«Ele que deixasse os livros, diziam, para os paralíticos e os moribundos.»

Terça-feira, 30 de Junho de 2009

Percepções

Quando Los foi expulso da ordem dos deuses, grande castigo se abateu sobre ele.
Não bastou a queda, não bastou a mortandade, não bastou a escravidão.

" E um véu foi colocado sobre a face da Terra, e nomearam-no Ciência".

O pior castigo nem foi o ter visto, e agora cego; ter ouvido, e agora mudo.
O pior castigo foi o querer partilhar o que tinha visto, contar o que tinha ouvido, e ser ignorado.
O convite para habitarem na sua antiga morada, ser recusado.
Não comunicar, não chegar ao outro de forma clara e credível.
Ignorância por não terem acreditado.
Como as bacantes não creram nas palavras de Diónisos, não creram na sua ascendência divina.
Loucas comeram os seus próprios filhos. Loucas destruíram com os seus dentes o sonho mais precioso.


(sobre o "Primeiro Livro de Urizen" de William Blake -Jacques Crimmel)

Algo está errado com o livreiro...

quando bebo o meu café preferido e sabe-me a lula.

Segunda-feira, 29 de Junho de 2009

Do esquecimento 6

Dois escritores que se esquecem de uma sessão de autógrafos, não merecem uma lágrima de Aquiles.

Do esquecimento 5

Um escritor que se esquece de um sessão de autógrafos não se pode admirar de não receber cartas de amor.

Do esquecimento 4

Se dois escritores se esquecem de uma sessão de autógrafos, não merecem dois minutos do tempo de um leitor.

Do esquecimento 3

Se um escritor se esquece de uma sessão de autógrafos merece não ser lido nem por um minuto.

Do esquecimento 2

Se dois escritores se esquecem de uma sessão de autógrafos, merecem uns bons litros de alcatrão.

Do esquecimento 1

Se um escritor se esquece de uma sessão de autógrafos merece uma caneta sem tinta.

Para além de sotaques

senhoras e senhores, o programa de julho!

CONCERTOS, SEMPRE ÀS 21H30 (quer dizer...)
QUINTA, 2: Paporeto ( € 3,00)

O trio Paporeto é um projecto musical criado em 2009 em Haia pelo baterista/percussionista Marco Santos, pelo guitarrista Francisco Medina e pelo baixista Noa Stroeter. Três músicos que partilham o gosto pela musica Brasileira, o Jazz e o Funk e que encontraram a sua identidade musical juntos na mistura entre estes estilos e ritmos.
SEXTA, 3: ECOS DE LISBOA ( € 3,00)

Projecto composto por temas instrumentais apenas com guitarra e alguns acompanhados a piano. Os temas variam entre originais para guitarra clássica, eléctrica, ou semi-acústica, fados de Lisboa, arranjados para guitarra clássica, temas de outros guitarristas como David Gilmour, Pat Metheny, Mike Oldfield, Leo Brouwer), e sequencias improvisadas com efeitos de 'Eco'. Com Jan Van Nespen nos teclados.
QUINTA, 9: SELMA UAMUSSE ( € 3,00)
Actualmente aluna do Hot Clube de Portugal, começou a cantar profissionalmente no ano 2000 num grupo Gospel sob a direcção de Carlos Ançã e do pianista Ruben Alves, passando depois para a formação das 100 Vozes Gospel sob a direcção de Guy Destino. Tendo participado em colaborações em diversos projectos e universos musicais desde então, faz actualmente parte dos projectos musicais Faith Gospel Choir (Gospel), Wraygunn (Rock, Soul, Blues) e Funkoffandfly (funk). Com os restantes músicos convidados tem em comum o universo da música Gospel e o gosto pelo jazz. Com Augusto Macedo (Contrabaixo/Baixo Eléctrico), Daniel Lima (Piano) e Gonçalo Santos (Bateria)
SEXTA, 10: CHAPA (€3,00)
Os Chapa, banda composta pelos irmãos Fagundes, afirmam-se como uma das revelações mais entusiasmantes da música brasileira.
QUINTA, 16: Lançamento do livro DEMORÔ de paulo kauim
+
pocket show hai kai com luanda cozetti & norton daiello (COUPLE COFFEE)
+
performance poética com Paulo kauim
+
mostra: invenção e fúria (algumas arestas da poesia brasileira hoje)
ENTRADA LIVRE

