O Jornalista - Catarina, como é que se sente ao fim de 26 anos à frente de uma livraria?
Eu - Não estou à frente. Nunca estive. Há 26 anos que o digo no blogue. Se estou em alguma parte, é no no espaço entre as paredes.
O Jornalista - Mas houve uma altura em que se sentia uma maior exposição da sua parte.
Eu - Suponho que sim. Houve uma fase em que eu vivia permanentemente apaixonada. Acordava deslumbrada com a minha vida. Via coisas terrivelmente belas. Pegava num livro e encontrava exactamente o que precisava. E queria partilhar isso com as pessoas. Mas depois tinha muito medo, claro.
O Jornalista - Medo?
Eu - Sim. De defraudar. Repare, eu tinha 23 anos quando abrimos a Trama, suponho que fosse a tipa mais nova do mundo a fazer uma coisa daquelas. E não estava muito convencida das minhas competências. Felizmente havia o Ricardo, que sabia bem o que estava a fazer, e me dava espaço para as maluquices.
O Jornalista - Que maluquices é que fazia?
Eu - Ó, sei lá. Inventava entrevistas que me seriam feitas dali por não sei quantos anos, escrevia um monte de palermices, traçava o meu percurso, à vista de todos. E criava. Criava muito, ficcionava quase tudo o que acontecia, acrescentava frases às conversas que tinha tido, punha clientes a dançar no texto, mulheres a chorar de manhã, Anas e Pedros e sei lá que mais.
O Jornalista - Mas essas ficções tinham algum objectivo?
Eu - Claro que sim. Mas eu não percebi logo. Sabe, antes de abrir a livraria, eu era uma rapariga mais ou menos normal, sem nenhum traço que a distinguisse das demais, sem qualquer tipo de beleza extraordinária. Depois, com a Trama, passei a ser bonita, sabe? As pessoas achavam-me piada, os rapazes davam-me imensa atenção, parecia que a livraria era o meu melhor acessório. À noite, num bar, alguém dizia: esta é a miúda da Trama. E eu ficava envergonhadíssima, certa de que aquele era o meu principal atributo, o mais afrodisíaco, até. E não conseguia dizer nada. (ela ri-se, mexe no cabelo) Eu era muito tímida. Não suportava que houvesse sobre mim qualquer tipo de expectativas. Então, numa espécie de exercício terapêutico forçado, excedia-me sempre que podia. E ficcionava a pessoa que esperavam que eu fosse.
O Jornalista - Mas não era sincera?
Eu - Tanto quanto Antígona o foi. Que verdade espera de uma personagem que não a maior de todas, a menos questionável, a mais profunda? Esta entrevista ainda demora muito? Detesto massacrar os leitores com textos grandes.
O Jornalista - Só mais uma pergunta. E aquilo de não gostar de poetas, era mesmo verdade?
Eu - Não estou à frente. Nunca estive. Há 26 anos que o digo no blogue. Se estou em alguma parte, é no no espaço entre as paredes.
O Jornalista - Mas houve uma altura em que se sentia uma maior exposição da sua parte.
Eu - Suponho que sim. Houve uma fase em que eu vivia permanentemente apaixonada. Acordava deslumbrada com a minha vida. Via coisas terrivelmente belas. Pegava num livro e encontrava exactamente o que precisava. E queria partilhar isso com as pessoas. Mas depois tinha muito medo, claro.
O Jornalista - Medo?
Eu - Sim. De defraudar. Repare, eu tinha 23 anos quando abrimos a Trama, suponho que fosse a tipa mais nova do mundo a fazer uma coisa daquelas. E não estava muito convencida das minhas competências. Felizmente havia o Ricardo, que sabia bem o que estava a fazer, e me dava espaço para as maluquices.
O Jornalista - Que maluquices é que fazia?
Eu - Ó, sei lá. Inventava entrevistas que me seriam feitas dali por não sei quantos anos, escrevia um monte de palermices, traçava o meu percurso, à vista de todos. E criava. Criava muito, ficcionava quase tudo o que acontecia, acrescentava frases às conversas que tinha tido, punha clientes a dançar no texto, mulheres a chorar de manhã, Anas e Pedros e sei lá que mais.
O Jornalista - Mas essas ficções tinham algum objectivo?
Eu - Claro que sim. Mas eu não percebi logo. Sabe, antes de abrir a livraria, eu era uma rapariga mais ou menos normal, sem nenhum traço que a distinguisse das demais, sem qualquer tipo de beleza extraordinária. Depois, com a Trama, passei a ser bonita, sabe? As pessoas achavam-me piada, os rapazes davam-me imensa atenção, parecia que a livraria era o meu melhor acessório. À noite, num bar, alguém dizia: esta é a miúda da Trama. E eu ficava envergonhadíssima, certa de que aquele era o meu principal atributo, o mais afrodisíaco, até. E não conseguia dizer nada. (ela ri-se, mexe no cabelo) Eu era muito tímida. Não suportava que houvesse sobre mim qualquer tipo de expectativas. Então, numa espécie de exercício terapêutico forçado, excedia-me sempre que podia. E ficcionava a pessoa que esperavam que eu fosse.
O Jornalista - Mas não era sincera?
Eu - Tanto quanto Antígona o foi. Que verdade espera de uma personagem que não a maior de todas, a menos questionável, a mais profunda? Esta entrevista ainda demora muito? Detesto massacrar os leitores com textos grandes.
O Jornalista - Só mais uma pergunta. E aquilo de não gostar de poetas, era mesmo verdade?