«Ele que deixasse os livros, diziam, para os paralíticos e os moribundos.»

Domingo, 31 de Janeiro de 2010

Perguntas Abandonadas #4


«O rouxinol! em cem pessoas, quantas dão por ele?»

D. T. Suzuki (1870–1966)

Sábado, 30 de Janeiro de 2010

Teoria da Conspiração #10 (ou o encontro na sombra)



«FAUSTO:
De ti, ó ígnea imagem, não me escudo!
Sou eu, sou Fausto, igual a ti em tudo!

ESPÍRITO:
Nas vagas da vida, vendavais de acção,
Me vês subir , descer,
Tecer fios neste pano!
Nascer e morrer,
Eterno oceano,
Alternando a trama,
A vida uma chama,
E sentado ao tear vibrante do Tempo
Teço à divindade o seu manto vivo.

FAUSTO:
Tu, que a vastidão do mundo envolves,
Génio da acção, que perto estou de ti!

ESPÍRITO:
Tu és igual ao espírito que entendes,
Não a mim! (Desaparece.)»

Johann W. Goethe, "Fausto", Relógio d'Água, 2003

é para isto que uma mulher anda com uma pochette, não é?

um remake

PORTUGAL SACRO-PROFANO
aAO antes do Acordo Ortográfico
dAO depois do Acordo Ortográfico

não posso ler blogues sobre política

fico com vontade de gritar.

e agora um intervalo para uma coisa um bocadinho mais séria

é ESCANDALOSO estar a ler num blogue umas coisas sobre violência doméstica e deparar-me com o seguinte comentário de uma leitora:
«uma mulher que é violentada só tem de sair de casa e fazer os possíveis para meter atrás das grades o monstro. Se fica em casa e aguenta é porque não lhe desagrada a situação.»
há mulheres portuguesas que pensam assim. estas são as que mereciam mesmo levar porrada. só para experimentar.

além de grande editor


é tão giro, o Vítor Silva Tavares

foto retirada do baú onde esta noite me movo

Sexta-feira, 29 de Janeiro de 2010

a claustrofobia



©Aronofsky,Darren;2008

vem aí o

Porque és o avesso do avesso do avesso do avesso

Trama's going Wilde



"No momento em que o artista, tomando conhecimento do que o público quer, tenta corresponder à demanda, deixa de imediato de ser um artista para passar a ser um comerciante, tão honesto quanto desonesto."

"Revelar a arte e dissimular o artista é o verdadeiro objectivo da arte."

"As mulheres são um sexo fascinante e caprichoso. Toda a mulher é rebelde, geralmente revoltada contra si mesma."

há coisa de uns minutos

tentaram pagar um livro com o "nosso cartão almedina". depois de eu ter explicado que o cartão tinha expirado (pronto, pronto, na verdade só disse que não somos a almedina), fez-se aquele silêncio... «então... quem são?»

ela disse "o caos, o horror, o drama"

o homem da quinta-feira disse "o caos, o horror, a trama"

ela disse "como se o rato tivesse roído"

eu ouvi "como se o Rato tivesse ruído"

Quinta-feira, 28 de Janeiro de 2010

tudo


Retrato de Família #10



J. D. S. Karamazov (1919 –2010)

Right on!



Os cartazes que o Xavier Almeida fez para os concertos da livraria estão na Mostra de Jovens Artistas em Évora .

com cinco letrinhas apenas (cinco mas de bronze)

"Eu ficava um ror de tempo à espera em frente do portão. Um portão que vos não digo nada, destes bronzes gigantescos que eu sei cá, terrível trama de lanças espetadas ali assim, na escuridão de breu."
De Três em Pipa
, Louis-Fernand Céline (Tradução de Aníbal Fernandes, Ed. Assírio & Alvim)

escritores, copos&uma droga ou outra



Dorothy Parker (1893 - 1967) e Anne Sexton (1928 - 1974)
ver mais
aqui
oh

chegaram, chegaram

é para isto que uma mulher anda com uma pochette, não é?


«Sabes? Foi sempre um semi-empenhamento nos actos ou porque o peso dos livros antigos e dos romances em que a dúvida e o amor muito ardiam me doesse sempre, ou porque os objectos familiares valessem para mim mais do que as vitórias possíveis, ou porque não conseguia estabelecer a relação entre aquilo e o desejo da mudança radical das coisas, dos sentimentos, dos gostos, das ideias que ocupavam as cabeças e as mãos - não era mais ou menos assim uma revolução?»

