l'on a compris et senti.


Segunda-feira, 17 de Junho de 2013

a subjectividade é a verdade

ascendente e redenção (misturando tudo)


I

When I was young the nuns taught us there are two ways through life: the way of Nature and the way of Grace. You have to choose which path you’ll take. 

II

Grace doesn’t try to please itself. It accepts all things. It does not mind being slighted, forgotten, disliked, insults, or injuries. Nature only wants to please itself. 

III

Love shining through all things. No one who loves the way of grace ever comes to a bad end.

Domingo, 16 de Junho de 2013

espécie de oração particular


«A busca activa é nociva, não apenas ao amor, mas também à inteligência, cujas leis imitam as do amor. É necessário esperar simplesmente que a solução de um problema de geometria, que o sentido de uma frase latina ou grega surjam no espírito. Por maioria de razão, também assim com uma nova verdade científica, com um verso belo. A busca conduz ao erro. É assim com toda a espécie de bem verdadeiro. O homem não deve fazer outra coisa senão esperar o bem e afastar o mal. No tumulto que constitui a condição humana, a virtude autêntica em todos os domínios é coisa negativa, pelo menos na aparência. Mas esta espera do bem e da verdade é algo mais intenso do que toda a busca.»

Simone Weil, "Espera de Deus", Assírio & Alvim, 2005

Lendo um texto de Michaux sobre a pintura: "Levando uma vida excessivamente facial, temos também uma febre perpétua de rostos."

Faltam precisamente sete meses e doze dias para o trigésimo aniversário de Inácia. Segundo o mapa da google, ela vive a mil novecentos e setenta e quatro quilómetros de distância de nós, o que corresponde a umas quatrocentas e nove horas a pé. Supondo que o mapa se não tenha lembrado das pausas para comer e/ou dormir, talvez tenhamos que duplicar este número e concluir que, de casa de Inácia até nós, ou de nossa casa até Inácia, demoraremos trinta e quatro dias. Como Herzog, teremos que dormir em celeiros, enquanto lá fora as raparigas andam de patins. Comeremos lebre, sopa, rebuçados de alcaçuz. Seremos ultrapassados por tractores e por camiões carregados de madeira, e outras coisas tão pouco prováveis quanto papel de arroz, cânfora e algodão. À desolação da paisagem, nos dias de chuva, opor-se-ão miragens de espigas. Uma vez que o trajecto indicado no mapa (o mais rápido) nem sempre contempla caminhos pedonais, seremos forçados, por mais do que uma vez, a meter pela floresta.
O que não sabemos, teremos de inventar. Inácia, a mulher de quem nos ocupamos, não existe. Não devemos espantar-nos com a inexistência de quem temos à frente, é assim com todos, especialmente com aqueles que amamos. 

Conte d'été



a temperatura do corpo


«O que quer que seja que aconteça na nossa mente, acontece num tempo e num espaço relativos ao instante do tempo em que se encontra o nosso corpo e à região do espaço ocupada pelo nosso corpo. As coisas ou estão dentro ou estão fora de nós. As que estão fora de nós estão quietas ou em movimento. As quietas podem estar longe, perto ou algures no meio do caminho. As que estão em movimento podem estar a deslocar-se na nossa direcção, podem afastar-se de nós ou podem estar numa trajectória que passa ao nosso lado, mas é sempre o nosso corpo que lhes serve de referência. A perspectiva experiencial não só ajuda a situar objectos reais, como também ajuda a situar ideias, sejam elas concretas ou abstractas. A perspectiva experiencial também constitui uma fonte de metáforas nos organismos dotados de capacidades cognitivas como a abundante memória convencional, a mémoria de trabalho, a linguagem e as capacidades manipuladoras que subsumimos sob o termo inteligência.» 

