
Quarta-feira, 31 de Março de 2010
Tinha nome de menina mas...

"Eis as horas em que a mim me encontro.
Escuros os prados ondeiam ao vento,
brilha a casca de todas as bétulas,
e a noite vem cobri-las.
E eu cresço neste silêncio,
desejaria florir com muitos ramos
para poder alinhar-me com elas
na harmonia concordante..."
-"Poemas" - Rainer Maria Rilke
Livro do Desassossego

"Não fales... Aconteces demasiado..."
(era para ter passado um parágrafo mas para quê?!?! Este senhor é um génio)
Como quem diz : "Parabéns!"

Minha querida Cristininha
há horas difíceis
como dizem os cauteleiros
ou os Tampax
-"Caras Baratas - antologia" - Adília Lopes
com cinco letrinhas apenas (um luxo)

-"A Mulher Certa" - Sandor Márai
(Obrigado Cristina)
A DOMADORA DE CROCODILOS
meto a cabeça
na boca
do crocodilo
O meu feito é feito
de paciência
Já meti
a cabeça
no forno
estava farta
dos crocodilos
e dos amantes
Não tenho tido amantes
tenho tido crocodilos
Com os crocodilos
ganho o pão
e as rosas
Morrer é um truque
como tudo o mais
Dobrada
entre os crocodilos
dobrados
arrisco a pele
A pele é a alma
Terça-feira, 30 de Março de 2010
explicando melhor #1
Segunda-feira, 29 de Março de 2010
SE
atravessar esse bosque,
todas as copas das árvores
hão-de ladrar aos meus pés.
Até a lua por certo
com veneno cor do leite
à socapa vem morder-me
na ponta do calcanhar.
Se tiver medo, não posso
atravessar esse bosque,
as ervas hão-de ceifar-me
antes mesmo de morrer.
José António Almeida, Obsessão, &etc, 2010
Domingo, 28 de Março de 2010
Perguntas Abandonadas #6
Sábado, 27 de Março de 2010
Teoria da Conspiração #14 (ou a Singularidade de uma Mulher só)

Maria Gabriela Llansol, "O Livro das Comunidades", Relógio D'Água, 1999
Cena 6 - Impossível

Não há homem algum capaz de fazer esta cena. nem mulher. nem criança. nem um robot especialmente construído. não há nenhum homem capaz de refazer esta cena correctamente tal como ela nunca foi verdadeiramente feita por nenhum homem. insisto nesta evidência porque ninguém a vê. embora já muitos homens tenham feito tentativas e eu próprio tenha ensaiado algumas fases. todos os homens juntos ainda seriam mais incapazes e reconstituir esta cena porquanto um só é a absoluta negação da cena em si própria considerada. todos os homens seriam a superlativa absoluta negação. e no entanto esta cena sem homens ( ou sem um só homem) é completamente impossível de realizar. isto é porque é justamente para os homens (para um só homem) que esta cena foi imaginada.
eu sei que os truques fazem do cinema os super-espaços.
eu sei que nada é impossível à técnica da imagem. mas não é realmente de luz e sombras que se trata. esta é a primeira dificuldade.
-"Corpos Radiantes" - E. M. de Melo e Castro

As coisas que te cercam, até onde
alcança a tua vista, tão passivas
em sua opacidade, que te impedem
de enxergar o (inexistente) horizonte,
que justamente por não serem vivas
se prestam para tudo, e nunca pedem
nem mesmo uma migalha de atenção,
essas coisas que você usa e esquece
assim que larga na primeira mesa -
pois bem: elas vão ficar. Você não.
Tudo que pensa passa. Permanece
a alvenaria do mundo, o que pesa.
O mais é enchimento, e se consome.
As tais Formas eternas, as Ideias,
e a mente que as inventa, acabam em pó,
e delas ficam, quando muito, os nomes.
Muita louça, ainda resta de Pompeia,
mas lábios que a tocaram, nem um só.
As testemunhas cegas da existência,
sempre a te olhar sem que você se importe,
vão assistir sem compaixão nem ânsia,
com a mais absoluta indiferença,
quando chegar a hora, a tua morte.
(Não que isso tenha a mínima importância.)
-"Macau" - Paulo Henriques Brito
novidadesdodia

