«Ele que deixasse os livros, diziam, para os paralíticos e os moribundos.»

Quarta-feira, 31 de Março de 2010

o homem de quarta-feira #30



Nadja?

"Como o coração de uma flor sem coração" *


* "Nadja" - André Breton

Let me tell you about the birds and the bees



-"A vida das abelhas" - Maurício Maeterllinck

Tinha nome de menina mas...



"Eis as horas em que a mim me encontro.
Escuros os prados ondeiam ao vento,
brilha a casca de todas as bétulas,
e a noite vem cobri-las.

E eu cresço neste silêncio,
desejaria florir com muitos ramos
para poder alinhar-me com elas
na harmonia concordante..."


-"Poemas" - Rainer Maria Rilke

Two of a kind



-"Vida de Mozart" - Stendhal

Vai uma Trinka ?



- "Uma pequena aldeia chamada Lidice" - Zdena Trinka

Livro do Desassossego




"Não fales... Aconteces demasiado..."


(era para ter passado um parágrafo mas para quê?!?! Este senhor é um génio)


Entregámo-nos
um ao outro
dentro dos lençóis
brancos
à tarde
na posição mais
ortodoxa
e agora sabemos
e não sabemos
um do outro
escrevemo-nos
escrevemos


-"Caras Baratas - antologia" -Adília Lopes

Como quem diz : "Parabéns!"



Minha querida Cristininha
há horas difíceis
como dizem os cauteleiros
ou os Tampax


-"Caras Baratas - antologia" - Adília Lopes

com cinco letrinhas apenas (um luxo)



"Os acontecimentos decisivos na vida de uma pessoa amadurecem com o tempo, logo , muito lentamente. Não têm uma verdadeira trama. Vive-se... e nisso reside a trama dos factos mais importantes da nossa vida."


-"A Mulher Certa" - Sandor Márai


(Obrigado Cristina)

A DOMADORA DE CROCODILOS

Todos os dias
meto a cabeça
na boca
do crocodilo
O meu feito é feito
de paciência
Já meti
a cabeça
no forno
estava farta
dos crocodilos
e dos amantes
Não tenho tido amantes
tenho tido crocodilos
Com os crocodilos
ganho o pão
e as rosas
Morrer é um truque
como tudo o mais
Dobrada
entre os crocodilos
dobrados
arrisco a pele
A pele é a alma

[Adília Lopes via Seu Doutô]

Terça-feira, 30 de Março de 2010

explicando melhor #1


- Mas afinal vamos lá a saber, quantos anos têm vocês? (não vale responder com o poema do R. Belo) - perguntou xú.

- Detalhe da última encarnação - disse apenas o Irmão Karamazov.

"Un baiser est si vite oublié"

Ontem, à noite

Segunda-feira, 29 de Março de 2010

Chamada a pagar no destinatário #4


«This is an alarm-call, So wake-up, wake-up now, Woo-oo-ooh!»

Lewis Carrol, O Vespão de Peruca, tradução, notas e ilustrações de Vera Pinto e Luís Manuel Gaspar, &etc, 1992

para o k, que ainda não comprou este


cofcofcofcof


(este livro é parvo - se o comprares certifica-te que o teu namorado nunca o encontra)

SE

Se tiver medo, não posso
atravessar esse bosque,

todas as copas das árvores
hão-de ladrar aos meus pés.

Até a lua por certo
com veneno cor do leite

à socapa vem morder-me
na ponta do calcanhar.

Se tiver medo, não posso
atravessar esse bosque,

as ervas hão-de ceifar-me
antes mesmo de morrer.

José António Almeida, Obsessão, &etc, 2010

Domingo, 28 de Março de 2010

Perguntas Abandonadas #6


«Para que é que inscreves nos túmulos a tua "saudade eterna"?»

Vergílio Ferreira (1916-1996)

Sábado, 27 de Março de 2010

Teoria da Conspiração #14 (ou a Singularidade de uma Mulher só)



«Lugar 1 - nesse lugar havia uma mulher que não queria ter filhos de seu ventre. Pedia aos homens que lhe trouxessem os filhos de suas mulheres para educá-los numa grande casa de um só quarto e de uma só janela; usava um xaile preto junto de seu rosto; tinha uma maneira distante de fazer amor: pelos olhos e pela palavra. Também pelo tempo, pois desde os tempos de sua bisavó, voltar a qualquer época era sempre possível. A mover-se, olhava por vezes com fixidez um sítio o mais belo de sua casa a casa toda porque toda a casa era bela e começava nesse olhar ora o tempo das crianças, ora o tempo dos homens. Mulheres, não havia outra, além dela, nunca ultrapassavam a entrada, que dava para a terra, terra de jardim onde se podiam dar passeios. Os homens ficavam contentes porque ela dizia todas as vezes não és tu que importas, é o seguinte. Certificavam-se, portanto, de que, no momento antes, haviam sido o próximo.»

