«Ele que deixasse os livros, diziam, para os paralíticos e os moribundos.»

Sexta-feira, 30 de Abril de 2010

a vida não é um sonho #5



«Dirigida pela lógica da teatralidade, a moda é um sistema inseparável do excesso, da desmedida, do exagero. O destino da moda é ser inexoravelmente arrastada numa escalada de sobrecargas, exageros de volume e amplificações da forma que desdenham do ridículo.»

Gilles Lipovetsky, "O Império do Efémero", Dom Quixote, 1992

quero com isto dizer que não me interessa que me compreendam - a compreensão é, de todos, o exercício mais fácil, alinhado na razão. é também insuficiente. o que eu queria era poder pegar no que sinto e colocá-lo, com muito cuidado, dentro de outra pessoa. o que eu queria era poder dizer a alguém experimenta isto e isto ser a minha ansiedade, a minha dor de cabeça, a minha insegurança. entender, perceber, concordar, apoiar, não é isso que eu quero.
gostava que o que escrevo estivesse a ser lido em voz alta - a voz de um leitor é o mais próximo deste desejo, ser eu de ti para fora.
o silêncio não esconde - reserva. o silêncio disfarça a impotência do ouvinte. porque não há uma compreensão justa do outro, em caso algum. a comunicação tem sempre pelo menos dois desvios, um para cada lado.
se eu digo, por exemplo, que estou cansada, o meu ouvinte não sentirá o meu cansaço, pois não?

problemas com o telefone

ao que parece o nosso telefone fixo pifou. estamos a tentar resolver a situação (com um novo que também não funciona). enquanto a avaria durar só conseguimos contactar com o exterior através do mail, que também só funciona no computador do 1º andar.

Quinta-feira, 29 de Abril de 2010

Momento Pergaminho #5



«Certos espíritos habitam os corpos humanos, outros o corpo de outros animais, plantas, pedras, minerais: em suma, nada existe que esteja privado de espírito, de inteligência - nem o espírito destinou para si morada eterna em lugar algum. A matéria flutua de espírito em espírito, de natureza em natureza ou composição, e o espírito flutua de matéria em matéria. Sucedem-se a alteração, a mutação, a paixão e, por fim, a corrupção, quer dizer, a separação de determinadas partículas e sua composição com outras. A morte mais não é que dissolução. Nenhum espírito ou corpo desaparece: há somente uma contínua mutação de combinações e actualizações.»

Giordano Bruno, "Tratado da Magia", Tinta da China, 2007

concerto cancelado

o concerto desta noite foi cancelado pela banda por motivos técnicos. hoje a livraria fechará mais cedo do que o habitual, pelas 19h30.

Quarta-feira, 28 de Abril de 2010

o homem de quarta-feira #32



«Quem se habituou a copiar palavras alheias não ignora que a escolha nasce de uma decisão súbita, de imediato - e tantas vezes durante quanto? - injustificável. É como uma chave que um dia há-de abrir alguma porta.»

Maria Filomena Molder, "A Imperfeição da Filosofia", Relógio D'Água, 2003

ó trama, o que é que fazes amanhã depois do concerto?


vou ao bicaense

(mais um poema)

TRANSFORMA-SE A COISA ESCRITA NO ESCRITOR

Isto está cheio de gente
falando ao mesmo tempo
e alguma coisa está fora de isto falando de isto
e tudo é sabido em qualquer parte.
(Chamo-lhe Literatura porque não sei o nome de isto;)
o escritor é uma sombra de uma sombra
o que fala põe-o fora de si
e de tudo o que não existe.
Aquele que quer saber
tem o coração pronto para o
roubo e para a violência
e a alma pronta para o esquecimento.

