há um tipo que todos os dias almoça duas imperiais, um croquete e uma tosta mista. senta-se na esplanada, sozinho, dispõe as coisas na mesa (telemóvel, carteira, livro) até que, uma hora depois, pede um café e vai-se embora. a joana gosta de lhe levar a tosta enquanto imagina que roupa ele usará ao fim-de-semana, quando não está de fato - embora saiba apreciar um homem de fato.
hoje, quando ele chegou, eu estava nas primeiras trintas páginas do Se Numa Noite de Inverno um Viajante. pus-me a olhar para ele, a tentar reparar na forma como ele se acomodava na cadeira, a pensar se ele só leria depois de comer ou se, enquanto esperava, aproveitaria para avançar umas páginas. acabei por me distrair com o meu próprio livro: um homem dirige-se a uma livraria a fim de trocar um livro que, aparentemente, sofreu um erro de impressão. na livraria é-lhe explicado que o livro, a última novidade de Italo Calvino, tinha saído assim devido a uma troca de cadernos na gráfica que fizera com que partes fossem parar ao livro de um escritor polaco desconhecido e vice-versa. o que acontece é que este homem já lera uma série de páginas e já estava no livro pelo que, menos do que a novidade de Italo Calvino (que se lixe), o que ele queria era o livro onde a história que começara a ler na noite anterior continuasse. e assim o livreiro aponta para um exemplar bem impresso do autor polaco e, aqui está o que me pus a pensar enquanto observava o tipo da tosta, o livreiro aponta para uma leitora que fez a mesma escolha. leitor e leitora, depois de trocarem algumas impressões, trocam também o número de telefone e assim, de uma expectativa (o livro) nasce outra, a da possibilidade de um encontro.
agora, a meio de uma insónia mas sem coragem para ler, sou eu quem não consegue aguentar a expectativa: do livro, sim, e da vida, com ou sem erros de impressão.
hoje, quando ele chegou, eu estava nas primeiras trintas páginas do Se Numa Noite de Inverno um Viajante. pus-me a olhar para ele, a tentar reparar na forma como ele se acomodava na cadeira, a pensar se ele só leria depois de comer ou se, enquanto esperava, aproveitaria para avançar umas páginas. acabei por me distrair com o meu próprio livro: um homem dirige-se a uma livraria a fim de trocar um livro que, aparentemente, sofreu um erro de impressão. na livraria é-lhe explicado que o livro, a última novidade de Italo Calvino, tinha saído assim devido a uma troca de cadernos na gráfica que fizera com que partes fossem parar ao livro de um escritor polaco desconhecido e vice-versa. o que acontece é que este homem já lera uma série de páginas e já estava no livro pelo que, menos do que a novidade de Italo Calvino (que se lixe), o que ele queria era o livro onde a história que começara a ler na noite anterior continuasse. e assim o livreiro aponta para um exemplar bem impresso do autor polaco e, aqui está o que me pus a pensar enquanto observava o tipo da tosta, o livreiro aponta para uma leitora que fez a mesma escolha. leitor e leitora, depois de trocarem algumas impressões, trocam também o número de telefone e assim, de uma expectativa (o livro) nasce outra, a da possibilidade de um encontro.
agora, a meio de uma insónia mas sem coragem para ler, sou eu quem não consegue aguentar a expectativa: do livro, sim, e da vida, com ou sem erros de impressão.
