«Ele que deixasse os livros, diziam, para os paralíticos e os moribundos.»

Domingo, 28 de Fevereiro de 2010

viagem ao centro do ego


©Sant,Gus Van;2002

Sábado, 27 de Fevereiro de 2010

a vida não é um sonho #3



«Hemingway, Ernest

Acabou se matando porque descobriu que não era um grande escritor. Isto o salva, em parte. (Revista Siete Días 19/6/86)»

Carlos R. Stortini, "Dicionário de Borges", Bertrand Brasil, 1990

os diários da livreira

esta tarde, depois de atender uma data de gente, sobrava apenas uma rapariga, cabo-verdiana, sorridente, em frente ao balcão. tinha o resto de uma cerveja na mão que não sabia a quem oferecer. perguntei-lhe se precisava de alguma coisa ao que ela respondeu com uma extraordinária leveza (que a minha cara, branca, não aguentou, tornando-se de imediato muito vermelha) - não, já tens a carta de alforria.

Ruy Belo (27 de Fevereiro de 1933 - 8 de Agosto de 1978)

há muito tempo

Talvez Eva não soubesse falar, ainda ou já. Mas pensava, como todos os homens, durante as horas em que não dormia. Como desconhecia as palavras exactas através das quais se pensa, e desconhecia as imagens do mundo por fora da sala, era especialmente naquela brancura que pensava.
Ouviu: - Não precisarás de saber dizer
as palavras. Para lá deste lugar, ninguém diz
as palavras - que se pensam.
Filipa Leal,
A Inexistência de Eva, Deriva, 2009

sweets for my sweet, books for my honey

Da pouca vergonha



I am in love with no other than myself,
and my very separation is my union...

I am my beloved and my lover;
I am my knight nd my maiden.

acentuar


©João Mota (2010)

Acrescento um i ao teu nome #3



"O tanque junto a que o crepúsculo mo traz é o de Bashô.
A água maravilha-se.

Inquinam-se as imagens, a pequena rotação do outono,
o dia decompõem-se, o sangue explode contra a claridade.

Um nó de leite a nudez cresce pela água."


-"Poesia Completa 1979 / 1994" - Luís Miguel Nava

Sexta-feira, 26 de Fevereiro de 2010

esquece tudo o que te disse #9




Como disse, Doutor?

"Não gostas de cabras!?!?...
Tens claramente pouca vivência de campo!

Do reconhecimento

amor platónico

«Para passar o tempo, Platão decidiu divertir-se à custa da sensibilidade de certos poetas. Pois bem, o que fez Platão? Inventou o amor platónico.
Depois, aborrecido com a sua própria invenção, saiu de casa e foi às putas.»

Rui Manuel Amaral, Caravana, Angelus Novus

o que não se resolve

«era uma vez uma rapariguinha num grande país: ela não era muito bela, mas o seu pensamento era belo; a rapariguinha só tinha uma coisa em mente: ter os cabelos compridos, vestir-se com uma blusa lilás, e saia cor-de-rosa; e viver no espaço do pensamento era muito importante para ela. Aconteceu que um dia o pensamento que ela era pensou que estava no seu pensamento, que ela subia no espaço de um pensamento tão profundo que começou a chorar intensamente (...)»

Maria Gabriela Llansol, Causa Amante, Relógio D'Água, 1996

Crucificar auroras como profetas



Argumento é uma palavra antiga que quer dizer a brancura da aurora. É tudo o que ilumina e se discerne nesta palidez que surge em alguns instantes. Peremptório é o argumento: nunca é possível desviar o rio no instante exacto da sua cheia.
Assim como não é fácil parar o dia na sua aurora.
Espera-se.
Espera-se sem nada poder fazer, subitamente, numa contemplação tornada infeliz.
Ou o amor surgirá da paixão, ou nunca nascerá.
É verdade que não é fácil desenfeitiçar este momento petrificado. Cada um tem de superar este passo estranho em que tudo o que era descoberta no fundo da alma descobre que não descobrirá mais.
Onde tudo se põe a reconhecer.


