«Ele que deixasse os livros, diziam, para os paralíticos e os moribundos.»

Terça-feira, 31 de Março de 2009

Acabadinha de chegar esta 1ª edição



"Mário-Henrique Leiria nasceu em Lisboa em 1923.Frequentou a Escola de Belas Artes, donde saiu apressadamente. Entre 1949 e 1951 participou nas actividades da movimentação surrealista em Portugal.Depois começou a andar de um lado para o outro. Teve vários empregos, marinha mercante, caixeiro de praça, operário metalúrgico, construção civil (não, não era arquitecto, carregava tijolo) etc. pelas terras onde andou: a Europa cristã e ocidental, o Mediterrâneo norte-africano, o Oriente Médio e até dizem, os países socialistas. Não ia aos Balkans porque tinha medo, todos lhe diziam que lá os bigodes eram enormes e as bombas estoiravam até no bolso. Um dia teve que passar por lá. Os bigodes eram realmente grandes, mas toda a gente sabia rir. Tirou o casaco e bebeu que se fartou.Em 1958 meteram-se-lhe ideias na cabeça e foi até Inglaterra para aprender coisas. Não aprendeu e voltou. Entre 1959 e 1961 foi casado e não fez mais nada.Em 1961 foi para a América Latina donde voltou nove anos depois. Por lá, conseguiu ser, entre outras actividades menos respeitáveis, planejador de stands para exposições, encenador de teatro e até director literário de uma editora. Fizera progressos. Agora está chateado, vive em Carcavelos e custa-lhe muito andar.
Tem colaborado em várias revistas e jornais nacionais e não só. Está publicado em algumas antologias, tanto aqui como no estrangeiro. Este é o primeiro livro que tenta publicar em Portugal.
Realmente , está muito chateado."

Eat my dust Mr Charlie Parker



Não existe mais fora que isto!
Cortesia do Sr Joca

Nem só de poesia vive o homem...

Perseguido por este poema



XXIII

"entrando
poro a poro
pela mão
que escreve,
encaminhando-a
entre
a pouca luz
do texto
à sílaba inicial
da única palavra
que é
ao mesmo tempo
água e pedra: sombra,
som (...),"

"Micropaisagem" - Carlos de Oliveira

e já que falamos de cinema italiano



passatempo - parte II

A Associação Il Sorpasso em conjunto com a Trama tem para oferecer um convite duplo para o concerto de Patrizia Laquidara no Cabaret Maxime no dia 6 de Abril às 22h30.
Para ganhar este convite basta que nos envie um e-mail em que nos indique de quem é o argumento do filme Indiscretion of an American Wife de Vittorio de Sica. Se for possível, junte uma frase bonita em italiano, o nome e o telefone. Tudo isto para: livraria.trama@gmail.com.
Nota:
o convite é válido depois de trocado por bilhetes, a partir do dia 1 de Abril na bilheteira do Cinema King, no limite dos lugares disponíveis, até duas horas antes do evento.

www. festadocinemaitaliano.com

do regabofe ( para verem que nesta casa a minha patetice é levada a sério)





I Kant thank you enough

actualização da barra lateral

  • 6ªf, 03/Abr das 21h30 às 00h00: JAM SESSION: TRADBALLS - Encontros de Música e Dança
  • Sáb, 04/Abr às 18h00: Clube do Livro (org. Respigarte) - José Saramago
  • 6ªf, 17/Abr às 21h30:CARLOS BARRETTO (Contrabaixo) + ANTÓNIO EUSTÁQUIO (Guitolão)
  • 4ªf, 22/Abr às 21h30: As Cidades Invisíveis - A literatura enquanto morada(s) (conversa)
  • 5ªf, 23/Abr às 21h30: Amadores de Música (€3,00)
  • 6ªf, 24/Abr às 21h30: 1º ciclo de CINEMA: A PALAVRA CONTRA A IMAGEM?
PROGRAMA:
21h30 – A Nossa Música
00h00 – A Cativa
02h20 – O Estado das Coisas
(entrada livre)
  • 5ªf, 30/Abr às 21h30: Nuno Marinho (€3,00)
  • Sáb, 02/Mai às 18h00: Clube do Livro (org. Respigarte)
  • 5ªf, 21/Mai às 21h30: Pedro Esteves (€3,00)
  • 5ªf, 28/Mai às 21h30: Saxion
As actividades a vermelho são novidades na nossa programação.

