um artigo na revista NADA intitulado «O amor que não chega ao pensamento». Diz assim a meio: "A história do amor começa quando fazemos alguma coisa com aquilo de que não sabemos nada. Na verdade o fazer contém em si essa relação com uma ignorância inicial da situação do objecto, um toldar da significação desta ignorância, que é reaberta na conclusão da acção. É por esta razão que as histórias de amor de Robert Walser são as narrativas cirúrgicas do amor, pequenos levantamentos do ciclo profundo do amor que nada tem a ver com a diegese, com a acção das personagens, mas tudo com a textualidade profunda, inicial e oculta do amor."
Sábado, 30 de Outubro de 2010
abrindo o poemário
VÁRIA LITERATURA
Dia de festa, existir simplesmente
ter confiança em tudo, oh mundo minha mãe,
lareira prometida nunca alumiada
e tantos gestos empilhados e tijolos
E sobre tudo o resto o vão bocejo e não valer a pena
Ser erva entre o milho e verde vítima do vento
ceifar-nos rente algum olhar de esquecimento
A morte ainda é uma forma eficaz de adormecer
e a virtude é o caminho para quem
não tem outro remédio nesta vida
Mulher como melhor morrer nascer cantar
Itália onde tombar como em qualquer lugar
chorar o mínimo cadáver que passar
e não desperdiçar os dedos pelas coisas
Fazer de um jardim quanta vida se quer
ser o maior dos responsáveis por
- eis algumas vantagens da propriedade horizontal
Ruy Belo, Todos os Poemas, Assírio&Alvim
Dia de festa, existir simplesmente
ter confiança em tudo, oh mundo minha mãe,
lareira prometida nunca alumiada
e tantos gestos empilhados e tijolos
E sobre tudo o resto o vão bocejo e não valer a pena
Ser erva entre o milho e verde vítima do vento
ceifar-nos rente algum olhar de esquecimento
A morte ainda é uma forma eficaz de adormecer
e a virtude é o caminho para quem
não tem outro remédio nesta vida
Mulher como melhor morrer nascer cantar
Itália onde tombar como em qualquer lugar
chorar o mínimo cadáver que passar
e não desperdiçar os dedos pelas coisas
Fazer de um jardim quanta vida se quer
ser o maior dos responsáveis por
- eis algumas vantagens da propriedade horizontal
Ruy Belo, Todos os Poemas, Assírio&Alvim
articulação do horário da trama com o ritmo de vida da vizinhança
para conseguir abrir e fechar a grade tenho que ficar ali a esforçar-me muito à espera que passe um jovem que pergunte: precisa de ajuda? hoje correu bem, foram só mais ou menos 15 segundos à chuva.
a fazer-se ao piso
primeiro dia - primeiro dia, a sério. fico aqui muito sossegada a tentar familiarizar-me com a casa nova. sim, é a trama, pareço repetir (franny, penso sempre na franny quando repito uma oração).
Sexta-feira, 29 de Outubro de 2010
(e agora uma interrupação para publicidade)
Depois de conhecer a nova Trama na sexta-feira, entre as seis e as nove da noite, depois de jantar, depois dos copos em qualquer parte, depois de dormir e acordar, eis o programa para o próximo sábado (dia 30):
concerto do TIAGO SOUSA na Ler Devagar às 21h30.
O concerto é de entrada livre e conta com a participação de Catarina Barros "que irá conduzir-nos através da obra de Henry David Thoreau". E adivinhem quem é que está nos clarinetes?!
concerto do TIAGO SOUSA na Ler Devagar às 21h30.