António Damásio, "O Sentimento de Si", Pub. Europa-América, 2000

Sábado, 15 de Junho de 2013

Alice doesn't live here anymore




It ain't no Peggy Lee, exclama Alice.

a forma

Sonhei que passeava com a Golgona Anghel num jardim de mobiles. Ela disse-me: escapei ao lenitivo. Falámos sobre a Criação.  

Até hoje foi sempre futuro


«A questão de quem eu era consumia-me.

Convenci-me de que não chegaria a encontrar a imagem
                                               da pessoa que eu
era: Os segundos passaram. O que em mim subiu à superfície
mergulhou e voltou a desaparecer. E no entanto senti que
o momento da minha primeira investidura
foi o momento em que comecei a representar-me -
o momento em que comecei a viver - gradualmente - segunda a
segundo - ininterruptamente - Oh, mente, que estás tu a fazer! -

queres ficar oculta ou queres ser vista? -

E o vestido - como te assenta bem! - iluminado
pelos olhos dos
outros,

                 a chorar -»

Jorie Graham, excerto de "Notas sobre a realidade do Self", em Materialism, 1993

Sexta-feira, 14 de Junho de 2013

Qual é o prazer da mão?

Quando me apalpo, a mão não sente nada. E quando te apalpo, igual. Isto provoca em mim imenso espanto, em ti não? Dei por mim a pensar que, quando me apalpas, a tua mão também não sente nada, isto é, que a minha nádega é só uma ideia no triângulo da tua imaginação. Se a mão sentisse prazer eu estaria, neste momento, refastelada no teclado. Há muito tempo atrás, quando eu tentava conhecer a sensação das minhas pernas, também me zangava por não ser capaz de sair das mãos. Percorria uma perna, depois a outra, e isso não me dava prazer nenhum. Tudo o que me restava era imaginar as tuas mãos na esperança de que elas sentissem qualquer coisa que eu não podia sentir. Curiosamente, pensar nas tuas mãos dava-me prazer. 

Imediatamente embora pouco a pouco


«A curiosidade dos homens investiga o passado 
E o futuro e agarra-se a essa dimensão. Mas apreender 
O ponto de intersecção do intemporal 
Com o tempo, é ocupação de santo - 
Nem é tarefa, mas antes algo dado 
E recebido, na morte em amor de uma vida inteira, 
Arrebatamento, humidade e entrega de si. 
Para a maioria de nós há apenas o negligenciado, 
Momento, o momento dentro e fora do tempo, 
O assomo de descuido, perdidos num feixe de luz de Sol, 
O tomilho bravo que não se vê, ou o relâmpago de Inverno 
Ou a queda-d'água, ou a música ouvida tão profundamente 
Que não é de todo ouvida, mas tu és a música 
Enquanto a música perdura. Isto são apenas indícios e suspeitas, 
Indícios seguidos de suspeitas; e o resto 
É prece, observância, disciplina, pensamento e acto. 
O pressentimento meio suspeito, a dádiva meio entendida,
é a Encarnação.» 

T. S. Eliot, "Quatro Quartetos", Relógio D`Água, 2004

Quinta-feira, 13 de Junho de 2013

Perguntas Abandonadas




















Porque, se a vida é breve tantas cousas buscamos? Para 
quê terras alheias
Por outros sóis cadentes? Quem da pátria
Sai a si mesmo escapa?

Horácio - Odes, II, 16.
(trad. de Jorge de Sena) 

Quarta-feira, 12 de Junho de 2013

pudor

Deram "9,5 em 10" ao Servidões do HH. Pergunto-me se os 0,5 em falta são tipo incentivo de final de  1º período: ele até merecia 10 mas... é melhor ter cuidado, não vá descer no livro seguinte. 

[...]

Tenho a certeza que neste preciso momento, algures no mundo, uma mulher cheira as suas próprias mãos e que, ao fazê-lo, fecha ligeiramente os olhos. Dir-se-ia que brilha no escuro.