Manuel António Pina, Aquele que Quer Morrer, Na Regra do Jogo, 1978

sem licença poética

para algumas pessoas será diferente mas, para mim, o corpo é o último conforto. o corpo aguenta, consola. a solidez da carne abriga-me do instável - apertando-o com força sei que tudo vai bem. o corpo resiste a tudo menos à morte - o corpo é o que de mais forte temos.
sinto que nasci com tudo o que precisava e que depois, à medida que fui experimentando a vida, aumentaram as coisas que, por perdidas, deixei de ter. o crescimento é um roubo. chegarei aos trinta mais pobre do que quando vim ao mundo, mas. ocupo este corpo, que cresce, alarga, encolhe e que terei como túmulo - nele morrerei, um dia, inteira e vazia.
se uma tempestade me levar a casa adormecerei agarrada aos meus ombros secos. o corpo é esta certeza mansa de sol, que aquece, de água, que limpa, de chão, que recebe. o corpo será sempre generoso, até na doença, certa e esperada, que acabará por deixá-lo mais feio, mais baço, mais silencioso. até que um dia desaparece, virá lápide e saudade, inscrição, episódio. é tudo tão breve quando o corpo acaba.

a curiosidade começa à noite

Não sei se isto é amor. Procuro o teu olhar,
Se alguma dor me fere, em busca de um abrigo;
E apesar disso, crê! nunca pensei num lar
Onde fosses feliz, e eu feliz contigo.
Por ti nunca chorei nenhum ideal desfeito.
E nunca te escrevi nenhuns versos românticos.
Nem depois de acordar te procurei no leito
Como a esposa sensual do Cântico dos cânticos.
Se é amar-te não sei. Não sei se te idealizo
A tua cor sadia, o teu sorriso terno,
Mas sinto-me sorrir de ver esse sorriso
Que me penetra bem, como este sol de inverno.
Passo contigo a tarde e sempre sem receio
Da luz crepuscular, que enerva, que provoca.
Eu não demoro o olhar na curva do teu seio
Nem me lembrei jamais de te beijar na boca.
Eu não sei se é amor. Será talvez começo...
Eu não sei que mudança a minha alma pressente...
Amor não sei se o é, mas sei que te estremeço,
Que adoecia talvez de te saber doente.
Camilo Pessanha, Clepsydra, Assírio&Alvim, 2003

é possível que eles não reparem que o poema é, na verdade, assim

de Avicena (Ibn Sinâ) guardo apenas a fineza
do nome
Miguel-Manso,
Santo Subito, edição de autor, 2010 (praticamente esgotado no editor)

se ainda assim os teus pais estranharem que o Averróis tenha escrito em brasileiro diz-lhes que

«de Averróis guardo apenas a fineza
do nome»

se és adolescente e os teus pais não te deixam ver certo filme ou ler aquele livro vai lá à sala e diz-lhes isto

«Ainda que alguém falhe ou cometa erros no estudo destes escritos, quer seja por falta de capacidade inata, ou por falta de disciplina lógica ao abordá-la, ou por sucumbir às paixões; quer seja por não ter encontrado um mestre que o tenha orientado na compreensão de seu conteúdo, quer seja por causa de todas essas razões ao mesmo tempo, ou, mais intensamente, por uma entre elas, não se deve proibir o acesso a esses escritos ao homem que está apto a estudá-los, pois que é acidentalmente, e não essencialmente, que esse tipo de inconveniente ocorre por causa dos escritos; de modo que não há razão pela qual se deva desprezar algo benéfico por natureza e por essência, por nele haver inconveniente por acidente.»
Averróis,
Discurso Decisivo, Martins Fontes, 2005

(bom dia)

Sei o dia,
mas o sol escapou-me;
sei o acto universal que fez na cama
com alheia coragem e essa água morna, cuja
superficial frequência é uma mina.
Tão pequena é, acaso, essa pessoa
que até seus próprios pés assim a pisam?
César Vallejo, excerto do «Poema para ser lido e cantado», em
Antologia Poética, Relógio D'Água,1992


treinar o ouvido

enquanto ouvia isto ia actualizando a barra lateral do blogue.

