«Ele que deixasse os livros, diziam, para os paralíticos e os moribundos.»

Quarta-feira, 30 de Setembro de 2009

o homem da quarta-feira #7



"Não se abandona o movimento para procurar a tranquilidade. Pelo contrário, deve-se procurar a tranquilidade no seio do movimento. Dentro do movimento há uma eterna tranquilidade. Movimento e tranquilidade jamais estiveram separados."

Seng-Chou (374-414)

I gained it so,


By climbing slow,

By catching at the twigs that grow
Between the bliss and me.

insisto: carregar muitas vezes no enter não é poesia


um de nós terá de dançar
desculpa (dei
cabo
do
vinho
francês)

diverte-me

particularmente que apenas os leitores do blogue saibam quem escreve o quê. é que o facebook importa estes textos todos mas sem assinatura.

das entrevistas

O Jornalista - Catarina, como é que se sente ao fim de 26 anos à frente de uma livraria?
Eu - Não estou à frente. Nunca estive. Há 26 anos que o digo no blogue. Se estou em alguma parte, é no no espaço entre as paredes.
O Jornalista - Mas houve uma altura em que se sentia uma maior exposição da sua parte.
Eu - Suponho que sim. Houve uma fase em que eu vivia permanentemente apaixonada. Acordava deslumbrada com a minha vida. Via coisas terrivelmente belas. Pegava num livro e encontrava exactamente o que precisava. E queria partilhar isso com as pessoas. Mas depois tinha muito medo, claro.
O Jornalista - Medo?
Eu - Sim. De defraudar. Repare, eu tinha 23 anos quando abrimos a Trama, suponho que fosse a tipa mais nova do mundo a fazer uma coisa daquelas. E não estava muito convencida das minhas competências. Felizmente havia o Ricardo, que sabia bem o que estava a fazer, e me dava espaço para as maluquices.
O Jornalista - Que maluquices é que fazia?
Eu - Ó, sei lá. Inventava entrevistas que me seriam feitas dali por não sei quantos anos, escrevia um monte de palermices, traçava o meu percurso, à vista de todos. E criava. Criava muito, ficcionava quase tudo o que acontecia, acrescentava frases às conversas que tinha tido, punha clientes a dançar no texto, mulheres a chorar de manhã, Anas e Pedros e sei lá que mais.
O Jornalista - Mas essas ficções tinham algum objectivo?
Eu
- Claro que sim. Mas eu não percebi logo. Sabe, antes de abrir a livraria, eu era uma rapariga mais ou menos normal, sem nenhum traço que a distinguisse das demais, sem qualquer tipo de beleza extraordinária. Depois, com a Trama, passei a ser bonita, sabe? As pessoas achavam-me piada, os rapazes davam-me imensa atenção, parecia que a livraria era o meu melhor acessório. À noite, num bar, alguém dizia: esta é a miúda da Trama. E eu ficava envergonhadíssima, certa de que aquele era o meu principal atributo, o mais afrodisíaco, até. E não conseguia dizer nada. (ela ri-se, mexe no cabelo) Eu era muito tímida. Não suportava que houvesse sobre mim qualquer tipo de expectativas. Então, numa espécie de exercício terapêutico forçado, excedia-me sempre que podia. E ficcionava a pessoa que esperavam que eu fosse.
O Jornalista
- Mas não era sincera?
Eu
- Tanto quanto Antígona o foi. Que verdade espera de uma personagem que não a maior de todas, a menos questionável, a mais profunda? Esta entrevista ainda demora muito? Detesto massacrar os leitores com textos grandes.
O Jornalista
- Só mais uma pergunta. E aquilo de não gostar de poetas, era mesmo verdade?

a formiguinha

ou: o trabalho como escape.
normalmente é ao contrário - o trabalho, meio de sustento, real, duro, servindo, ainda assim com tanta dificuldade, para a outra metade da vida, que nem é metade, será talvez um terço ou um décimo, enfim, essa parte em que se tenta estar na própria pele, ser-se o próprio, sem disfarces também chamados de dress code, sem conversas de merda sobre o colega do lado, de cima ou de baixo, &etc.
então, um dia destes dei por mim embrulhada em pensamentos cínicos, tipo, o sonho comanda a vida, o tanas, e dei por mim a pensar que tenho uma vidinha do caraças, que me sai do pelo (que a Agda lá vai tirando sempre que volta a crescer), que faço cenas das quais me orgulho e de que me vou lembrar mesmo depois da quinta reencarnação, que participo de um mundo que também construo, que levo em vez de ser levada, que isto e aquilo e mais aqueloutro, e dei por mim a pensar que isso talvez não interesse a ninguém (e aqui entra a parte obscura) porque o que é realmente importante tem ainda uma propriedade fundamental: é invisível.

fui ao changuito

e voltei, nas calmas, a ensaiar uma desculpa para o ricardo
sabes como ele é, fala imenso
mas a verdade, meus caros, é que aquela livraria é um perigo
aquele sofá é uma garra vermelha
e os cinzeiros, claro, vão justificando a permanência
(porque só se pode partir depois do cigarro apagado, gesto que finaliza o acto abrindo ou fechando o pano para a nova cena)
este tipo faz-me dizer tantas asneiras que sempre que de lá saio venho a fazer promessas de silêncio a todos os santinhos. há limites, pá. e uma livreira tem que manter a compostura, sobretudo em casa alheia.