à venda neste botequim

«PROPS é a nova publicação do Teatro Praga.
“Props” de adereço, propaganda ou slang para mostrar respect.
Não quer ser a reunião de textos de apoio, memórias descritivas, nem de ensaios sobre os espectáculos.
É uma outra criação em si mesma, que pode conter texto, desenho ou fotografia de gente que colabora normalmente com a Praga, de outros criadores de quem nos sentimos próximos, artistas, filósofos, escritores que passaram, passam, passarão pelo nosso trabalho e que convidamos para uma edição, um pedaço de edição, o que interessar no momento.
É uma fanzine, mas se calhar é uma revista ou um conjunto de folhas, um livro? O que é a capa, o que é o miolo? PROPS não tem respostas nem géneros, muito menos tema geral que nos conforte. Trata-se de um objecto paralelo, porque são necessárias outras formas de registar e porque a nossa identidade é uma identidade partilhada e colectiva e porque somos hiperbólicos e megalopsíquicos.»

há alguém por aí que goste de teatro?


clicar na imagem para aumentar

Lições dos mestres


"Houve alturas em que ia aos bares por causa do Zé e os bares estavam cheios de pintores que não pintavam e escritores que não escreviam, que diziam mal dos que pintavam e dos que escreviam...Às vezes pergunto-me se o facto de haver grupos não é uma prova de que há fraquezas individuais. Não imaginamos o Tolstoi em nenhum grupo, e no entanto, está a escrever ao mesmo tempo que o Pushkin, que o Lermontov, que o Gogol, que todos esses grandes escritores...Dizia que a Medicina era a mulher dele e a literatura era a amante.

Bom dia!

Quarta-feira, 27 de Janeiro de 2010

o homem de quarta-feira #23



«Um Lavrador que se encontrava às portas da morte, tendo conhecimento que durante a sua doença os Filhos haviam deixado a vinha cobrir-se de ervas daninhas enquanto jogavam às cartas com o médico, disse-lhes:
- Meus rapazes, há um grande tesouro enterrado na vinha. Cavem até o encontrarem.
E foi assim que os Filhos arrancaram todas as ervas daninhas, juntamente com todas as cepas, esquecendo-se inclusive de enterrar o velhote.»

Ambrose Bierce, "Esopo Emendado & Outras Fábulas Fantásticas", Antígona, 1996



Beyond civic order:

l'AMOR


- Ezra Pound -

Ainda décadas à frente de todos nós

If we never write anything save what is already
understood, the field of understanding will never be
extended. One demands the right, now and again,
to write for a few people with special interests
and whose curiosity reaches into greater detail.

- Ezra Pound -

ela só escreve

Ricardo

que cool, a prenda. confesso que depois de todo o suspense com a prenda do ano passado (que nunca chegou), conseguiste surpreender-me. estou com vontade de aproveitar que foste almoçar e sentar-me aqui a ler um bocadinho. não te importas, pois não?

Terça-feira, 26 de Janeiro de 2010

Chamada a pagar no destinatário #2

Tu o disseste meu caro, tu o disseste

Na Damaia era: "O Camandro da Borboleta"

Definitivamente, três seria demais

Andou esgotado

Dois é bom, três seria demais

Abram alas para o Jeffy

Atenção!Atenção!Atenção! Para ler até ao fim e respirar



III

Oh escuro escuro escuro. Todos vão para o escuro,
Os vazios espaços interestelares, o vazio para dentro do vazio,
Capitães, banqueiros comerciais, eminentes homens de letras.
Generosos patronos da arte, homens de estado e dirigentes,
Distintos funcionários superiores, presidentes de muitas
comissões,
Magnates da indústria e pequenos empreiteiros, todos vão
para o escuro,
Escuros o Sol e a Lua, e o Almanaque de Gotha
E a Gazeta da Bolsa, o Rol dos Directores,
E frio o senso e perdido o motivo da acção.
E nós vamos todos com eles, para o funeral silencioso,
O funeral de ninguém, pois não há ninguém para enterrar.
Eu disse à minha alma, está quieta e deixa vir o escuro
sobre ti,
O qual será a treva de Deus. Como, num teatro,
Quando as luzes se apagam, para ser mudada a cena,
Com um surdo rumor de bastidores, num movimento de
treva na treva,
E nos sabemos que os montes e as árvores, o panorama ao
longe
E a altiva fachada imponente estão todos a ser empurrados
para fora -
Ou como quando um comboio do metro, no túnel, pára muito
tempo entre estações
E a conversa se eleva e lentamente esmorece em silêncio
E se vê por detrás de cada rosto o vazio da mente aprofundar-se
E apenas resta o crescente terror de nada em que pensar;
Ou quando, sob o éter, o espírito está consciente mas consciente
de nada -
Eu disse à minha alma, está quieta e aguarda sem esperança
Pois a esperança seria na coisa errada; aguarda
sem amor
Pois o amor seria amor pela coisa errada; há ainda fé
Mas a fé e o amor e a esperança encontra-se todos no acto
de aguardar.
Aguarda sem pensar, pois não estás pronta para pensar:
Assim a treva será a luz, e a quietação a dança.
Sussurro de arroios a correr, e relâmpagos de Inverno.
O tomilho bravo invisível e o morango bravo,
O riso no jardim, repercutido êxtase
Que não se perde, mas reclama, aponta para a agonia
Da morte e do nascimento.

