«Ele que deixasse os livros, diziam, para os paralíticos e os moribundos.»

Segunda-feira, 31 de Agosto de 2009

«I don't do TV's»




Trust

e finalmente, SETEMBRO

A Trama está morena, ainda anda de chinelos e traz restos de areia nos bolsos das calças.
Mas se há coisa que nos fez falta em Agosto foram os concertos.
Aqui ficam os dois primeiros cartazes que a Rita Lino fez para a nova série [10:10] coordenada pela Sara Franco.
Cá estaremos, das dez da manhã até às horas que nos apetecer.
Como sempre, como dantes.




clicar para ler a biografia da Rita

respostas

"E se estivesse na pausa e não no assobio o significado da mensagem? Se fosse no silêncio que os melros falam uns com os outros? (O assobio seria neste caso um mero sinal de pontuação, uma fórmula como «terminado»). Um silêncio aparentemente igual a outro silêncio poderia exprimir cem intenções diferentes; também um assobio, por outro lado; falar-se, calando-se ou assobiando, é sempre possível; o problema é entender-se. Ou então ninguém pode entender ninguém: cada melro pensa ter posto no assobio um significado fundamental para si, mas que só ele próprio entende; o outro responde qualquer coisa que não tem nenhuma relação com aquilo que ele disse; é um diálogo entre surdos, uma conversa sem pés nem cabeça."
Italo Calvino, Palomar

perguntas

«O que temos em comum é precisamente aquilo que é dado a cada um como exclusivamente seu?»
Italo Calvino, Palomar

o blog que quer deixar de fumar #10

o blog que quer deixar de fumar já deitou dois maços fora, já foi à farmácia sacar informações sobre todo o tipo de drunfos (e já sabe que para a semana vai lá estar uma máquina que mede os níveis de CO2), já fez uma lista de razões para deixar de fumar bem como uma lista de prémios se deixar de fumar (que passa por ténis de todas as cores, viagens para dentro lá fora e até depilação a laser), já fez uma tabela em excel com números sempre a subir por cada dia sem cigarros, já mandou mensagens a médicos, já pediu ao filho para lhe chamar nomes de cada vez que acender um cigarro, enfim, já fez trinta por uma linha e continua com a sensação que a única coisa a fazer é acender outro cigarro e ir trocar o dvd.

Para selar a conversa com o Rui Almeida

"Há um mundo onde as idades não são iguais, onde os sexos não são indiferentes, onde os papéis não são equivalentes, onde as civilizações não são confundíveis.
Há um mundo onde o ignorante não equivale ao sábio, onde o oral não tem a mesma voz que o escrito, onde o Vulgos não é o mesmo que o Atomos , nem o bárbaro o mesmo que o civilizado.

Há outro mundo


-"Sombras Errantes"- Pascal Quignard

Catarina, desculpa lá, mas isto é claramente uma resposta



"Mal a manhã arde, nela acendo a minha chama,
Procurando que o sopro da vida a não apague.
Escrever me chama. Por inteiro minha atenção deponho
A vossos pés_imagens nuas_, hoje uma casca
De árvore. A intensidade substitui o tempo, a serenidade,
O espaço, pois a luz da chama, minha nova extensão
Espiritual, corre para a casca da árvore Que escreve.
Corre e sinto-me vagabunda, num errático sem qualquer
Relação comigo, somente com a árvore que desperta
Para o profuso florescimento dos seus efeitos. É difícil
Compreender a simplicidade emocional. A sua cor é
Quase sempre azul ( mas nem sempre) e sempre
Sentada aos pés das imagens nuas___________ "


"O começo de um livro é precioso"-Maria Gabriela Llansol
Imagem - Alechinsky


"I love a flower that slowly blossoms"

Kiki Smith


"Também se pode deixar cair a alma. Dá-se na troca dos passeios.
Dou-me conta. Não me iludo.
Frases breves e passos breves.
Nesta vista cresci, mesmo se por vezes meu movimento se coalha
De reflexos multiplicados. Sempre terei de comer e de beber.
O que mais noto para comer é o silêncio.
No que reparo mais para beber é a cor."


