«Ele que deixasse os livros, diziam, para os paralíticos e os moribundos.»

Segunda-feira, 31 de Maio de 2010

Chamada a pagar no destinatário #6



«Oh, I could spend my life having this conversation - look - please try to understand before one of us dies»

Domingo, 30 de Maio de 2010

é meia-noite no fim do céu #6



«Não havia a fazer: as mãos, disso tinha ele a impressão horrivelmente clara, caminhava a grandes passadas pelo caminho do gelo definitivo.
E teve então um clarão de génio!
Deitando mão à espingarda, não hesitou em fazer fogo na noite e a disparar uns atrás de outros, meia dúzia de tiros.
Depois disto, aproximando as mãos insensíveis do cano muito quente da arma, sentiu a circulação a restabelecer-se: estava salvo!»

Alphonse Allais, "O Capitão Cap., Editorial Estampa, 1973

Sábado, 29 de Maio de 2010

a vida não é um sonho #6



«Hoje, não. Os tempos começam a ser outros.»

Manuel Laranjeira, "Prosas dispersas", Relógio de d'Água, 1990

Sexta-feira, 28 de Maio de 2010

Teoria da Conspiração #19 (ou o Universo é composto de histórias, não de átomos)



«Milhões de anos, milhões de barris. Milhões de dólares. É uma espécie de aprofundamento geopolítico da teoria da relatividade: Energia igual a Miséria e Combustão - ao quadrado, digo, à segunda potência. Continua a fascinar-me a forma como a massa sedimentada é engolida num átomo de ignição. O tempo geológico da Terra desaparece, em chama, no carvão do tempo biológico do Homem. A Física pode destruir o futuro num cogumelo, mas a Geologia e a Química oferecem, numa chaminé azul, o que ainda resta do passado. Passado é o que sobra da acumulação. Não me seguro de fascínio por esta ciência do esbanjamento. E é verdade que resta cada vez menos.»

Pedro Rosa Mendes, "Lenin Oil", Publicações Dom Quixote, 2006.

«a samambaia de nosso pulmão procurando gotículas suspensas»

que coisa tão bonita, a samambaia de nosso pulmão. um dia fujo para o brasil.

(a frase é do ó, para que conste)

«este pagas e também faz pandam»

argumenta o andré, tentando que o xico compre um livro, suetónio fica bem com verde.

coisas que me aborrecem um bocadinho mais à medida que o tempo passa

um leitor dizer que livro x é caro e por acaso o livro x ser um livro que não está à venda em lado nenhum e que nós arriscámos comprar, pagando a pronto, sem saber se seria ou não vendido. porque acreditámos que ter aquele livro era importante. e que eu diga de seguida que mandando vir pela amazon, por exemplo, ficaria sensivelmente pelo mesmo preço (mais um euro, menos um euro), mas que a possibilidade de encontrar um livro numa livraria, um livro que se calhar esse leitor nem saberia que existe, e poder folheá-lo enquanto decide se o compra ou não, também tem valor, não faça grande diferença, quero dizer, mesmo que este leitor decida comprar o livro x fica com aquele ar entre o resignado e o suspeito, coisa que me faz uma certa confusão.

é hoje às nove e meia (entrada livre)

Intervenção Divina
de Elia Suleiman
apresentação de António Duarte
integrado no ciclo de cinema DE PEDRA ONDE O CINEMA SE DESFAZ
org. Rita Novas Miranda

entre nós e as palavras há metal fundente?

a cena é que devia haver mais metal fundente e menos palavras, senhor cesariny.

Campo de Ourique



Desconhecemos ainda todos
os modos da luz nos bairros
que havemos de habitar:
as coisas secretas até onde
ela se pode estender no último
minuto, na mais longa
inclinação.

Margarida Ferra,
Curso Intensivo de Jardinagem, &etc, 2010

hoje ela faz 27

Querida V., é pouco provável que leias as tretas que eu escrevo para aqui mas hoje acordei a pensar em ti e com vontade de te dar os parabéns. Uma vez que deixámos de falar para aí há dois anos achei por bem não te enviar uma mensagem mas, mesmo que tu não saibas, ficam as outras pessoas a saber que tu foste the one. Aquela amiga que muda tudo, que nos dá um rumo, que nos torna exactamente naquilo que queremos ser. Mas, biologia, biologia, é preciso matar o pai, a mãe e, já agora, a melhor amiga. Por isso, bitch, nem penses que quero falar contigo mas lá que eras a maior, eras.

