
Dois p.s. a um poema
Certo poema imaginou que a daria a ver
(sua pessoa , fora da dança) com o fogo.
Porém o fogo, prisioneiro da fogueira,
tem de esgotar o incêndio, o fogo todo;
e o dela, ela o apaga ( se e quando quer)
ou o mete vivo no corpo: então, ao dobro.
*
Certo poema imaginou que a daria a ver
(quando dentro da dança) com a chama:
imagem pouca e pequena para contê-la,
conter sua chama e seu mais-que-chama.
E embora o poema estime que a imagem
não conteria tudo dessa chama sozinha,
que por si se ateia ( se e quando quer),
de quanto o mais-que-chama não estima;
pois vale o duplo de uma qualquer chama:
estas só dançam da cintura para cima.
-"Educação pela pedra" - João Cabral de Melo Neto