«Pela orelha. A poesia entrou em mim pelo ouvido via-voz do meu pai repentista ainda na infância em Pernambuco. Ao final da adolescência, o impacto que tive com a poesia concreta me deixou sem falar. Fiquei sem saída. Fui reler João Cabral para sair da encruzilhada-xadrez de estrelas-xeque mate de galáxias. Levei quase trinta anos para publicar este livro. Já havia decidido morrer sem publicá-lo, porém a psicanálise e as falas guerreiras de Francisco Kaq, José Carlos Viera, Sérgio Vaz, Bob e SJ mudaram essa vontade mórbida em mim.
Aqui o leitor encontrará, sem ordem cronológica, uma polifonia de textos ora de um jovem aos 20 e poucos anos, metafísico-verborrágico, ora encontrará textos concisos de um jovem senhor desobediente e transgressor em seu ofício. Esta obra é o contrário do Google. Demorô!»
Sobre o autor:
Paulo Kauim tem uma pós-graduação em Arte, Educação e Tecnologias Contemporâneas pela Universidade de Brasília (UnB). Tem poemas publicados em revistas, jornais e websites. Desde há quase trinta anos que se dedica à tarefa de reflectir e fazer arte, lutando contra um mundo menos bárbaro.
SEXTA, 17: MIGUEL MARTINS TRIO (€5,00)
QUINTA, 23: Oh No! It´s Betty Again! (€3,00)
“Oh no! it´s betty again” surge num contexto musical académico na Primavera de 2009, tendo como base uma formação clássica de um trio de jazz, neste caso guitarra, contrabaixo e bateria. O grupo pretende criar um elo de ligação entre a música “country” e o jazz americano através da comunicação musical e improvisação implícita, pretendendo assim encarar temas de carácter simples e composições elaboradas com a mesma seriedade.
Serão interpretados temas dos compositores Bill Frisell, Willie Nelson, Ry Cooder, Harry Link, Paula Sousa, Frederick Loewe entre outros, explorando deste modo as imensas possibilidades a nível harmónico e melódico dos vários instrumentos provenientes deste trio.
Bruno Pernadas – Guitarra; António Quintino – Contrabaixo; Alexandre Alves - Bateria
QUINTA, 30: NUNO COSTA TRIO (€3,00)

Com Nuno Costa (guitarra), Óscar Graça (teclados) e João Rijo (Bateria)
OUTRAS ACTIVIDADES

SÁBADO, 6: Inauguração da exposição READING POINT de Catarina Cabral (fotografia) ENTRADA LIVRE
Aproveitando de novo a oportunidade de expôr no espaço de uma livraria, Catarina Cabral concebeu Reading Point como uma continuação do seu último trabalho, Ponto de Encontro, focando a relação dos espaços com a leitura.
As fotografias de Reading Point mostram o cruzamento do livro com os espaços onde este está a ser lido. Trata-se de uma fusão entre o interior (a leitura) e o exterior (o espaço). Esta fusão torna-se também ela espaço-leitura nas imagens apresentadas.
SÁBADO, 25, 18h00: Clube do livro Respigarte - Lua e cinco tostões de S. Maugham ENTRADA LIVRE

Domingo, 28 de Junho de 2009

Contadora de histórias

How can we know the dancer from the dance?


Negar a sucessão temporal, negar o eu, negar o universo astronómico, são desesperos aparentes e consolos secretos.
O tempo é a substância de que estou feito. O tempo é um rio que me arrebata, mas eu sou o rio; é um tigre que me destroça, mas eu sou o tigre; é um fogo que me consome, mas eu sou o fogo. O mundo, desgraçadamente,é real; eu, desgraçadamente, sou Borges.

Sexta-feira, 26 de Junho de 2009

O QUE SE PASSA ?


O QUE SE PASSA SÃO PALAVRAS.

- Sr Beckett

Perseguido por este poema 5


Toquei num flanco súbito.
A mão que dolorosamente extraíra
rosas de mármore
dos sítios difíceis. Essa mão agora
nos trabalhos da alma: o flanco acordado, o abismo
da palavra. Resplandecia.
Levantava a pálpebra de jóia instantânea.
Das brancas ramas desentranha a corola
compacta, intrínseca, propagada
na árvore. Flanco e mão. E o nome que os ilumina
arboreamente.