Recomposições de Metades


«Passar muito tempo ao ar livre, ao sol e ao vento provocará sem dúvida uma certa rudeza de carácter - fará crescer uma membrana mais espessa sobre as qualidades mais delicadas da natureza humana, e também no rosto e nas mãos, tal como um árduo trabalho manual retira às mãos a sua sensibilidade. Do mesmo modo, o hábito de ficar em casa pode induzir, por seu lado, uma certa indolência e brandura, para não dizer finura de pele, acompanhadas por uma sensibilidade maior a certas impressões. Talvez fôssemos mais susceptíveis a algumas influências importantes para o nosso desenvolvimento moral e intelectual se o sol nos fosse mais gentil e o vento mais brando. E não há dúvida de que é coisa difícil uma justa proporção entre macieza e aspereza. Todavia, parece-me que se trata de uma membrana que se retira facilmente - e que o remédio natural se encontra na proporção que existe entre a noite e o dia, o Inverno e o Verão, o pensamento e a experiência. Quanto mais ar e luz do sol nos nossos pensamentos, melhor. As mãos calejadas do homem do campo conhecem, melhor do que os dedos lânguidos de um ocioso, os requintados tecidos do amor-próprio e do heroísmo, cujo toque arrebata o coração. É mero sentimentalismo o de quem dorme de dia e se pensa alvo e puro, avesso à experiência que tisna e caleja.» 

Henry David Thoreau, "Caminhada", Antígona, 2012           

Terça-feira, 11 de Junho de 2013

Domingo, 9 de Junho de 2013

Inaugurar sentimentos, o amor por vir


(há homens que falam com deus em segredo: são os insensatos. Têm na voz o horizonte de outra voz, soletram as palavras que deus soletra na sua eternidade.

há homens que transportam um voz para dizimar o rosto para que falam.

há vozes que escurecem os contornos de um rosto.) 

Extracto do Diário de Abel 


Rui Nunes, "A Boca na Cinza",  Relógio d'Água, 2003

If You Wish To Be A Writer, Have Sex With Someone Who Works In Publishing

«Another obstacle you’re bound to encounter is writer’s block—that terrifying moment when you find yourself at a book party or a panel on writing, look around the room, and realize you have absolutely no idea who you should fuck to move your career forward.» 

O resto, aqui.

Momento Pergaminho


«Sentado ou deitado, feche os olhos e respire várias vezes, profundamente. Em cada respiração sinta o seu corpo atingir um profundo relaxamento. Descontraia a sua mente e deixe o seu pensamento correr. Procure não se reter em nenhum dos seus pensamentos. Sinta que se relaxa e encontra a calma dentro de si.
Este estado profundo é uma fonte de nutrição e de cura para si.Saiba que pode encontrar aí tudo o que precisa de saber para se curar. Se tem um problema de saúde ou uma pergunta a fazer à sua intuição acerca do seu corpo, aproveite a ocasião para o fazer.»

Shakti Gawain, "Vivendo na Luz", Pergaminho, 1999  

Sábado, 8 de Junho de 2013

sala nietzsche




timeless charm hotel, esboço de um livro em prosa ditado a partir de Saturno por video-conferência