esta semana

clicar na imagem para ouvir

e de mão em mão

PEDIDO
Houvesse Deus e os deuses
a fim de que lhes pedisse:
o coração em que penso, por
mais frases e bocas que beije,
todas ache feias e frias, e que,
amanhã, ao despertar, ou à saída
da boate, pense em mim quando
a luz do dia sobre ele se desate
Eucanaã Ferraz, em Cinemateca, Quasi, 2009

de ana a zana

quando eu era nova encontrava bilhetes debaixo da porta, cartões, poemas. rodeava-me de mistérios, cultivava segredos. quando era nova, tudo eram sinais, presságios.
de vez em quando, antes de abrir a porta de vidro, encontrava, sobre o tapete vermelho, um sobrescrito com o meu nome. nunca tive pressa de o abrir. pousava a mala, despia o casaco, garantia o funcionamento do quotidiano. depois, quando já nada precisasse de um gesto meu, abria o envelope, em silêncio, sem qualquer indício de agitação.
nada me era imediato. pouco me era urgente. e nisto viviam as minhas conquistas, no dar a mão ao papel, no rir-me de tudo. penso: quando eu era nova trazia as certezas na mão. e nunca estive só.

Segunda-feira, 30 de Março de 2009

essa minina é danadjinha

ou: se há coisa que me enerva é estar aqui mortinha por escrever e não ter rigorosamente nada para dizer. argh. vou ler.

agora a sério:

abril promete.

um grande passo

comprei o passe.
(e descobri que há muito mais para observar num autocarro que num táxi)

às vezes parece que cresce um mundo dentro de mim

mas depois constato que é da cerveja.

o tal passatempo

A Associação Il Sorpasso em conjunto com a Trama tem para oferecer um convite duplo para a sessão de abertura da II edição de 8 1/2 Festa do Cinema Italiano que decorrerá no Cinema King no dia 3 de Abril pelas 21h30.
Para ganhar este convite basta que nos envie um e-mail em que nos indique quem acompanhou o escritor Alberto Moravia na sua viagem à Índia. Se for possível, junte uma frase bonita em italiano, o nome e o telefone. Tudo isto para: livraria.trama@gmail.com.

Nota: o convite é válido depois de trocado por bilhetes, a partir do dia 1 de Abril na bilheteira do Cinema King, no limite dos lugares disponíveis, até duas horas antes do evento.
www. festadocinemaitaliano.com

Hoje acordei assim...( às 17h)

é como uma porta entreaberta

um ponto e uma vírgula
ao mesmo tempo
a ordem: pára.
e depois: podes seguir.
isto é
respira e continua.

tantos anos e ainda mais meses

Este post foi, inicialmente, uma contabilidade de todos os meses do ano. Descobri, enquanto o escrevia, que cada mês está associado a um evento passado cuja importância se arrasta até hoje. Menos Abril. Abril é um mês em que nunca aconteceu nada.
Depois apaguei o post para escrever isto.
E enquanto escrevia lembrei-me: Abril do ano 2000. Pela primeira vez a absoluta certeza do quão pequeninos somos. A morte.

Domingo, 29 de Março de 2009

algo está mal quando

alguém assobia para um cão e eu corro à janela.

querido diário

hoje os meus pés parecem-me extraordinariamente pequenos. ou terei a vista curta?
O que aconteceu a Ana?
Anuou.

o primeiro caderno de Nair

A família come sempre à mesma hora. Sentam-se todos à mesa, pratos cheios sob o queixo. Quem poderia não gostar? Quem poderia dizer: sei de uma maneira melhor?
Como se sabe, as receitas são milenares, passando de mãe para filho, de geração em geração.
Com o guardanapo no colo, ela olha a mãe que mastiga abrindo ligeiramente a boca. Olha o pai, o bigode sujo de sopa. E a avó, olhos postos na televisão. O volume alto, a fazer conversa. E então sugere: talvez um pouco menos de manteiga.
Na exclamação que se segue alguém irá dizer: em qualquer prato acharás a falta deste. Provarás de outros, mas tudo te irá saber por comparação com este. Quando tiveres fome, é isto que irás comer.
Foi nesse dia que eu soube que a educação começa pela boca.