rua coronel bento roma, esquina com a conde sabugosa

a marta vivia em frente à minha avó - vivia com a mãe, o pai e um irmão. de vez em quando ia a casa dela, lembro-me de jogarmos monopólio à noite e de a achar muito, muito mais crescida do que eu. à medida que os anos passavam tornava-se cada vez mais incontornável essa diferença de idades - a marta ficou avassaladoramente mais velha do que eu, embora eu continuasse a crescer. a marta já não brincava, suponho, tornando-se para mim inacessível e, por isso, admirável. quando deixei de a ver a minha avó passou a contar-me as novidades - a faculdade, a ida para os Estados Unidos, o namorado, o regresso a Lisboa. imaginava a marta muito alta, morena e sobretudo muito betinha - é que a partir de certa altura, quando o elevador subia, comigo lá dentro, e lá em cima se ouvia a voz da mãe da marta, eu começava a rezar para que ela entrasse em casa depressa porque sempre, sempre, falhei no cerimonial do beijinho e sempre, sempre, fiquei de pescoço esticado para um segundo beijinho numa segunda bochecha, que nunca acontecia. tudo isto me causava um transtorno inexplicável.

ontem passou por cá uma rapariga que dizia ser a marta, vizinha da minha avó. mas eu não acredito. para começar não era a marta porque a marta tinha para aí doze anos e a que esteve cá ontem deve ter uns trinta. e depois não tinha a cara da marta e era mais baixa do que eu, o que não corresponde de todo à verdade dado que a marta sempre foi mais alta do que eu. esta rapariga não era betinha e, foi aqui que a apanhei, dava dois beijinhos - e a marta verdadeira de certeza que só dá um.

poemas que entram com a noite

860

Absence disembodies - so does Death
Hiding individuals from the Earth
Superstition helps, as well as love -
Tenderness decreases as we prove -

[c. 1864]


A Ausência desincorpora - e assim faz a Morte
Escondendo os indivíduos da Terra
A Superstição ajuda, tal como o amor -
A Ternura diminui à medida que a experimentamos -

Emily Dickinson, Poemas e Cartas, trad. Nuno Júdice, Cotovia, 2000

Quinta-feira, 27 de Maio de 2010

diário dos mesmos pesares #5



«A Indústria da Poesia
New Parthenon, 27 de Maio.

Renunciei, há muito, a todas as minhas direcções e participações industriais para comprar a coisa mais cara do Mundo - no sentido económico e moral: a liberdade. Um luxo que não está hoje ao alcance nem mesmo de um simples milionário. Suponho que sou um dos cinco ou seis homens quase livres que vivem na Terra.
Mas, quando alguém se entregou ao vício dos negócios durante tantos anos, é quase impossível conseguir que este não torne a recrudescer. No passado, veio-me o desejo de criar uma pequena indústria, a fim de poder subtrair-me às grandes e pesadas. Queria que fosse absolutamente nova e que não exigisse grande capital.
Ocorreu-me, então, a poesia. Esta espécie de ópio verbal, ministrado em pequenas doses de linhas numeradas, não é, certamente, género de primeira necessidade, mas a verdade é que alguns homens não podem prescindir dele. Ninguém pensou, todavia, a organizar de um modo racional a fabricação de versos. Isso tem sido deixado, sempre, ao capricho da anarquia pessoal. A razão desta negligência reside, provavelmente, no facto de , embora florescente, uma indústria, poética deve dar lucros bastantes modestos, já pela dificuldade - não digo impossibilidade - de adoptar máquinas, já pela escassez de consumo de produtos.
Para mim, não se tratava da questão de dinheiro, mas de curiosidade.»

Giovanni Papini, "Gog", Livros do Brasil, 1988

querido deus


faz com que eu não pense e, se puderes, com que eu não fale também. penso que não tenho sido má de todo, querido deus, e se fizeres com que eu encontre dentro da cabeça um grande quadro branco, não vais arrepender-te.

ainda dizem que a culpa é dos livreiros

#%&@!

instalou-se um debate no centro nevrálgico da nossa amizade

Eu digo Rua da Barrôca, ela diz Rua da Barróca.

tudo está bem quando acaba bem

ontem, embora o rui nos tenha alertado, não fizemos a devida homenagem a S. Filipe Néri, o nosso padroeiro. suponho que tenhamos sido perdoados porque dia e noite correram bem na companhia dos seus, o vinho francês estava bom obrigado, e fazer conversa foi do mais fácil que há porque toda a gente falava francês. de resto, cheguei a casa à meia-noite e meia com as bochechas vermelhas e adormeci em 3, 2

