Quinta-feira, 31 de Dezembro de 2009

Fazemos planos para o próximo ano como se o próximo ano não tivesse sido já ontem ou não fosse agora mesmo. Não consigo deixar de pensar que aquilo que quero para amanhã é o mesmo que queria para o amanhã de trinta e um de dezembro de dois mil e oito. Parece-me, então, que tenho sido incapaz de cumprir aquilo que me prometo, sempre, dia após dia. E não há livros ou filmes que me façam passar de uma lenta tomada de consciência ao gesto, visível. Podemos alegar que o trabalho mais importante está na sombra e, por isso, não se vê. Não me convenço: é preciso acção, um certo tipo de acção. Talvez seja desta.
[O Fernando Mouro explicou-me num sábado de manhã o significado da palavra acrasia. Desde então não deixei de pensar que esta palavra poderia ser o meu segundo nome: porque embora pense e pense e volte a pensar muito raramente faço alguma coisa com o resultado dessa contabilidade mental, aliás, na maioria dos casos faço o contrário.]
No próximo ano não vou fazer nada de novo, não vou desejar nada de diferente, não vou procurar a mudança. No próximo ano quero exactamente o mesmo que tive ao longo deste, que, dizem, acaba esta noite. O que poderá então mudar? A expressão. Porque o que sinto, hoje, é que tenho sido incapaz de expressar-me, por mais que fale, por mais que escreva. É como se tudo saísse um bocado ao lado. De mim para mim ou de mim para ti. Às vezes não sei onde raio meto as coisas que aprendo. Às vezes não percebo o que digo e não posso sequer garantir que acredito no que defendo. Às vezes sou velha. Às vezes sinto-me a caminho de qualquer coisa. Às vezes parece que estou há anos no mesmo sítio. Daqui, é tudo muito confuso. E é justamente com este discurso que quero acabar, com esta expressão. Porque me habituei a ver-me como uma pessoa confusa, e até ficava ofendida quando alguém teimava em dizer-me que eu não era assim tão confusa, desacreditei-me.
Por uma expressão consciente, venha 2010.
[O Fernando Mouro explicou-me num sábado de manhã o significado da palavra acrasia. Desde então não deixei de pensar que esta palavra poderia ser o meu segundo nome: porque embora pense e pense e volte a pensar muito raramente faço alguma coisa com o resultado dessa contabilidade mental, aliás, na maioria dos casos faço o contrário.]
No próximo ano não vou fazer nada de novo, não vou desejar nada de diferente, não vou procurar a mudança. No próximo ano quero exactamente o mesmo que tive ao longo deste, que, dizem, acaba esta noite. O que poderá então mudar? A expressão. Porque o que sinto, hoje, é que tenho sido incapaz de expressar-me, por mais que fale, por mais que escreva. É como se tudo saísse um bocado ao lado. De mim para mim ou de mim para ti. Às vezes não sei onde raio meto as coisas que aprendo. Às vezes não percebo o que digo e não posso sequer garantir que acredito no que defendo. Às vezes sou velha. Às vezes sinto-me a caminho de qualquer coisa. Às vezes parece que estou há anos no mesmo sítio. Daqui, é tudo muito confuso. E é justamente com este discurso que quero acabar, com esta expressão. Porque me habituei a ver-me como uma pessoa confusa, e até ficava ofendida quando alguém teimava em dizer-me que eu não era assim tão confusa, desacreditei-me.
Por uma expressão consciente, venha 2010.
Mais qualquer coisa para acrescentar à vida