Sábado, 28 de Março de 2009

gostando uma vez gosta-se sempre





ainda o Robinson

gosto, evidentemente, de sábados

gosto de sábados, ah pois gosto!

Ninguém nasce estúpido. É preciso crescer.
(idem)

gosto de sábados, cuco

Recuou tanto para alargar o seu horizonte que o perdeu de vista.
(idem)

gosto de sábados, francisco

A liberdade, cara avezinha, não é sair da gaiola, é poder voar com ela.
(idem)

gosto de sábados

Pôs-lhe a mão no ombro e disse com toda a sinceridade: "Tu és o meu after-ego!"
(Dimíter Ánguelov em Código Evidente, &etc, 1989
)

Sexta-feira, 27 de Março de 2009

8 1/2 FESTA DO CINEMA ITALIANO


A Trama tem convites para oferecer para a Festa do Cinema Italiano. Caros leitores, preparem-se para mais um passatempo (amanhã, amanhã)!
A segunda edição da Festa decorrerá em Lisboa entre 2 e 9 de Abril e no Porto a 4 e 5 de Abril. Ao longo de oito dias serão exibidos vinte filmes entre ficção, documentário, curtas e longas metragens.
Mais informações em
http://festadocinemaitaliano.blogspot.com/
http://www.festadocinemaitaliano.com/

da mania

(O João Bonifácio escreveu sobre a Obra Completa do Nuno Bragança, hoje, no Ípsilon e embora não tenha ganho cupões de desconto para o que quer que seja, ficou com certeza mais perto do Céu.)

retrato da livreira enquanto jovem

SOFRO POR MÍNGUA DE FALAS OU DÓI-ME O QUE ME DÓI PORQUE O FALAR NÃO ALCANÇA AS RAÍZES DO MEU MALVIVER?
Largo do Rato, quatro da manhã. Vamos, vamos, logo se vê para onde. Vamos. (e a sensação de que o céu tem braços)
Comi pão quente na Praça das Flores, à espera de nada. (Vamos para onde, afinal?) E depois li assim: Haverá quem me articule nem que seja um muito pouco?

breves considerações comuns

às vezes é preciso dar um passo atrás para poder dois em frente.
às vezes é preciso dar um passo em frente para poder dar dois atrás.
às vezes é preciso parar.
ou
«Sempre
iremos sempre mais longe sem darmos um passo.»

só para lembrar que é hoje

a partir das 22h30 (entrada livre)
poema-polifonia de Márcio-André para vozes, violino, penduricalhos e processamento electrónico

Com a "Criatura 3" chegou este poema

Um objecto

São tantas as coisas que se misturam
para que a memória devolva um único objecto:
as toalhas e um cântaro com água, uma caixa de música,
as manchas de humidade nas fotografias

da parede, a chuva a bater nos vidros da janela,
a escaleira de pedra, uma árvore. Mas antes
a água primeiro escorrendo num fio por entre
os caules das árvores; as argilas, os finíssimos grãos

da aluvião; uma horta defendida pelos muros
altos; os matos; o bosque: só depois
o segredo de curar ou enlouquecer
tocando com as mãos os ombros das crianças:

só depois da casa e dos caminhos de terra
batida; só depois dos minúsculos açudes e do labirinto
dos canais de rega; só depois das sementes
espalhadas num chão lavrado; só depois do fogo

e do rumor do vento nos arames das vinhas.
São tantas as coisas que se misturam
para que a memória devolva um único objecto:
a faca de cortar o pão.