se isto não é para fazer de pé não adianta estar sentado

Quarta-feira, 26 de Maio de 2010

o homem de quarta-feira #36



logo no segundo capítulo que é para ninguém adormecer

"Nada é tão chocante num morto quanto a sua esterilidade: olhe para sua mão, ela nunca alcançará objeto algum, olhe seu peito imóvel, nenhuma golfada de ar, nenhum susto, sono, estímulo sob a pálpebra. O curioso, no entanto, é que esta soma infinita do que não fará continue sendo aplicada a ele, como uma sentença. Quem morre não tem perdoada a vida que deixou de ter. Não fica isento do aquém, do dia-a-dia que ainda nos domina, descansando num respeito solene dentro do túmulo. Não, nós o prendemos em nossa culpa e em nosso amor, procurando lembrá-lo (mas quem é ele agora?) de cada gesto que não fez, de cada entardecer que não viu. O morto torna-se aos poucos um devedor, e quanto mais tempo passa, maior a vida que nos deve (porque morreu). Sei que não há como lembrá-lo disso, mas não importa - sua surdez é apenas mais uma de suas dívidas: Hoje você não ouviu as minhas queixas. Assim, se houver um Além, somos nós que assombramos os que passaram, enchendo sua eternidade de cobranças e lamentos."

nuno ramos, ó, Cotovia, 2010

Paisagem com trompete ao fundo

India Song #8



Deitou-se a tarde sobre
os corpos estendidos,
ainda agora tocaram
lá em cima,
onde o tecto se inclina sobre a esquina de domingo
e todas as outras horas da semana.

Há no mundo dois
cães longínquos,
um pássaro raro
e o arame que roda, e chia,
sobre si o cheiro da roupa
molhada.
Qualquer coisa espelha uma outra qualquer, dois telhados antes do rio.

Não sei quantas luzes são essas,
nem qual é o reflexo,
de onde vem o eco,
porque dormes
e sinto sobre nós,
deitado,
o vento de todas as tardes,
a respiração do teu amor.


-"Curso intensivo de jardinagem" - Margarida Ferra - &etc - 2010 (prestes a sair)
ah e já agora, se amanhã alguém quiser aparecer no Bacalhoeiro, vou estar com o Tiago Sousa a fazer a primeira parte do trio do Rodrigo Amado.
Escrevo em letras pequeníssimas, porque isto é uma espécie de espaço PUB envergonhado.

Dos Leitores

Dos Inconvenientes


  • A substância de uma obre é o impossível - aquilo que não pudemos alcançar, aquilo que não podia ser-nos dado: é a soma de todas as coisas que nos foram recusadas.
  • Gogol, na esperança de uma "regeneração", dirigindo-se a Nazaré e "aborrecendo-se como se estivesse numa estação da Rússia", é bem a imagem do que nos acontece a todos quando procuramos no exterior o que apenas pode existir em nós.
  • Matarmo-nos por sermos o que somos, ainda vá, mas nunca só porque a humanidade inteira nos irá cuspir no rosto


-"Do inconveniente de ter nascido" - Cioran - Letra Livre

curiosidades universitárias parte 2 ou a FCSH chegou à tvshop

lindo, lindo, é ver os vídeos de apresentação dos cursos. eu comecei pelo de filosofia, passei pelos Estudos Portugueses e depois vim aqui fazer um intervalo porque foi uma experiência demasiado intensa: dói-me a barriga de tanto rir e, ao mesmo tempo, tenho que reprimir o choro e a vontade de emigrar.

curiosidades universitárias

chegou por mail:


já não bastava não termos: papel higiénico nas casas de banho,
comida de jeito,
pátios com relva,
salas com aquecimento..
agora temos..
este SITE SURREAL! (Abrir várias vezes porque aparecem três bicho diferentes!)


é fundamental ter as colunas ligadas, tem som!

X - O Coração

O coração assemelha-se
a quanto posso perder
- tudo - junto a ti.
Sob o sinal de anos pretéritos
a sós com o meu olhar
a colecção das nossas perdas
ganha um involuntário valor
sobre estes dias.

Adere a cada hora
um significado como uma forma
de gravidade sobre o tempo.

Hoje sei como se perde
a noite e nela a vida; como se
decompõe entre a luz e a sombra
onde um corpo espera.

Não é a ausência, tão-só o amor
quem faz esta vigília, esse excesso
que é também abreviatura
e aqui termina.

Rui Miguel Ribeiro,
XX Dias, Averno, 2009

o dia do meio

começa a ser bem mais evidente que não bato bem da cabeça. reparei, por exemplo, que para devolver a chávena de café, que bebia na rua enquanto fumava um cigarro, entrei no Piaf a rir-me e a contar alto um, dois, três, um, dois, três: os passos necessários para entrar, colocar a chávena no balcão e sair, sempre com o cigarro aceso. e o que era suposto ter sido rápido e discreto, fez com que as pessoas lá dentro ficassem a olhar para mim de olhos esbugalhados e com que eu saísse a chamar-me mil vezes idiota.

bom dia

Terça-feira, 25 de Maio de 2010

alegações finais #5



«É rumo à liberdade, rumo à liberdade, o mundo velho tem de ruir, acorda, brisa da manhã.
E é marcar passo e esquerdo direito, esquerdo direito, marchar, marchar, pr'á guerra vamos, cem músicos connosco levamos, com pífaros e tambores, rataplão-plão-plão, direitinhos andam uns, outros entortarão, firme s'aguentam uns, outros caem ao chão, em frente correm alguns, mudos outros se quedarão, rataplão-plão-plão.»