59
ESCONJUROS E MENTIRAS
Uma ciência do erro.
Sempre preferi ler textos obviamente errados mas cheios de possibilidades de pensamento - a textos certos que repetem o que já sei.
E o que se lê, ainda que seja errado, começa a tornar-se real, porque cada livro reinventa o mundo.
Viver no mundo certo inventado pelo livro errado.
(...)
Não confirmar nada: surpreender tudo.
Sexta-feira, 26 de Março de 2010
«breve programa para uma iniciação ao canto»
Escrever é desconcertar, perturbar e, em certa medida, agredir. Alguém se encarregará de institucionalizar o escritor, desde os amigos, os conterrâneos, os companheiros de luta, até todas aquelas pessoas ou coisas que abominou e combateu. Acabarão por lhe encontrar coerência, evolução harmoniosa, enquadramento numa tradição. Servir-se-ão dele, utilizá-lo-ão, homenageá-lo-ão. Sabem que assim o conseguirão calar, amordaçar, reduzir.
É claro que falo do peta e não do poetastro, do industrial e comerciante de poemas, do promotor da venda das palavras que proferiu. Falo do homem que nunca repousou sobre o que escreveu, que se recusou a servir-se a si e a servir, que constantemenete se sublevou. (...)
Ruy Belo, Todos os Poemas II, Assírio&Alvim, 2ª edição, 2004
The House of Life

Como Rossetti resgatando a dádiva de amor
verso a verso a corrupto corpo
de Elizabeth Eleanor, o escritor
é um ladrão de túmulos. E é um morto
dormindo um sono alheio, o do livro,
que a si mesmo se sonha digerindo
sua carne e seu sangue e dirigindo
a sua mão e o seu livre arbítrio.
Quem construiu a sua casa? Quem semeou
a sua vida, quem a colherá?
Nem a sua morte lhe pertence, roubou-a
a outro e outro lha roubará.
Toma, come, leitor: este é o seu corpo,
a inabitada casa do livro,
também tu estás, como ele, morto,
e também não fazes sentido.
-"Os Livros" - Manuel António Pina
os novos mandamentos de jesus
Sr Xú e o dever de ser canhoto

"Feitos pela mão direita, sobrepostos todos com a mesma eficiência e resultado, nossos atos vão se apagando uns aos outros, indiferentes às conquistas, como o resultado mecânico de ferramentas implacavelmente ajustadas. Agir pela mão correta é repetir o aprendizado morno, a falta de firmeza de quem, afinal, aceita o que lhe ensinam, absorvendo o mandamento alheio. Na esquerda as coisas acontecem sempre pela primeira vez, não há como educá-la. Alguma coisa em nós - uma mania, um cacoete, um automatismo da pestana - tem ainda a firmeza de carácter de não aprender nunca, de não passar adiante aquilo que nos ensinam, de permanecer, sisuda e em silêncio, exatamente como sempre foi. Em nossa canhota somos, de alguma forma, recém-paridos, e é isso que parece catastrófico, sermos ainda livres para derrubar o copo, livres para cortar o dedo, livres para deixar cair um objeto precioso no bueiro, como um bebê que engatinha e arrisca a vida por pura curiosidade."
-"Ó" - Nuno Ramos
Dupla Sessão

-"Cinema americano dos anos cinquenta" - Olivier-René Veillon
-"Cinema americano dos anos trinta" - Olivier-René Veillon
Quinta-feira, 25 de Março de 2010
Toda a humilhação leva à morte #9

India Song #6

“I swear the earth shall surely be complete to him or her who shall
be complete,
The earth remains jagged and broken only to him or her who remains
jagged and broken.
I swear there is no greatness or power that does not emulate those
of the earth,
There can be no theory of any account unless it corroborate the
theory of the earth,
No politics, song, religion, behavior, or what not, is of account,
unless it compare with the amplitude of the earth,
Unless it face the exactness, vitality, impartiality, rectitude of
the earth.
I swear I begin to see love with sweeter spasms than that which
responds love,
It is that which contains itself, which never invites and never refuses.
I swear I begin to see little or nothing in audible words,
All merges toward the presentation of the unspoken meanings of the earth,
Toward him who sings the songs of the body and of the truths of the earth,
Toward him who makes the dictionaries of words that print cannot touch.
It is always to leave the best untold.”
- Walt Whitman -