-"O começo de um livro é precioso"- Maria Gabriela Llansol

da identidade

parece-me cada vez mais importante anunciar as diferenças. consciente de que o assunto não interessa a todos, parece-me que a coisa pode ir lá com uns quantos berros, sempre se alarga o número de ouvidos. para já, há uma frase que me anda a perseguir há uns meses:
aqui, só os livros estão à venda

por razões exclusivamente plásticas, ainda não a afixei onde todos a possam ver. tentei, é verdade, com canetas especiais compradas numa papelaria quase falida cá do bairro. mas falta-me a mão para as artes gráficas e a frase ficou suspensa. desta semana não passa. é preciso assegurar aos que passam: podem fazer perguntas.
são tão aborrecidas todas as generalizações. são tão aborrecidas as pessoas que não fazem outra coisa se não debitar sentenças sobre isto e aquilo, coisas que, na maior parte dos casos, nem conhecem assim tão bem. como é aborrecida a falta de critério, a falta de exigência, a falta de atenção.
dos tipos que fazem livros aos tipos que vendem livros, poucos são aqueles que estão dispostos a ter uma identidade. felizmente ainda há alguns, normalmente os mais silenciosos. falar alto nunca foi coisa que rendesse, já se sabe: fomos educados para falar baixinho.

Abrimos a Trama com estrondo e animação




Lembrando Paredes de Coura

o escritor


Stalker
Andrei Tarkovsky
(1979)

Domingo, 30 de Agosto de 2009

ele voltou

e a falta que me fazia sentar-me aqui
mããããe
escrever duas linhas
mããããe
fumar um cigarro à janela
ó mãããe
atender o telefone
quem é, mãe?
ir à cozinha
posso dormir contigo, mãe?
ligar a televisão
posso ver bonecos, mãe?
mãe, anda cá.
ó mãe um dia podemos andar de carruagem?
mãe
mãe
mãe?

Sábado, 29 de Agosto de 2009

coisas que fazem com que isto valha mesmo a pena


Do Deslumbramento



Dois p.s. a um poema


Certo poema imaginou que a daria a ver
(sua pessoa , fora da dança) com o fogo.
Porém o fogo, prisioneiro da fogueira,
tem de esgotar o incêndio, o fogo todo;
e o dela, ela o apaga ( se e quando quer)
ou o mete vivo no corpo: então, ao dobro.


*

Certo poema imaginou que a daria a ver
(quando dentro da dança) com a chama:
imagem pouca e pequena para contê-la,
conter sua chama e seu mais-que-chama.
E embora o poema estime que a imagem
não conteria tudo dessa chama sozinha,
que por si se ateia ( se e quando quer),
de quanto o mais-que-chama não estima;
pois vale o duplo de uma qualquer chama:
estas só dançam da cintura para cima.

-"Educação pela pedra" - João Cabral de Melo Neto

Bom dia - versão soco no estômago



"Jean Genet assumia-se como Jean Genet
: abandonado pela família, parecia natural que eu agravasse o meu caso com o amor aos rapazes, ou com este amor pelo roubo, ou pelo roubo no crime, ou pela complacência perante o crime. - Ao contrário de vós, decidi viver de cabeça baixa e prosseguir o meu destino em direcção à noite, e explorar o contrário da vossa beleza."

Bom dia - versão cafoné




Descoberto ontem na companhia de amigos.
Mesmo dormindo apenas duas horas, vale mesmo a pena.

como?

deixa-me dizer-te que estou firmemente convencida que, por cada rapaz que sofre em Lisboa, há uma velhinha que morre em Viseu.
por cada rapaz que não sofre, morrem duas.

brian rea

cave

Babe
It seems so long
Since you've been gone away
And I
Just got to say
That it grows darker with the day

5

a escrita surge, inesperadamente, a meio de uma tarefa. sem importância, digo, ou penso, a escrita surge quando não faz diferença, quando não é necessária. nunca escrevi uma linha de jeito desejando fazê-lo.
(dei em ter medo de pequenas sombras. um pequeno reflexo numa superfície brilhante pode deixar-me em sobressalto por algum tempo. a minha sombra, se duplicada no chão, assusta-me um pouco. nada disto tem que ver com a escrita, claro. mas não sei o que fazer com as horas que tenho pela frente.)