Terça-feira, 27 de Abril de 2010

a poesia não me interessa #19



«A noite é dupla: uma astenia indirecta e directa. A primeira resulta por encadeamento, por excesso de luz; a segunda por falta ou insuficiência de luz. Do mesmo modo, existe também uma inconsciência por falta de excitação interior e uma inconsciência por excesso de excitação interior - naquela um orgão demasiado rude, nesta um orgão demasiado delicado. Compensaremos uma, diminuindo a luz ou excitação interior; compensaremos a outra, aumentando-a através da multiplicação da mesma, ou através do enfraquecimento e fortalecimento do orgão. A noite e inconsciência por carência é o caso mais comum. A inconsciência por excesso é o que chamamos loucura. Uma direcção diferente da excessiva excitação interior modifica a loucura.»

Novalis, "Fragmentos de Novalis", Assírio & Alvim, 2000

(mais um poema)


Há mulheres que dizem:
Meu marido, se quiser pescar, pesque,
mas que limpe os peixes.
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram,
ele fala coisas como "este foi difícil"
"prateou no ar dando rabanadas"
e faz o gesto com a mão.
O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva.
Adélia Prado,
Com Licença Poética, Cotovia, 2003

on Trama

a Trama é um conjunto de fios que, juntos, formam um tecido, uma paisagem. a Trama é a órbita de um grupo de planetas que seguem uma rota e que, num momento muito particular, se alinham. boom. a Trama é uma narrativa inacabada. a Trama é uma sequência de nomes cuja ordem se confunde. a Trama é incidência e reincidência. a Trama são três caramelos, vindos sabe-se lá de onde, à minha frente no mesmo exacto momento. que se conhecem, através da Trama, Trama fora.

referência

Naquele torpor de salivas pode enfim ceder-se à dormência. Que o coração dê de si, mais cedo ou mais tarde, que se vá rendendo à terna e morna paixão flash, que se vá esboroando, desfiando, descosendo, nada ameaça junto àquela janela, naquela rua estreita, a luz mais bonita de Lisboa.
E de manhã o mesmo acordar manso e arrefecido, a vida em loop, esclarece a cabeça pesada ao cair da roupa no levantar de uma perna para o chuveiro. Estar só deve ser isto – estar-se sujeito às companhias.

entidade

é tão interessante notar que os títulos de quase todos os posts anteriores foram tirados da factura da EDP aberta ao meu lado como reflectir sobre a forma como se olha para o passado. eu, por exemplo, sempre que estou indignada com a minha vida, rejeito tudo o que fiz.

outros débitos

– o meu negócio é errar, entrar na bandeira vermelha do oceano. Passam turistas debaixo da janela, a Travessa é varrida por gente que vai gastando o resto do Verão. Do outro lado, exactamente de frente para a janela, reflectida, está a porta do quarto onde o filho dorme, desde cedo, ao cair da noite, inicial, brilhante. Essa presença, por detrás de uma porta que ninguém atravessa, alastra pela casa, em segredo ou condição, contornando a história, que se lamenta ou exalta mediante o horário e os licores.

chegou por mail

cócegas na barriga? estrelas? não, mas alguma vontade de rir.

fontes de energia

sempre tive alguma inveja das minhas amigas de esquerda. eu, que então lia muitos romances e poucos jornais (hum, será que não cresci?), ficava triste por não ter um único familiar que tivesse ido à guerra, que tivesse sido preso, ou que não houvesse um só caso de tortura na família, que ninguém tivesse perdido tempo com um panfleto ou uma canção mais interventiva, nada. o momento mais à esquerda em que participei no seio familiar foi numa noite em que, reclamando sobre qualquer coisa que o meu pai tinha feito, chameio-o de bufo, o que por pouco não originou um sopapo do meu tio. para ir ao avante foi preciso um namorado cheio de convicções e com bom gosto musical - e desde então a carvalhesa passou a ser uma espécie de banda sonora para o apogeu do romance, quero dizer: da mesma maneira que o cão do Pavlov se baba quando ouve o sino os meus olhos ainda brilham de paixão às primeiras notas do hino da festa.
só mais tarde, por minha conta e risco, entrei no fascismo. foi a literatura que lá me colocou. e foi também a literatura que me mostrou os caminhos da liberdade, sartre à parte, falo é do bragança, da eduarda dionísio, do cardoso pires, por aí fora ou por aí a dentro ou as duas coisas. senti o fascismo e o 25 de abril com uma intensidade tal que deixei de ter inveja das minhas amigas de esquerda - passei foi a ter pena dos anos 70 que perdi, chegada ao mundo com pelo menos dez anos de atraso.