Terça-feira, 29 de Setembro de 2009

Toda a humilhação leva à morte #1



«a vida é ouvido, com o coração dentro batendo largo ou aflito nos corredores da morte variada e intacta»

Álvaro Lapa, "Barulheira", & etc, 1982

Do editar como quem planta uma vinha*



(é uma expressão do Sr Hermínio Monteiro)

Da filosofia como uma das belas artes

Estágio para as Jornadas Llansolianas de Sintra



Na terra corria um rio. Nas suas margens cresciam plantas.. Sobre a água iam flores grandes e delicadas. A vida desse rio evoluiu perpétuamente. Quando o rio começou a morrer foi de repente, e alguns homens afastaram-se a tempo. Uns foram morar na cidade, outros em grutas, outros à beira de rios vivos.


- "Raso como o chão"- Álvaro Lapa


A perfeição suprema parece imperfeita.
A sua acção não se interrompe;
A plenitude suprema parece vazia,
A sua acção não tem limites.

A rectidão suprema parece sinuosa.
A habilidade suprema parece desajeitada.
A eloquência suprema parece balbuciante.

O movimento triunfa do frio.
O repouso triunfa do calor.

Pureza e quietude são normas do mundo.


-TAO TE KING livro da via e da virtude - Lao Tse

Segunda-feira, 28 de Setembro de 2009

o Mal-estar da Civilização #5



"Hoje que o tempo é outro e a terra é a mesma ainda,
com luzes que devassam a noite, o seu segredo,
e gritos que acesos trespassam o vento, dizei-nos,
de onde somos, que raça habita em nós ainda?"

Paulo Teixeira, "Conhecimento do Apocalipse", & etc., 1988

é já amanhã, terça-feira, às 21h30

que os senhores

Jorge Silva Melo
e José Gil

vêm apresentar o filme sobre este senhor:


Álvaro Lapa: A Literatura
na Trama

blackseat (as fotos)





fotos: joão belard

muito desinspirada

a livreira chegou a casa. fez o que tinha que ser feito: alimentar cria e gatos, limpeza breve do casebre (quase em rima), um ou outro ajuste no décor da sala-quarto, um post com o programa de outubro.
a livreira está a ficar chata: longe vão os tempos em que acordava llansoliana e adormecia paris hiltoniana (têm aqui que ser salvaguardadas todas as diferenças, tanto as matinais como as nocturnas).
felizmente, a livreira não deixou de fumar porque outubro não vai ser pêra doce, com muitas horas de trabalho e muitas ideias que têm que passar a coisas.
e em novembro lá vem o segundo aniversário da dona trama, esse sim o acontecimento do ano (o bolaño que me desculpe mas a vida desta livraria deve ser um desses segredinhos de Fátima)
a livreira continua sem grande pendor para a escrita.

planos para outubro

CONCERTOS, sempre às 21h30
5ªF, dia 1, entrada livre: Rita Cardoso
- Presa há alguns anos, Rita Cardoso vai tocar à livraria Trama em liberdade condicional. De seguida voltará às grades. De destacar feitos bravíssimos dum passado promissor tais como vitórias em festivais como o Termómetro Unplugged 2000, participações em Paredes de Coura e Sudoeste entre outras importâncias.

5ªF, dia 8, €3,00: Minta and the Brook Trout - Depois de editar o muito bem recebido EP "you" Minta decide encontrar músicos que a acompanhem e com quem gravar o seu primeiro disco de longa duração. The brook trout são Mariana Ricardo (que produziu o disco) no baixo, Manuel Dordio à guitarra e, quando os astros estão certos, o baterista José Vilão. A nova edição de Minta, que sairá como edição de autor, distingue-se pela crueza e pureza sendo gravado quase todo live on tape.
Exibição única de Minta & the brook trout em Lisboa! Manuel Dordio emigrará para Berlim deixando Minta com a missão de se reinventar (como o fez para este disco).
www.myspace.com/mintamusic