Dizes que repito
Algo que disse antes. Vou dizê-lo de novo.
Digo-o de novo? A fim de lá chegares,
De chegares onde estás, de saíres de onde não estás,
Tens de seguir por um caminho por onde não há êxtase.
A fim de chegares àquilo que não sabes
Tens de seguir um caminho que é o caminho da ignorância.
A fim de possuíres o que não possuis
tens de seguir o caminho do despojamento.
A fim de chegares àquilo que não és
Tens de seguir pelo caminho em que não és.
E aquilo que não sabes é a única coisa que sabes
E aquilo que tens é o que não tens
E onde estás é onde não estás.

encomenda

vou carregada para santa maria da feira

lá fora

passa uma mãe a cantar uma música em francês, lalalala marcher!
a filha, que a segue atrás, diz pelo meio hop! hop!

Comover-me assim por nada mais que o silêncio
de repente a chamar as coisas todas juro valeu bem: toda
a morte que o amor nos ensina.
Bernardo Pinto de Almeida,
segunda pátria, &etc, 2005

are you talking about me?

a conspiração

Ontem o Chuang Tse e o Pedro disseram-me exactamente o mesmo: não vale a pena procurar, a seu tempo as coisas revelam-se, acontecem. Como canta o Lenine (ou o Kierkegaard?), o que é preciso é um pouco mais de paciência.

"Aquele que deseja saber todas as coisas não é sábio. Aquele que mostra parcialidade não é verdadeiramente neutro. Aquele que calcula os seus tempos, não tem sabedoria. Aquele que não vê para além do ganho e da perda não é grande. Aquele que procura reconhecimento e não segue aquilo que sabe, não revela compreensão. Aquele que perderia a vida sem ser verdadeiro para si mesmo não poderia nunca ser um mestre dos homens."

uma ou outra forma de enriquecer


meu deus, e a dificuldade em escrever esta palavra? primeira tentativa henriquecer, segunda tentativa enrhiquecer. juro que tive que parar para pensar.

Cómo Hacerse Rico, de Jeff Fisher, MediaVaca, 2009

bom dia

Segunda-feira, 25 de Janeiro de 2010

esquece tudo o que te disse #8




passo a vida nisto


Adélia Prado
Com Licença Poética
(selecção de Abel Barros Baptista)
Cotovia

passei o dia nisto


e ainda arrumei uma coisa ou outra.

já?


[Ainda Não é a última novidade da Averno]

esta semana

quinta-feira, 28 de Janeiro às 21h30
Duo Paulo Curado + Miguel Mira
http://www.myspace.com/paulocurado
€3,00


sábado, 30 de janeiro às 21h30
KANALA AUER (Viena) e SADANAND MAGEE (Dublin)
Concerto de Sitar e Tablas
entrada livre

foi chuang tse que o disse

«o homem perfeito não tem ego, o homem santo não tem mérito, o sábio não tem fama.»

há dias em que tenho vontade de correr

às vezes quero vir aqui escrever

e não tenho rigorosamente nada para dizer. vou arrumar os livros lá em cima.