Maria Gabriela Llansol, "O Livro das Comunidades",
Relógio D'Água, 1999

Cena 6 - Impossível



Não há homem algum capaz de fazer esta cena. nem mulher. nem criança. nem um robot especialmente construído. não há nenhum homem capaz de refazer esta cena correctamente tal como ela nunca foi verdadeiramente feita por nenhum homem. insisto nesta evidência porque ninguém a vê. embora já muitos homens tenham feito tentativas e eu próprio tenha ensaiado algumas fases. todos os homens juntos ainda seriam mais incapazes e reconstituir esta cena porquanto um só é a absoluta negação da cena em si própria considerada. todos os homens seriam a superlativa absoluta negação. e no entanto esta cena sem homens ( ou sem um só homem) é completamente impossível de realizar. isto é porque é justamente para os homens (para um só homem) que esta cena foi imaginada.
eu sei que os truques fazem do cinema os super-espaços.
eu sei que nada é impossível à técnica da imagem. mas não é realmente de luz e sombras que se trata. esta é a primeira dificuldade.


-"Corpos Radiantes" - E. M. de Melo e Castro



As coisas que te cercam, até onde
alcança a tua vista, tão passivas
em sua opacidade, que te impedem
de enxergar o (inexistente) horizonte,
que justamente por não serem vivas
se prestam para tudo, e nunca pedem

nem mesmo uma migalha de atenção,
essas coisas que você usa e esquece
assim que larga na primeira mesa -

pois bem: elas vão ficar. Você não.

Tudo que pensa passa. Permanece

a alvenaria do mundo, o que pesa.

O mais é enchimento, e se consome.
As tais Formas eternas, as Ideias,
e a mente que as inventa, acabam em pó,
e delas ficam, quando muito, os nomes.

Muita louça, ainda resta de Pompeia,
mas lábios que a tocaram, nem um só.

As testemunhas cegas da existência,
sempre a te olhar sem que você se importe,
vão assistir sem compaixão nem ânsia,
com a mais absoluta indiferença,
quando chegar a hora, a tua morte.

(Não que isso tenha a mínima importância.)


-"Macau" - Paulo Henriques Brito

novidadesdodia


59
ESCONJUROS E MENTIRAS

Uma ciência do erro.
Sempre preferi ler textos obviamente errados mas cheios de possibilidades de pensamento - a textos certos que repetem o que já sei.

E o que se lê, ainda que seja errado, começa a tornar-se real, porque cada livro reinventa o mundo.

Viver no mundo certo inventado pelo livro errado.

(...)

Não confirmar nada: surpreender tudo.

Pedro Eiras, Substâncias Perigosas, Livrododia, 2010

"no sonho do homem que sonhava, despertou-se o sonhado"*



*Jorge Luis Borges, "Las Ruinas Circulares",
Ficciones, Alianza Editorial, Madrid, 2001

Hoje acordei assim

Sexta-feira, 26 de Março de 2010

Orelhas de Elefante #13

Investigações Metafísicas
Judee Sill, "Judee Sill", Asylum Records, 1971
Investigações Geométricas
Linda Perhacs, "Parallelograms", Kapp, 1970

Porque há musicas de outras dimensões.

«breve programa para uma iniciação ao canto»

O poeta deve surpreender-se e surpreender, recusar-se como instituição, fugir da integração, da reforma que até mesmo pessoas e grupos aparentemente progressivos lhe começam subtilmente a tentar impor o mais tardar aos trinta anos. Abaixo o oportunismo, a demagogia, seja a que pretexto for. O poeta deve desconfiar dos aplausos, do êxito e até passar a abominar o que escreveu logo depois de o ter escrito. (...)
Escrever é desconcertar, perturbar e, em certa medida, agredir. Alguém se encarregará de institucionalizar o escritor, desde os amigos, os conterrâneos, os companheiros de luta, até todas aquelas pessoas ou coisas que abominou e combateu. Acabarão por lhe encontrar coerência, evolução harmoniosa, enquadramento numa tradição. Servir-se-ão dele, utilizá-lo-ão, homenageá-lo-ão. Sabem que assim o conseguirão calar, amordaçar, reduzir.
É claro que falo do peta e não do poetastro, do industrial e comerciante de poemas, do promotor da venda das palavras que proferiu. Falo do homem que nunca repousou sobre o que escreveu, que se recusou a servir-se a si e a servir, que constantemenete se sublevou. (...)
Ruy Belo, Todos os Poemas II, Assírio&Alvim, 2ª edição, 2004