- Herberto Helder -

Zero

Se não consegue é porque não respira correctamente. Depois de inspirar empurre suavemente o ar para baixo, até que a parede abdominal fique levemente contraída, e retenha-o aí por alguns momentos. Em seguida, expire da forma mais lenta e uniforme possível e depois de uma breve pausa, volte a tomar fôlego, rapidamente e de uma só vez. Continue a inspirar e expirar, até que esse ritmo se instalará gradualmente, por si só. Quando conseguir executar este exercício de maneira correcta, notará que o tiro com arco se torna mais fácil de dia para dia. Isto porque através desta respiração, não só descobre a origem de toda a força espiritual, como fará também que esta fonte brote sempre em abundância. Quanto mais relaxado estiver , mais ela flui pelos seus membros.
O acto de inspirar une e reúne, no suster da respiração atingimos o ponto em que tudo está certo, e o expirar liberta e consuma, vencendo todas as limitações."

-"Zen e a arte do tiro com arco" - Eugen Herrigel

Abri e li

Estive com os monges mais antigos, pintores e de mitos
pregoeiros sem cessar,
serenamente escreviam histórias e desenhavam runas da
celebridade.
E Vejo-te nos meus rostos com ventos, águas e florestas
sem par
murmurando à beira da Cristandade,
ó terra impossível de iluminar.

Quero narrar-te, quero contemplar-te e descrever,
não com vermelho acastanhado e com ouro, só com tinta de
casca de macieira;
também não posso com pérolas às folhas te prender,
e a mais trémula imagem que os sentidos inventam à minha
maneira,
tu o exagerarias cegamente pelo teu simples ser.

Assim quero as coisas em ti apenas modesta e simplesmente
nomear,
quero referir os mais antigos reis, donde vieram,
e quero seus feitos e batalhas à margem das minhas páginas
anotar.

Pois tu és o solo. As épocas são para ti apenas como o Verão,
e pensas nas mais próximas de modo semelhante às que passaram,
e se elas a fecundar-te mais profundamente e construir-te
melhor aprenderam:
apenas te sentes levemente tocado por parecidas colheitas que
são e foram
e não ouves nem semeadores nem ceifeiros que sobre ti a
passar vão.


-"LIvro das Horas" - Sr Rilke -

A partir de hoje, todos somos mortais

Quinta-feira, 25 de Junho de 2009

na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza

o que eu sei é que era capaz de ficar aqui para sempre.

olha que isto é rock a sério, dizem

os jesus the misunderstood chegaram às cinco da tarde e AINDA estão a fazer o som.
ainda não tenho qualquer informação relativa àquilo que o ricardo chamará a quem não vier hoje.

sim, porque a catarina, ah e tal

Berrou um pássaro. «Ah! Xiça! Xiça! - disse Jaimemorto. - Assustaste-me. E isto que ia tão bem. Doravante, só falarei de mim na terceira pessoa. É uma coisa que me inspira.»
Boris Vian, em O Arranca Corações, Estampa (nº 1 da colecção Livro B), 1970
vendedor de serviços móveis - boa tarde, seria possível falar com o responsável?
livreira - oh, não está.
v.s.m. - e quando é que será a melhor altura?
livreira - para ser franca, não sei muito bem. eles não aparecem muito.
v.s.m. (atrapalhado) - compreendo... hm... nesse caso talvez lhe pudesse apresentar os nossos serviços a si, e a menina transmitia o recado.
livreira - a mim? ah, não vale a pena. já olhou para isto? se eu mandasse aqui...
v.s.m. - então vou deixar o meu cartão e tento para a semana
livreira - sim, sim, vá tentando. os negócios andam muito mal, não andam? olhe, eu já não recebo há dois meses. se não fossem os meus pais estava feita ao bife. mas pronto, não quero deixá-lo mal impressionado, isto não é sempre assim...

admiráveis

Entrou, comprou o livro que estava exactamente ao lado do dele numa das nossas mesas para destaques e foi-se embora. Nos cinco minutos que isto durou, eu só pensava: digo ou não digo? digo ou não digo? digo ou não digo?

o caos, na poesia

livro das respostas, diz-me onde arrumo as pilhas de livros de poesia que já não cabem na secção que lhes foi destinada!