(agora é gramar com o joão na rua, à saída do supermercado: somos muitos, muitos mil, para continuar abril.
)

I'm happy spasmodically



(monsieur belard fez-me chegar a este site cheio de saltos
)

o poema

DUAS HORAS DA TARDE NO BRASIL
Tanto quanto a vida amo este calor,
esta claridade metafísica,
este pequeno milagre:
no ar tórrido os alecrins de seda não se crestam,
espalmam como os jovens hebreus cantando na fornalha.
Quem sofre é meu coração,
às duas horas da tarde quer rezar.
Quem me chama é Deus?
É Seu olho centrífugo o que me puxa?
A vida tão curta e ainda não tenho estilo,
palavras como astrolábio desviam-me de meus deveres,
a forma de um nariz por semanas ocupa-me,
seu jeito triste de fechar a boca.
A quem amo enfim?
Acaso fui seduzida pelo Filho do Homem
e confundo você, mesquinho,
e confundo você, vaidoso,
como o que me quer com ele
gemendo na sua cama de cruz?
O europeu diz-se aturdido com o desperdício do sol.
Obrigada, respondo, com vergonha de carnaval,
de batuques, de meus quadris excessivos.
Jesus é búlgaro? Afegão? Holandês da colônia?
Brasileiro não é. Estranhíssimo sim,
com seu corpo desnudo e perfurado,
mendigando carinho, igual ao meu.
Minha pátria, como as outras, tem folclore,
cantigas cheias de melancolia.
Como posso aceitar que morreremos?
E a alma do povo, a quem aproveitaria?
Frigoríficos são horríveis
mas devo poetizá-los
para que nada escape à redenção:
Frigorífico de Jibóia
Carne fresca
Preço jóia.
De novo quero rezar pra não ficar estrangeira
"meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?"
Dizei-me quem sois Vós e quem sou eu,
dizei-me quem sois Vós e quem sou eu.

Adélia Prado,
Com Licença Poética, Cotovia, 2003

consumo já facturado

para trabalhar preciso de uma mesa, de um candeeiro (mesmo por trás do computador) e de um cinzeiro onde possa pousar, sem remorsos, um cigarro. pode parecer estranho, mas. penso melhor enquanto fumo. com a chegada do calor surgem complicações - o cheiro dos pés, a vontade de ir para a rua, o efeito do vinho. e é tudo tão diferente nos trópicos da minha rua. o calor faz-me pensar em coisas que, ao longo do inverno, nem sequer me ocorrem: tenho vinte e seis anos e peso demasiado. vinte e seis, indecisos, bikini, monokini, tudo leve leve e eu sem sequer caber em mim. enquanto testo o fato de banho muito rita hayworth, bem, enquanto imagino tudo isto, leio em voz alta para ter a certeza que sou eu, que sou mesmo eu, quem aqui está. para trabalhar preciso dessa voz, a única que ninguém ouviu porque é a minha voz vinda por dentro, num circuito de acesso restrito, da boca para o ouvido, subindo garganta acima até aos tímpanos, entre paredes, ossos e nervos. escrevo rejeitando imediatamente aquilo que escrevi - permito ao texto que exista apenas pela voz, único sentido que lhe atribuo. tudo o que escrevo poderia ser melhor escrito, se, de outro modo. dizer que peso muito é divertido porque tenho apenas vinte e seis anos e toda a leveza a que o número obriga: assim, tudo quanto escrevo é tão verdadeiro quanto falso porque nunca completo, nunca terminado.