É durante o dia que ele aparece, no dia mais branco. Pássaro.
Bate as asas, voa. Bate as asas, apaga-se.
Bate as asas, ressurge.
Pousa. E depois desaparece. Com um bater de asas apagou-se no espaço branco.
É assim que se comporta o meu pássaro familiar, o pássaro que vem povoar o céu do meu pequeno pátio. Povoar?
Bem se vê de que maneira...
Mas permaneço quieto, a contemplá-lo, fascinado pela sua aparição, fascinado pela sua desaparição.
- Antologia - Henri Michaux
Quarta-feira, 30 de Dezembro de 2009
eu bem queria ser uma livreira intelectual com imenso estilo
e até fico na cama a ler a Magazine Littéraire, óculos na ponta do nariz, toda satisfeita com o meu francês mas. porque é que eu não consigo ver o India Song sem adormecer? Porquê?!
aqui está uma boa forma de começar 2010

Outras livrarias indicadas na revista: Ler Devagar, Pátio de Letras, Índex e Centésima Página
Revista Os Meus Livros, Janeiro 2010
Revista Os Meus Livros, Janeiro 2010
o blog que quer deixar de fumar #16
aguarda ansiosamente a chegada dos comprimidos nefastos que vão ajudar à causa.
a livreira é má
por isso, esta manhã apanhou chuva, depois ficou com uma grande dor de estômago, depois ficou mal disposta, depois teve que se encostar no sofá, depois teve que xonar meia hora, depois foi acordada, depois teve que comer uma sopa e depois continuou mal disposta, rabugenta, maricas e com vontade de fugir para casa. mas. como a livreira é mesmo mesmo má gramou com isto tudo numa quarta-feira que é justamente o dia em que o colega sai mais cedo e então vai ter de ficar a trabalhar até às sete e meia (para castigo).
Terça-feira, 29 de Dezembro de 2009