(FAÇA-SE OUVIR, foi a página em que o abri. Acho que algumas das minhas dúvidas existenciais devem estar de tal forma na epiderme que o livro, ao meu toque, se confundiu.)

das opções - parte 2

a) alhear-se a
b) compactuar com
c) tramar-se

da imagem

ao início da tarde passou por aqui um dos 300 leitores do Rui Pires Cabral. chegando ao balcão, disse-me: é preciso ter muito cuidado com o que se lhe diz, não se sabe o que vai escrever no blogue a seguir...
assim, para não embaraçar este cliente, não vou escrever sobre ele, guardando toda e qualquer impressão para mim.

das opções

repara, ana: ter opinião não é, nem nunca foi, uma vantagem.
suponho que a mania da sinceridade seja pura mimesis: às vezes lembro-me da minha mãe sentada na mesa da cozinha a acender um cigarro - uma amiga tinha acabado de lhe desligar o telefone na cara.
- mas o que é que lhe disseste?, perguntei.
- nada de especial - respondeu, com a incredulidade estampada na cara - só lhe perguntei como é que ela, que tinha tantos sonhos, se tinha tornado nisto.

ó francisco, anda cá ver isto

Muito quero, bem vês.
Quero tudo talvez:
a obscuridade de cada infinita caída
e o jogo tremeluzente de cada subida.
Tantos há que vivem sem nada querer,
sendo servidos pelo seu ligeiro entender
com sentimentos alisados.
Mas tu não deixas de por cada rosto te embevecer
(...)

De manhã é que começa o dia



Obrigado Daniel por esta banda sonora a caminho do ensaio

Quarta-feira, 24 de Junho de 2009

six become one

Também este senhor habita na Trama

Ao que parece vai sempre haver Sabato

"A prosa é o diurno, a poesia é a noite: se alimenta de monstros e símbolos, é a linguagem das sombras e dos abismos. Portanto, não há grande romance que em última instância, não seja poesia."

Com cinco letrinhas apenas, nos Oráculos de Cabeceira

As cidades doem, estão dentro de nós
mantidas por laços de fumo e desejo,
têm muros úteis e portas escondidas
que dão para a noite, como certos livros,
e há amores que vivem a horas tardias
e outros que se cortam no fio da trama,
queimam paus de incenso para abrir
caminhos, remover obstáculos, há curvas
e arcos, ecos desolados, quartos de ninguém.
As cidades cansam, estão nos nossos
dias, têm mil janelas de azul virtual
que nunca sossegam e nunca terminam
e há corpos que ensinam a temer a morte,
sombras que circulam nas redes do escuro
e homens que ferem para não chorar.
Rui Pires Cabral, em Oráculos de Cabeceira, Averno (2009)

La Révolution d'abord et toujours!

dúvidas de logística

em que secção é que se arruma o livro Os Nós - mais de 50 nós, dos mais úteis para o campismo, a vela desportiva, a pesca e o alpinismo?!

subinhados

"Ninguém comenta melhor a filosofia de um país que o seu exército, o modo como muitos patriotas se comportam no momento em que vencem. A filosofia de uma nação mede-se pelas crueldades médias da sua população mais simples."
Gonçalo M. Tavares, em Um Homem: Klaus Klump

Terça-feira, 23 de Junho de 2009

Álbum de família

Este livrito é uma pérola.
Da esquerda para a direita: Sr Pirandello, Sr Joyce, Sr Eliot, sujeito desconhecido, Sr Proust, Sr Conrad, Sr Dostoievski, Sra Woolf, Sr Mann, Sr Ibsen.

Como amanhã nem vou estar por cá, "não usarei os vossos insultos, podem retirá-los".
Ok, Sr Karamazov?

Como por cá a noite ainda é uma criança...



