«Ele que deixasse os livros, diziam, para os paralíticos e os moribundos.»

Quinta-feira, 30 de Setembro de 2010

I go walking in my dreams

há um tipo que todos os dias almoça duas imperiais, um croquete e uma tosta mista. senta-se na esplanada, sozinho, dispõe as coisas na mesa (telemóvel, carteira, livro) até que, uma hora depois, pede um café e vai-se embora. a joana gosta de lhe levar a tosta enquanto imagina que roupa ele usará ao fim-de-semana, quando não está de fato - embora saiba apreciar um homem de fato.
hoje, quando ele chegou, eu estava nas primeiras trintas páginas do Se Numa Noite de Inverno um Viajante. pus-me a olhar para ele, a tentar reparar na forma como ele se acomodava na cadeira, a pensar se ele só leria depois de comer ou se, enquanto esperava, aproveitaria para avançar umas páginas. acabei por me distrair com o meu próprio livro: um homem dirige-se a uma livraria a fim de trocar um livro que, aparentemente, sofreu um erro de impressão. na livraria é-lhe explicado que o livro, a última novidade de Italo Calvino, tinha saído assim devido a uma troca de cadernos na gráfica que fizera com que partes fossem parar ao livro de um escritor polaco desconhecido e vice-versa. o que acontece é que este homem já lera uma série de páginas e já estava no livro pelo que, menos do que a novidade de Italo Calvino (que se lixe), o que ele queria era o livro onde a história que começara a ler na noite anterior continuasse. e assim o livreiro aponta para um exemplar bem impresso do autor polaco e, aqui está o que me pus a pensar enquanto observava o tipo da tosta, o livreiro aponta para uma leitora que fez a mesma escolha. leitor e leitora, depois de trocarem algumas impressões, trocam também o número de telefone e assim, de uma expectativa (o livro) nasce outra, a da possibilidade de um encontro.
agora, a meio de uma insónia mas sem coragem para ler, sou eu quem não consegue aguentar a expectativa: do livro, sim, e da vida, com ou sem erros de impressão.

Segunda-feira, 27 de Setembro de 2010

quero escrever mas não posso fumar aqui. e se for fumar não posso escrever lá. estou sempre entre escolhas, é extenuante.

Quarta-feira, 22 de Setembro de 2010

reabertura

ainda não sabemos quando é mas as obras decorrem, vagarosas, enervantes.

coisas que me fazem sorrir

«A galinha é o melhor exemplo daquilo a que pode levar o viver constantemente entre humanos. Perdeu completamente a leveza e a graciosidade de um pássaro. A sua causa eleva-se sobre o traseiro proeminente como um chapéu largo e de mau gosto. Os seus raros momentos de arrebatamento, quando está de pé sobre uma só perna e cobre os olhos com as pálpebras transparentes, são invulgarmente desagradáveis. Como o é aquela paródia de canção, súplicas de uma garganta arranhada sobre uma coisa incrivelmente cómica: um ovo redondo e cheio de manchas.

A galinha faz-me lembrar certos poetas.»

Zbigniew Herbert, Escolhido Pelas Estrelas, Assírio&Alvim, 2009 (versões de Jorge Sousa Braga)

Terça-feira, 14 de Setembro de 2010

apesar de

Lóri ligou o número de telefone:
- Não poderei ir, Ulisses, não estou bem.
Houve uma pausa. Ele afinal perguntou:
- É fisicamente que você não está bem?
Ela respondeu que não tinha nada físico. Então ele disse:
- Lóri, disse Ulisses, e de repente pareceu grave embora falasse tranquilo, Lóri: uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para a frente. Foi o apesar de que me deu uma angústia que insatisfeita foi a criadora de minha própria vida. Foi apesar de que parei na rua e fiquei olhando para você enquanto você esperava um táxi. E desde logo desejando você, esse teu corpo que nem sequer é bonito, mas é o corpo que eu quero. Mas quero inteira, com a alma também. Por isso, não faz mal que você não venha, esperarei quanto tempo for preciso.

Clarice Lispector, Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres

hoje dei por mim e estava feliz

a meio das férias forçadas liguei para o francisco. estava desesperada de saudades. da trama, dos clientes, das conversas, das pequenas tarefas que digo e redigo: femininas. saudades de poder acrescentar alguma coisa a alguém com uma frase, uma sugestão, uma dica qualquer. saudades do êxtase que encontrar o livro certo no momento certo me proporcionava, aquela certeza da ligação de tudo, de eu própria ser uma pessoa-coisa no meio de todas as outras coisas (animais-coisas, objectos-coisas, homens-coisas). tinha saudades de estar atrás do balcão e ficar feliz por ver o rodrigo passar ou o antónio entrar à hora de almoço, ao mesmo tempo que o pedro. saudades das conversas com a ana ao fim do dia, dos livros que ela queria e nós nunca tínhamos, saudades da cláudia, saudades de mim própria ou de uma pessoa que me habituei a ser por estar ali. levíssima.

outra coisa

uma mulher chega a uma altura da sua vida e pensa: alguma vez alguém me mandou um piropo por levar um calhamaço do Musil debaixo do braço? ou: quantos tipos ficaram de rastos depois de me verem com A Montanha Mágica?
Bem, a resposta, como devem imaginar, parte qualquer coração, até mesmo o mais robusto. Então, num gesto revolucionário, esta livreira disse de si para si: acabou-se, não gasto nem mais um tusto em livros, vou investir tudo o que tenho em roupa.

o tempo

as coisas demoram sempre demasiado para aquilo que a minha paciência consegue tolerar. como já roo as unhas, fumo ventil e, sempre que posso, mexo o mais possível no cabelo para ter o gostinho de ver dois ou três ficarem nos meus dedos, não sei para que género de nova paranóia me posso virar. em agosto dediquei-me à leitura, furiosamente, mais ou menos inspirada por uma série de pequenas tragédias que me vieram cumprimentar. li a Odisseia com os pés enfiados no mar e o rabo cheio de areia, li o Moby Dick (que abandonei assim que cheguei a Lisboa) num bar entre o fim do Alentejo e o começo do Algarve, li isto e aquilo com o mesmo entusiasmo com que, na secundária, virava as não sei quantas páginas do sucesso cinematográfico do Eco, o nome da rosa. nem sempre consigo ler como nessa altura lia, alheia aos namorados feiosos, às amigas ranhosas, à família chatíssima, às angústias para o jantar, a tudo, enfim. é que se a leitura costumava ter um efeito imediato na minha concentração, a partir de certa altura começou a ser necessária uma certa dose de esforço. talvez o facto de ter deixado de ser isabel allende e de ter passado a hettys e virginias constitua aqui uma limitação - mas até isto, hoje me faz pensar: por que raio me dou ao trabalho de ler livros difíceis e chatos? a resposta surge com brevidade, atiro: nos livros, como no amor, gosto de ser eu a conquistar.

Quinta-feira, 9 de Setembro de 2010

trama

agora é só um cremezito de baba de caracol e fica como nova.

portrait of a bookshop


no princípio era assim

Domingo, 5 de Setembro de 2010

bom domingo



encontrado aqui

Sábado, 4 de Setembro de 2010

trama rústica

falta arranjar o chão, pintar paredes, montar estantes e arrumar livros. a questão é: deixamos ou tiramos o toldo que diz dona rústica?

Quarta-feira, 1 de Setembro de 2010