Domingo, 24 de Janeiro de 2010

Orelhas de Elefante #11

Surrealismo

Massive Attack, "Heligoland", Virgin, 2010

Realismo

The Magnetic Fields, "Realism", Nonesuch Records, 2010

Sábado, 23 de Janeiro de 2010

Momento Pergaminho #3



«Estás no valo a trabalhar. O crepúsculo que te envolve é cor de cinza, o céu acima é cinzento, cinzenta a neve no pálido lusco-fusco, os trapos dos teus companheiros são cinzentos, e também os semblantes deles são cor de cinza. Retomas outra vez o diálogo com o ente querido. Pela milésima vez lanças rumo ao sol teu lamento e tua interrogação. Buscas ardentemente uma resposta, queres saber o sentido do teu sofrimento e de teu sacrifício – o sentido de tua morte lenta. Numa revolta última contra o desespero da morte à tua frente, sentes teu espírito irromper por entre o cinzento que te envolve, e nesta revolta derradeira sentes que teu espírito se alça acima deste mundo desolado e sem sentido, e tuas indagações por um sentido último recebem, por fim, de algum lugar, um vitorioso e regozijante “sim”. Nesse mesmo instante acende-se ao longe uma luz, na janela de uma distante moradia camponesa, postada feito bastidor à frente do horizonte, em meio à cinzenta e desolada madrugada bávara “et lux in tenebris lucet”, e a luz resplandece nas trevas. Agora estiveste horas a fio picando o chão congelado, outra vez passou a sentinela e debochou um pouco de ti, e de novo recomeças o diálogo com teu ente querido. Tens cada vez mais o sentimento de que ela está presente. Sentes que ela está ali. Crê poder tocá-la, parece precisares apenas estender a mão para tomar sua mão. E com grande intensidade te invade o sentimento: Ela, está aqui! Eis que no mesmo instante – o que é aquilo? – sem que tenhas notado, acaba de pousar um passarinho bem à tua frente, sobre o torrão que recém cavaste, para te fitar atento e sereno...»

Viktor Frankl, "Em Busca de Sentido", Editora Vozes, 2006


Works with the chicks

E lá vamos assentindo as palavras do Sr B




"...a sede sempre
nunca a saciedade"

contra tudo e contra todos

réponse de femmes é uma curta de 1975 de Agnès Varda que descobri por acaso neste blogue. durante os sete minutos do filme oscilei entre uma sensação estranha de identificação e recusa. quase como se me sentisse envergonhada por um feminino em que não me revejo - um feminino que se quer demarcadamente feminino, contra o masculino - mas a que não consigo fugir completamente.
porque o que me interessa, nesta questão dos géneros, tem que ver com duas coisas distintas: quais são os meus obstáculos práticos (sociais) enquanto mulher e de que forma o meu sexo se intromete na minha arte.

o bandido que sabia latim



O bandido que sabia latim
é uma compilação de músicas de autoria do Paulo Leminski que acabei de descobrir num blogue brasileiro e que estou prestes a ouvir. Uma música chamada Xixi nas Estrelas deixa uma pessoa curiosa.

vou ali e já volto

tempo


A mim que desde a infância venho vindo
como se o meu destino
fosse o exato destino de uma estrela
apelam incríveis coisas:
pintar as unhas, descobrir a nuca,
piscar os olhos, beber.
Tomo o nome de Deus num vão.
Descobri que a seu tempo
vão me chorar e esquecer.
Vinte anos mais vinte é o que tenho,
mulher ocidental que se fosse homem
amaria chamar-se Eliud Jonathan.
Nesse exato momento do dia vinte de julho
de mil novecentos e setenta e seis,
o céu é bruma, está frio, estou feia,
acabo de receber um beijo pelo correio.
Quarenta anos: não quero faca nem queijo.
Quero a fome.
Adélia Prado,
Com Licença Poética, Cotovia, 2003

Sexta-feira, 22 de Janeiro de 2010

Esta é para a miúda da Trama pelos vídeos do youtube e pelas conversas que já não são de parapeito



"Herdámos da morte o silêncio com que respiramos.
Temos escarpas altíssimas por dentro do corpo
E olhamos vertiginosamente para baixo,
Desejando cair cada vez mais desamparados."


-"Lábio Cortado" - Rui Almeida - Livro Do Dia

Toda a humilhação leva à morte #7



«A virtualização, de maneira geral, é uma guerra contra a fragilidade, a dor, a usura. Em busca da segurança e do controlo, perseguimos o virtual porque nos leva a regiões ontológicas que os perigos vulgares já não atingem. A arte questiona esta tendência e virtualiza, assim, a virtualização, porque procura, a partir do mesmo momento, uma saída do aqui e do agora, e a sua exaltação sensual. Ela retoma a tentativa de evasão. Ela ata e desata a energia afectiva que nos faz superar o caos. Em ultima instância, ao denunciar o motor da virtualização, ela problematiza o esforço incansável, por vezes fecundo e sempre votado ao fracasso, que empreendemos para escapar à morte.»

Pierre Lévy