Sei que este video é um pouco lento ao início mas esperem que vale a pena.
This is what i call doublebass: Mr Holland a improvisar sobre Mr PC ( Paul Chambers)

O peso de Elsinore


"Com a minha avó, passei por um duro aprendizado."Seja fiel à história"- a velha bruxa costumava me dizer - "seja eterna e constantemente fiel à história. "E por que tenho de ser assim, vóvó?" - perguntei a ela."Por acaso estou aqui para lhe dar motivos, atrevida?" - gritou."E ainda pretende ser uma contadora de histórias! Bem, se você quer mesmo ser uma contadora de histórias, eu vou-lhe dizer a razão! Preste atençõa: quando o contador de histórias é fiel, eterna e constantemente fiel à história, então, no final, o silêncio se manifesta. Quando a história é traída, o silêncio que surge não é nada além de um vazio. Mas nós, os fiéis, quando tivermos falado a nossa última palavra, ouviremos a voz do silêncio. Quer uma pirralhinha irritante entenda isso ou não!"
"Quem, então - el continua - é capaz de contar uma história mais bonita do que qualquer um de nós? O silêncio. E onde se lê uma história mais profunda do que na página mais bem impressa do mais belo dos livros? Na página em branco. Quando a pena delicada e elegante, no momento da mais elevada inspiração, escreve a história com a mais rara das tintas - onde, então, leremos uma história ainda mais profunda, mais alegre, mais doce e mais cruel do que essa? Na página em branco."


"Entrevista Paris Review" - Karen Blixen/ "Isak Dinesen"

De França com amor


"É uma questão de linguagem. A linguagem é uma coisa que me seduziu. A linguagem é uma coisa que me perverteu. A linguagem é uma coisa que me formou. A linguagem é uma coisa que me deformou.É por isso que sou um poeta, provavelmente porque sou muito sensível à linguagem- correcta ou não, faço de conta que não vi. Ignoro e desprezo a gramática, que está às portas da morte, mas sou um grande leitor de dicionários e, se a minha ortografia é nula, certamente é porque sou muito atento à pronúncia, essa idiossincrasia da linguagem viva.
O importante não é o verbo, mas a frase, uma modulação.
Ouça o canto dos pássaros!"


"Entrevista Paris Review" - Blaise Cendrars

que esse corpo que há-de alastrar, é ainda uma possibilidade minha

o meu filho está sentado num banco e, com a guitarra no colo, inventa uma canção com flores, carros de polícia, pássaros e estrelas.
o meu filho está sentado num banco e eu não consigo deixar de pensar na distância que vai dos pés dele ao chão. como se, naqueles vinte centímetros, estivesse tudo o que eu percorri.
e eu olho e vejo as minhas pernas crescerem,
vejo as minhas pernas chegarem ao chão,
vejo que as minhas pernas estão ali,
que se enroscam,
da mesma maneira,
às pernas desse banco.
as minhas pernas que já não ficam suspensas no ar, como as deste filho, que baloiçam.
e então sinto que esse espaço por percorrer é mais vasto e impenetrável que a certeza de qualquer terra.

livros pendurados

às vezes vejo-os, estendidos, presos à corda por uma ou duas molas de madeira, as folhas a ondular, levemente, debaixo de um sol que cai.
noutras vezes são só um prédio numa cidade que envelhece ou a fila da repartição sem ar condicionado.

rádio zero

com algum atraso, o podcast do programa dedicado à reedição do primeiro livro do Miguel-Manso, Conta a Manhã Burra, editado pela Mariposa Azual. está também já disponível outra gravação, dedicada à poesia do Manuel de Freitas. vale a pena espreitar obrigada, gi.

Com cinco letrinhas apenas (sobre fundo laranja)

«E as famílias sabem: Uma cabeça de casal avança pela responsabilidade dentro até cair de cabeça num buraco, no outro lado, e ficar na contemplação do fundo e enfim aberto espelho dos mistérios. Há uma trama de pontos de onde se é humanamente visível, e coincidem ele todos na suposição de que um carácter e o movimento dele, que é uma vida, se exprimem no tempo e no espaço por uma linha peremptória, direita.»

Herberto Helder, Os Passos Em Volta, Assírio&Alvim (via rapaz das cores, a quem agradecemos)

posfácio

«Não podes entrar no Caminho enquanto não te tornares, tu próprio, esse Caminho.»
(Helena Blavatsky em A Voz do Silêncio)

antes que os olhos possam ver

«Há outra forma de ler, que é, na verdade, a única que se deve empregar para muitos autores. É a de ler, não entre as linhas, mas dentro das palavras.»
Mabel Collins, em Luz Sobre o Caminho, Assírio&Alvim, 2002, tradução de Fernando Pessoa

se é para todas as idades...