Eu queria uma mulher que
estivesse numa companhia de dança e
fosse um golpe comunista dos antigos.
o que eu queria mesmo era trabalhar
numa sapataria cumprimentar as senhoras
apertar-lhes o pé
puxar-lhes o fecho da bota
deixar a mão sobre as canjas.
o que era bom era uma multidão
e tu a plenos pulmões
e nós por todo o lado no meio daquilo tudo
e nós num dia destes.
o que era mesmo bom era levar
o meu amor a casa.
e de volta
sintonizá-lo numa canção de rádio.
Nuno Moura, Nova Asmática Portuguesa, Mariposa Azual, 1998
e porque não há nada melhor do que um passatempo tramado
quem adivinhar qual foi o meu livro de 2009 ganha um bilhete duplo para este concerto (14 de Janeiro, na Trama)!
o blog que quer deixar de fumar #15
voltei a meter na cabeça que tenho de deixar de fumar. isto porque a minha avó me disse aquilo dos chouriços: ó filha, mas tu achas que eles ficam assim porquê? é como vai ficar a tua cara daqui a uns anos.
tenho saudades de escrever um diário
dia qualquer, novembro
pego nas folhas guardadas em micas transparentes: textos escandalosos. a biografia interessa-me, se for secreta. leio nesses textos o mesmo que leio nos de hoje, as diferenças estão no estilo. estou num café, tenho dezassete anos, planeio o futuro enquanto elogio o hemingway, o homero, o joyce, o umberto eco e a susana tammaro. também eu quero ser uma grande escritora.
pego nas folhas guardadas em micas transparentes: textos escandalosos. a biografia interessa-me, se for secreta. leio nesses textos o mesmo que leio nos de hoje, as diferenças estão no estilo. estou num café, tenho dezassete anos, planeio o futuro enquanto elogio o hemingway, o homero, o joyce, o umberto eco e a susana tammaro. também eu quero ser uma grande escritora.
[se isto fosse um talkshow aqui estaria a pausa para vocês se rirem]
bem, na verdade não há grande coisa a dizer sobre isto mas achei que era giro contar este episódio. para toparem de onde vem esta menina.Decisões para 2010
Escrever mais no blogue tramado. Não só no Verão. Não só quando a livreira está de férias.
Segunda-feira, 28 de Dezembro de 2009
a Trama aderiu: SustentHabilidade
O projecto SustentHabilidade visa envolver algumas entidades locais, numa rede de produção e consumo sustentável, através de acções de carácter social e pedagógico. Baseia-se fundamentalmente num conjunto de três temas que o motivam e que se caracterizam, sobretudo, pela sua prática e dinamismo. Assim, pretende-se: educar; minimizar; envolver.
• Dotar os indivíduos e entidades envolvidos de competências (compostagem) e hábitos (reciclagem) mais respeitadores do ambiente, diminuindo a pegada ecológica ao nível local.
• Resíduos – através de hábitos de reutilização e reciclagem estética
Objectivos
• Informar, sensibilizar e praticar activamente o consumo sustentável;
• Consolidar as capacidades e competências ambientais da população e entidades locais;
• Diminuir a pegada ecológica do bairro;
• Envolver a comunidade no estabelecimento de uma rede de produção e consumo sustentáveis;
• Desenvolver e estimular as capacidades sociais, pessoais, ambientais e críticas da comunidade envolvida no projecto;
• Aproveitar, rentabilizar e potenciar os recursos específicos de todas as partes envolvidas relativos à área em que se circunscreve o projecto;
• Promover laços de cooperação, directos ou indirectos, quer do próprio MNHN, quer entre entidades vizinhas;
• Fomentar as relações intergeracionais.
EDUCAR (sensibilizando e experimentando) - A consciencialização do problema incute responsabilidade:
• A comunidade local para as questões ambientais, mais especificamente relativas ao consumo sustentável (O que é o consumo sustentável? Para que serve o consumo sustentável? Que aplicações tem no nosso dia a dia?).• Dotar os indivíduos e entidades envolvidos de competências (compostagem) e hábitos (reciclagem) mais respeitadores do ambiente, diminuindo a pegada ecológica ao nível local.
MINIMIZAR (reduzindo):
• Consumo – gerir de forma inteligente e em qualidade• Resíduos – através de hábitos de reutilização e reciclagem estética
ENVOLVER (cooperando) - comunidade local:
• Quer as pessoas individualmente quer as entidades colectivas, numa prática em rede que fomente a partilha, através da criação de laços directos ou indirectos, estabelecendo uma teia de consumo alternativo e paralelo adaptada a uma realidade ecologicamente sustentável – recorrendo a trocas de serviços, reaproveitando recursos e desperdícios.Objectivos
• Informar, sensibilizar e praticar activamente o consumo sustentável;
• Consolidar as capacidades e competências ambientais da população e entidades locais;
• Diminuir a pegada ecológica do bairro;
• Envolver a comunidade no estabelecimento de uma rede de produção e consumo sustentáveis;
• Desenvolver e estimular as capacidades sociais, pessoais, ambientais e críticas da comunidade envolvida no projecto;
• Aproveitar, rentabilizar e potenciar os recursos específicos de todas as partes envolvidas relativos à área em que se circunscreve o projecto;
• Promover laços de cooperação, directos ou indirectos, quer do próprio MNHN, quer entre entidades vizinhas;
• Fomentar as relações intergeracionais.
tu não te deixes!
diz-me o Rodrigo, com a mão erguida, enquanto passa à porta da livraria.
[das coisas que fazem uma miúda ganhar o dia]
[das coisas que fazem uma miúda ganhar o dia]
para ler e sorrir
"Estas coisas não se podem aprender. Sabes porquê? Porque é preciso ter-se nascido com uns pais trágicos."
[Jack Kerouac nas entrevistas da Paris Review publicadas em português pela Tinta da China]
planos para o ano novo: fechar-me em casa não transtornar a chuva não concorrer com o temporal fechar os olhos em frente à escrita escutar tudo com atenção infantil tocar para sentir fazer do desejo uma frase sofrendo noite dentro pela falta do amante descobrir que o amor é afinal cada noite de silêncio junto do copo da máquina de escrever do cinzeiro entregar o corpo à janela sem fechar os olhos nada pedir nada exigir nada querer revelar no quotidiano os grandes eventos de uma vida. para o ano vou deixar-me.Domingo, 27 de Dezembro de 2009
Sábado, 26 de Dezembro de 2009
é meia-noite no fim do céu #2
«Enquanto a sombra repetir no chão o teu corpo inteiro eis que te encontras vivo e completo.»
Gonçalo M. Tavares, "A máquina de Joseph Walser", Editorial Caminho, 2004
uma vez que a Poesia Incompleta hoje está fechada
podíamos aproveitar o sábado para conquistar o império da poesia mas, em vez disso, decidimos não abrir até segunda-feira.
Sexta-feira, 25 de Dezembro de 2009
Corpus Christi Carol #1