Alfred Döblin, "Berlim Alexanderplatz", Publicações Dom Quixote, 1992

yes, please

dizer it's getting chilly não é o mesmo que dizer está a ficar frescote. tenho saudades de viver em inglês: de estar completamente à nora no vocabulário. e de ser corrigida: isso não se diz assim, parece que estás no sul de londres. e de nem sequer saber porque é que não posso dizer as coisas como elas são ditas no sul de londres.

os livros e a psicanálise

nunca sei se aquilo que recebo é dado ou emprestado. pelo sim, pelo não, tento sempre devolver.

indicadores de quê?

393 subscritores no google reader
uma média de 452,13 visitas diárias em atrama.blogspot.com segundo o google analytics
5000 amigos no facebook

das duas uma

hoje ou não faço nada ou faço porcaria.

Nuno Moura apresenta



fico angústia
( a misteriosa quietude é afinal a passadeira de peões,
na rua em frente, sempre desocupada)
mas não te posso mudar a rota
até que choques contra mim
( a força das direcções contrárias leva-nos
aos dois para trás, voei um bom bocado
com a tua cabeça no meu peito)

de qualquer modo e se quiseres falar sobre isso,
traz a linguagem baixinho
estarei no bar esmeralda, como sempre,
segue o carreiro das pedras brancas



- Adraar Bous -

O PÂNTANO de Lucrecia

para mim, angústia, peso, desconforto físico. o que sei dizer do filme de Martel é apenas isto - que me custa vê-lo, que me deixa nervosa, ansiosa, angustiada. acho sempre fabuloso que um objecto consiga provocar sensações físicas no espectador, seja um quadro, um livro ou um filme.
na sexta-feira, depois da exibição do filme aqui na livraria, ficámos mais ou menos uma hora na conversa. ou melhor: espectadores e apresentador ficaram na conversa enquanto eu, mais atrás, observava o debate. (a certa altura o Filipe, apresentador do filme, pensou que eu estava a dormir mas na verdade eu estava apenas muito concentrada na conversa das duas pessoas mais próximas da minha cadeira. sim, tenho um fraco pelas conversas dos outros.)
a minha teoria quanto às sensações que o filme me causou é também uma teoria muito pessoal - pergunto-me se poderei apreciar as coisas sempre desta forma, sempre presas à minha tão pequenina esfera pessoal. o que o filme me diz, o que tem a ver comigo, onde é que me toca. dada a manias, não sei lidar com a compulsão alheia. talvez por isso me deixe nervosa a atitude da miúda para com Isabel, aquele constante estar em cima de, a falta de espaço. é uma coisa asfixiante. mas isto é apenas um exemplo e nem faz sentido falar do filme assim, não gosto do tom aéreo que aqui se usa (por mim, mais uma vez).

quem quiser ler alguma coisa decente sobre O Pântano, o texto de apresentação, escrito pelo Filipe Pinto, pode ser lido integralmente aqui.

livros antigos



sugestões




Stéphane Massa-Bidal

«como quem quer escolher e não consegue: matéria ou linguagem?»


Chegamos então à beira do velho precipício - o entusiasmo das palavras vagas. É a este antigo último recurso que recorremos sempre - exclamações ou frases compulsivas que não conseguimos deixar de dizer.

nuno ramos, Ó, Cotovia, 2010

Inverness

li em duas horas e acho que enterrei a minha relação com a Ana Teresa Pereira.

o poema que tomou conta de tudo

ERRATA

Onde se lê Deus deve ler-se morte.
Onde se lê poesia deve ler-se nada.
Onde se lê literatura deve ler-se o quê?
Onde se lê eu deve ler-se morte.

Onde se lê amor deve ler-se Inês.
Onde se lê gato deve ler-se Barnabé.
Onde se lê amizade deve ler-se amizade.

Onde se lê taberna deve ler-se salvação.
Onde se lê taberna deve ler-se perdição.
Onde se lê mundo deve ler-se tirem-me daqui.

Onde se lê Manuel de Freitas deve ser
com certeza um sítio muito triste.

Manuel de Freitas, Terra Sem Coroa, Teatro de Vila Real, 2007

Segunda-feira, 24 de Maio de 2010

A subjectividade é a verdade #8



Estes senhores sabem a que me refiro



Caros Changuito, Jaime e equipa,Carlos, Eugénia e Eduardo,

Há pouco um Leitor saiu da Trama com: "Tiresias" de Apollinaire, "Ponto Último e outros poemas" de John Updike, "Esquisses Autobiographiques" de De Quincey, anotações de Malte Laurids Brigge" de Raineir Maria Rilkee e "Do inconveniente de ter nascido" de Cioran...

não sei se estou a ficar velho, mas fico comovido quando tenho estas pequenas provas de que não somos completamente loucos.