... talvez, lá para 2012, quando tiver férias, possa finalmente apanhar o comboio para Bratislava ou Ljubljana. (E se as férias forem por mais de uma semana, sigo para Istambul, depois para Sofia, passo por Bucareste, Belgrado, Sarajevo e Zagreb e acabo, finalmente, em Budapeste)
As coisas que a A. descobre





I started something I couldn't finish

cantarolava um garoto, a noite passada, pelas 23h37.
só pelas 02h52 me vi obrigada a responder-lhe: typical me, typical me.
Gatos - 3
Quando semi-acordam de um sono prolongado
olham o mundo pela ínfima fresta dos olhos
De muito longe, como se ele não merecesse mais
Rui Caeiro, O Carnaval dos Animais

Segunda-feira, 22 de Junho de 2009

Se o Sr Carver pintasse, este seria o resultado

por toda a parte, as cinco letrinhas

O relato confunde-se com a história, alia-se à sua trama e à sua espessura, a forma conduz o fundo.
(in "Teoria da Viagem - Uma Poética da Geografia" de Michel Onfray, Quetzal, Pg.109)

esta semana, cá em cima

jesus the misunderstood
€3,00

este já tem dono

alguém falou em teatro?

ana controla a situação

para começar, um shot

Água
Estabilizador: Sorbitol
Glicerina
Extractos de:
Paullinia cupana
Panax ginseng
Cola acuminata
Vitaminas C, B3, E, B6, B2 e B1
Aminoácidos
Aroma de limão (treta)

Domingo, 21 de Junho de 2009

a espera

segundo Almodóvar

Sábado, 20 de Junho de 2009

ele disse

um dia amarro-te a um poste
e eu li
um dia amarro-te a um post

O Tell Me the Truth About Love

Some say that Love's a little boy
And some say he's a bird,
Some say he makes the world go round
And some say that's absurd:
But when I asked the man next door
Who looked as if he knew,
His wife was very cross indeed
And said it wouldn't do.
Does it look like a pair of pyjamas
Or the ham in a temperance hotel,
Does it odour remind one of llamas
Or has it a comforting smell?
Is it prickly to touch as a hedge is
Or soft as eiderdown fluff,
Is it sharp or quite smooth at the edges?
O tell me the truth about love.

(1940)
W. H. Auden, em Outro Tempo, Relógio D'Água, 2003

ao que parece, vai sempre haver sábados

como é que passas um dia inteiro a pensar na frase idiota que alguém te disse, numa discussão com um cliente, num artigo de uma revista e, vives a morte de v. como um longo esquecimento apenas interrompido por uma ou outra lembrança?
*
v, vinte e três anos, desapareceu.
*
não tens nada para dizer. morrem milhares de pessoas em guerras, dilúvios, terramotos. não tens nada para dizer. a morte não te tira o apetite, nem a sede, nem o sono. sobre a morte particular de alguém que nomeavas, «foi um bom homem», e não tens nada para dizer - embora te perguntes, várias vezes ao dia, porque razão não perdeste nem a fome, nem a sede, nem o sono.
*
a mãe sobrevive. não sente o corpo. obrigam-na a tomar medicamentos, dizem-lhe que deve descansar, comer. a mãe não se esquece.
*
e tu, que há vinte e duas horas existes com a notícia da morte de v., quantas vezes te sentiste feliz? quantas vezes te riste com vontade? quantas vezes comeste, bebeste, quantas vezes digeriste, urinaste, sentiste calor, transpiraste, quantas vezes notaste que nada parou, dentro e fora, quantas vezes celebraste os teus pequenos sucessos, quantas vezes acendeste um cigarro, quantas vezes olhaste para ti, quantas.
*
estás outra vez horrorizada com a sobrevivência.

Sexta-feira, 19 de Junho de 2009

Fechamos a alma , ao fim do dia com estrondo e animação 3



(isto não é menos que um solo bluesy do Sr Joe Henderson)

O bom gosto de ana

Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.


- Carlos Drummond de Andrade -
( espécie de resposta a perguntas que o Sr Michaux e Sr Blanchot deiaxaram na minha cabeça há um bom par de meses)

Trama a Oriente


...vivendo somente para o momento,
contemplando a lua, a neve,
as cerejeiras em botão, as folhas de outono,
fruindo saquê, mulheres e música,
e apenas flutuando na correnteza da vida
como uma cabaça
rio abaixo.