«O perfume como que fornece o móbil que depois a própria trama se encarregará de intrincar: a qualidade do acolhimento a Jesus.»
José Tolentino de Mendonça, "A Construção de Jesus", Assírio & Alvim, 2004
Quinta-feira, 24 de Dezembro de 2009
o Mal-estar da Civilização #11

«Não tão viciante como a heroína, menos prejudicial do que o álcool, mas, ainda assim, problemático do ponto de vista ambiental, é o outro grande tranquilizante moderno: ir às compras. Muitas pessoas admitem prontamente que as compras não são tanto um meio de obterem os bens de que precisam, mas a sua principal actividade recreativa. Uma grande dose de compras parece ajudar a ultrapassar a depressão. Ir às compras é o substituto moderno das actividades mais tradicionais da caça e da recolecção. O centro comercial substituiu os antigos territórios de caça. Tal como recolher raízes, sementes e bagas num ambiente árido, as compras podem ocupar uma grande parte do dia. Permitem o desenvolvimento de formas especializadas de conhecimentos e competências. (Como se seleccionam os items certos a recolher? Onde e quando se encontram pechinchas genuínas?) Ir às compras pode até passar por uma actividade útil: o seu componente de lazer pode ser disfarçado ou negado de uma forma que não seria possível se se passasse o dia a jogar golfe.»
Peter Singer, "Como havemos de viver? – a ética numa época de individualismo", Dinalivro, 2005
Quarta-feira, 23 de Dezembro de 2009
um conjunto de ideias para Ana e para M
A morte nunca me pareceu uma coisa gloriosa, mesmo quando a santidade adere à pele e ao coração como um destino a cumprir, como uma peste.
Rua da Rosa, Travessa da Espera, Calçada do Combro. Silêncio sobre silêncio. A vida suspensa no estremecer de um abraço.
- Até logo, se te lembrares de mim telefona.
Tenho um amigo que disse:
- Sabes, a verdade nunca acaba.
Mas o que será a verdade quando estivermos mortos?
Rua da Rosa, Travessa da Espera, Calçada do Combro. Silêncio sobre silêncio. A vida suspensa no estremecer de um abraço.
- Até logo, se te lembrares de mim telefona.
Tenho um amigo que disse:
- Sabes, a verdade nunca acaba.
Mas o que será a verdade quando estivermos mortos?
com cinco letrinhas apenas
O Chão é Cama para o Amor Urgente
O chão é cama para o amor urgente,
amor que não espera ir para a cama.
Sobre tapete ou duro piso, a gente
compõe de corpo e corpo a húmida trama.
E para repousar do amor, vamos à cama.
O chão é cama para o amor urgente,
amor que não espera ir para a cama.
Sobre tapete ou duro piso, a gente
compõe de corpo e corpo a húmida trama.
E para repousar do amor, vamos à cama.
Carlos Drummond de Andrade, in 'O Amor Natural'
(obrigada, josé)
(obrigada, josé)
há quem perceba e há quem não perceba
que uma livraria não é uma biblioteca, não tem que ter tudo: uma livraria, como uma loja de roupa, tem aquilo que, em primeiro lugar, os gerentes escolhem, obedecendo a critérios - pessoais. quem tem uma loja, nem que seja de rebuçados, tentará ter disponível aquilo de que mais gosta.
na minha loja de roupa não tenho jardineiras: porque não gosto. na minha loja de doces não tenho gomas: porque detesto. escolho o que vendo sem receios - da mesma forma que cada cliente que aqui entra faz. não obrigo ninguém a comprar Rilke, nem impeço ninguém de ler o Dan Brown. tenho sorte - a maioria das pessoas a quem vendo livros gosta mais do primeiro.
o que posso estar a perder não compra a alegria de estar à frente de uma coisa em que acredito.
na minha loja de roupa não tenho jardineiras: porque não gosto. na minha loja de doces não tenho gomas: porque detesto. escolho o que vendo sem receios - da mesma forma que cada cliente que aqui entra faz. não obrigo ninguém a comprar Rilke, nem impeço ninguém de ler o Dan Brown. tenho sorte - a maioria das pessoas a quem vendo livros gosta mais do primeiro.
o que posso estar a perder não compra a alegria de estar à frente de uma coisa em que acredito.
hoje à noite
é uma espécie de festa de despedida, uma espécie de adeus, até para o ano. Passem por cá, bebamos um copo, celebremos 2009, atiremos amendoins e todas essas coisas que costumam fazer parte das festividades tramadas. vá lá.
música e poesia a cargo dos