Um abraço

com cinco letrinhas apenas (a trama de uma mão)

"Na quiromancia, a mão é assim considerada como o que permite compreender o homem e descobrir como uma consciência é enredada na trama dos acontecimentos e na estrutura do mundo"

in Jean Brun, A mão e o espírito, Edições 70, col. Biblioteca da Filosofia Contemporânea, Lisboa, 1991: 84.

ainda há pouco

quando olhei para cima percebi a razão das exclamações entre risadinhas e de uma ou outra asneira. a turma do quinto ano estava com um livro do Manara.

my son, my son, what have ye done

PROJECTO10 #10 from PROJECTO10 on Vimeo.

planos para a semana


(clicar na imagem para aumentar)

Domingo, 23 de Maio de 2010

a poesia não me interessa #21



O Tempo Aprazado

Vêm aí dias difíceis.
O tempo até ver aprazado
assoma no horizonte.
Em breve terás de atar os sapatos
e recolher os cães nos casais da lezíria,
pois as vísceras dos peixes
arrefeceram ao vento.
Mortiça arde a luz dos tremoceiros.
O teu olhar abre caminho no nevoeiro:
o tempo até ver aprazado
assoma no horizonte.

Do outro lado enterra-se-te a amante,
a areia sobe-lhe pelo cabelo a esvoaçar,
corta-lhe a palavra,
impõe-lhe o silêncio,
acha-a mortal
e pronta para a despedida
depois de cada abraço.

Não olhes em volta.
Ata os sapatos.
Recolhe so cães.
Lança os peixes ao mar.
Extingue os tremoceiros!

Vêm aí tempos difíceis.

Ingeborg Bachmann, "O Tempo Aprazado", Assírio & Alvim, 1993

algum tempo depois...

foi feita justiça ao senhor cliente.

Sábado, 22 de Maio de 2010

esquece tudo o que te disse #12



com cinco letrinhas apenas, senhor cliente (6)

[…] Diante dos teares, há raparigas acocoradas ou sentadas em tamboretes. Trabalham depressa, empurrando a lançadeira entre os fios da urdidura, pegando nas tesourinhas de aço, cortando as pontas, amontoando a lã na trama. A mais velha deve ter catorze anos, a mais nova não tem provavelmente oito anos. […]

J. M. G. Le Clézio, Deserto, Publicações Dom Quixote, 1986; pág. 125

Dos Leitores



Ao receberem e darem os seus pensamentos, as pessoas comunicam entre si como nos beijos e abraços; quem recolhe um pensamento não recebe alguma coisa, mas alguém.


A alma inteira nunca está concentrada, a não ser no êxtase.

A amizade e o namoro são esboços do casamento, a primeira quanto ao seu lado espiritual, o segundo no tocante ao lado místico.

Deus disse: Eu era um tesouro que ninguém conhecia e queria ser conhecido. Então criei o homem.



-"Livro dos Amigos" - Hugo von Hofmannsthal

Sexta-feira, 21 de Maio de 2010

o Mal-estar da Civilização #18



«Somos suficientemente religiosos para nos odiarmos, mas não o suficiente para nos amarmos uns aos outros.»

Jonathan Swift, "Pensamentos", Editora Licorne, 2010

a frase certa

encontrei-a hoje, por acaso, fora de casa. procuro há bastante tempo uma frase que possa usar para explicar porque não gosto de certo poema ou de certo poeta. tem sempre que ver com uma coisa muito particular e inexplicável - por vezes tenho a sensação de que aquilo que leio não é verdade. e a verdade, neste caso, não tem que ver com a realidade ou com qualquer uma destas noções que tentam dar um carácter objectivo ao que, por natureza, nunca será. a sensação de que estou a ler algo verdadeiro pode acontecer-me com uma tremenda mentira mas isso não importa - o que me interessa é que essa sensação me seja provocada. daqui por diante deixarei de tentar explicar estas confusões e passarei a dizer apenas que
a diferença entre os pequenos e os grandes poetas
é o que separa o ilusionismo da magia


[disse-o o miguel martins no livro penúltimos cartuchos da tea for one publicado em 2008]

Viagem Interminável

E o colibri faz o ninho no coração dos lírios negros
Vem!
Amar-nos-emos nas ruínas majestosas de um templo azteca
Serás o meu ídolo
Um ídolo colorido infantil um pouco feio e bizarramente estranho
Oh , Vem!