Sexta-feira, 28 de Agosto de 2009

o livro com a badana mais bonita da história da literatura


perdeu
perdeu gozo
saber de cor
a canção"

é claro que, para ver a badana, terá que se dirigir aqui ao botequim

why we love adília

o leite da vida
"A madrasta, quando a princesa começava a entrar na puberdade, atou-lhe o peito com faixas de linho porque não queria que a princesa tivesse maminhas.
- É para teu bem. - disse a madrasta - Nunca tires as faixas, senão morres.
Mas era para mal da princesa. Debaixo das faixas de linho cresceram duas maminhas muito pequeninas e muito defeituosas.
A madrasta não queria que a princesa tivesse um amante e por isso não queria que a princesa tivesse maminhas. Mas um dia a princesa a passear no bosque encontrou um amante e um amante encontrou-a a ela. O amante era chinês. Na China, naquele tempo, fazia-se aos pés das mulheres o que a madrasta tinha feito ao peito da princesa.
O chinês desatou as faixas de linho com muito cuidado, como quem desembrulha o Menino Jesus, mal a princesa se despiu para ele no bosque. Beijou com muita delicadeza cada maminha da princesa e disse à princesa:
- Deixa-me apresentar-te as tuas maminhas.
A princesa ficou tão contente por ter duas maminhas como quase todas as mulheres, ela que andava tão triste por não ter maminhas nenhumas, que do mamilo esquerdo nasceu uma rosa e do direito um cravo.(...)"
Adília Lopes, em A Bela Acordada (livro incluído na Obra que a Mariposa Azual publicou no ano 2000)

Viagem ao país das rosas




O viajante chegou primeiro que o postal.
Foram recebidos entre livros, vinho e histórias.
À boa maneira tramada.

um convite aos transeuntes


é importante dar o exemplo...


a partir de agora «parapeitar» vai deixar de ser um exercício fútil de partilha de banalidades. ou não.

Gosto de objectos precisamente indefinidos

coisas que fazem com que isto valha mesmo a pena



Celadon dá notícias.

Da arte como íman 1 - Ela não é burguesa !



Por terras de Paris de França, vi pela primeira vez a obra desta senhora.
Incrível a personalidade, capaz de se destacar entre milhares de obras expostas no Pompidou.
Apontar na agenda, por favor: "Na próxima visita à Trama não esquecer de espreitar o catálogo da Sra Louise Bourgeois."

livros que me querem

alter-ego


simulacro e renúncia

as mulheres adoram os poetas. as mulheres ouvem os poetas de olhos arregalados, acreditando que naquelas palavras está a salvação eterna. as mulheres escrevem frases tolas para mostrarem aos poetas. querem dizer que os compreendem, que são feitas da mesma matéria translúcida. e depois as mulheres encontram outras mulheres nos poemas dos poetas e ficam loucas. mas as mulheres não têm coragem para rasgar os papeis dos poetas, porque são divinos. as mulheres querem dormir com os poetas, acordar com os poetas, pousar para os poetas, inscrever-se na história dos poetas. e se alguém ataca um poeta vem logo uma mulher para o defender. as mulheres suspeitam que os outros têm inveja dos poetas e por isso também as outras mulheres têm inveja das mulheres dos poetas.

Quinta-feira, 27 de Agosto de 2009

(O verdadeiro) Livro das Respostas



"O poema está sempre casado com alguém.
Heraclito sublinha a aliança exaltante dos contrários. Vê nelas em primeiro lugar a condição perfeita e o motor indispensável à produção da harmonia. Já aconteceu , em poesia, surgir no momento da fusão desses contrários um impacto sem origem definida cuja acção dissolvente e solitária provoca o deslizar de abismos que conduzem o poema de um modo bastante anti-físico.
O poeta pode então ver os contrários - essas miragens pontuais e tumultuosas - completar-se, a sua linhagem imanente personificar-se, pois, como se sabe, poesia e verdade são sinónimos."


- "Furor e mistério" - René Char -

«What are you looking for in a man?»

