quarta-feira, 19 de maio de 2010

Os Sonâmbulos



O homem contemporâneo tem necessidade de ser distraído. A sua participação activa é quase inexistente. A arte, seja ela qual for, é um assunto em que a maioria raramente pensa, um assunto quase irrisório a respeito do qual até se orgulha por vezes de mostrar uma atitude de invencível ignorância. Este deplorável estado de coisas é inconscientemente sustentado pela obstinada estupidez, tão segura de si mesma, das nossas instituições culturais. Os museus têm mais ou menos os mesmos horários que as igrejas, o mesmo cheiro a sacrário e o mesmo silêncio. E além disso alardeiam, com arrogância, um snobismo em oposição espiritual directa aos homens vivos cujas obras ali ficam encerradas. Que têm esses corredores calados a ver com Rembrandt, e a tabuleta "proibido fumar" com Van Gogh? Fora do museu, o homem da rua está de todo separado da influência naturalmente tónica da arte pelo sistema do comércio elegante, o qual, acessoriamente mas em função de imperativos económicos, exerce uma influência maior do que em geral se admite no aparecimento e na instalação de pretensas "formas de arte". A arte não pode ter significação vital numa civilização que ergue uma barreira entre a vida e a arte, coleccionando produtos artísticos como despojos de antepassados a venerar. A arte deve formar o vivido. Quanto a nós, o que concebemos é uma situação em que a vida seja continuamente renovada pela arte, uma situação construída pelo imaginário e pela paixão com vista a incitar cada pessoa a responder a isto criativamente.
Trata-se de dar a todas as acções , sejam elas quais forem, um comportamento criativo. Concebemos, sem dúvida, essa situação. Mas somos nós, agora, que devemos criá-la. Porque ela não existe.
Perante esta perspectiva, nada poderá mostrar um mais agudo contraste do que as condições actuais. A arte anestesia os vivos. Estamos metidos num condicionamento em que a vida se vê continuamente desvitalizada pela arte, onde tudo é apresentado falsamente, com as feições do sensacional e da compra, com vista a inspirar a cada indivíduo a necessidade de responder de maneira passiva e tradicional, de dar a tudo isso e a toda a hora um consentimento banal e automático. Para o homem médio, desencorajado e inquieto, incapaz de concentração, uma obra artística só pode ser assinalada se for posta em competição na esfera do espectáculo.


-"ANTOLOGIA Internacional Situacionista"