-"Vida Secreta" - Pascal Quignard

Descoberto ontem, depois do concerto



Há palavras que têm sombra de árvore
outras que têm fluido de astros
Há vocábulos que têm fogo de raios
E que incendeiam o espaço onde caem
Outros que se congelam na língua e se estilhaçam
ao sair
Como esses cristais alados e fatídicos
Há palavras com ímanes que atraem os tesouros
do abismo
Outras que se descarregam como vagões sobre a
alma
Altazor desconfia das palavras
Desconfia da cerimoniosa astúcia
E da poesia
Armadilhas
Armadilhas de luz e luxuosas cascatas
Armadilhas de de pérola e de lâmpada aquática
Caminha como os cegos com seus olhos de pedra
Pressentindo o abismo em cada passo
Vogar em incêndios como em oceanos
Ceifar oceanos como searas
Repicar searas como sinos
Esquartejar sinos como cordeiros

Desenhar cordeiros como sorrisos

Engarrafar sorrisos como licores

Engastar licores como jóias
Electrizar jóias como
crepúsculos
Tripular
crepúsculos como navios
Descalçar
reis como auroras
Crucificar auroras como profetas



-"Natureza Viva" - Vicente Huidobro - Hiena Editora

Ó Xico, és um homem ou um rato?

é mesmo bonito, não é?






El Poso del Café
, Aitana Carrasco, ed. Quitapenas (2008)

os diários da livreira

o exercício de ouvir implica o exercício de calar. «promover o diálogo» às vezes é só não dizer nada ou dizer apenas que se está interessado em ouvir. penso nisto porque esta semana foi, nesta coisa das conversas, exemplar. e isto sem que eu tenha dito muito. quero dizer: a semana começou com um tipo cujo rosto me é familiar mas de quem não sei rigorosamente nada, que entrou, logo na manhã de segunda, livraria adentro no entusiasmo dos moleskines. foram duas horas a falar (a ouvir) sobre tudo quanto interessa realmente falar na vida - a mim, pelo menos. que se lixe a literatura, sweety, não viemos ao mundo para nos empanturrarmos com cultura, há qualquer coisa cá dentro bem maior que isso. falámos, então, durante duas horas, sobre as relações do homem com a máquina, com a terra e o céu, o dentro e o fora. homens e mulheres, combates, desastres, filhos. o que me interessa é a vida comum, que não existe.
outras duas horas da semana foram passadas com uma mulher destas coisas do trabalho - resolvido o tema profissional tudo o resto foi o dar-me acesso à sua biografia. e soube-me bem saber do casamento, do divórcio, do negócio que correu mal, da retoma, da luta com as contas, da experiência noutra cidade e, no fim, o resultado de toda essa vida, batida e pensada, consequente. pareceu-me bonito o que ela dizia e à medida que falava e mexia no cabelo eu ia reparando na pele dela, mais lisa do que antes me parecera, nas maçãs do rosto, mais expressivas do que eu notara, no olhar alegre de que não me tinha apercebido até esse momento. parecia-me bonita e enraízada, uma dessas mulheres tanque de guerra, para a frente é que é caminho.
e ao princípio da noite outra figura, sotaque algarvio, olá, lembra-se de mim? estou com um penteado diferente, é claro que me lembro e vendo-lhe o livro em três minutos passando mais vinte a ouvi-la falar sobre a lua no Algarve, que é maior e mais viva do que em Lisboa, das sobrinhas, da casa de Faro, do que calhasse.
começo este dia com este post, parece que acordo. ou que o dia só começa quando encontro nele alguma coisa que o faça merecer o substantivo. começo o dia depois de outra conversa, e de outra, e de ainda outra. e agora sim, cheia de vontade de falar.

ao som dos social studies


(graças ao doutor Xu)

consta que a ovelhinha, ela mesma, também vai aparecer...



é de amanhã a 8
tragam os filhos, os sobrinhos, os primos e os filhos dos amigos, vai ser uma tarde fabulosa!