- José Carlos Barros -

Quinta-feira, 26 de Março de 2009

coisas que chegam pelo correio

e assim se ganha uma vida extra para passar de nível.

Im the hard looser

Break my body, hold my bones, hold my bones
Break my body, hold my bones, hold my bones
Break my body, hold my bones, hold my bones

com cinco letrinhas apenas

Somos ovelhas perdidas, a nossa lã
é lã intrinsecamente desordenada.
A lã das outras é pura lã natural,
a nossa cresce com o fio do avesso.
num enleio de TRAMA encaracolada.
José António Almeida, em O Casamento Sempre Foi Gay e Nunca Triste (&etc, 2009)

(bom dia)

dice que no sabe del miedo de la muerte del amor
dice que no tiene medo de la muerte del amor
dice que el amor es muerte es miedo
dice que la muerte es miedo es amor
dice que no sabe
A Laure Bataillon
Alejandra Pizarnik em Poesía Completa (Editorial Lumen, 2007)

Quarta-feira, 25 de Março de 2009

Ficou-me a expressão do sul de Ana: infinito.

Desço a rua do elevador com a palavra pendurada na língua (como que a querer saltar-me da boca em mortal e meia pirueta).
Escrevo a palavra no google e de imediato na wikipédia: «Infinito, representado com o símbolo ∞, é uma noção quase-numérica empregada em proposições matemáticas, filosóficas ou teológicas e que faz referência à falta de limite e falta de fronteira no tamanho, quantidade ou extensão.
Distingue-se entre infinito potencial e infinito real. Infinito Potencial é usado para processos que podem, em princípio, continuar para sempre, ou para objectos que podem, em princípio, crescer para sempre.
A sequência abaixo é potencialmente infinita: é possível estendê-la indefinidamente.
2; 4; 6; 8; 10 (...)
O conceito de infinito potencial é em geral de fácil aceitação e não apresenta controvérsias. Infinito Real (ou Infinito Completo) é um assunto mais complexo: será possível existir uma entidade completa e existente de tamanho infinito?»
Depois vem a matemática: x + infinito = infinito ou x + -infinito= -infinito ou x-infinito=-infinito entre outras, de complexidade... infinita?
A minha contabilidade, no entanto, era outra mas, com isto tudo, fiquei confusa.

acho que já fechámos embora a porta ainda esteja aberta

mais para dentro, mais para dentro, diz-me a voz.
anda para dentro, depressa.
às vezes é preciso ficar cá dentro, estás a ouvir-me?
(e eu a salpicar tudo com versos)
mais para dentro, antes que alguém te veja.

Há coisas que me apoquentam

É 4a feira, 18.19h ... e onde anda o Sr Joel?

bom dia

Terça-feira, 24 de Março de 2009

depois da esgrima com o urso

- Dessa forma - respondi um tanto perplexo - seria necessário voltarmos a provar o fruto do conhecimento para recuperarmos o estado de inocência.
- Com certeza absoluta - respondeu. - E será esse o derradeiro capítulo da história do mundo.
Heinrich Von Kleist
, em As Marionetas, Hiena, 1988 (trad. Luís Bruhein e Aníbal Fernandes)

descubra as diferenças



o tal livro do Robinson Crusoe

consolida-se a ideia de que o Facebook não serve para nada

mas lá que distrai, distrai:
Trama took WHICH SEXY LADY ARE YOU? quiz and the result is GRACE KELLY YOU ARE GRACE KELLY ! YOU ARE A PRINCESS AND YOU ARE PROUD OF IT. YOU ARE GRACEFUL AND POISE.

estou com ganas de ver isto



esta sexta, a partir das 22h30, cá em cima

a trama sugere:

«A guitarra, por todas as suas possibilidades musicais e acessibilidade, foi desde sempre um instrumento presente nos mais diversos estilos e enraizado nas culturas populares. A América do Sul é talvez o melhor exemplo a nível mundial desta condição. Como instrumento de concerto no âmbito da música erudita, no entanto, o seu estatuto oscilou e nem sempre foi consensual.
O presente projecto pretende explorar essa linha, por vezes ténue, entre o popular e o erudito. A que ponto se influenciam mutuamente e se tocam estes dois mundos, tanto pelas raízes que os compositores eruditos escolhem sublinhar, ou que simplesmente não conseguem ignorar no acto da criação, como pelo virtuosismo que alguns intérpretes populares atingiram.
Dada a extensão do repertório, a primeira parte do projecto será dedicada exclusivamente ao Brasil: de Heitor Villa-Lobos - o mais reconhecido compositor erudito Brasileiro - ao Chorinho de João Pernambuco ou ao Samba de Luís Bonfá, uma viagem pelo panorama da Guitarra num dos países que melhor tratou este instrumento.»
CLICAR NA IMAGEM PARA LER E NESTE LINK PARA VER/OUVIR

Segunda-feira, 23 de Março de 2009

uma curiosidade

«Phallus in Wonderland», chamou um certo crítico ao Ulisses do James Joyce.

um apaziguador de consciência

trazido pela Ana da frente.

isto, se houvesse um corredor

ainda é tão cedo e tudo o que ouço vem de dentro. seria admissível chorar de espanto em frente a um espelho? ir ao quarto do filho buscar uma camisola lavada e esbarrar no corredor com a própria vida.
podia chorar, por exemplo, porque ainda me choca a cumplicidade entre duas desconhecidas que se falam como velhas ao som do mesmo folclore. e estou certa de que, se chegasse a haver uma lágrima, não havia tristeza legendada no queixo - seria antes o mesmo tipo de comoção que se pode sentir com uma big band em sintonia ou seis bailarinas a dançar em simultâneo. há qualquer coisa de extremamente comovente nessa simultaneidade dos corpos expressa em arte. o amor não pode andar longe desta definição.
também podia chorar por causa destas coisas todas que quero dizer e que a muito custo alinhavo em textos esquecidos de estética. falta-me jeito para a costura e a coisa sai quase sempre mal amanhada. ora: escrevo aos soluços e arrisco o coiro numa página web. arrisco o quê?

space is the place

"O que crio não é para me expressar, mas para mudar a mim mesmo"

- John Cage

Despojos de uma exposição

Eu avisei que faltava alguma coisa

até já sei para quem vai este

e já vos falei dos postais que temos por cá?

eu queria, mas ninguém me dá #2


Imagine-se um livro com bonitas ilustrações.
Agora imagine-se um livro com ilustrações lindíssimas.
De seguida imagine-se um livro com ilustrações fabulosas.
Logo depois imagine-se um livro com as ilustrações mais incríveis que já se viu.
Pronto, chegámos a este livro.

temo que comece a parecer meio psycho

Mas. Quando leio Nuno Bragança nos lugares que são os meus... fico comovida.
Como isto: "O motorista deu instintivamente uma olhadela ao espelho, porque à pergunta sucedera um silêncio de peixe. O homem repatanou-se o mais possível no assento e deixou correr calçada sob o carro, que dava a volta ao Largo do Rato para subir a São Filipe de Néri."
Ando por aqui e vou olhando à volta e vendo coisas diferentes. Se sempre pensei nos lugares como pontos a que se chega por diversos caminhos, via-os sempre como cruzamentos para um futuro. Mas. É com algum assombro que olho para tudo, hoje, e me apercebo da memória, da história, do quão pisado foi o mesmo chão, do peso de tantos outros olhares nas mesmas paredes. E sinto-me pequena.