«MOLLY, MY SISTER, AND I FELL OUT,
AND WHAT DO YOU THINK IT WAS ABOUT?
SHE LOVED COFFEE, AND I LOVED TEA,
AND THAT WAS THE REASON WE COULDN'T AGREE»

Alberto Pimenta, em Tijoleira, &etc (2002)
e onde certo livro estava, surge agora um espaço vazio. já foi.

brad mehldau

Chama dupla (ou do que há pr'aqui escondido)



"Porque não sei dizer-te sem milagres
que dentro de mim é o sol, o fruto,
a criança, a água, o deus, a mãe,
o amor,

que te procuram.



( quando li este livro, este verso do Sr Herberto não me saía da cabeça.
Octavio Paz no seu melhor)

I keep the wolf from the door but he calls me up

«francamente não me recordo se nessa noite nos suicidámos»

«(...) um companheiro com quem tinha começado a comentar essa vacuidade revelou-lhe o seu erro e deixou-o perceber para sempre que um indivíduo não deve diferir da espécie.»

(Tio Borges n'O Fazedor, acerca de um homem que escolheu a representação)

Como quem diz: BOM DIA !



Não deixes o cansaço instalar-se
em vez disso
silenciosamente
como a um pássaro
estende a mão ao milagre


-"Estende a mão ao milagre"- Hilde Domin

Quarta-feira, 26 de Agosto de 2009

na riqueza e na pobreza

há sempre um compromisso quando se compra um livro. o gesto da compra - ou do resgate - é apenas o princípio desse compromisso (estás melhor comigo em casa do que aqui, eu estou melhor contigo em casa do que sem ti).
depois, à medida que o tempo passa - e o livro espera - outros sinais vão sendo manifestados. a culpa, o desejo, a impaciência.
e há o compromisso com o livro lido, de memória, de expressão, de continuidade.

do trabalho do livreiro

gosto de pensar que a livraria tem duas vidas, dois rostos: um, diurno, que se projecta, e outro, nocturno, que, de porta fechada, se fecha sobre si mesmo.
amanhã, quando a primeira pessoa entrar e subir a escada, não vai saber que tudo está diferente nem quantos cigarros fumei enquanto aqui passava a noite nem quantas vezes parei incapaz de ultrapassar certo título.
e nos livros não vão ficar marcas, as mudanças serão invisíveis - nela, livraria, e em mim. eu, que não consigo escrever um texto se este não estiver justificado, que não consigo pensar se não fizer parágrafos, definitivos, concentro-me inexplicavelmente na disposição das coisas: este livro aqui, aquele ali. e não faz sentido que seja de outra maneira, é como se os lugares já estivessem marcados, como numa festa para a qual fomos convidados e não conhecíamos ninguém.
e amanhã vou espreitar as pessoas que aqui entrarem, vou ver em que livros tocam, quantas páginas lêem enquanto ponderam comprometer-se.

Até parece que estou a ver a cara de um senhor a cobiçar




Olhó que chegou ou Big in Trama

Do pior dos vícios



"A indiferença dissolve a linguagem, baralha os sinais. És paciente e não esperas, és livre e não escolhes, estás disponível e nada te mobiliza. Não pedes nada , não exiges nada, não impões nada. Ouves mas nunca escutas, vês mas nunca olhas: as fendas do tecto, os tacos do soalho, o desenho dos ladrilhos, as rugas em redor dos teus olhos, as árvores, a água, as pedras, os carros que passam, as nuvens que desenham no céu formas de nuvens.

Agora vives no inesgotável. Cada dia é feito de silêncios e de ruídos, de luzes e de negro, de espessuras, de esperas, de arrepios. O que importa é perderes-te mais uma vez, para sempre, cada vez mais, vaguear sem fim, encontrar o sono, uma certa paz do corpo: abandono, lassidão, entorpecimento, deriva. Deslizas, deixas- te afundar,ceder: procurar o vazio, evitá-lo, caminhar, parar, sentares-te a uma mesa, encostares-te, estenderes-te."

-"Um homem que dorme" - Georges Perec

bom dia!