"I guess you call this love", I call it room service


leonard cohen is playing at my house

Quinta-feira, 25 de Fevereiro de 2010

Orelhas de Elefante #12



Porque há musicas de outras dimensões.

momento se eu não gostar de mim, quem gostará?

o pedro

a lulu quer o que quer qualquer mulher



Poems from the Women's Movement, edited by Honor Moore

um livro chamado "o golfinho de júpiter"

é um achado para todo o tipo de piadinhas, chalaças e graçolas. às vezes esta livreira tem que se conter.

notícias do mundo livreiro (que chegam por mail)


O inglês David Cambridge adora livros e por isso a sua vida profissional lhe era extremamente prazerosa: ele trabalhava em uma livraria em Horninglow – é considerado um dos mais cultos livreiros da região. Mas havia um “porém” em tudo isso: David padece de um mal que pode acometer cultos ou incultos, letrados ou ignorantes. E qual é esse mal tão democrático do qual David sofre? É de excesso de gases que, independentemente da vontade de seu dono, insistem em se libertar. Houve 35 reclamações dos colegas de David. Ele foi mandado embora do emprego.

"whatever works"

significa que as noções de certo ou errado, bem ou mal, verdadeiro ou falso, pouco importam. é reconhecer apenas o limite último: a dor, própria ou alheia. ainda assim, coloca-se um problema - quando x actua de forma que considera inofensiva e y sofre. há um espaço, que pode ser mínimo ou gigantesco, entre a acção e a reacção. é esse risco que dá a forma a qualquer relação. tento lembrar-me de um livro que ilustre o que pretendo aqui explicar mas, como quase sempre, os melhores exemplos estão cá fora. a literatura servir-me-ia, neste caso, para que não fosse eu a pensar, para me retirar do lugar de narradora e passar-me a observadora. um lugar mais confortável e, isto sim, o importante, mais elevado - geograficamente. como se quem observasse estivesse sempre uns metros acima dos observados. depois é ver isto tudo misturado e imaginar um mundo em que as pessoas sobem e descem continuamente, isto é, participam e observam - uma espécie de lugar sem gravidade ou "a vida é um trampolim" em jeito de piada a uma mesa do Pai Tirano.
quando x age e y reage, por exemplo, sorrindo, a forma da relação será um pequeno travessão. se por acaso y ficasse assustado e não compreendesse, desenhar-se-ia o início de uma espiral. depois há relações quadradas e, mais estranho, relações em metamorfose, que não se definem, que sofrem as mais curiosas variáveis geométricas.
acontece, por exemplo, que numa discussão entre x e y, a maior tensão não estará no evento que causou a dor mas sim no debate sobre esse evento. na rememoração do sucedido, tanto x, agente que magoa, como y, agente magoado, passam à posição de observadores - da sua condição. nesta observação deixam de ser personagens terrenas, que sentem e sofrem, em acção, para se elevarem (geograficamente) e, desse cume (cuja melhor imagem será uma espécie de pára-quedas), tentarão ver quem voa mais acima. dois apontamentos: quem está mais acima é, à partida, quem melhor vê o panorama, mas; pode estar-se tão acima que já não se vê a terra. seja como for: é um movimento sempre em queda, como, aliás, o mais pequeno dos saltos.

"às vezes o papel é mais duro do que a pedra"

disse o joão, do alto dos seus 4 anos, depois de limpar a boca a um guardanapo.

Quarta-feira, 24 de Fevereiro de 2010

o homem de quarta-feira #25



«Atenção! Não podemos carregar na dose. Actue com delicadeza e subtileza para não envenenarmos nada e não ficarmos expostos sem necessidade. Graças a Deus, até agora a sorte tem estado connosco - mas é preciso não exagerar. Tome cuidado consigo. Muito cuidado!»

Witold Gombrowicz, "A Pornografia", Relógio D'Água, 1988

A Doutora Rita é que sabe



"Ser escrupuloso. Rejeitar no real tudo aquilo que não se torna verdadeiro. (A horrível realidade do falso.)"

"Não embelezes nem tornes feio. Não desnatures."

"Com o nítido e o preciso forçarás a atenção dos desatentos de olhos e de ouvidos."