€3,00
agony
Roland Barthes, Fragmentos de Um Discurso Amoroso, Edições 70
Terça-feira, 22 de Dezembro de 2009
Prefiro não o fazer

Hoje perguntaram-me porque não temos o livro da Júlia Pinheiro.
Respondi: Temo que se algum leitor o abrisse, ouviríamos os gritos loucos da senhora.
Segunda-feira, 21 de Dezembro de 2009
O Idiota (uma história no plural) #1

« - Deus gosta de gente como o senhor - fez-lhe eco o funcionário.» (página 19)
Fiódor Dostoiévski, "O Idiota", Editorial Presença, 2007
Da Espera

"Conscientes disso, e a fim de evitar que o casamento enclausurasse os casais num quotidiano demasiado restrito, os companheiros do capitão Renard haviam imaginado um ritual, que consistia em vestirem-se de branco.
Em Porto Esperança, bastava vestir assim para que isso significasse para a mulher, para os filhos e para os amigos que se desejava viver algum tempo para si mesmo, libertando-se provisoriamente dos compromissos assumidos ao longo da vida. A partir daí, ninguém fazia mais perguntas; podia-se ir e vir sem prestar contas fosse a quem fosse. Na medida do possível, os outros esforçavam-se para não julgar aquele novo comportamento; e todos se dedicavam a entrar no jogo,porque esse respeito pelo outro representava a garantia de cada qual poder um dia, por sua vez, entregar-se a semelhante evasão, quando sentisse necessidade disso, sem se expor às recriminações da cara-metade, ou da vizinhança. Aquela atitude era tanto mais respeitada porquanto os Canhotos sabiam ser pouco numerosos na ilha; pretendiam assim preservar-se da atmosfera venenosa, feita de ditos e mexericos, que torna tantas vilórias provincianas detestáveis. O branco simbolizava o apagar de tudo aquilo que se fizera até ali, era como que um estado de nova virgindade."
O homem autêntico