The House of Life



Como Rossetti resgatando a dádiva de amor
verso a verso a corrupto corpo
de Elizabeth Eleanor, o escritor
é um ladrão de túmulos. E é um morto

dormindo um sono alheio, o do livro,
que a si mesmo se sonha digerindo
sua carne e seu sangue e dirigindo
a sua mão e o seu livre arbítrio.

Quem construiu a sua casa? Quem semeou
a sua vida, quem a colherá?
Nem a sua morte lhe pertence, roubou-a
a outro e outro lha roubará.

Toma, come, leitor: este é o seu corpo,
a inabitada casa do livro,
também tu estás, como ele, morto,
e também não fazes sentido.


-"Os Livros" - Manuel António Pina

chegaram as dardo

Acetilsalicilato de lisina



Aspegic 1000, um salva vidas

os novos mandamentos de jesus

eu não sabia que jesus tinha novos mandamentos. ele garantiu-me que sim. que aquilo era quase uma biografia. será da paulinas, perguntei. que não sabia. era coisa recente, tinha visto na televisão. uma coisa muito bonita, muito inspiradora, os mandamentos de um treinador. ah.

Sr Xú e o dever de ser canhoto



"Feitos pela mão direita, sobrepostos todos com a mesma eficiência e resultado, nossos atos vão se apagando uns aos outros, indiferentes às conquistas, como o resultado mecânico de ferramentas implacavelmente ajustadas. Agir pela mão correta é repetir o aprendizado morno, a falta de firmeza de quem, afinal, aceita o que lhe ensinam, absorvendo o mandamento alheio. Na esquerda as coisas acontecem sempre pela primeira vez, não há como educá-la. Alguma coisa em nós - uma mania, um cacoete, um automatismo da pestana - tem ainda a firmeza de carácter de não aprender nunca, de não passar adiante aquilo que nos ensinam, de permanecer, sisuda e em silêncio, exatamente como sempre foi. Em nossa canhota somos, de alguma forma, recém-paridos, e é isso que parece catastrófico, sermos ainda livres para derrubar o copo, livres para cortar o dedo, livres para deixar cair um objeto precioso no bueiro, como um bebê que engatinha e arrisca a vida por pura curiosidade."


-"Ó" - Nuno Ramos

Pergunta ao professor Agostinho

Dupla Sessão



-"Cinema americano dos anos cinquenta" - Olivier-René Veillon

-"Cinema americano dos anos trinta" - Olivier-René Veillon

Não é sobre a livreira



-"Livros & Cigarros" - George Orwell

Quinta-feira, 25 de Março de 2010

Toda a humilhação leva à morte #9



«Não penetrais suficientemente na intimidade da forma, não a perseguis com suficiente amor e perseverança nos seus desvios e nas suas fugas. A beleza é uma coisa severa e difícil, de modo nenhum se deixa atingir assim: é preciso esperar as suas horas, espiá-la, apertá-la e enlaçá-la estreitamente para a forçar a dar-se.»

Honoré de Balzac, "A Obra Prima Desconhecida", Edições Vendaval, 2002

"VOU ATIRAR UMA BOMBA AO DESTINO"


- "Poesia" - Álvaro de Campos

A topografar desde 1911




-"Éléments de Topographie"- Edmond Gabriel - 1911

India Song #6


“I swear the earth shall surely be complete to him or her who shall
be complete,
The earth remains jagged and broken only to him or her who remains
jagged and broken.

I swear there is no greatness or power that does not emulate those
of the earth,
There can be no theory of any account unless it corroborate the
theory of the earth,
No politics, song, religion, behavior, or what not, is of account,
unless it compare with the amplitude of the earth,
Unless it face the exactness, vitality, impartiality, rectitude of
the earth.

I swear I begin to see love with sweeter spasms than that which
responds love,
It is that which contains itself, which never invites and never refuses.