@ Golden Pony, Eduardo Vinhas
6-ºF, dia 9, €3,00: Nuno Prata (+B Fachada) - Letrista, compositor e intérprete, Nuno Prata (ex-Ornatos Violeta) foi massacrado por e-mails de uma funcionária desta livraria e acabou por aceder: virá a Lisboa para um concerto único na Trama e terá como convidado B Fachada.
Só depois de termos ouvido o álbum de 2006 "Todos os Dias Fossem Estes/Outros" e de termos andado por aí a cantarolar “não deixes de querer fugir porque saber fugir não é mau”, descobrimos o blogue (agora nunoprata.blogspot.com) bem como a maqueta que lançou com Tricot, ex-Red Wings Mosquito Stings, intitulada Nuno, Nico (2004).
www.myspace.com/nunoprata


5ªF, dia 15, €3,00: Bossa Lusa
Unidos pela escola de Jazz do Hot Clube de Portugal, onde se conheceram no decurso da sua formação musical, os BOSSA LUSA interpretam e recriam temas da Música Popular Brasileira, num repertório criteriosamente escolhido, que tem como grandes referências António Carlos Jobim, Edu Lobo, Chico Buarque e Ivan Lins. O quinteto é formado por Inês Carreira (voz), Rogério Godinho (piano/voz), Nuno Rocha (guitarra) Carolina Matos (violoncelo) e André Valério (bateria).
www.myspace.com/bossalusa
5ªF, dia 22, €3,00: Njinjiritane
- Funk, soul, reggae e ritmos afro, fazem dos Njinjiritane uma banda de world music. Muita diversidade com um denominador em comum: o Groove. Njinjiritane é um nome de um pássaro moçambicano.
www.myspace.com/njinjiritane
TEATRO

Sábado, dia 3 às 21h30, entrada livre: O Grupo de Teatro das Três Peças de Woody Allen apresenta “INIMIGOS” de Nigel Williams
Numa escola de um qualquer bairro degradado, seis adolescentes são deixados entregues a si próprios na sala de aula. Enquanto aguardam que chegue o professor dão aulas para passarem o tempo. Isto parece um pouco improvável, e o texto de Nigel Williams talvez mostre apenas uma visão exterior, uma visão que a classe média acha que as classes desfavorecidas têm de si próprias e uma visão adulta do universo adolescente - afinal, qualquer adolescente normal desaparece rapidamente se o professor se atrasa mais do que 5 minutos.

A peça de Nigel Williams apresenta a escola à beira do precipício onde ela está: sustentando-se no conceito que valoriza o conhecimento, o transmissor de conhecimento, os necessitados de conhecimento e tendo à frente a pulverização das fontes do dito.

Segunda actuação no dia 16 de Outubro às 21h30, entrada €3,00.
EXPOSIÇÃO
Sábado, dia 10 às 18h00 - inauguração da exposição RESERVATÓRIO de Patrícia Filipe (até 06/Nov)

“A cor que lá fora se desenha, dentro se expande.
O desenho que se constitui entre o informe e a figura instala-se numa dinâmica ocultativa.
Um espaço onde o olhar escute e toque, entre palavras latentes em livros e rostos.” (Patrícia Filipe)

LIVROS

Terça-Feira, dia 6 às 21h30, entrada livre: lançamento do novo livro de poesia de Tolentino Mendonça, O VIAJANTE SEM SONO, editado pela Assírio&Alvim. O livro será apresentado por António Ladeira

Quarta-Feira, dia 14 às 22h00, entrada livre: apresentação do mais recente livro de Paulo da Costa Domingos, NARRATIVA, editado pela Frenesi. Serão lidos excertos pelo autor, Jorge Fallorca e Nuno Moura. Música improvisada por Ricardo Ribeiro e Baltazar Molina.
«Ergo os olhos. Revejo-me.
Tão velhos, estes livros. Trago-os comigo há séculos. Sou capaz de os reconhecer por uma migalha de pão ou bolacha há muito retida entre a página 298 e a 299, ou por uma prata de chocolate a páginas tantas. Túneis de transporte a outras visões, a ângulos diversos, diversificados. Consigo, do meu posto de observação, de leitura, ver-lhes bem as orelhas grandes como giroscópios, parabólicas, captando e retransmitindo a sabedoria universal. E daqui vejo, também, todas as minhas companheiras, luzeiro após luzeiro, páginas abertas. Mais nada houve. Hoje olho para o meu pai, solitário (sem metáfora), para o que foi uma vida remediada, de contensão e sacrifício, e digo-vos: ide e fazei da indisciplina vossa amante.»