Segunda-feira, 26 de Abril de 2010

Toda a humilhação leva à morte #10



«És um ocioso, um sonâmbulo, um indolente. As definições variam conforme as horas, os dias, mas o sentido permanece mais o menos claro: sentes-te pouco disposto a viver, a agir, a modificar; queres apenas esperar e esquecer.»

Georges Perec, "Um Homem que Dorme", Editorial Presença, 1991

«insisto no escusado, mal pago, fantasioso / exercício da beleza»

i carry your heart with me (i carry it in
my heart) i am never without it (anywhere
i go you go, my dear; and whatever is done
by only me is your doing, my darling)
i fear
no fate (for you are my fate, my sweet) i want
no world (for beautiful you are my world, my true)
and it's you are whatever a moon has always meant
and whatever a sun will always sing is you
here is the deepest secret nobody knows

(here is the root of the root and the bud of the bud
and the sky of the sky of a tree called life; which grows
higher than the soul can hope or mind can hide)
and this is the wonder that's keeping the stars apart
i carry your heart (i carry it in my heart)

E.E. Cummings

(depois da conversa, a música)

what do you mean by silence?



Domingo, 25 de Abril de 2010

Sábado, 24 de Abril de 2010

Imediatamente embora pouco a pouco #7



«De uma maneira geral, as pessoas acreditam que o interesse e a novidade do conteúdo levam a que o tempo "passe", isto é, abreviam a passagem do tempo, ao passo que a monotonia e o vazio contribuiriam para obstruir ou refrear essa mesma passagem. Tal convicção não é necessariamente correcta. O vazio e a monotonia podem porventura alongar o momento e a hora, tornando-os mais fastidiosos, mas abreviam, por outro lado, os enormes e incomensuráveis períodos de tempo, dissipando-os até ao nada. Um conteúdo rico e interessante pode, em contrapartida, abreviar e acelerar a hora e até mesmo o dia, conferindo, no entanto, e em termos absolutos, amplitude, peso e solidez à marcha do tempo.»

Thomas Mann, "A Montanha Mágica", Publicações Dom Quixote, 2009

contrariedades

Eu hoje estou cruel, frenético, exigente;
Nem posso tolerar os livros mais bizarros.
Incrível! Já fumei três maços de cigarros
Consecutivamente.
(...)
Cesário Verde,
Poesia Completa 1855-1886, Publicações Dom Quixote, 2001

água-marinha

Se a encostares ao ouvido
ouve-se o mar
O que é preciso é saber escutar
Jorge Sousa Braga, O Poeta Nu, Assírio&Alvim, 2007

bunker

do que há para dizer apenas muito pouco tem realmente que ser dito. percebo dos textos de Morelli essa necessidade de corte, de redução, de despojamento - léxico, estilo, forma. tenho escrito sem escrever. a minha cabeça está povoada de habitantes. Morelli talvez ficasse insatisfeito com a frase anterior. O que é um habitante? Como é que ele pode estar na minha cabeça? Porque é que digo "habitantes" em vez de dizer a verdade? Ninguém habita a minha cabeça.

História de Ratos



-"Shock Doctrine" - Naomi Klein

Vida é sonho

Notebooks



"We are sinful not only because we have eaten of the Tree of Knowledge, but also because we have not yet eaten of the Tree of Life. The state in wich we are is sinful, irrespective of guilt"

"If it had been possible to build the Tower of Babel without climbing it, it would have been permitted"

"Doing the negative thing is imposed on us; the positive thing is given to us from the start"


-"The Blue Octavo Notebooks" - Franz Kafka

Sexta-feira, 23 de Abril de 2010

Teoria da Conspiração #16 (ou o Teste de ginástica ocular)



«Se me perguntas o que eu vi, talvez seja capaz de fazer um esboço, que o represente; mas se me perguntas que percurso fez o meu olhar, na maioria dos casos, serei de todo incapaz de me recordar.»