Se quiseres vamos de aeroplano e sobrevoamos a região dos mil lagos
As noites ali são desmesuradamente longas
O antepassado pré-histórico terá medo do meu motor
Aterrarei
E construirei um hangar para o meu avião com os ossos fósseis de mamute
O fogo primitivo aquecerá o nosso pobre amor
Samovar
E amr-nos-emos bem burguesmente perto do pólo
Oh, vem!


-"Poesia em Viagem" - Blaise Cendrars

com cinco letrinhas apenas, senhor cliente (5)

O fascínio de uma arquitectura perfeita anuncia-nos a clareza de um novo dia e a certeza de não sermos sós. Uma teia onde reconhecemos alguns dos fios da nossa trama. Quase seduzidos a enredar-nos nela. […]

Ana Viana, Murmúrios de um Lugar Branco, Indícios de Oiro, 2009; pág. 56

(...)

pus-me a ler o heliogabalo ou o anarquista coroado e tive vontade de mudar de vida, de mudar de gostos, interesses, ocupação, de mudar qualquer coisa. pus-me a ler o heliogabalo e percebi que a minha cena é ler e é justamente o que menos faço. porque me levanto cedo e me deito tarde e há caixas, há sempre caixas, para encher ou despejar, porque há sempre imperativos, mais ou menos categóricos, porque há respostas a dar e perguntas a fazer, porque é preciso cumprir, ter conhecimento do que vai acontecendo, estar a par, resolver, solucionar, contabilizar e provar. li duas páginas do heliogabalo e pensei que devia saber mais coisas sobre as estátuas para que me incomodem menos as referências, as citações, o vocabulário dos poetas. porque eu tenho uma lista de palavras que não se podem usar em poemas, porque estão fora do tempo, porque vazias, porque sinistras e recortadas, mal encaixadas, coladas à força, palavras de forma surgidas à superfície, e então enquanto lia pensei que se eu lesse mais talvez. bem, o que quero dizer é que me dói muito a cabeça e que o meu amor me recomenda chá de flor de laranjeira. o que eu quero dizer é que não sou capaz de ler um texto que não seja dono das palavras que usa, percebem, e pensei nisto a propósito do livro do Artaud porque quero acreditar que o vocabulário dentro e fora da literatura não pode ser assim tão diferente, caso contrário há algo de errado ou com o autor ou com a obra. e por isso quis mudar de hábitos, visitar mais museus para saber mais de estátuas, e aí, sim, escrever sobre estátuas. que confusão.

trabalhar com paredes







Ana Ventura

palavras que enchem a boca

Dvorák

a minha experiência está a resultar, oba!

ontem resolvi lançar um desafio secreto aos nossos clientes e peguei numa pilha de livros que me apetecia comprar mas, em vez de os guardar num sítio qualquer inacessível, coloquei-os em destaque, todos juntinhos, para ver se alguém lhes pegava. um já foi.

não é que tenha pouco que fazer

é estranho: quando vemos fotografias antigas até podemos sentir alguma nostalgia mas, de um modo geral, o que sentimos é vergonha. eu era assim? como é que eu podia ser assim? mas... eu vivia mesmo assim? com aquela cara, aquela roupa? e, claro, não queremos que aquilo se saiba: acreditamos que hoje somos mais bonitos.
(só estou a falar no plural para fingir que não estou a falar de mim)

com cinco letrinhas apenas mas sem música

FADO PARA O TEU SINTOMA

Vá, não sejas assim
não te sintas obrigado a sair daí
mas desvia-te um pouco
porque só o faço por ti

Vá, vê lá
faz pelo dia
e se espreitares
foge para onde eu ia, ia

Vá, empurra com mais força
talvez te apeteça acordar
mas espera um pouco
não vá eu passar

Vá, não te sintas obrigado
mas fica
entretanto de mim

Mas fica, entretanto de mim
faz uma de somar
trama não trama sim
e continua já agora
que é por aqui
possas fazer tu o jogo da minha sombra
aquele que eu sempre perdi

Mas fica, entretanto de mim
que é demais meu amor
mas fica por favor
sim?

Nuno Moura, Soluções do problema anterior
(cortesia do Henrique numa caixa de comentários perto de si)

hoje à noite na vossa livraria preferida

esta vida de livreiro está a dar cabo de mim

Quinta-feira, 20 de Maio de 2010

Imediatamente embora pouco a pouco #8



«Não digas muitas vezes que tens razão, professor!
Deixa que o aluno o reconheça.
Não puxes de mais pela verdade:
Ela não aguenta.
Ouve quando falas!»