O que vem a ser um "homem autêntico"?
Os autênticos homens antigos não tinham medo
Quando ficavam a sós com as suas opiniões.
Nenhuma grande proeza. Planos, nenhum.
Se falhassem, nenhuma compaixão.
Nenhuma autocongratulação no sucesso.
Escalaram rochedos, sem nunca sofrerem vertigens,
Mergulharam na água, sem nunca ficarem molhados,
Andaram no fogo e não se queimaram.
Assim, toda a sabedoria atingiu o Tao.
Os autênticos homens antigos
Dormiam sem sonhos
Acordavam sem preocupações.
Sua comida era simples.
Respiravam profundo.
Nos homens autênticos a respiração autêntica
Vem dos calcanhares.
Nos outros a respiração vem do esôfago,
Meio-estrangulada. Nas discussões
Arrotam argumentos
Como vómitos.
Onde as fontes da paixão são
Profundas,
As fontes celestes
Ficam logo secas.
Os autênticos homens antigos
Não conheciam o luxo da vida,
Nenhum medo da morte.
Sua entrada era sem contentamento,
Sua saída,
Sem resistência.
Fácil de começar, fácil de terminar.
Não se esqueceram de onde,
nem perguntaram para onde,
Nem foram tristemente à frente
Lutando pela vida afora.
Aceitaram a vida como é, felizes.
Aceitaram a morte como se apresenta,
Despreocupados.
E partira, para lá,
Para lá!
Não desejavam combater o Tao.
Não tentavam, por seus próprios planos,
Ajudar o Tao.
Estes são os que chamamos homens autênticos.
Mentes livres, pensamentos distantes,
Frontes limpas, faces serenas.
Estavam frescas? Frescas apenas como o outono.
Quentes ? Nem mais quentes que a primavera
Tudo isto surgiu deles
Calmamente, como as quatro estações."
- "Via de Chuang Tzu" - Thomas Merton -
a metamorfose
Quatro homens entraram em discussão.
Cada qual falou:
«Quem souber
Ter o vazio como cabeça,
A vida como espinha dorsal
E a Morte como cauda,
Este será meu amigo!»
Thomas Merton, em A Vida de Chuang Tzu, Editora Vozes (1999)
Cada qual falou:
«Quem souber
Ter o vazio como cabeça,
A vida como espinha dorsal
E a Morte como cauda,
Este será meu amigo!»
Thomas Merton, em A Vida de Chuang Tzu, Editora Vozes (1999)
Domingo, 20 de Dezembro de 2009
Imediatamente embora pouco a pouco #3
«Os homens e as mulheres depressa esquecem as alegrias genitais para reproduzirem os medos que rodeavam a sua espera tão vaga durante o tempo ainda não semantizado da sua tão longa infância.
Velhos, repetem-na ao ponto de involuírem nela. Viram-na e reviram-na enquanto repetem as mesmas coisas. Amam-na ao ponto de morrer nela.»
Pascal Quignard, "As Sombras Errantes", Gótica, 2003
A infância de Herberto Helder
No princípio era a ilha
embora se diga
o Espírito de Deus
abraçava as águas
Nesse tempo
estendia-me na terra
para olhar as estrelas
e não pensava
que esses corpos de fogo
pudessem ser perigosos
Nesse tempo
marcava a latitude das estrelas
ordenando berlindes
sobre a erva
Não sabia que todo o poema
é um tumulto
que pode abalar
a ordem do universo agora
acredito
Eu era quase um anjo
escrevi relatórios
precisos
acerca do silêncio
Nesse tempo
ainda era possível
encontrar Deus
pelos baldios
Isso foi antes
de aprender a álgebra
José Tolentino Mendonça, Os Dias Contados, 1990
embora se diga
o Espírito de Deus
abraçava as águas
Nesse tempo
estendia-me na terra
para olhar as estrelas
e não pensava
que esses corpos de fogo
pudessem ser perigosos
Nesse tempo
marcava a latitude das estrelas
ordenando berlindes
sobre a erva
Não sabia que todo o poema
é um tumulto
que pode abalar
a ordem do universo agora
acredito
Eu era quase um anjo
escrevi relatórios
precisos
acerca do silêncio
Nesse tempo
ainda era possível
encontrar Deus
pelos baldios
Isso foi antes
de aprender a álgebra
José Tolentino Mendonça, Os Dias Contados, 1990
«O mundo é um lugar muito insular.»
[Sobre a leitura] foi sobretudo uma experiência de leitura e de estudo. E depois umas coisas levam às outras: quem se apaixona pelo profeta Isaías ou pelo «Cântico dos Cânticos» ou pelo «Livro de Job» necessariamente apaixona-se por Camões ou por Fernando Pessoa ou por Herberto Helder. Ou por Elliot ou por Pavese. Ou por João da Cruz. É uma questão de sermos consequentes.
Tolentino Mendonça, revista Ler #86 de Dezembro de 2009
Sábado, 19 de Dezembro de 2009
Sexta-feira, 18 de Dezembro de 2009
os idiotas
«Falei da ascensão do idiota. No passado, eram os "melhores" que faziam os usos, os costumes, os valores, as ideias, os sentimentos, etc. etc. Perguntará alguém - "E que fazia o idiota?". Resposta: - fazia filhos (...) E, de repente, tudo mudou. Após milénios de passividade abjeta, o idiota descobriu a própria superioridade numérica. Começaram a aparecer as multidões jamais concebidas. Eram eles, os idiotas. Os "melhores" se juntavam em pequenas minorias acuadas, batidas, apavoradas. O imbecial, que falava baixinho, ergueu a voz; ele, que apenas fazia filhos, começou a pensar. Pela primeira vez, o idiota é artista plástico, é sociólogo, é cientista, é romancista, é prémio Nobel, é dramaturgo, é professor, é sacerdote. Aprende, sabe, ensina. No presente mundo, ninguém faz nada, ninguém é nada, sem o apoio dos cretinos de ambos os sexos. Sem esse apoio, o sujeito não existe, simplesmente não existe. E, para sobreviver, o intelectual, o santo ou herói precisa imitar o idiota. O próprio líder deixou de ser uma selecção. Hoje, os cretinos preferem a liderança de outro cretino.»
Crónicas de Nelson Rodrigues, retirado do blogue do Hugo Xavier, a.k.a Senhor Cavalo de Ferro
a poesia não me interessa #12