Terça-feira, 25 de Agosto de 2009

só mais uma coisa, e. boa noite

"Uma barriga que tanto dói quando como, como quando não como. Dói, simplesmente. Do mesmo modo, ou de um modo completamente diferente, que me dói a garganta a cada cigarro que fumo. Fumo, claro, de cada vez que me apetece, fingindo indiferença à dor, quase como quando escrevo fingindo indiferença ao sono."
(prova da vasta produtividade literária desta noite, ao som de uma música chamada
"I can´t feel my hand anymore", o que faz um certo sentido)

não

uma tipa vem para aqui, escreve sobre isto e sobre aquilo e depois não faz mais nada, claro, não vê o filme que O das fotografias lhe emprestou há três meses, nem o que o Pop-up lhe trouxe há que séculos, não ouve os não-sei-quantos álbuns que o Cuco, entre outras coisas lhe colocou numa pasta (atenciosamente intitulada "os álbuns que mereces"), não avança grande coisa nas leituras (embora observe com algum assombro o tamanho da pilha dos "próximos"), não apanha a roupa, não lava a loiça, não faz o raio da sopa, não desenha, não termina a prenda de aniversário da avó, não dobra a roupa, não escreve uma carta, não penteia os gatos, não muda os lençóis, não sacode as almofadas, não consolida uma só ideia, não concebe qualquer projecto, não manda uma sms, não actualiza o myspace nem o facebook, não come o queijo fresco, não despeja o cinzeiro, em suma, assumindo que a inexistência de uma mesa ou de uma cadeira nesta casa não ajuda,
talvez seja altura de levantar o cu do chão.

quero dizer

poderá uma palavra tornar-se verde?

e depois

ponho-me a pensar no tempo que passou entre aquela dedicatória e este preciso momento e pergunto-me se, como uma qualquer tatuagem, ao fim de não sei quantos anos, estas palavras poderão mudar de cor.

as dedicatórias nos livros

Para a Catarina
estórias que nos são familiares: procurar sentidos onde raramente estes se encontram; encontrar sentidos onde raramente procuramos.
Como palavras, nós; como nós, uma personagem, um teatro, uma acção.
Eleva-te.

(na primeira página do meu Palomar, Ana)
Foi este o canto do celebérrimo aedo. Mas Ulisses derretia-se
a chorar: das pálpebras as lágrimas humedeciam-lhe o rosto.
Tal como chora a mulher que se atira sobre o marido
que tombou à frente da cidade e do seu povo, no esforço
de afastar da cidadela e dos filhos o dia impiedoso,
e ao vê-lo morrer, arfante e com falta de ar, a ele se agarra,
gritando em voz alta, enquanto atrás dela os inimigos
lhe batem com as lanças nas costas e nos ombros
para a arrastar para o cativeiro, onde terá trabalhos e dores,
e murchar-lhe-ão as faces com o pior dos sofrimentos -
assim Ulisses deixava cair dos olhos um choro confrangedor.

com aquelas cinco infantis letrinhas

"Que relações existem sobre estes cinco*, além do acaso temporal do seu nascimento? A história tonitruante do seu século tê-los-á afectado de maneira diferente. Para Hemingway, a Grande Guerra foi a verdadeira inicição, a entrada na idade dulta, e no seu personagem de 'herói'. De maneira diferente, sob o avatar da Revolução de Outubro de 1917, foi também a curva da vida de Nabokov. Nunca mais regressaria à Rússia. O exílio, a migração linguística, tornam-se a própria trama da sua existência."
* Hemingway, Nabokov, Borges, Michaux e Kawabata.
(
Esta ideia das 'paisagens originais' surgiu-me de imprevisto: escrevi num romance (O Cerco de Cartum), uma frase onde referia que, ao longo da vida, nunca deixamos as paisagens da infância - qualquer coisa semelhante a isto. (...) Essa é uma verdade que se pode aplicar à literatura: os lugares dos anos de aprendizagem devem emitir, ao longo de toda a obra de um escritor (...) qualquer coisa de comparável àquilo que em Astrofísica se chama, creio eu, uma 'irradiação fóssil': uma espécie de assinatura do original.
in Paisagens Originais [Paysages Originels] de Olivier Rolin

tradução de Jorge Fallorca
Edições Asa, 2000. 1ª edição, p 111.
cortesia do Sr. C.O. (2?)

a sinceridade é um exercício duro

e leio então livros sobre o zen. e presumo que seja só mais uma forma de encontrar qualquer coisa, uma pista, uma luz, um «ah, então é isto». mas. passo o dia na livraria. e falo, falo, falo. sempre com a mesma sensação de estar a um passo de qualquer coisa.
e leio sobre a importância de nos conhecermos a nós próprios e não percebo como se faz. e falo, falo, falo, para depois, quando finalmente estou calada, ter a absoluta certeza de que, se houver uma chave, está naquilo de que não falei, e que nem sequer sei o que é.
pensas de mais, dizem-me. mas pode ser de outra maneira?