Bertolt Brecht (1898-1956)

(...)

já toda adocicada, aquela miúda de vestido verde andava para lá e para cá, prometendo. vestida de lima com laço nas costas, o cabelo curto e voz mel que nervos. quando o concerto começou ela foi sentar-se à frente da bateria e dançaram braços e cabeça, fez-se a miúda corpo de baile, peça de música, pato, bicho que não pensa e muito move. guitarra, bateria, contra-baixo e miúda. e eu dei por mim a chorar a lima do vestido o amarelo do laço o cabelo curto que foi o corpo preso pensado, e o que todos os dias se perde gasta e esgarça, a linhaça das coisas, não que acredite que se torne feio o branco da pele o som deste concerto as cadeiras sujas de café, mas puído, fica tudo muito puído.

com cinco letrinhas apenas

II

A trama era tão simples, sob um céu
tão simples, sem visões e sem um véu

sobre os olhos... Num poderoso instante
um ponto se congela e, circundante,

tudo passar a fluir lento, arrastado,
e à volta desse círculo um mais largo

se abre onde prossegue normalmente
a vida e seu caudal; mais abrangente

há outro aonde tudo é tão veloz
que nem o percebemos. Onde a foz

e onde a nascente é algo indecidível:
se tudo nasce quieto e até um nível

vertiginoso vai-se acelerando,
ou se, ao contrário, é justamente quando

chega ao seu fim que o fluxo se detém,
nascido acelerado e por ninguém?

Vieira da Silva

[...]
a trama
é o trunfo
o engenho
é o naipe
aromas
caçadores
nas cores
do xale
[...]

Na noite física

A luz do quarto apagada,
na escuridão se destaca
a insônia que nos ataca,
dois gêmeos na bolsa d'água.

Ao despertar levo as marcas
que de noite rabiscavas
em minha pele com a sarna
ávida de tua raiva?

E em você a cega trama
algum mal pôde? ou maltrata
ainda, que penetrava
concha, espádua, gargalhada?

(...)

Carlito Azevedo, Sob A Noite Física, Cotovia, 2001

com os respectivos agradecimentos à sublinhadora destes poemas

acabei de vender um caderno ao carlito azevedo

agora é esperarem uns tempos pelo próximo livro.

com cinco letrinhas apenas, senhor cliente (4)

Quando o subconsciente é abandonado a si próprio por um momento, ele começa, muito simplesmente, a tecer uma trama. […]

Lars Gustafsson, A Morte de um Apicultor, tradução de Ana Diniz, 2ª edição: Edições Asa, 2001; pág. 52

como qualquer garota literária, eu também tenho gatos


Ivich, a gata
(um erro de casting)

a minha ideia de casa sempre esteve relacionada com a minha ideia de paredes





entretanto mudei de casa. uma e outra vez.
perdi o horror ao branco. e não mais pintarei uma parede.

pode parecer-vos um bocado estranho



mas nos últimos tempos tenho sentido uma vontade enorme de criar um blogue sobre filhos&suas múltiplas questões.

Quarta-feira, 19 de Maio de 2010

o homem de quarta-feira #35



«Quando alcançámos o solo, virou-se para mim, enquanto eu ainda o segurava por trás, de modo que ficámos peito contra peito.
- Deixe-me! - disse ele. - Eu não sei quais são as suspeitas que tem contra mim, mas eu estou inocente. - Repetiu: - Claro que eu não sei do que suspeita de mim.
- Aqui não se trata de suspeitar de alguém ou de ser inocente. Peço-lhe que não diga isso outra vez. Somos estranhos; o nosso conhecimento é tão velho como os degraus da igreja são altos. O que aconteceria se começássemos imediatamente a discutir a nossa inocência?
- É exactamente o que eu penso, - disse ele - Já agora o senhor disse "A nossa inocência". Por acaso está a sugerir que se eu tivesse provado a minha inocência, também teria de provar a sua? É isso que quer dizer?»