Acrescento um i ao teu nome #2



"Esta noite a tua boca é a mais bela rosa do universo
Bebo para afogar este pesadelo
Que o vinho seja rubro como as maçãs do teu rosto
E os meus versos tão leves como os anéis dos teus cabelos"


- Omar Khayam -

foto: Sarah Moon

"Um senhor", diria o Dr Changuito



- O senhor não sabe que um particular não pode fazer inquéritos por iniciativa própria , pelo menos inquéritos que perturbem a ordem?
- Não.
- E sobre o que era o inquérito?
- Surrealismo.
- Quê?
- Trata-se de "um meio de libertação total do espírito".
- Por outras palavras, um movimento de libertação!?
- Não posso dizer nem que sim nem que não.
- Concretamente quais são os fins do movimento?
- "Nada pretende mudar aso usos e costumes dos homens, mas pensa demonstrar-lhes a fragilidade das suas ideias..."
- E por que meios?
- Todos. Sobretudo "o maravilhoso"e o "martelo".
- O senhor está a brincar comigo, não é verdade?
- Garanto-lhe que não.
- E quem faz parte desse movimento?
- Quem quiser.
- O senhor parece que ainda não percebeu por que é que está aqui.
- Na verdade, não.
- Diga-me quem é o fundador desse movimento.
- Isso é realmente difícil, muito difícil. Poderia dizer que foi um tal Apuleio, mas parece-me mais certo dizer que foi Ovídio, o poeta Ovídio. Não sei que conhece?
- Talvez, de ouvido. E agora aqui, entre nós, quem mais?
- O'Neill, Cesariny, Oom...
- Portugueses queria eu dizer.
- Estes são portugueses...
- Ah, esses são portugueses! Mas afinal que é que se pretende com isso tudo?
- Mostrar que não há contradição nenhuma entre a chamada realidade e o chamado irreal. São partes de uma realidade maior, chamada surrealidade.
- Parece-me que se pode dizer que é um movimento que não está contente com as realidades.
- Isso é o realismo.
- E o senhor já percebeu que perturbou a ordem pública?
- Pelo contrário: eu acho que a ordem pública é que me perturbou a mim.
- Acho que estou a perceber esta inversão de que falou. E que é que esperava que lhe dissessem essas pessoas a quem incomodou?
- Há "contos de fadas que ainda não se escreveram". De resto, " como não costumo apanhar frio na leitura do jornal..."
- Talvez o melhor seja mandá-lo fazer um teste às suas faculdades mentais. Vou pensar no assunto. O senhor apresenta-se aqui amanhã outra vez, para continuarmos a conversa.


-"Que lareiras na floresta" - Alberto Pimenta - 7Nós

Toda a ciência é uma medida do homem



"Eu também não fui parar à arte a sonhar, pelo contrário, comecei por estudar ciências. E a base do que fui encontrando chegou-me para saber que não me satisfazia ver-me limitado dessa forma, e simplesmente reflectindo e comparando encontrei o caminho para a arte. Porém, não digo que o tempo que gastei com as ciências naturais seja um tempo perdido, mas comprovei que só tendo por base esses começos foi possível formar-se correctamente a minha decisão pela arte."


"Actualmente a cultura não tem nenhuma relação com a sociedade, e esta separação leva-nos a uma conclusão perigosa: que a cultura está estritamente ligada à lei, à produção, ao dinheiro, ao produto nacional, ao status de cada indivíduo dentro da sociedade."

Monsieur Éluard



"Como o dia depende da inocência
O mundo inteiro depende dos teus olhos
E todo o meu sangue corre no teu olhar."


-"Algumas Palavras"- Paul Éluard

O carteiro trouxe isto



-"Antologia Breve" - Pablo Neruda

Surrealista Esgotado



-"A mulher sentada" - Guillaume Apollinaire

Má capa para um excelente livro



"É mais fácil destruir os vestígios do passado que esquecer, assim como é mais fácil destruir a fotografia ou amontoar pedras sobre um cadáver que esquecer o rosto que regressa em sonho.
A existência do passado para seres que dele dependeram no seu próprio nascimento é inesquecível.
Antes de toda a linguagem, os olhares são para os vivos o que seria sempre inesquecível ( para além da linguagem). É este contacto antigo de olhar a olhar que resplandece na paixão súbita."