Só para dizer que há palavras que contam



Este post é da inteira responsabilidade do Sr Joel

Para quem habita a Trama


" Vinde ler" - diz Ana aos objectos, e o primeiro que dela se aproxima é uma jovem viva que, à medida que lê nos seus joelhos, mais viçosa fica, e mais mulher se torna"

- Maria Gabriela Llansol

com cinco italianas letrinhas, via sms, durante a madrugada

"Forse, nell'imperscrutabile trama degli eventi che gli dèi ci concedono, tutto ciò ha un suo significato."
Apenas a última frase da nota final do autor em Sostiene Pereira - Antonio Tabucchi

crocodiles talk


via professor

algures no Porto

(algures na internet)

querido diário

ricardo por sms: convocação para reunião, 9h30 no pérola.
atrasos de alguns minutos, pedido um galão e um ucal, lança-se de imediato o tópico: podes perguntar-me, vá, afinal quem são o Cadmo e a Harmonia?! eu pergunto-lhe: vá, afinal quem são o Cadmo e a Harmonia e começamos.
Ao que parece, uma besta de cem cabeças cujo nome não memorizei, tinha cortado as mãos e os pés de Zeus. E o que é um deus sem mãos? Um deus que nada pode fazer. A fim de resolver esta situação desagradável, todos os deuses abandonam o Olimpo. Cadmo, chegando a uma floresta, começa a tocar a sua flauta (e Cadmo tinha sido ensinado por Apolo, por isso, como podem imaginar, tocava mesmo bem). A tal besta, atraída pela melodia justa) desafia Cadmo para um combate e este, com uma certa agudeza de espírito, consegue convencer o vilão de que necessita primeiro de novas cordas para a sua lira - as mais fortes cordas.
O que recebe então Cadmo? Os nervos de Zeus. Pode imaginar-se o que depois aconteceu.
Fim de reunião, pode começar a semana.

o sonho do sonho

a cada passo a ideia ia ganhando peso - uma ideia velha em renovação. era qualquer coisa assim: todo o que vê a luz conhece a sombra e esta parece depender apenas de uma ligeira inclinação do pescoço e não sei mais o quê. quero dizer: há um momento qualquer em que o barco vira, virando com ele a luz e o tempo.
há uma noite em que as luzes já foram apagadas e duas pessoas dormem (um homem e uma mulher, um homem e outro homem, duas mulheres, não faz diferença). a meio dessa noite um relâmpago ou um estrondo irá acordá-los e é como se esse momento muito subtil de passagem de um estado para outro (do sono para a vigília) representasse uma fenda entre ambos. porque o que tinham em comum, nessa noite, como coisa maior, era o terem-se deixado ficar, encontrados no sono. assim, quando um acorda (homem ou mulher), acende um cigarro, vagueia pela casa e torna a deitar-se, já não está com o outro mas sim submerso na sombra de ambos.
é como se aquele que se sentiu invadido pelo estrondo, sentado numa cadeira junto à janela, conseguisse olhar para aquele que dorme como se já fosse dia.

Domingo, 22 de Março de 2009

porque neste Domingo o Ricardo faz anos

faz sentido que o Domingo seja um dia feliz.
Ele é um bom companheiro
Ele é um bom companheiro
Ele é um bom companheeeeiroooo
NINGUÉM O PODE NEGAR!
ou: de como um chefe se tornou num sócio num abrir e fechar de olhos (e eu fiquei a ganhar);
ou: por todas as horas que eu passei deitada no divã do piso de cima e divaguei, divaguei;
e ainda: o homem que nunca se queixa ;
mais: o melhor guia literário que já se fez;
com o extra: de não se chatear (muito) por me encontrar de manhã a dormir no mesmo sofá onde costumo divagar (pronto, foi só uma ou duas vezes, também não era motivo para zangas);
e o bónus: de me massacrar com o catálogo inteiro da ECM;
ou: não há mais ninguém no mundo que me ature um quinto do tempo que ele atura;
e também: sabe partilhar um caril de forma justa (o que é muito importante em tempos de crise)
(e ele gosta MESMO de caril)
Parabéns Ricardo!
Assim, abro o livro ao acaso. O que leio é o que irei escrever aqui.
Nem sempre o Mistério
está fora do alcance da mão, como
o país estrangeiro. Por vezes ele viaja para cá,
encosta-se às decisões materiais de
um dia vulgar;
e surge, súbita e absurdamente,
no meio de uma acção do quotidiano.
Descuidados, nessa altura, chamamos ao mistério erro,
e rapidamente o eliminamos.
Gonçalo M. Tavares, em 1, Relógio D'Água, 2004
bingo ;)

quando me baixa o astral

vou ao sitemeter ver quantas pessoas gostam de mim.