Eudora senta-se ao piano. É simpatia nossa chamar piano àquilo que ela tem à frente, quer dizer, não é nenhum Steinway, ou assim. Passa um bom bocado a fazer escalas e depois toca uma música dos Beatles. Também poderia tocar o Papagaio Loiro, a Noite Feliz ou até o princípio da marcha nupcial (sabe os acordes). Vai passar o dia assim, de um instrumento para outro, sem nunca fazer qualquer coisa a que se possa chamar de música. Onde é que ela estava ontem? À porta de uma livraria a declinar um charro. Onde é que ela estava anteontem? Enfiada na cama. E antes, antes de anteontem? Treinava o linguado de Thanh (página 36), pago a jantares na praia, copos no Braço de Prata e concertos de jazz. Eudora não queimou sutiãs em Atlantic City, mas só porque não usa. Esteve na Revolução Francesa. Foi uma das primeiras a pintar nas Grutas de Lascaux. Há muito, muito tempo (ontem à noite, na Bica) chamava-se Franny e pedia conselhos para uma edição da Bíblia (esta manhã, antes de voltar para casa, passou numa loja da especialidade - recomendaram-lhe que fosse à Feira do Livro, a palavra de Deus está em saldos até dia 10). Eudora não está morta no Mississipi nem à venda na Sá da Costa. Tem um livro do Nuno Moura na mesa da cozinha, mas sentada ao piano a tocar Beatles isso não faz qualquer diferença. Ninguém sabe o que é ter um cometa na Casa II, a sério. Um centauro. Há gente que tem as coisas mais estranhas em casa, nas paredes, nas gavetas - e até na cabeça - mas um cometa, isso é de poetas, quer dizer, faz todo o sentido. É por isso que Eudora não toca nada, embora ponha as mãos em tudo, e é também por isso que não tem palavra, embora fale bastante. A certa altura, Eudora foi eu, ou eu fui Eudora, e fui tu, e morremos todos a seguir. O que é estranho - por alguma razão a garota de ipanema é tão tocada - é que nenhuma petite morte a faça mais feliz que a casa de um estranho, pelo menos da primeira vez que lá entra, antes do sofá ser só um sítio onde a gente se senta a ver um filme para depois adormecer de trombas para o século inteiro, quer a parte que foi, quer a parte que vem. Lichtenberg contraria aquela ideia feita de que antes de um p e de um b vem sempre um -m. Esta é a magia das línguas. "Eu não quero a luz a partir de mim, nem planeio fazer do deserto o esplendor de um quintal", dizia Eudora em entrevista ao Pedro Mexia, acabado de ler os Diapsalmata. E continua: "Ouça, eu não sei fazer nada com o que leio. Sou tal e qual a irmã do Shakespeare: de um modo geral, sou comida por homens inteligentes."  

Sexta-feira, 7 de Junho de 2013

ninguém é filho das ervas


«A contradição é só aparente: as nossas posições não convergem porque temos pontos de vista paralelos.»

Dimíter Ánguelov, "Código Evidente", & etc., 1989

que horas são?




N'O Vestido Vermelho, o relógio está parado na hora a que a mãe morreu ("agora são sempre três horas"). No filme Dead Man Walking, a Irmã Helen olha várias vezes para o relógio da prisão. No Lágrimas e Suspiros a primeira coisa que Agnès faz quando se levanta é dar corda ao relógio. 

Mississipi

Se eu trabalhasse numa livraria, se alguém quisesse saber a minha opinião, se me fosse pedido um conselho, se fizesse alguma diferença x ou z, se fosse possível escolher, se houvesse tempo para isso, se de facto fizesse sol, se a música fosse a certa, se fosse para ser rápido e bom, se tivesse alguma utilidade, se pudesse ter impacto, se não fosse igual ao litro, se contasse para avaliação, diria: vai e compra O Coração dos Ponders

balanço do semestre


decifra-me ou devoro-te,

dizia a ideia de Brás Cubas. E falando do que é fixo, eu diria Zorn, diria Moura, diria aquela manhã em que a mulher das unhas verdes lia numa carruagem do metropolitano: Anastasia, eu não faço amor, eu fodo. Eram oito e quarenta e dois de uma linda manhã de sol.  

quero outra noite no fim do dia




«"As tuas flechas não chegaram ao alvo," observou  o Mestre, "porque espiritualmente tu não alcanças bastante longe. Deves proceder como se o alvo se encontrasse infinitamente afastado. Para nós, mestres arqueiros, é facto assente que um bom arqueiro consegue atirar mais longe com um arco medianamente forte do que um arqueiro não-espiritual como o mais forte arco possível. É que não depende do arco, mas sim da presença de espírito, da vitalidade e da consciência com que se dispara. De modo a libertares toda a força desta consciência espiritual, deves executar a cerimónia de modo diferente: mais como um bom bailarino dança. Se assim o fizeres, os teus movimentos originar-se-ão no centro, no apoio da respiração correcta. Em vez de desenrolares a cerimónia como algo aprendido de cor, será então como se estivesses a criar de acordo com a inspiração do momento, de tal modo que a dança e o bailarino serão uma e a mesma coisa. Executando a cerimónia como uma dança religiosa, a tua consciência espiritual desenvolverá toda a sua força."»      