é assim que te digo bom dia

diz-me o J.L. Borges no 58: que espaço ou coisa física desaparece quando tu morreres?
antes tinha-me explicado que as coisas se mantêm vivas até que os últimos olhos que as puderam ver se fecham, para sempre. é assim com cada batalha, foi assim com aquele que morreu na cruz, desaparecido para sempre com a morte do último em cuja memória ele vivia. e é assim com a madeira de uma mesa, o vidro de uma paragem de autocarro, uma tarde chuvosa.
«Feitos que povoam o espaço e que chegam ao fim quando alguém morre podem maravilhar-nos, mas uma coisa, ou um número infinito de coisas, morre em cada agonia, salvo se existir uma memória do universo, como conjecturaram os teósofos. No tempo houve um dia que apagou os últimos olhos que viram Cristo; a batalha de Junín e o amor de Helena morreram com a morte de um homem. Que morrerá comigo quando eu morrer, que forma patética ou inconsistente perderá o mundo?»
(O Fazedor)

red alert, red alert

The ultimate Truth is beyond words. Doctrines are words. They're not the Way. The Way is wordless. Words are ilusions.
(dizer com palavras que as palavras não servem. ou de como a leitura dos ensinamentos zen de Bodhidharma podem deixar uma pessoa muito confusa...)

Segunda-feira, 24 de Agosto de 2009

o santo padroeiro dos livreiros

deve estar furioso comigo, tão baixa foi a produtividade de hoje.

gosto de os ver fugir




carll cneut

coisas que caem como bombas

"Despedir-se é negar a separação, é dizer: Hoje fingimos que nos separamos, mas ver-nos-emos amanhã."
Jorge Luís Borges, O Fazedor, página 27, Difel

those dancing days


«Audrey Hepburn - a woman, the style»

outono


curiosidade temporal

entre o gesto da escrita
o gesto do carteiro
(e quem escreve pode ser também o carteiro)
e o gesto da descoberta
podem passar-se três ou quatro dias.
e o que é que esses dias podem fazer a uma simples frase?

caro francisco n.


O que torna isto muito engraçado é que, esta manhã, alguns minutos antes de sair de casa, e ainda antes de saber que o Jorge Luís Borges faria hoje 110 anos, resolvi pegar em dois livros: o Palomar, do Italo Calvino, e O Fazedor, do senhor Borges, que me apetecia reler. Parece-me que há aqui uma trama qualquer e que leitores e livreiros seguem rotas paralelas. Ou então é uma simples (feliz) coincidência.
Aqui deixo os excertos que assinalaste:
"Para os dois, para o sonhador e o sonhado, toda essa trama foi a oposição de dois mundos: o mundo irreal dos livros de cavalaria, o mundo quotidiano e comum do século XVII."
O Fazedor
(página 45, edição da Difel)
"Peguemos num exemplo clássico na arte borgesiana: o seu conto mais famoso: O jardim dos caminhos que se bifurcam. O entrecho patente é o de um conto de espionagem convencional, uma trama aventurosa condensada numa dúzia de páginas e um pouco puxada pelos cabelos para chegar a um final de surpresa."
Porquê Ler os Clássicos? de Italo Calvino (página 239, edição da Teorema)

workin' late

eu, que nem tenho medo da gatunagem, estremeço sempre que estou no piso de cima e alguém empurra a porta lá em baixo. é tão grande o susto que nunca tento ir ver quem é. se calhar está na hora de ir para casa.

1 - 20 of hundreds

aquilo começa assim:
organizado
por data
ou por nome
no fundo
é logo arquivo