I swear I begin to see little or nothing in audible words,
All merges toward the presentation of the unspoken meanings of the earth,
Toward him who sings the songs of the body and of the truths of the earth,
Toward him who makes the dictionaries of words that print cannot touch.

I swear I see what is better than to tell the best,
It is always to leave the best untold.”




- Walt Whitman -

logo à noite


Guta Naki

21h30

entrada €3
(foto tirada do myspace)

preciso de desperdiçar a minha vida

mas precisas de desperdiçar a tua vida como?
por completo.


No túnel encurvado ali íamos nós,
à frente, ágil, de casaco de viagem, tu,
e eu, a apanhar-te como um deus veloz
antes que te mudasses em bambu

ou alguma nova flor branca e vermelha,
e as abas a adejarem com força, eis que se espalha
botão após botão num rasto que assim role
entre o metropolitano e o Albert Hall.

Lua de mel, andar na lua, tarde para os Promenade,
os nossos ecos morrem nesse corredor e agora hei-de
ir como o Hansel ia pelas pedrinhas batidas pela lua
refazendo o caminho, apanhando os botões da rua

para acabar nas correntes de ar e na luz frouxa da estação,
partidos os comboios, na via húmida que jaz
a nú e tensa como eu, todo atenção
aos teus passos e a perder-me se olho para trás.


-"Antologia Poética" - Seamus Heaney

6 de Abril | 21:30 | cinema&pintura | entrada livre



Apresentação do filme Nikias Skapinakis: O Teatro dos Outros de Jorge Silva Melo (Midas)
apresentação:
Jorge Silva Melo | Nikias Skapinakis | Margarida Acciauoili | Filomena Serra

A obra do Pintor NIKIAS SKAPINAKIS a partir da exposição QUARTOS IMAGINÁRIOS que em Junho de 2006 inaugurou no Museu Vieira da Silva.

O filme segue de perto o trabalho de um dos mais importantes pintores da segunda metade do século XX, nomeadamente na área do retrato (são dele retratos cruciais como os de Almada, Natália Correia, Joel Serrão, Abelaira e Cochofel e o dos “Críticos” que está na Brasileira) e daquilo a que ele, em certa altura, chamou “os retratos da ausência.” Nos Quartos Imaginários, Nikias Skapinakis pintou os quartos ou ateliers de artistas como El Greco, Picasso, Paul Klee, Matisse, Pessoa, Morandi, Cézanne, Picasso, Cesariny. São, segundo o artista, a sua “interpretação da vida e obra de pintores, poetas, escultores – que gostaria de ter conhecido...”

“Nikias olha docemente para estes seus antecessores como um romancista poderia olhar para as suas personagens, sabendo que, também ele, é personagem de uma história que o transcende.” (Bernardo Pinto de Almeida)

sweets for my sweet, books for my honey

Apaixonado por este livro



Alguns capítulos:

- The Spirit of Kabuki
- Kabuki Actors
- Plays and Playwrights
-Theaters and Stage Machinery
- Famous Stage Scenes
- Special Techniques
- Stylized Scenes and Kata
- Makeup and Staeg Properties
- Sets, Ceremonies and Theater
- List of Plays
- Actor's Chronology


-"Kabuki" - Masakatsu Gunji

[...]

era por isso que / eu diria que a saia só / pode vir ao texto se / tiver dez botões e for de / hoje.
não prolongar o exercício de fingir que algo é diverso do que é,
e diria também que de cada vez que levantava a cabeça encontrava alguém a olhar para mim e que isso não era ninguém se não o ver muito mal. então
disse: um dia mando cortar as trompas de falópio e ia dizendo tudo muito depressa, tudo muito ao meu jeito, tudo muito bem combinado com as coisas de dentro
não tentar o belo, o exercício,

não fazia sentido fazer esta mala
arrumando colocando
por baixo
as pesadas derivações de revista
feminina
e por cima as conquistas leves
de algodão a bolsa de adereços
as frases soltas as duas pulseiras do brasil
de hoje
não fazia sentido tentar o poema
são propriedades de um texto em construção.

depois riram-se. podia ser o título de qualquer coisa. Medeia. Hipólito. Falópio.

bom dia

capa da revista Ilustração N.º 18 de Setembro de 1926

Quarta-feira, 24 de Março de 2010

o homem de quarta-feira #29



ODE À NOITE (INTEIRA)