Quinta-feira, 18 de Junho de 2009

Visão de CLarice


Clarice
veio de um mistério, partiu para outro.

Ficamos sem saber a essência do mistério.
Ou o mistério não era essencial. Essencial
era Clarice viajando nele.

Era Clarice bulindo no fundo mais fundo,
onde a palavra parece encontrar
sua razão de ser, e retratar o homem.

O que Clarice disse , o que Clarice
viveu para nós
em forma de história
em forma de sonho de história
(no meio havia uma barata ou um anjo?)
não sabemos repetir ou inventar.
São coisas, são jóias particulares de Clarice,
que usamos de empréstimo, ela é dona de tudo.

Clarice não foi um lugar comum .
carteira de identidade, retrato.
De Chirico a pintou? Pois sim.
O mais puro retrato de Clarice
só se pode encontrá-lo atrás da nuvem
que o avião cortou, não se percebe mais.

De Clarice guardamos gestos. Gestos,
tentativas de Clarice sair de Clarice
para ser igual a nós todos
em cortesia, cuidados materiais.
Clarice não saiu, mesmo sorrindo.
Dentro dela
o que havia de salões, de escadarias,
de tetos fosforescentes e longas estepes
e zimbórios e pontes do Recife em bruma envoltas
formava um país, o país onde Clarice
vivia, só e ardente, construindo fábulas.

Não podíamos reter Clarice em nosso chão
salpicado de compromissos . Os papéis,
os cumprimentos falavam em agora
em edições, possíveis coquetéis
à beira do abismo.
Levitando acima do abismo Clarice riscava
um sulco rubro e cinza no ar e fascinava-nos.

Fascinava-nos, apenas.
Deixamos para compreendê-la mais tarde.
Mais tarde, um dia...saberemos amar Clarice.



- Carlos Drummond de Andrade -

Poema Equatorial

"tá demasiado calor
seja p'ró que fôr"

levitating...or already crying?

encontrei hoje escrito no quadro da trama

Jesus - € 700.000,00
quem terá sido?

querida anita

a noite passada foi supercalifragilisticexpialidocious ou qualquer coisa parecida.
o nuno leu poemas fabulosos, o fernando sabe o que faz.
no fim, micro aberto e até comigo tiveram que gramar. o joão saiu do armário e entrou na jam, o ricardo tocou dois clarinetes ao mesmo tempo, fomos de cesariny a cernuda, e por aí fora, toda a gente inspirada.
devo desde já dizer que hoje já recebi (e pronunciei) diversas queixas de dores de cabeça, mas não acredito que estejam relacionadas com o vinho branco.

coisas que chegam pela manhã

com cinco ou seis letrinhas apenas

hoje


and it's all
and it's all
and it's all
and it's all
it's alright
it's alright

Quarta-feira, 17 de Junho de 2009

Só postei para dizer...


que quem não vier hoje é claramente uma Bromelia mantícula de Urborg.


ao difícil leitor, também conhecido pela sua sabedoria zen

- Conhece aquela história de um sábio chinês que um dia pensou assim: «Se eu cortar esta bengala ao meio, e nos dias a seguir fizer a mesma coisa com uma das metades, nunca mais acabo. E assim torno-me imortal.»
- Não conhecia essa versão.
- Contou-ma um indiano.
- Yoga, místico?
- Não. Comerciante, natural de Moçambique. Um mestre da divisão. Era capaz de dividir um frango por trinta e seis pratos, uma raiz de gengibre em oitocentos e sessenta pedacinhos. Sem se cortar.
- Bom, já faliu ou mudou de ramo?
- Muito pior. Agora anda a juntar os pedacinhos da bengala, se assim se lhes pode chamar, porque julga que poderia compreender melhor o sentido da parábola se conseguisse recuperá-la.
Dimitir Ánguelov, Trinta Contos Até ao Fim da Vida, &etc, 1998