O concerto é de entrada livre e conta com a participação de Catarina Barros "que irá conduzir-nos através da obra de Henry David Thoreau". E adivinhem quem é que está nos clarinetes?!
sumário
hoje, enquanto a rita arrumava a literatura, o bruno ficava à toa com a poesia, o ricardo introduzia uma factura em stock, a sara colava as letras na montra e o jaime instalava candeeiros, pensei que a trama tem sido sempre assim, desde que abriu - as pessoas chegam e instalam-se, de tal forma que às vezes parece que nunca estiveram noutro lado. (mais tarde chegou a sofia, mais tarde ainda, a bete.) ontem as anas chegaram e perguntaram: o que é que eu posso fazer? o joel carregou com caixas, o joão viu o computador, a isabel tratou de papelada chata, o miguel garantiu o armazém e o sr. lemos, o herói disto tudo, além de ser responsável pelo código genético do ricardo, voltou a garantir que tínhamos estantes, montra, chão, enfim, quse tudo. anteontem o chico nunes largou os gregos e ajudou a transportar toneladas de livros quase sem pestanejar.
por mais cansada que ande, por mais indignada que fique com o que insiste em ser-me escasso ou por mais que me veja sempre no começo ou no fim de tudo, porra, isto é a melhor cena do mundo.
por mais cansada que ande, por mais indignada que fique com o que insiste em ser-me escasso ou por mais que me veja sempre no começo ou no fim de tudo, porra, isto é a melhor cena do mundo.
livreira sonâmbula
é estranho: construída uma vida inteira sobre vinte e tantas estações e continuo a precisar da segurança de um vestido novo. é como se todas as acções, todas as conquistas (mesmo aquelas que o são por terem sido estrondosos falhanços), me constituíssem menos que esse vestido comprado de propósito para o dia em que sei que nada me vai valer. pondero então ir deitar-me mas há algum tempo que tudo me faz saltar da cama - note-se que a ideia de dormir baseia-se na necessidade de não ter olheiras. a redenção volta a estar na possibilidade de alguma beleza - assegurada por qualquer coisa nova, exterior. temo que o encanto esteja sempre à superfície, que o que seduz seja periférico.
Quinta-feira, 28 de Outubro de 2010
em sossego no presente
acordei demasiado cedo, li uma mensagem que alguém mandou pela madrugada, lembrei-me que sonhava com a madalena, dizendo, outra vez, que a pessoa que cortou o meu cabelo devia ser processada. não me apeteceu continuar a dormir, fiz um galão, fumei um cigarro na varanda, sempre com a cabeça nessa primeira mensagem e já com as respostas possíveis a dar os primeiros sinais: parece-me que não há um momento ideal para que as coisas certas aconteçam. acontece o mesmo com as coisas erradas. quero dizer, as coisas acontecem - e nós decidimos o que chamar-lhes, mas só depois.
como montar uma livraria em 3 dias
na primeira caixa o primeiro livro amanhecia. à noite já tinham sido arrumados quantos? sim, já parece uma livraria. e eu volto ao cansaço, àquele cansaço dos primeiros encontros, de uma dormência feliz.
Quarta-feira, 27 de Outubro de 2010
Segunda-feira, 25 de Outubro de 2010
construindo a trama
dia passado entre arrumações e limpezas. dia passado entre arrumações e limpezas. dia passado entre arrumações e limpezas.
amanhã? entre arrumações e limpezas.
amanhã? entre arrumações e limpezas.
Domingo, 24 de Outubro de 2010
bem, o que quero dizer (estou cheia de sono)
é que é muito bom voltar a falar de mim
e de mim
e de
mim.
e de mim
e de
mim.
tenho pensado na minha relação com este blogue
da mesma forma que penso na minha relação com a rita, na minha relação com a escrita, na minha relação com o puto, na minha relação com os telecomandos, na minha relação com as pessoas insuportáveis que decidem inundar os lugares onde é suposto eu estar a passar um bom bocado, na minha relação com os meus pais, com a minha avó, com a tia do Olival, com os meus gatos, com os ex-vizinhos de baixo, com a noção de liberdade, com as ideias políticas, com a crítica literária (...).
o que acontece é que pensar na relação que se tem com as pessoas ou com as coisas é minar a própria relação. isto faz de mim uma mineira?
o que acontece é que pensar na relação que se tem com as pessoas ou com as coisas é minar a própria relação. isto faz de mim uma mineira?