(foto: Paulo Nozolino)
Sábado, dia 17 às 21h30, entrada livre: apresentação do livro 5 CERVEJAS PARA O VIRGÍLIO de Carlos Alberto Machado, editado pela &etc

Poeta, dramaturgo e investigador, Carlos Alberto Machado nasceu em 1954, em Lisboa. Publicou entre várias obras, Talismã (Assírio & Alvim, 2004), A Realidade Inclinada (Averno, 2003), Mito, seguido de Palavras Gravadas na Calçada (& etc, 2001), Ventilador (Elefante Editores, 2000), Mundo de Aventuras (atægina, 2000). Tem ainda colaboração dispersa em várias revistas. Actualmente coordena as edições municipais do Município das Lajes do Pico, nomeadamente: co-director da revista Magma (com Sara Santos) e dos Cadernos SIBIL (com José Augusto Soares); dirige com Urbano Bettencourt a Biblioteca Açoriana.


Outros lançamentos (entrada livre):
Sexta-Feira, dia 2 às 19h00: INSTANTES INQUIETOS de Pedro Morgado
Sábado, dia 3 às 17h00: O ESTRIPADOR À MODA DO PORTO de André Afonso
Sexta-Feira, dia 23 às 18h30: UMA FLOR AO LUAR de Manuel Luís Feliciano
Sexta-Feira, dia 23 às 21h00: AGORA QUE ME DEITO NA TUA AUSÊNCIA da autoria de Mónica Baptista

Hinos à noite 2


Domingo, 27 de Setembro de 2009

dedicatória #2*


* dedicada a todos os indivíduos que tiveram problemas de 'recepção' durante a noite de hoje.

Zana



"Descobri que a única coisa que me interessa a fundo é escrever, o resto é vivido por causa disso. Ou seja, tudo o que me interessa a fundo é viver, o resto vai ser escrito por causa disso."

"Noite e o Riso" - Nuno Bragança
Descobri que gosto de ler com pouca luz, em tom de segredo.

Sábado, 26 de Setembro de 2009

a poesia não me interessa #5




Dava a última camisa por um poema

Dava a última camisa por um poema.
Domingo ao fim da tarde só restam cinzas.
Todos. Tudo inteiramente consumido. Tudo,o quê?
Segunda, sobrava alguma palavra intacta na lareira?

Terça
tão comprida como um ano

quarta, outra vez a esperança
Não, sem poema não se pode viver!

Quinta a memória entra em pânico
A pouca claridade que restava anoiteceu

também na sexta as vagonetas com o meu minério
perdem-se no túnel.

Sábado:
trabalho em vão!
Domingo tudo recomeça e voltava a dar
a última camisa por um poema

Ján Kostra (1910–1975)

vieira, virginia e uma música que ninguém conhece


i carry your heart with me (i carry it in
my heart) i am never without it (anywhere
i go you go, my dear; and whatever is done
by only me is your doing, my darling)
i fear
no fate (for you are my fate, my sweet) i want
no world (for beautiful you are my world, my true)
and it's you are whatever a moon has always meant
and whatever a sun will always sing is you

here is the deepest secret nobody knows
(here is the root of the root and the bud of the bud
and the sky of the sky of a tree called life; which grows
higher than the soul can hope or mind can hide)
and this is the wonder that's keeping the stars apart

i carry your heart (i carry it in my heart)
E.E. Cummings



"Temos muitas narrativas e, raramente, escrita . "

- "Escrever" - Marguerite Duras

Blackbook 1




A mulher triste, de regresso à
dúvida densa
que distingue e realça o medo
humano,
não pôde coibir-se
de fazer
a pergunta
que a chama____se a prisão
fosse a vida que vive,
e a abertura sem paredes, murada
de rosas, o sonho que corresponde
ao anseio

"eu quero saber mais do mundo para onde irei".


-"Começo de um livro é precioso" - Maria G. Llansol



"A proximidade anula a imagem"


- Youssef Alkahla -

Hinos à noite 1

estas são as regras do meu jogo


Veio carregado de desassossego e
de claros instintos.
A eternidade corre a seu favor.

«Preciso dos versos para pousar os desenhos»



desenhos de António Poppe retirados do livro O Génio do Olhar - Desenho como Disciplina 1991 - 1999

Sexta-feira, 25 de Setembro de 2009

Erro de Impressão #3



por mais que uma tipa trabalhe que nem uma mula mais ou menos literária

falta sempre actualizar qualquer coisa.

missão: comparecer e divulgar






Sábado 26 de Setembro, 18h00 APRESENTAÇÃO INTERACTIVA DO LIVRO
ENTRE O MALANDRO E O TRÁGICO De Salamanca à S. Felipe Nery.
poesia e avatares, MSN e versos curtos.
www.hmmachado.blogspot.com
www.sombradoamor.com

Para dar a quem realmente merece

Precioso Adorno



Alguns capítulos:

-"Adorno's Conception of Expression, and the relationship between music and philosophy"

- "On Adorno's use by musicians"

-"Identity is the very devil! : Notes on Adorno, Wittgenstein and music

Quem não veio ontem, perdeu um grande concerto



- "Brunch" - Blackseat


MAS AINDA PODE COMPRAR O CD