«... Vou-te amar intensamente como nunca. Amei-te com avidez precipitação impreparação juvenil. Havia uma distância enorme de permeio e eu tinha de a preencher. Amei-te depois com luxúria como se diz no catecismo. E amei-te como cumprimento de um horário semanal. Com raiva humilhação quando andaste, eu nem sei se andaste lá com o teu colega do patarata. E porque é que não sei? Minha querida. Tinhas um grande orgulho ou vaidade no teu corpo, e desde a história do Bem sei lá o que tu querias. Seduzir, dares aos outros a possibilidade de partilharem do maravilhoso de ti e acirrares-me domesticares-me obrigares-me a ajoelhar. Silêncio - e já falei tanto. Vou pôr na rua da lembrança tudo o que não for da tua nudez, a amargura vexame sofrimento. Mesmo as alegrias que não são para aqui. Mesmo os filhos que também não - A vida inteira que passou. Preciso tanto de te amar - e como te vou amar? Não sei. Vou-te amar com o infinito da tua perfeição.»
Vergílio Ferreira, "Em Nome da Terra", Bertrand Editora, 1990

XVIII. Coisa que é preciso não esquecer
A madeira pintada representa as rocas de fiar das Parcas.
XIX. Q. Alcimius
Às suas propostas mais ousadas, mais tímidas, no amor do prazer em que os seus membros, a sua voz, o seu olhar me mergulhavam, não o deixava acabar o pedido. Dizia sim sem sombra de hesitação.
XX. Noites de fome
Então as noites sem pelo menos três orgasmos pareciam-nos noites de fome.
XXI. Coisas que dão um sentimento de paz
Gosto do ruído dos carros em Roma.
Dos banhos de sol nos terraços, ao entardecer.
Do sono pesado de um homem que gozou.
Dos colchões do Nilo.
Das estrelas, quando a madrugada pouco a pouco as apaga.
- " As tábuas de Buxo de Apronenia Avitia" - Pascal Quignard
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