Sábado, 23 de Outubro de 2010
é de origem entronca e de pais separos #1
quando estamos deitados ele sugere que olhemos para o tecto, para vermos os carros. um pouco à toa, decido dizer que estou a ver um carro azul e ele diz-me que feche os olhos, que me avisa quando aparecer um carro. passa-se um minuto e nada. outro minuto. nada. depois diz: bem, parece que hoje não vêm carros. eu fico muito atrapalhada a pensar que raio se está a passar na cabeça dele para me mandar esperar por carros que afinal não vêm. quando já estou convencida que tenho ali uma criatura melancólica que esconde um segredo que eu nunca serei capaz de apanhar, ele aponta para o tecto e exclama: um carro, vê!
e no tecto avançam velozes pintinhas de luz (os buracos da persiana).
é capaz de ter sido um dos momentos mais bonitos da minha vida e nem sequer sei explicar porquê.
e no tecto avançam velozes pintinhas de luz (os buracos da persiana).
é capaz de ter sido um dos momentos mais bonitos da minha vida e nem sequer sei explicar porquê.
Sexta-feira, 22 de Outubro de 2010
o horário da Trama (para os curiosos)
A Trama funcionará das 10h às 21h de Segunda a Sexta e das 10h às 18h ao Sábado. Encerrará aos Domingos e Feriados.
(já a livreira funciona entre as 8h e as 4h, regra geral nonstop, agradecendo felizes colapsos.)
(já a livreira funciona entre as 8h e as 4h, regra geral nonstop, agradecendo felizes colapsos.)
Quinta-feira, 21 de Outubro de 2010
frémito
ou vontade indómita. o caminho singular da escrita, o olhar seguindo arrastado à velocidade de um copo. penso que a solidão é o sustento do meu amor. amor e olhos a par e passo. palavras a usar: autedoor. isto tudo num bar, sozinha, alinhada com as mais altas feras celestes.
«coisas que chegam por mail», é assim que ele diz, não é?
O rapaz desceu de propósito das amoreiras ao rato pela s.filipe nery para ver quem estava na Trama.
Era só para sorrir e dizer olá a amiga da Trama (o rapaz não verbalizou nada de jeito).
Beijos karate girl
Era só para sorrir e dizer olá a amiga da Trama (o rapaz não verbalizou nada de jeito).
Beijos karate girl
limpar vidros
é um exercício zen - o que nada tem a ver com certa cena do karate kid em que se pensa, a certa altura.
hoje, quem passar à porta da Trama, que é na mesma rua, já vê alguma coisa lá para dentro. vê, claro, o caos.
hoje, quem passar à porta da Trama, que é na mesma rua, já vê alguma coisa lá para dentro. vê, claro, o caos.
a Trama
vai ter uma loja mais pequenina
vai ter menos secções
vai tentar ser melhor nas secções que decidiu ter
vai ter livros novos e usados
vai ter livros importados
e livros que importam
também vai ter filmes
vai ter estantes altas
e por isso vai ter um escadote
vai ter uma sala que vai servir de escritório para mim e onde vou poder finalmente ser a secretária que nasci para ser
vai ter candeeiros pequeninos
vai ter um quadrado de chão um bocadinho mais alto que o resto
vai ter um balcão novo
vai ter um horário diferente
...
vai ter menos secções
vai tentar ser melhor nas secções que decidiu ter
vai ter livros novos e usados
vai ter livros importados
e livros que importam
também vai ter filmes
vai ter estantes altas
e por isso vai ter um escadote
vai ter uma sala que vai servir de escritório para mim e onde vou poder finalmente ser a secretária que nasci para ser
vai ter candeeiros pequeninos
vai ter um quadrado de chão um bocadinho mais alto que o resto
vai ter um balcão novo
vai ter um horário diferente
...
e quando penso nisto tudo que a Trama vai ter posso ir dormir sossegada, sossegada.
versos
primeiro: «a ordem é um fenómeno da escassez» diz Brecht, citado por Agustina
e por cima, no caderno: Break my body, hold my bones
nem sempre entendo os meus apontamentos.
e por cima, no caderno: Break my body, hold my bones
nem sempre entendo os meus apontamentos.