Eugen Herrigel, "Zen e a arte do tiro com arco", Via Optima, 1987

Quinta-feira, 6 de Junho de 2013

prove que não é um robô






sou dentro de mim o que quer fugir
embora vá recusando a cada bafo
o panorama dos astronautas


tiro notas
dos calendários gigantes
das marés do sol e da lua
do rasto agrícola das nossas mãos
sobre a mesa


de madrugada
remo como exilado inca
em direcção à luz


se ainda me for fácil mentir direi
é afinal a única substância do poema
este cigarro entre estrofes

Miguel-Manso, "Contra a Manhã Burra", Mariposa Azual, 2009

o livro da dança


Quarta-feira, 5 de Junho de 2013

de volta a casa

Aquilo de que ela mais gostava era quando, ao fim de algumas horas a desembaraçar-se das frases, começava a ficar au point. Não o texto, que esse era sempre uma comichão na cabeça, mas ela mesma. Costumava partir de uma imagem, qualquer coisa testemunhada no metro logo de manhã, e sentava-se à mesa de trabalho pronta para apagar o resto. Lucidez negativa: isto não serve, isto não serve, isto não serve. Quando se impacientava, abria um livro ao calhas, A Condição Humana, isto não serve, o Ulisses, isto não serve. Às vezes agarrava num molho de correspondência por abrir (não é verdade, checava o e-mail) e atirava versos aos trôpegos, aos pândegos e aos endividados. O pior de tudo era de repente parar de rir, parar de escrever, parar para pensar. Tinha logo uma impressão no nariz. Uma dorzinha nas costas. Ó Deuses, aquilo de que ela mais gostava era de estar sozinha em casa, de andar sozinha na rua, de se sentar sozinha no El Corte Inglès, e depois contar tudo a alguém. Andava a martelar na História do Mundo, volume primeiro, pelo que a recolha de material se fazia in loco e com isenção de horário. Por vezes era interrompida pelo inusitado. Não raro, precisava de enfiar qualquer coisa entre as pernas. E mesmo enquanto o fazia, aquilo em que pensava era em trabalho, por exemplo, no tempo que ganharia se tivesse sempre um homem debaixo da mesa.

Terça-feira, 4 de Junho de 2013

o poeta sabe menos que o poema


nem todos os homens que
saem de minha casa saem de minha cama
nem todos aqueles que
saem da minha cama saem de dentro de mim
nem todos os que
saem de dentro de mim chegaram sequer a lá entrar
não, nada é tão líquido assim 

Bénédicte Houart, "Vida: Variações", Cotovia, 2008

all delighted people

Há muitas coisas de que me envergonho, mas não me envergonho disto. Há frases, discussões, insultos de que me envergonho, mas não me envergonho disto. Há imagens, noites, restos, de que tenho bastante vergonha, mas não, não me envergonho disto. E continuo a ter vergonha de coisas que não faço, de tudo em que não toco, do jeito que não dou, mas não tenho vergonha disto, de carregar com isto, de me sentir parte disto, de tudo em mim estar ligado a isto.  

Segunda-feira, 23 de Janeiro de 2012

Segunda-feira, 9 de Janeiro de 2012

é uma pena


mas acabou.









ou não.

