segunda-feira, 13 de outubro de 2008

sábado

Um casal discutia em frente à minha janela. Levantei-me da cama, num sobressalto, sentei-me na pedra a observar. Nunca me tinha intrometido numa coisa assim e, embora eles não me vissem, aquela era também a minha discussão. Estávamos, assim, os três, numa madrugada triste.
Ela acabou com ele. Ele não a deixou ir embora. Estava doente de ciúmes e sofria, meu deus, como sofria aquele homem cheio de alcoól nas palavras, cheio de amor, sem ver nada que não as escadas onde ela se esqueceu de o ver. E embora toda aquela discussão fosse ridícula, embora haja sempre umas escadas onde alguém nos faz esquecer que há um amor no primeiro degrau, à espera, embora toda aquela violência apaixonada não obedecesse às regras da lógica e mesmo sabendo que a única coisa que ele poderia ter feito seria apertá-la com força por entre os braços (quando ela o encontrasse, só, à espera no degrau, esquecido), ele sentiu. E ela mentia, ela, que tinha razão, ela, que não precisava de uma cena, ela que não tinha feito nada de mal. Quero dizer, ela falava a verdade. Ela encontrou um amigo, com quem falou. Só.
Mas esqueceu-se. E tenho a certeza que ele viu que os olhos dela se abriram de outra maneira. E que o corpo se curvava enquanto ria de um modo diferente. E que estava desajeitada, como uma menina. Ele sentiu.
Deitei-me, vazia.