No túnel encurvado ali íamos nós,
à frente, ágil, de casaco de viagem, tu,
e eu, a apanhar-te como um deus veloz
antes que te mudasses em bambu
ou alguma nova flor branca e vermelha,
e as abas a adejarem com força, eis que se espalha
botão após botão num rasto que assim role
entre o metropolitano e o Albert Hall.
Lua de mel, andar na lua, tarde para os Promenade,
os nossos ecos morrem nesse corredor e agora hei-de
ir como o Hansel ia pelas pedrinhas batidas pela lua
refazendo o caminho, apanhando os botões da rua
para acabar nas correntes de ar e na luz frouxa da estação,
partidos os comboios, na via húmida que jaz
a nú e tensa como eu, todo atenção
aos teus passos e a perder-me se olho para trás.
-"Antologia Poética" - Seamus Heaney
6 de Abril | 21:30 | cinema&pintura | entrada livre

apresentação:
Jorge Silva Melo | Nikias Skapinakis | Margarida Acciauoili | Filomena Serra
O filme segue de perto o trabalho de um dos mais importantes pintores da segunda metade do século XX, nomeadamente na área do retrato (são dele retratos cruciais como os de Almada, Natália Correia, Joel Serrão, Abelaira e Cochofel e o dos “Críticos” que está na Brasileira) e daquilo a que ele, em certa altura, chamou “os retratos da ausência.” Nos Quartos Imaginários, Nikias Skapinakis pintou os quartos ou ateliers de artistas como El Greco, Picasso, Paul Klee, Matisse, Pessoa, Morandi, Cézanne, Picasso, Cesariny. São, segundo o artista, a sua “interpretação da vida e obra de pintores, poetas, escultores – que gostaria de ter conhecido...”
Apaixonado por este livro

Alguns capítulos:
- The Spirit of Kabuki
- Kabuki Actors
- Plays and Playwrights
-Theaters and Stage Machinery
- Famous Stage Scenes
- Special Techniques
- Stylized Scenes and Kata
- Makeup and Staeg Properties
- Sets, Ceremonies and Theater
- List of Plays
- Actor's Chronology
-"Kabuki" - Masakatsu Gunji
[...]
disse: um dia mando cortar as trompas de falópio e ia dizendo tudo muito depressa, tudo muito ao meu jeito, tudo muito bem combinado com as coisas de dentro
arrumando colocando
por baixo
as pesadas derivações de revista
feminina
e por cima as conquistas leves
de algodão a bolsa de adereços
as frases soltas as duas pulseiras do brasil
de hoje
não fazia sentido tentar o poema
Quarta-feira, 24 de Março de 2010
ODE À NOITE (INTEIRA)
em que se torna possível colar cartazes
nas paredes ao lado dos meus ombros (espero
o autocarro, vejo devagar, sorrio). Mas
gosto, sobretudo, dos cães quase sem dono
que roçam as esquinas, pisando restos de garrafas
- ou das pessoas que desconheço (porque
as não conheço) e das bebidas todas que ignoro
(porque me matam menos e se chamam
- como eu - "insónia", "pesadelo", "golpe baixo").
Existem, claro, raparigas louras um tanto
heterodoxas que não te apetece beijar
(a força do bâton, perfeita - o cigarro aceso
pedindo outro lume). Essas mesmas que hão-de
um dia procriar com zelo evitando rugas,
tumores e o mundo como representação misógina.
Mais lírica, sem dúvida, é a lavagem das ruas
e o inevitável prémio da cerveja, visível
na farda demasiado verde e nos bigodes de serviço.
Outros, alguns, tornam concreto o torpor
de um charro e pedem-te em crioulo básico
um cigarro português que tu vais dar,
sem esforço nem palavras. Entre piercings,
shots, efígies de Guevara e gel, podes não acreditar
por algumas horas no axioma frágil do teu corpo.
Esfumas-te, como eles, no espelho de um bar
qualquer, país de enganos e baratas. E
quase gostas disso, quase: a música de punhais,
servil, um certo e procurado desencontro.
Um táxi te ensinará depois o caminho de casa
- ou o seu triste contrário, pois só ali (anónimo
e desfocado) eras finalmente tu, ou podias ser.
O resto, a vida, fica para outra vez.
Manuel de Freitas, O Pin da Bíblia - Uma Selecção de Textos da Revista Bíblia, 2005
só a paixão poderá conduzir ao «momento fulgurante da unidade»*
«- Tu, meu senhor, és louco!»
e mergia das nuvens a luz das dunas
à janela do sótão o cacto no deserto
a mulher tecia de perfil no poema até ao tecto
os fios da tapeçaria filtravam a água
a abóbora contra o azul das mãos
António Barahona da Fonseca, Amor Único, Arcádia, 1ª edição, 1978
O resto / «é a vida e o seu ofício».
Ruy Cinatti, em Manhã Imensa, Assírio&Alvim, 2ª edição, 1997
Terça-feira, 23 de Março de 2010
o Mal-estar da Civilização #15





