ar, falta-me, ar

(Lembra-te: não se pode falar de poesia se não com poesia. Era assim que ele te dizia.)
Quando o Nuno Bragança escreve Z. eu estremeço. Quando ele fala de como Z. era, ou ria, ou sentia, eu sinto-me invadida pela existência de Z. e, sobretudo, pelo amor de Z.
À página trezentos e dezoito senti o peito pesado, o coração pequeno, agitei-me, angustiei-me e chorei. Depois fiquei de olhos fixos na página, incapaz de avançar ou de fechar o livro. Incapaz de me mover, do que quer que fosse. Nunca um livro me tinha corrido o corpo desta forma. Nunca algo escrito me havia sido tão pessoal, como que lido de dentro para fora. Nunca o coração me tinha chegado tanto ao estômago, em saltos literais, num excesso.
Primeiro foi com A Noite e o Riso – o espanto pela linguagem, o prazer pela construção das ideias em relação com as imagens, a descoberta de uma Lisboa anónima, velha, dos bêbados, dos sujos, dos populares, dos desorientados. A aldeia das putas, do desamor, da má fortuna, dos vícios, do ao deus dará. E nela a confirmação da existência de uma Z. e a relação dessa Z. com tudo e com todos.
Zana.
Começo a ler o Directa e chego novamente a Z. que é chegar ao que me é difícil suportar - isto, de não ser Z. Sempre que a leio chego ao mais fundo de tudo.
E é aqui que a leitura da obra deste autor se começa a transformar na leitura da minha própria vida, não porque relate algo que eu tenha passado ou porque me inspire a novas experiências. É, acho, uma leitura emocional, como a estação a que me faltava chegar, sem que eu soubesse sequer que estava em viagem. Ler, nos últimos tempos, tem sido mesmo viver. E é incrível.

Sábado, 21 de Março de 2009

Hoje, especialmente por ser Dia da Poesia


- abri a porta às 9.50h
- fiz uma vénia quando desci os 3 degraus da entrada
- tropecei menos que o habitual ao subir as escadas para o primeiro andar
- a Francisca veio tomar café
- li o Y de ontem
- até vou sorrir para os incautos que continuam a entrar ( embora em menor número) a pensar que estão na loja do chinês
- até não vou carregar o sobrolho a quem entra e não diz bom dia
- vou fazer rimas com os nomes dos cafés
- não fiz a barba
- vou finalmente acabar de ler as "Núpcias ..." do Calasso
- quem entrar vai ouvir continuamente o tema "Terrible Angels" celebrando o Sr Rilke
- vou olhar a montra com orgulho
- vou tocar clarinete a quem declamar um poema

das personagens 1- N.


Eis algumas tiradas de génio que me deixaram de boca aberta:

"... no Dia do Pai não telefonei ao meu porque não acredito nesse feriado salazarista!"

"... O Changuito gosta de congregar os poetas, é uma espécie de Júlio Isidro da poesia!"( ainda não percebi o que raio ela quis dizer , mas gostei do tom elogioso)

"... mas o Noiserv é um puto capaz..."

para acordar

«Escute», interrompeu o psicanalista. «A sua mulher é uma pessoa de comportamento convencional?»
«Absolutamente nada disso. Aliás foi a primeira coisa que nos fez ter interesse um pelo outro. Éramos membros da resistência contra a ocupação da parvoíce. Eu tinha feito coisas mais agradáveis do que ela por ser homem, e depois o provincianismo de Lisboa tem mais furos. Mas ela era uma boa lutadora contra a estupidez. Operava com uma paciência providencial, nunca confundia o doente com a doença. Aparecia alguém a dizer coisas tremendas, beatas ou intelectuais, sabe? E ela funcionava como se dissesse: "Desculpe, deixe-me só sacudir-lhe uma mancha de asneira que você tem no ombro."»
Nuno Bragança, em Directa (Obra Completa, p.283)

Sexta-feira, 20 de Março de 2009

planos para o fim-de-semana

trabalhar = ler.

eu nunca soube dançar

pause

qual é a tua cor?

