sexta-feira, 14 de maio de 2010

com cinco letrinhas apenas

SE PUDESSE GUARDAR UM POUCO DO SOL PARA AS NOITES DE FRIO
I

Um movimento mal calculado, um atrito ou um deslize
inesperados, a faca desviou-se do seu curso, nada a fará
voltar atrás agora. O gume encontrou o dedo, atravessou
a pele, rasgou vasos sanguíneos, camadas sucessivas
de tecido celular, imobilizou-se junto à trama fibrosa
dos tendões e recuou, afastado num gesto reflexo a que,
um instante depois, se juntou em clarão a dor. Só então
o sangue em lençol fino, progressivamente mais grosso
e escuro, cobriu o dedo e começou a gotejar, formando
pequenas poças nos lugares de sobreposição, alternadas
com pingos em distribuição aleatória.O desalento, a revolta,
a raiva de não controlar o tempo, a realidade, a vida. Inúteis,
bem sabes. Venha pois o raciocínio, a acção consequente:
avaliar o golpe, lavar, desinfectar, fazer um penso em
compressão para estancar a hemorragia. Iniciar o lento
trabalho da aceitação. Delimitar, conformar, deslocar para
outro ângulo de onde descobrir o novo olhar. O poema,
por exemplo.

Jorge Roque, Telhados de Vidro n.º 13, Averno, 2009

cortesia do nómada onírico