42

Depressa antes de
talvez seja o acto de ser numa folha
talvez o sangue ascenda à lâmpada da língua.
Quando (aqui: é o desejo) a folha
na limpeza do vento
descubra as brancas pernas altas da mulher
a alegria da nudez
do súbito do ser.
Depressa na lentidão do acto azul
por dentro do opaco na direcção partida
fora do círculo no aberto instante.
António Ramos Rosa, O Incêndio dos Aspectos, Na Regra do Jogo, 1980 (prefácio de Vergílio Ferreira)

a maior divergência entre eles sempre foi na Arte:
ao que parece, têm ideias diferentes. de resto, corre tudo bem.

o que sabe não diz

Não tenho uma língua
Exclusiva da expressão
Porque penso e mordo
__________________
O olhar diz tudo
O que é preciso saber
Do corpo biográfico
________________________
Fazes sem saber
E assim vais sendo
O que não sabias
_______________
Suffit Kitab Akenat, Máximas Mínimas e Outros Textos, Landy, 2003

acabou de chegar

é só para nós, se quiser ouvir basta passar por cá, vai estar a tocar o dia inteiro
fotografia: José Cabral

«he loved beauty that looked kind of destroyed»

Gostava dessa espécie de beleza
que podemos surpreender a cada passo,
desvelada pelo acaso numa esquina
de arrabalde; a beleza de uma casa devoluta
que foi toda a infância de alguém,
com visitas ao domingo e tardes no quintal
depois da escola; a beleza crepuscular
de alguns rostos num retrato de família
a preto e branco, ou a de certos hotéis
que conheceram há muito os seus dias de fulgor
e foram perdendo estrelas; a beleza condenada
que nos toma de repente, como um verso
ou o desejo, como um copo que se parte
e dispersa no soalho a frágil luz de um instante.
Gostava de tudo isso que o deixava muito a sós
consigo mesmo, essa espécie de beleza
arruinada
onde a vida encontra o espelho mais fiel.



(curiosamente, tinha notado ontem que o Colaboração, do Henry James, tinha perdido o cheiro com que chegou, pela mão do editor. para compensar, o novo livro do Rui Pires Cabral tem exactamente o mesmo cheiro. não sei de que material é feita a capa mas, para mim, estes livros cheiram a julho)

o livro sem fim



era uma vez um livro - Companhia das Letrinhas

com cinco letrinhas apenas

"(...) Curioso o facto de uma novela tão americana na sua trama essencial tocar o leitor de cultura muito diferente pelo jogo de emoções e temas. Apesar de, no fundo da alma, Hawthorne ser um moralista severo, é capaz de flagelar com arrebatamento e severidade essa parte de si mesmo, na autocrítica arrepiante a que procedeu toda a sua vida."
António Lobo Antunes, do prefácio de A Letra Encarnada de Nathaniel Hawthorne, D. Quixote.
(via bond, francisco bond)

Terça-feira, 16 de Junho de 2009

o blog que quer deixar de fumar #8

fumar bloqueia as artérias e provoca ataques cardíacos e enfartes.
(nunca é de mais relembrar)

andrew hem

esta vossa humilde serva

despende muito tempo neste blogue e tem a sensação que o sócio, também conhecido por max e que está há 47 horas a introduzir os livros novos no sistema, irá subir as escadas e mandar dois ou três berros: mas isto ainda não está arrumado, sua, sua, sua... néscia?

olh'ó passatempo!

A Trama e a Merzbau têm 3 convites individuais e um convite duplo para oferecer para o concerto do Noiserv, no dia 20 de Junho pelas 23h no bar O Século (Bairro Alto).
Para ganhar um convite individual basta que responda à questão: EM QUE DIA FOI O PRIMEIRO CONCERTO DO NOISERV (o primeiríssimo na história da Humanidade)?
Para ganhar o convite duplo, para além de responder à questão acima indicada, deverá dizer-nos que música estava o Noiserv a tocar na foto que aqui deixamos.

As repostas deverão ser enviadas para o mail livraria.trama@gmail.com com o nome e o número do B.I.

na quarta à noite

http://ficoatetardenestemundo.blogspot.com/

na quinta à tarde

pelas 16h30, entrada livre
http://www.cooperativaliteraria.net/

na quinta-feira à noite

concerto dos EU?
€5,00 com oferta da revista Bíblia

na sexta-feira

cinema - entrada livre
21h30 - Dou-te Os Meus Olhos
00h00 - Persepolis
com bolinhos&refrescos

para oferecer numa despedida de solteiro, por exemplo

€12,00

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