Franz Kafka, "Descrição de uma Luta", Coisas de Ler, 2004

Os Sonâmbulos



O homem contemporâneo tem necessidade de ser distraído. A sua participação activa é quase inexistente. A arte, seja ela qual for, é um assunto em que a maioria raramente pensa, um assunto quase irrisório a respeito do qual até se orgulha por vezes de mostrar uma atitude de invencível ignorância. Este deplorável estado de coisas é inconscientemente sustentado pela obstinada estupidez, tão segura de si mesma, das nossas instituições culturais. Os museus têm mais ou menos os mesmos horários que as igrejas, o mesmo cheiro a sacrário e o mesmo silêncio. E além disso alardeiam, com arrogância, um snobismo em oposição espiritual directa aos homens vivos cujas obras ali ficam encerradas. Que têm esses corredores calados a ver com Rembrandt, e a tabuleta "proibido fumar" com Van Gogh? Fora do museu, o homem da rua está de todo separado da influência naturalmente tónica da arte pelo sistema do comércio elegante, o qual, acessoriamente mas em função de imperativos económicos, exerce uma influência maior do que em geral se admite no aparecimento e na instalação de pretensas "formas de arte". A arte não pode ter significação vital numa civilização que ergue uma barreira entre a vida e a arte, coleccionando produtos artísticos como despojos de antepassados a venerar. A arte deve formar o vivido. Quanto a nós, o que concebemos é uma situação em que a vida seja continuamente renovada pela arte, uma situação construída pelo imaginário e pela paixão com vista a incitar cada pessoa a responder a isto criativamente.
Trata-se de dar a todas as acções , sejam elas quais forem, um comportamento criativo. Concebemos, sem dúvida, essa situação. Mas somos nós, agora, que devemos criá-la. Porque ela não existe.
Perante esta perspectiva, nada poderá mostrar um mais agudo contraste do que as condições actuais. A arte anestesia os vivos. Estamos metidos num condicionamento em que a vida se vê continuamente desvitalizada pela arte, onde tudo é apresentado falsamente, com as feições do sensacional e da compra, com vista a inspirar a cada indivíduo a necessidade de responder de maneira passiva e tradicional, de dar a tudo isso e a toda a hora um consentimento banal e automático. Para o homem médio, desencorajado e inquieto, incapaz de concentração, uma obra artística só pode ser assinalada se for posta em competição na esfera do espectáculo.


-"ANTOLOGIA Internacional Situacionista"

Ricardo

blame it on the boogie!

Das Perguntas



Já várias vezes me perguntaram: Porque não estão na Feira do Livro?

E eu imaginei:

-Gostava de levar um livro para um menino de 8 anos. Que me aconselha?
- Cara Senhora, tenho mesmo o livro ideal para a sua netinha: "Quando escreve descalça-se" de Miguel-Manso.

-E eu tenho um primo que até estava no Marquês a celebrar a vitória do Benfica, apareceu na tv e tudo a gritar "cccaaammmpppeeeõõeess"! Viu?
Que é que tem que eu possa oferecer?
- Ó meu caro, o que melhor se pode oferecer a um campeão que o nosso campeão de vendas? Já esgotou duas edições e tudo.
"Quando escreve descalça-se" de Miguel-Manso.


-Tenho um tio que esteve no Ultramar, interessa-se por história colonial e história de Portugal. Já lhe ofereci há tempos uma biografia do Afonso Henriques...Que me aconselha?
- Por quem é cara leitora? Para quem se interessa pela história da família real que tal o livro deste príncipe poeta :"Quando escreve descalça-se" de Miguel-Manso.




PS: até à data este foi o único livro editado pela Trama, por isso não teríamos outro para tentar satisfazer os gostos dos nossos clientes

Passados 2 anos e meio...



...muito eu ouvi dizer que uma livraria que combina livros escolhidos, raros e em segunda mão, concertos, cinema, sessões de poesia, conversas com escritores, debates, lançamentos, actividades infantis,workshops café...seria um sucesso garantido.
Muitos foram aqueles que afirmaram: A Trama será a minha segunda casa!

Pois agora onde é que vocês andam seus vadios?

;-)

o estádio começa a encher, a plateia está nervosa


Miguel-Manso vs. Nuno Moura
22h00

entrada €3,o0

com cinco letrinhas apenas, senhor cliente (3)

Com os braços descobertos até aos ombros, o tio Andrei tecia no seu tear. Faltava uma hora para amanhecer. Uma lanterna pendurada num prego iluminava o compartimento. As suas fortes mãos pegavam com ternura nos maços e deixavam-nos cair em cima do tecido, que progredia com rapidez. Os dedos andavam entre as cordas, inquietos, introduzindo por ambos os lados, ao mesmo tempo, o fio polido da trama. Os alvores do dia começavam a iluminar as vidraças e Andrei Ortopan, terminada a sua obra, preparava-se para deixar o tear, quando ouviu um ladrido. […]

Panait Istrati, Tsatsa Minnka, tradução de José Barão, Editorial Minerva, s. d.; págs 61/62

Das Ligações



Dado que tenho muitos livros à disposição e a combater pela minha atenção, por vezes perguntam-me como os escolho.

Os livros que me dão prazer são os que fornecem ou recuperam pistas de outros.
Por exemplo: Valéry liga a Brecht que nos empurra para Beckett que nos liga a Blanchot que nos faz piscar o olho a Char que nos ensina a ler Éluard que nos faz entrar pelo mundo surrealista de Breton que nos guia pela mão a Sade que nos leva ao encontro de Bataille...Lautréamont...Genet...que nos apresenta a Klossowski... aos gregos e a Homero...Calasso...Quignard...Tanizaki...Mishima...Miller...Durrell...Dostoievski...
Céline...
Genet...Burroughs...Kerouac...Ginsberg...Pound...


E de hoje em diante exijo que me chamem Sr Montano.