«Sabe-se lá como é o crocodilo...»
Livros Horizonte

V

Faz com que eu conheça
todos os peixes do mar
e todas as crianças da Terra
e saboreie o odor da manhã
e o odor da tarde.
Quero ouvir a linguagem dos peixes
e a linguagem do vento,
que se assemelha à linguagem dos anjos.
Quero ouvir a voz
da efemeridade!
Todas as vozes são a voz da efemeridade.
Todas as vozes que alguma vez se ouviram.
Todas cantam efemeridade.
Tu também cantas efemeridade.
Thomas Bernhard, em Na Terra e No Inferno, trad. José A. Palma Caetano, Assírio&Alvim (2000)

já é quase uma base de dados

Os Meninos Gordos (Campo das Letras)

um privilégio ainda maior


é ter um colega de trabalho que, quando nos esquecemos do nosso livro em casa, olha calmamente para a pirâmide e diz (quase cientificamente): lê só o primeiro conto. Depois tomamos o pequeno-almoço.

um privilégio

é chegar ao local de trabalho uma hora mais cedo para ler e, ao constatar que o livro ficou em casa, olhar à volta e perceber que nada está perdido.

From Kremlin to Whitehouse

" The typewriter is holy the poem is holy the voice is holy the hearers are holy the ecstasy is holy"

Alguns tópicos de conversa durante a Trama afterhours

- anões gay na literatura ocidental
- será que alguém se lembra da Clitemnestra às duas da manhã?
- tradutores de italiano
- vinho
- música
- quem é o pai da literatura moderna?
- Genet de cristal
- ouvimos mais uma?
- bebemos mais um ?
- quando é que vamos embora?

When a society becomes afraid of it's poets, it is afraid of itself


"O poema contínuo,
a escrita contínua,
o texto que nunca termina
e nunca se interrompe,
o texto equivale a ser.

A vida se converte
numa forma de escrita
e cada coisa é uma letra,
um sinal de pontuação,
a inflexão de uma frase.

Inaugural metabolismo
de uma filologia
que descobriu um novo verbo:
o verbo sempre.

A poesia escreve-se sempre,
viver vive-se sempre,
algo desperta sempre:
poema-sempre.

O ser é escrita.

E um palavra é suficiente
para toda a acção:
sempre.
O outro verbo,
nunca,
é tão só a sua sombra.


"Poesia Vertical" - Roberto Juarroz

" St Patti's Day"

Porque onde é que eu andava neste dia?!?!

Clarinet rocks!

Esta senhora tem mesmo bom gosto.

Ai , ai , ai , ai...eu gosto desta mulher...


Acabadinho de chegar.
Carregado de fotografias , apontamentos , poesia e letras de canções.

Quinta-feira, 19 de Março de 2009

manifesto

«Não sei quais são os teus planos mas, se não passam pela Trama, não quero saber.»

receita para tempos constipados

2 x Burroughs

Quarta-feira, 18 de Março de 2009

ana

o teu pai não sabe que na caixa dos Dom Rodrigo estavam vinte anos perdidos. Assim, um gesto te traz
dali
aqui.

querido diário

Enquanto vou lendo o Directa (ironicamente, bem devagar) vou concluindo que há tanto de revolucionário em mim como de comida no Darfur.

eu pensava que não tinha amigos

até ver isto. A frase é esta: «Bera é pouco», disse o desenhador. (Nuno Bragança - Obra Completa)
Passo o testemunho à Fata, à Xary, ao Fernando, à Anita e ao Jardim do Mar.

reacção de uma criança de 3 anos à música "stuck in the middle with you"

- oh mãe, tira essa música...
- porquê?
- porque faz os maus entrarem cá em casa.
(ou: o meu filho é um génio)

e por falar em Media Vaca

uma original colecção sobre o corpo humano
(desculpem, hoje estou um bocado entusiasmada, não consigo parar)