Terça-feira, 13 de Dezembro de 2011

a temperatura do corpo #10



«Foi quando a mina alvejou a estrada que Zeca realizou que tinha morrido com ela. Esse conforto demorou um nada de pensar. Uma agulha de som furou-lhe os ouvidos por dentro e um ciclone esvaziou o chão, levantou-lhe os pés e desembainhou-lhe a espinha entre a nuca e o peito. Com este açoite, a dor roubou-lhe a sensação do corpo. Viu o céu rebolar no ar, em trambolhões sem cor, e estatelar-se na areia. O mundo apagou-se no mesmo instante. Nem o pânico chegou a tempo.»


Pedro Rosa Mendes, “Baía dos Tigres”, Publicações Dom Quixote, 2005 

Domingo, 11 de Dezembro de 2011

Sexta-feira, 9 de Dezembro de 2011

Perguntas Abandonadas #15

«Afastada a justiça, o que são, na verdade, os reinos senão grandes quadrilhas de ladrões? Que é que são, na verdade, as quadrilhas de ladrões, senão pequenos reinos?»


Santo Agostinho (354-430)

Quarta-feira, 7 de Dezembro de 2011

o homem de quarta-feira #41


Sonâmbulos,
Porque dormir agora se amanhece devagar? Ainda é belo sentir as palmas a bater.
O que seria desta rua se privada do que inesperadamente nos atrai? Nada foi rasgado.
Todas as nossas sombras desejam descer, mas só o chão sabe quando é tempo de errâncias. 
                                                                                                                       

Segunda-feira, 5 de Dezembro de 2011

viva 2012

Como não tenho dinheiro, não posso comprar. Como não posso comprar, não sou. Como não sou, não penso. E se não penso, não escrevo. 

há como que um imperativo da estreia, entre dois seres que se amam.

A par do desejo de alguma singularidade, na vida do outro, deseja-se estrear. Pode ser uma casa, uma cidade, um projecto. Tem é de ser alguma coisa. Não é justo que o outro já tenha dormido com alguém, antes, que tenha casado, que tenha tido um filho, que tenham ido juntos a Veneza. Justo seria que tivesse esperado por mim. No campo amoroso, a inauguração vale pontos. De cada vez que alguém diz nunca me tinham feito isso há um ego que cresce. Espera-se, no fundo, uma certa virgindade, espera-se abrir um caminho novo, estar onde nunca ninguém esteve. É aqui que o valor da estreia reside, numa falsa ideia de pureza, associada ao desconhecimento. Como se, por ser a segunda (ou a vigésima) vez, o gesto viesse gasto. 

Lembro-me: dizia-se que as raparigas deviam guardar-se para alguém especial. Que isso de dar o corpo, pela primeira vez, é de tal forma importante, que não podia ser com a pessoa errada. Como se houvesse aqui algum tipo de irreversibilidade. Como se, depois de o fazeres uma vez, nunca mais fosses igual. Como se, dando o corpo, desses uma oportunidade - a de alguém vir estrear-te.  

Não há nada mais despótico do que isto, esta tirania da pureza, que se arrasta pela vida toda. Esta ideia infeliz de que as coisas mais importantes são as que nunca tinham sido vividas antes. É por causa disto, que se alastra como uma praga por todos os compartimentos de uma vida, que as pessoas vivem sufocadas nas suas rotinas, convencidas de que precisam de alguma novidade. É por causa disto que se ama pouco, e mal. Que se perde tempo com ciúmes do passado, do símbolo, do mito alheio - um filme muitas vezes a milhas da realidade. 

Aprender a surpresa naquilo que não é novo, isso sim, é um gesto de amor. O gesto que hoje se cumpre vem de trás, foi aprendido noutros lugares, com outras pessoas, mas chega aqui outro, novo, porque enfim, na minha direcção

E o primeiro... Para dizer a verdade, não me lembro do nome dele. 


Domingo, 4 de Dezembro de 2011

é meia-noite no fim do céu #8


«podeis aprender que o homem
é sempre a melhor medida.
Mais: que a medida do homem
não é a morte mas a vida.»

