"Ó noite sem objectos! Ó janela indiferente ao exterior, ó portas cuidadosamente fechadas; instalações de tempos remotos transmitidas, reconhecidas, nunca inteiramente compreendidas. O silêncio no vão das escadas, silêncio dos quartos vizinhos, silêncio lá em cima no tecto. Ó mãe: ó única, que dissimulaste todo este silêncio outrora, na minha infância. Que o toma sobre si, dizendo; não te assustes, sou eu. A que tem a coragem de ser, em plena noite, este silêncio para aquele que tem medo, que está perdido de medo. Acendes uma luz e já o ruído és tu. Ergue-la e dizes: sou eu, não tenhas medo. E lentamente pousa-la e não há dúvida: és tu, tu és a luz que envolve os objectos familiares e queridos que ali estão sem segundo sentido, bondosos, simples, unívocos. E quando qualquer coisa se agita na parede ou dá um passo no soalho: então sorris apenas, sorris, sorris com transparência sobre um fundo claro para o rosto angustiado que te sonda como se tu te identificasses com o mistério, nele submersa, e com qualquer som abafado, combinada com ele e de acordo com ele."-As Anotações de Malte Laurids Brigge - Sr Rilke