«Ele que deixasse os livros, diziam, para os paralíticos e os moribundos.»

Terça-feira, 31 de Março de 2009

de ana a zana

quando eu era nova encontrava bilhetes debaixo da porta, cartões, poemas. rodeava-me de mistérios, cultivava segredos. quando era nova, tudo eram sinais, presságios.
de vez em quando, antes de abrir a porta de vidro, encontrava, sobre o tapete vermelho, um sobrescrito com o meu nome. nunca tive pressa de o abrir. pousava a mala, despia o casaco, garantia o funcionamento do quotidiano. depois, quando já nada precisasse de um gesto meu, abria o envelope, em silêncio, sem qualquer indício de agitação.
nada me era imediato. pouco me era urgente. e nisto viviam as minhas conquistas, no dar a mão ao papel, no rir-me de tudo. penso: quando eu era nova trazia as certezas na mão. e nunca estive só.