-"Vida Secreta" - Pascal Quignard

"Suicidar-se é coisa corriqueira"



- "Poemas" - Bertold Brecht

ainda não tinha visto o teu post, K

por isso acho imensa piada à minha Geneviève Rioux a olhar para o teu Jeff Buckley.

breves notas sobre qualquer coisa

numa segunda à noite o declínio do império americano e na terça que se lhe segue as invasões bárbaras. choro incluído, muito. toda uma tese em construção, como sempre. caramba, caramba. porque a morte - o que é que eu sei da morte?

é tão estreita a relação com algumas editoras

que há vendedores que aparecem a perguntar pela reposição e eu tenho que perguntar «de quê?»

precisa-se

babysitter
m/f
com conhecimentos acerca da obra do Valéry e do Maurice Blanchot
disponível para passar o dia com uma criança de quatro anos que pronuncia correctamente manual de pres-ti-di-gi-ta-ção enquanto tenta perceber os mistérios da internet com perguntas do tipo «os cds voam de um computador para o outro?»
experiência com pequenos animais domésticos será valorizada
(ou: como enlouquecer na primeira hora de trabalho quando a escola está fechada)

Terça-feira, 23 de Fevereiro de 2010

a poesia não me interessa #15



A uma transeunte

A rua ensurdecedora em meu redor berrava
Alta, esguia, de luto carregado, dor majestosa,
Um mulher passou, com sua mão faustosa
Erguendo, baloiçando o ramo e a bainha

Ágil e nobre, com sua perna de estátua,
Eu bebia, crispado como extravagante,
No seu olhar, céu lívido onde nasce o furacão,
A doçura que fascina e o prazer que mata

Um raio… em seguida, a noite! __ Beleza fugitiva
Cujo olhar me fez repentinamente renascer,
Só voltarei a ver-te na eternidade?

Algures, bem longe daqui! Demasiado tarde! Nunca talvez!
Eu não sei para onde fugiste, tu não sabes para onde vou,
Tu que eu teria amado, tu que sabias que sim!

Charles Baudelaire, "As Flores do Mal", Relógio D'Água, 2003

o blogue que quer deixar de fumar

eu hoje até estava com ganas de postar furiosamente (sobre livros e tudo) mas acontece que estou, neste preciso momento, a desperdiçar o último cigarro nas teclas do portátil (e o fumo de um lado para o outro, do ecrã a moi, de moi às teclas outra vez) por isso vou ter que ir a correr para a cama com as invasões bárbaras.

a Trama






pcd fallorca livreiro henrique fialho luísa fernando dinis cristina, a Trama
detesto actualizar a barra lateral

Acrescento um i ao teu nome #1



Palavras Pintadas


Para tudo compreender
Tudo
A árvore de olhar de proa
A árvore adorada dos cipós e lagartos
Para compreender o fogo
Para compreender o cego

Para reunir asa e orvalho
Coração e nuvem dia e noite
Janela e país de qualquer parte

Para abolir
A careta do zero
Que amanhã rolará sobre o ouro

Para talhar
As pequenas maneiras
Dos gigantes que se alimentam de si mesmos

Para ver todos os olhos reflectidos
Por todos os olhos

Para ver todos os olhos tão belos
Como o que vêem
Mar absorvente
Para que nos riamos levianamente
De tudo o que sofremos
Do calor e do frio
Da fome e da sede

Para que falar
Seja tão generoso
Como beijar

Para misturar a mulher e o rio
O cristal e a dançarina da tempestade
A aurora e a estação dos seios
Os desejos e a sabedoria das crianças

Para dar à mulher
Pensativa e só
A forma das carícias
Que ela sonhou

Para que os desertos fiquem à sombra
Em vez de estarem na
Minha
Sombra

Dar
Meu
Bem
Dar
Meu
Direito


-"Algumas Palavras" - Paul Éluard


foto: Sara Moon


variações de pessoaberg

ai que prazer
tanto livro para arrumar e não o fazer

do ofício da livreira cantante

ele era tão giro que demorei um bom bocado até perceber que o Ébola, o livro que ele queria, era, afinal, isto.

dá-me vontade de rir

cada conversa sobre certa rapariga que fez da sua vida um mar de rosas, dormindo aqui, passando por ali, estabelecendo-se acolá. que pretensão, querer resumir, simplificar, compreender. no fundo, abarcar gente num par de linhas. como se o escoteiro fosse por certo fiel. como se o poeta fosse em todo o caso brando. como se um gesto pudesse ser sentença.