João Cabral de Melo Neto, Paisagem com Figuras, 1956

2000 km, 90 dias


«Com a performance The Lovers, Abramovic e Ulay transformaram a experiência pessoal de terem atingido o fim do seu caminho juntos num simples acto realizado num local geográfico concreto. Eles caminharam em direcção um ao outro partindo cada um do extremo oposto da Grande Muralha, para se separarem de novo, para sempre.»

Mulheres Artistas nos Séculos XX e XXI, Taschen

Sábado, 3 de Dezembro de 2011

Sexta-feira, 2 de Dezembro de 2011

o que não se vê nesta imagem


é que está um peixe dentro da banheira. um peixe laranja. o que não se vê nesta imagem é que, a par do peixe, há uma rapariga, que por acaso existe e está prestes a desmanchar-se a rir. 

Quarta-feira, 30 de Novembro de 2011

a subjectividade é a verdade #15

rosa m pratica poesia enquanto a poesia pratica rosa m


HOW TO BE ALONE


Não foi em Kalkbreite nem sequer em Lochergut
mas na Zähringerstrasse, junto à biblioteca. Vinha
de uma dessas avenidas, que todas as cidades têm,
onde lojas de moda convivem com livrarias, casas
de chocolates e um grupinho de punks.

Na memória, uma ideia de pássaro, meu atributo
e uma gratidão quase solene.  

À minha volta, os homens pousavam no lugar vazio
da imaginação e eu olhava, nunca mais de três
segundos, a fim de manter o anonimato. A felicidade
era os versos de um poeta no balcão da despedida

“A Dickinson tem um verso sobre Zurique
e não é triste”

era a Europa de ipod nas orelhas, era eu peninsular
agora ilha desconsolada com aquele livro compelling
and invigorating (cf. Times), no fundo, era essa missa
de corpo presente onde nenhum pater me levava
pela mão,

rapariga sem flor na transparência da língua.

mizé, eu não tenho nada contra galdérias

mas faz-me confusão quando se confunde estilo com mau português.

na caixa de uma livraria, depois do pagamento

- Não preciso do talão, pode deitar fora?
- Não.
- Não?
- Se precisar de trocar...
- Trocar?
- E se tiver algum defeito?
- Ah, eu experimentei.
- Como?
- Mas trocar por quê? Pelo L?

[o livro era Os Passos em Volta]

Terça-feira, 29 de Novembro de 2011

sabes quando estás a escrever uma coisa e de repente percebes que não, não era nada por aí que querias ir?

Deitei-me deviam ser umas onze da manhã, incapaz de dormir. É isto que me acontece quando tenho tempo livre, porque o tempo não é de borla, e eu tenho remorsos. Em sequência, a lista de fenómenos que formam um dia (apenas um) na vida desta pessoa: conversa à mesa da cozinha; conversa em banco de jardim numa das avenidas novas; aquisição de um livro; leitura e redacção de diversos numa esplanada; petite guerra doméstica e telefonema. Como é óbvio, a chave vem por último, neste telefonema (são assim, os efeitos-surpresa da escrita). Quem me ligou foi uma mulher que completará, em Fevereiro próximo, oitenta e oito anos, mulher que, na hierarquia familiar, me vai à frente em duas gerações. Não se trata aqui de cordelinhos ou poderios mas só de alívio, já que, entre ela e o eu que escreve, o karma teve oportunidade de melhorar por duas vezes. Eu sou a terceira. Ligou a fingir que não sabia de mim, como finge que não ouve (alô? alô?) quando a conversa desconversa. Eu, que no setenta e três dou sempre o lugar à primeira velhinha que aparece – que não dou aos velhinhos, que à partida não merecem, porque são homens, e isso não abona a favor de ninguém – com a minha avó, aquela que me dizia, depois de me limpar o rabo, que «parir é dor, criar é amor», acabo sempre a fingir que a ligação caiu, pipipipi, que é o mesmo que enfiar a cara no livro quando entra o tipo de muletas (no setenta e três), isto é, uma indecência.

saída de emergência


heróis do mar