Gosto do momento, exacto ou nem por isso
em que se torna possível colar cartazes
nas paredes ao lado dos meus ombros (espero
o autocarro, vejo devagar, sorrio). Mas
gosto, sobretudo, dos cães quase sem dono
que roçam as esquinas, pisando restos de garrafas
- ou das pessoas que desconheço (porque
as não conheço) e das bebidas todas que ignoro
(porque me matam menos e se chamam
- como eu - "insónia", "pesadelo", "golpe baixo").
Existem, claro, raparigas louras um tanto
heterodoxas que não te apetece beijar
(a força do bâton, perfeita - o cigarro aceso
pedindo outro lume). Essas mesmas que hão-de
um dia procriar com zelo evitando rugas,
tumores e o mundo como representação misógina.
Mais lírica, sem dúvida, é a lavagem das ruas
e o inevitável prémio da cerveja, visível
na farda demasiado verde e nos bigodes de serviço.
Outros, alguns, tornam concreto o torpor
de um charro e pedem-te em crioulo básico
um cigarro português que tu vais dar,
sem esforço nem palavras. Entre piercings,
shots, efígies de Guevara e gel, podes não acreditar
por algumas horas no axioma frágil do teu corpo.
Esfumas-te, como eles, no espelho de um bar
qualquer, país de enganos e baratas. E
quase gostas disso, quase: a música de punhais,
servil, um certo e procurado desencontro.
Um táxi te ensinará depois o caminho de casa
- ou o seu triste contrário, pois só ali (anónimo
e desfocado) eras finalmente tu, ou podias ser.
O resto, a vida, fica para outra vez.
Manuel de Freitas, O Pin da Bíblia - Uma Selecção de Textos da Revista Bíblia, 2005

só a paixão poderá conduzir ao «momento fulgurante da unidade»*

TAPEÇARIA DE DINAMENE
«- Tu, meu senhor, és louco!»
e mergia das nuvens a luz das dunas
à janela do sótão o cacto no deserto
a mulher tecia de perfil no poema até ao tecto
os fios da tapeçaria filtravam a água
a abóbora contra o azul das mãos
António Barahona da Fonseca, Amor Único, Arcádia, 1ª edição, 1978


*Julius Evola
(numa epígrafe do livro acima indicado)

O resto / «é a vida e o seu ofício».

(...) 1ª estrofe. - O poeta sonha com a mulher desejada, a mulher apenas sexo. Como todo o homem solitário, separado de Deus e dos homens, a sua condição aproxima-o da condição de um prisioneiro de si próprio ou de qualquer parecido habitade ou hábitos, embora não consiga iludir-se por completo. Por muito que com ela conviva, ou a ela se tenha habituado, a mulher-sexo é, afinal, uma ideia pura, não obstante a impureza que reveste a sua fenomenologia. Não chega, sequer, a corporizar-se numa imagem definida; alguns farrapos dessa imagem assomam, imprecisos, ou chegam até ao poeta como restos de um fantasma. (...)
(excerto de uma carta-meditação para uma amizade ausente na qual se insere o poema que lhe deu motivo: «mon coeur mis a nu»)

Ruy Cinatti, em Manhã Imensa, Assírio&Alvim, 2ª edição, 1997

bom dia

capa da revista Ilustração N.º 17 de Setembro de 1926

Terça-feira, 23 de Março de 2010

o Mal-estar da Civilização #15



SÓCRATES

Um homem que pratica a ginástica e que faça o estudo desta vai prestar atenção ao elogio, à critica e à opinião de qualquer pessoa ou apenas daquele que é o seu médico ou o seu mestre?

CRÍTON
Apenas à deste

SÓCRATES

Portanto, será apenas deste que deve temer a crítica e não apreciar o elogio, sem se preocupar com a maioria.

CRÍTON
É evidente que sim.

SÓCRATES

Assim, deverá agir, exercitar-se, comer e beber como o decidir o único homem que o dirige e é competente, em vez de seguir o parecer de todos os outros reunidos.

CRÍTON
Isso é indesmentível.

SÓCRATES

Estamos, então, de acordo. Mas se ele desobedecer a esse homem único, se desdenhar a sua opinião e os seus elogios para seguir a opiniões da multidão incompetente, não irá sofrer algum mal?

Platão, "Diálogos III - Críton", Pub. Europa-América, 2ª Edição


Diz que está esgotado

La beauté est la promesse du bonheur