Segunda-feira, 22 de Fevereiro de 2010

fazer história

Le déclin de l'empire américain
Denys Arcand
1986

Chamada a pagar no destinatário #3

«Did you say, "No, this can't happen to me"? And did you rush to the phone to call? Was there a voice unkind in the back of your mind saying, "Maybe, you didn't know him at all, you didn't know him at all, oh, you didn't know"?»

erro de impressão (sobretudo na vista)

à página cento e sessenta e dois do livro 40 anos de servidão (Jorge de Sena) encontrei o poema «um dia só, ó porcas», em vez do poema «um dia só, ó Parcas»

a rotina

às vezes esta livreira tem vontade de pegar na mochilita verde e, sem muito mais que um ou dois livros e um maço de folhas azuis, pôr-se a caminho de santa apolónia para entrar num comboio, um qualquer, para qualquer parte, desde que sem volta marcada. é o que resta da adolescência, agora que nos vai faltando tempo para esticar a corda. é claro que me falta a veia freak e a ideia de viver à solta por aí só é gira até à próxima visita à Agda, quero dizer, quem não consegue conceber o romance com pelos nas pernas não tem muito mais que trinta dias para fugir. a vida organizada, com horários, planos alimentares, livros para ler, sonhos para realizar, parece a via mais segura. ser personagem de uma história que se conhece não deixa de ser um desafio: estarei à altura da minha vida? não sei o que dirá ele, quando for crescido, e me souber tão esquiva à segunda de manhã. talvez lhe explique que não é nada de pessoal, estás a ver querido, a mamã adora-te mas às vezes ficava uma pilha de nervos e temos que convir que, embora a mochila tenha ficado sempre junto à porta de entrada, só peguei nela para ir ao supermercado.

e depois? começo o dia com um texto sobre a rotina e logo vêm dar-se eventos extraordinários. o que é isto, o que é que isto quer dizer? volto à infância e à sensação que sempre me perseguiu: quando me sentava no sofá, ao lado da mãe, que tricotava, ou da avó, que adormecia às escondidas, apanhando um episódio de qualquer coisa a meio, perguntava sempre o nome de certa personagem, que uma das duas me diria com enfado. aprendi nessa altura que a resposta vinha sempre no próprio episódio, passados alguns minutos. e era com uma frustração inexplicável que lidava com a inutilidade da minha pergunta, ali à beira-resposta, escandalosa. hoje, pensando na rotina com o mesmo enfado com que as mulheres lá de casa me respondiam, fui atropelada pela surpresa e fiquei, mais uma vez, com vontade de ter ficado calada.

rendição

vou para a cama com o Rilke.

pois, trovoada, já cá faltava

onde é que terei deixado o tom?

quando não consigo escrever ou ler ou ver um filme ou fazer qualquer coisa que me faça sentir ocupada em crescendo amuo em frente ao computador
uma da manhã no maior inverno da minha vida
não sinto frio porque não me poupo ao calor eléctrico do aparelho comprado à pressa na mudança
hoje até joguei super mario, o um, o dois e o três, cheia de entusiasmo e de memórias
que desperdício de dia
tentarei não dormir, para compensar
tentarei sempre não dormir, no alargamento do inverno
porque o dia, o que é um dia?
continuo a não conseguir fazer o que sei. continuo a só fazer o que sinto.

Domingo, 21 de Fevereiro de 2010

o meu Facebook #1



boa noite


Deixem-me caminhar

até que tropece e desapareça
na neve

Matsuo Bashô, O Gosto Solitário do Orvalho, Assírio&Alvim, versões de Jorge Sousa Braga

#%!"@

ando mais assustada. ainda agora, enquanto tentava pensar num título para o post anterior, ia tendo um ataque cardíaco quando um pássaro, enorme (pelo som, um pombo gigante), entrava pela janela, revelando-se, no fim, a idiota da gata, de olhos esbugalhados para o meu berro.



Arzila estação de espuma, Tahar Ben Jelloun (Hiena Editora), tradução de Al Berto

a Trama







livros chapéus de chuva esquecidos fotografias mais livros a ana as horas os livros a mala os livros