Ludwig Wittgenstein, "Tratado Lógico-Filosófico. Investigações Filosóficas", Fundação Calouste Gulbenkian, 1995

Como um relâmpago



Com o corpo coberto por uma veste sem tecido e
os pés calçados de pêlos de tartaruga,
Com o meu arco de corno de lebre na mão
preparo-me para atirar sobre o demónio Ignorância


- Han Shan -

Quinta-feira, 22 de Abril de 2010

esquece tudo o que te disse #11



yyyyyuuuuupppiii!!!!

(pediram-me um post animado)

Quarta-feira, 21 de Abril de 2010

o homem de quarta-feira #31



«Assim que apanhei o Tom a sós, perguntei-lhe qual era a ideia, na altura da evasão - o que é que contava fazer se a evasão tivesse ocorrido como deve ser e se tivéssemos conseguido libertar um preto que já era livre? Ele disse aquilo que tinha planeado desde o princípio era que se conseguíssemos tirar o Jim dali ileso, íamos descer o rio com ele, sempre a ter aventuras até chegarmos à foz; depois contávamos-lhe que ele era livre e trazíamo-lo de volta para cima num vapor, em grande estilo, pagávamos-lhe pelo tempo que tinha perdido; escrevíamos uma carta antes de chegar, para reunir os pretos todos e entrávamos com ele na cidade a dançar com uma procissão de candeias e uma banda e então ele seria um herói, e nós também.»

Mark Twain, "As Aventuras de Huckleberry Finn", Relógio D'Água, 2009

Terça-feira, 20 de Abril de 2010

Orelhas de Elefante #14



Scout Niblett, "The Calcination of Scout Niblett", Drag City, 2010

Porque há musicas de outras dimensões.

«As palavras esperam o sono
e a música do sangue sobre as pedras corre
a primeira treva surge
o primeiro não a primeira quebra»

António Ramos Rosa

Segunda-feira, 19 de Abril de 2010

alegações finais #3



«- Todos os sucessos estão encadeados no melhor dos mundos possíveis; porque enfim, se vós não tivésseis sido expulso de um belo castelo com grandes pontapés no traseiro por amor da menina Cunegundes, se vós não tivésseis passado pela Inquisição, se vós não percorrêsseis a América a pé, se vós não tivésseis dado um bom golpe de espada no barão, se vós não tivésseis perdido todos os vossos carneiros do maravilhoso Eldorado, vós não estaríeis aqui a comer os limões, doces e pistácios.
- Tudo isso é muito bonito - respondeu Cândido - mas é preciso cultivar a nossa horta.»

Voltaire, "Cândido", Guimarães Editores, 1999


"Um botão de lótus a sua beleza
e de frutos o seu peito.

O seu rosto é como uma armadilha numa floresta de meyrus
E eu, um pobre ganso selvagem
Um pobre ganso selvagem que põe a cabeça dentro de água
Para morder o isco."



-"Poemas de Amor do Antigo Egipto" -

Domingo, 18 de Abril de 2010

diário dos mesmos pesares #4



«Entra pela janela aberta o rumor da avenida. E do parque entre os prédios, um músico ambulante toca o seu saxofone. É um som volumoso, oco, tem nos finais vibrações melodiosas. É uma música nostálgica, de uma lentidão genesíaca. E a toada sobe por entre o rumor do tráfego. E paira ao alto como uma estrela.»

Vergílio Ferreira, "Pensar"‎, Bertrand Editora, 1992

Sábado, 17 de Abril de 2010

ondas de paixão



©Gondry,Michel;2004


www.faceoutbooks.com

Apesar do sono...



cá vos esperamos para o concerto de hoje à noite!