Quarta-feira, 20 de Outubro de 2010
Terça-feira, 19 de Outubro de 2010
sim, Anita,
mas vou encontrando coisas que quero guardar para este Inverno - é no Inverno que olho mais para trás, não sei porquê, e é como se procurasse pegadas na neve, quero dizer, é como se o desassossego me mostrasse o invisível. tudo brilha.
Segunda-feira, 18 de Outubro de 2010
Sábado, 16 de Outubro de 2010
sem título, 2010, letras sobre ecrã
«Por isso, numa relação de amor que, embora tenha começado, não pode realizar-se, a delicadeza é a coisa mais ofensiva que há, e aquele que tem visão erótica e não é cobarde facilmente vê que ser indelicado é o único meio que lhe resta para respeitar a honra da rapariga.»
(diz o Senhor Kierkegaard, fazendo com que eu pense nisto)
Sexta-feira, 15 de Outubro de 2010
só mais um apontamento
Ando doida com o Kierkegaard, a sério que ando. A leitura d'A Repetição faz com que, depois de uma directa, quando me proponho a dormir uma sesta de recuperação, resolva abrir o volume amarelo mostarda só para ler umas páginas e fique, imediatamente, com insónias. Ler este livro é uma prática masoquista que me dá um gozo tão grande que, daqui em diante, sempre que falar dele vou chamar-lhe carinhosamente de minha dominatrix.
breves notas sobre as ligações ou como é que se diz amo-te em dinamarquês?
«A jovem rapariga não era a sua amada, constituía, sim, o motivo ocasional que nele despertava o poético e que fazia dele poeta.»
Kierkegaard, A Repetição, escrito em 1843
+
«Dizes-me que amei verdadeiramente aquela mulher. Não amei; não é verdade. Só que quando lhe escrevia, com aquela capacidade que eu tenho de produzir sentimentos dentro de mim através da caneta, levei o assunto a sério: mas só quando estava a escrever. Muitas coisas que me deixam frio quando as vejo ou oiço falar delas são, no entanto, capazes de me entusiasmar, irritar ou entristecer se eu próprio falo dela ou - especialmente - se escrevo sobre elas.»
carta de Flaubert a Louise Colet, 1846
=
plim!
Kierkegaard, A Repetição, escrito em 1843
+
«Dizes-me que amei verdadeiramente aquela mulher. Não amei; não é verdade. Só que quando lhe escrevia, com aquela capacidade que eu tenho de produzir sentimentos dentro de mim através da caneta, levei o assunto a sério: mas só quando estava a escrever. Muitas coisas que me deixam frio quando as vejo ou oiço falar delas são, no entanto, capazes de me entusiasmar, irritar ou entristecer se eu próprio falo dela ou - especialmente - se escrevo sobre elas.»
carta de Flaubert a Louise Colet, 1846
=
plim!
a primeira infracção
a nossa duração é diferente da de Handke: depende dos livros que ainda não lemos. disse-lhe: não me vou embora enquanto não tiver lido toda a tua biblioteca. à noite, sem que ele veja, desfaço o manto e volto trinta páginas atrás. ele não percebe como é que ando há tanto tempo a ler o mesmo livro.
Quarta-feira, 13 de Outubro de 2010
e eu que me pensava tão cheia de mundo
a dez minutos de baixar a cabeça na banheira e dar com água ruiva, a dez minutos dos joelhos no chão e do sangue na cabeça (uma ligeira quebra de tensão), a dez minutos de mudar de vida, ocorrem-me estas frases que não vão dar a parte alguma - talvez às nossas piadas antigas como: queria ter uma livraria à minha espera num sítio qualquer. Perceberam?
o mal já toda a gente sabe: uma pessoa cola-se de tal forma àquilo que faz que, se deixa de o fazer, não tem mais nada a que se agarrar que não aos próprios ossos. mas vejam nisto um conforto, não um queixume. há sempre qualquer coisa a que uma pessoa se pode agarrar. de resto, foi isto que tentei explicar ao Karamazov quando o encontrei na esquina da Silva Carvalho, nessa hora desesperada (o fim de tarde). e ele percebeu.
