quinta-feira, 20 de maio de 2010

com cinco letrinhas apenas

II

A trama era tão simples, sob um céu
tão simples, sem visões e sem um véu

sobre os olhos... Num poderoso instante
um ponto se congela e, circundante,

tudo passar a fluir lento, arrastado,
e à volta desse círculo um mais largo

se abre onde prossegue normalmente
a vida e seu caudal; mais abrangente

há outro aonde tudo é tão veloz
que nem o percebemos. Onde a foz

e onde a nascente é algo indecidível:
se tudo nasce quieto e até um nível

vertiginoso vai-se acelerando,
ou se, ao contrário, é justamente quando

chega ao seu fim que o fluxo se detém,
nascido acelerado e por ninguém?

Vieira da Silva

[...]
a trama
é o trunfo
o engenho
é o naipe
aromas
caçadores
nas cores
do xale
[...]

Na noite física

A luz do quarto apagada,
na escuridão se destaca
a insônia que nos ataca,
dois gêmeos na bolsa d'água.

Ao despertar levo as marcas
que de noite rabiscavas
em minha pele com a sarna
ávida de tua raiva?

E em você a cega trama
algum mal pôde? ou maltrata
ainda, que penetrava
concha, espádua, gargalhada?

(...)

Carlito Azevedo, Sob A Noite Física, Cotovia, 2001

com os respectivos agradecimentos à sublinhadora destes poemas