"Meus passos nesta rua
Ressoam
Noutra rua
Onde
Ouço meus passos
Passarem nesta rua
Onde
Só a névoa é re.al."


-Octávio Paz -

e no entanto: "IL FAUT TENTER DE VIVRE"

Se eu fosse o Irmão Karamazov #2



"As vidas que terminam como os artigos literários dos jornais e das revistas, tão faustosos na primeira página e acabando num final esvaído, lá para a página trinta e dois, entre anúncios a saldos e a pastas de dentes."


-"Rayuela o jogo do mundo" - Julio Cortázar

nuberu bagu

tão bonita, Sonoko, arrastada no fundo do mar «um dia caço uma baleia para ti».

a nova exit express

de uma forma um bocado estranha

achei que isto era para mim.

Sexta-feira, 16 de Abril de 2010

Perguntas Abandonadas #7


«Se admito a malícia, por que hei-de afastar a distracção, a causalidade?»

Adolfo Bioy Casares (1914-1999)

quando anda toda a gente a mudar de casa, tenho apenas uma coisa a dizer

comecei um caderno novo.

oh yes, babybird


"There’s something, there’s something going on.

There’s something going on, going on, going on.
There’s something going on.
There’s something going on.
There’s something going on.
There’s something going on.
But I can’t fight it, I can’t find it.
But I can’t fight it.
But I can’t fight it."

É louco, sopinha de massa, radical...gosto!


Ring My Bell



-"Espelho do Mundo / Uma Nova História da Arte" - Julian Bell

Confesso que só sou livreiro...


Porque não sei dançar como o Beck

Arquitectar é preciso



-"O Modulador 1/2" - Le Corbusier

Sabedoria popular e livreira



"Espaço Vazio não fica em pé"

I’m a loser baby, so why don’t you kill me?


"Someone came sayin’ I’m insane to complain

About a shotgun wedding and a stain on my shirt
Don’t believe everything that you breathe
You get a parking violation and a maggot on your sleeve"

Ai que os específicos não param de chegar !



Só para terem um ideia:

-"Can the Body Ramson Us?

-"Thinking in Movement

-"Surface Sensitivity and the Density of Flesh"

-"Emotions and Movement: a Beginning Empirical- Phenomenological Analysis of Their Relantionship

-"Sensory- Kinetic Understandings of Language: an Inquiry into Origins


Do versejo helénico



-"Poesia Grega de Álcman a Teócrito"

Do efeito esponja #2



Raimundo:

Maria era também uma fonte. O líquido que começaria a jorrar num momento que eu previa, num ponto que eu poderia examinar, em circunstâncias que eu poderia controlar. Eu aspirava acompanhar com os olhos o crescimento de um arbusto,o surgimento de um jorro de água.


João:

O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.

E há aqueles dias em que, pronto, temos que apaparicar a sócia, porque sim e pronto





(xxxxiii sócia,estava mesmo para por uma imagem daquelas pós-modernó-maricas que tu gostas mas aí é que todos iam mesmo pensar que somos casados!)

Parabéns (atrasados) Belard !

"Precisamos de livros como de vários espelhos. Perspectiva."


- Peter Von Stilker -

Se eu fosse o Irmão Karamazov



Escrito por Morelli no hospital:

"A maior virtude dos meus antepassados é estarem mortos; espero modesta mas orgulhosamente o momento de herdar essa qualidade deles. Tenho amigos que não deixarão de fazer uma estátua em minha honra, na qual me representarão deitado de barriga para baixo no acto de me aproximar de um charco com rãs autênticas. Ao colocar-se uma moeda na ranhura, ver-se-á a minha estátua cuspir para a água. Assustadas, as rãs fugirão e coaxarão durante um minuto e meio, tempo mais do que suficiente para que a estátua perca todo o interesse."


-"Rayuela o jogo do mundo" - Julio Cortázar

bom dia