terça-feira, 23 de março de 2010

a poesia e o showbiz

nos últimos tempos, muito por causa das celebrações do dia mundial da poesia, tive oportunidade de viver uma intensa (e asfixiante) overdose poética. não fosse a imperial atrás da imperial e juro que tanto poema me teria provocado pelo menos uma embolia. agora nem consigo abrir o livro do gastão cruz que tenho lá em cima da mesa, de tanto medo que tenho que à primeira página de lá salte a voz do homem declamando, declamando, declamando.
em teatros, em grandes centros culturais, na rádio, toda a gente andou a ler nos últimos dias. e se a ideia é levar a poesia às pessoas, mostrar coisas novas, provocar interesse, suponho que os programadores destas iniciativas culturais pudessem ter atenção a um pequeno pormenor: é que nem toda a gente consegue ler poesia - ler em voz alta, claro. quero dizer, qualquer pessoa com a segunda classe já pode ir ao ccb ler qualquer coisinha mas, bem, como dizer, não creio que essa habilidade seja muito mais impressionante que a de um pinguim no oceanário: é giro, talvez, mas ao fim de dois minutos já ninguém diz «ó, é tão querido».
ouvir poesia pode ser, na verdade, um massacre. o leitor, massacrado, consciente de não ter jeito para aquilo. o ouvinte, massacrado, consciente de não ter jeito para aquilo. e o poema, massacrado, sem interesse por nada daquilo.