«Ele que deixasse os livros, diziam, para os paralíticos e os moribundos.»

Terça-feira, 14 de Setembro de 2010

o tempo

as coisas demoram sempre demasiado para aquilo que a minha paciência consegue tolerar. como já roo as unhas, fumo ventil e, sempre que posso, mexo o mais possível no cabelo para ter o gostinho de ver dois ou três ficarem nos meus dedos, não sei para que género de nova paranóia me posso virar. em agosto dediquei-me à leitura, furiosamente, mais ou menos inspirada por uma série de pequenas tragédias que me vieram cumprimentar. li a Odisseia com os pés enfiados no mar e o rabo cheio de areia, li o Moby Dick (que abandonei assim que cheguei a Lisboa) num bar entre o fim do Alentejo e o começo do Algarve, li isto e aquilo com o mesmo entusiasmo com que, na secundária, virava as não sei quantas páginas do sucesso cinematográfico do Eco, o nome da rosa. nem sempre consigo ler como nessa altura lia, alheia aos namorados feiosos, às amigas ranhosas, à família chatíssima, às angústias para o jantar, a tudo, enfim. é que se a leitura costumava ter um efeito imediato na minha concentração, a partir de certa altura começou a ser necessária uma certa dose de esforço. talvez o facto de ter deixado de ser isabel allende e de ter passado a hettys e virginias constitua aqui uma limitação - mas até isto, hoje me faz pensar: por que raio me dou ao trabalho de ler livros difíceis e chatos? a resposta surge com brevidade, atiro: nos livros, como no amor, gosto de ser eu a conquistar.