como foram felizes todas as esquinas neste treze de outubro.
o mal já toda a gente sabe: uma pessoa cola-se de tal forma àquilo que faz que, se deixa de o fazer, não tem mais nada a que se agarrar que não aos próprios ossos. mas vejam nisto um conforto, não um queixume. há sempre qualquer coisa a que uma pessoa se pode agarrar. de resto, foi isto que tentei explicar ao Karamazov quando o encontrei na esquina da Silva Carvalho, nessa hora desesperada (o fim de tarde). e ele percebeu.
como foram felizes todas as esquinas neste treze de outubro.
bed time story
...
Que a noite não tarda nada,
Já se está o sol a pôr!
Doba, doba, dobadeira,
As tramas do teu amor!
As tramas do teu amor,
Ah, quem mas dera soltar!
Doba, doba, dobadeira,
Doba, doba, sem parar!...
Que a noite não tarda nada,
Já se está o sol a pôr!
Doba, doba, dobadeira,
As tramas do teu amor!
As tramas do teu amor,
Ah, quem mas dera soltar!
Doba, doba, dobadeira,
Doba, doba, sem parar!...
bom dia
«"O Nariz de Gógol", solicitei. A rapariga era uma virago: "Isso é um livro?" O extravagante diálogo decorreu numa tarde de Abril numa livraria que já teve as suas horas, nesta cidade mesmo de Lisboa."Não vinha aqui procurar sapatos."A empregada, furibunda, avançou para o computador, gritando para uma colega: "Já ouviste falar de um livro chamado O Nariz?" A outra aconselhou a busca no computador. Lá fomos, e ainda ouvimos a voz desta segunda, perguntando: "Isso é recente?" "Sim, saiu uma edição há uns dois anos."
Velho livrariófilo (não é bibliófilo, é viciado em livrarias e estantes), desconfio destas livrarias onde os vendedores se precipitam para as máquinas à procura de stocks, não sabem o que está nas estantes, nem a cor do livro, nem me aconselham outra edição, ou mesmo outra obra ou outra ainda. Embora já o tenha, teria comprado as Almas Mortas tivesse a rapariga dito um "este saiu há menos tempo e é uma tradução do russo". E teria comprado Kafka, se me tivesse dito "são parecidos"; e então se tivesse apontado o que de Gógol há em Rodrigues Miguéis, cá trazia eu para casa mais uma Gente da Terceira Classe.
Depois da lenta consulta — e eu a querer fumar —, lá disse a assertiva jovem (também há jovens imbecis): "Isso não existe." A outra, mais simpática, trouxe-me até à porta e sussurrou: "Vá àquela ali, é melhor, nós não percebemos nada disto. "Lamentei, cá para mim, as misérias da vida que obrigam uma moça alegremente ignorante a trabalhar numa livraria e não numa lojinha de bugigangas, segui o conselho.
Pois não é que a empregada desta outra livraria, a "melhor", empregada mais antiga que fazia crochet, interrompe o passatempo e me olha, aterradora: "Isso é um livro?" pergunta. "É. E saiu há uns dois anos." "Ó Não-sei-Quantas chega aqui, conheces uma editora que se chama O Nariz?" grita para o fundo. "Não é uma editora, é uma novela, a edição é da Assírio & Alvim." "Dessa, temos umas coisas" disse, pousando o crochet e deixando-me com ténue esperança. "Não sei bem o quê, mas temos." E lá atacou o amaldiçoado computador. "Olhe, temos o Fernando Pessoa, esse temos, não quer?"
"Não, queria o Gógol" repeti, e já passara meia hora desde que me dera aquele desejo maldito de comprar uma das mais belas novelas desde sempre e jamais. "Isso é um livro?" repetiu a livreira, e foi a terceira vez que, numa livraria, me fizeram esta pergunta. Lá disse que supunha que, nas livrarias, se vendem livros (embora, para dizer a verdade, durante esta já quase hora, não tenha eu visto nem um cliente nem uma venda).
Talvez pudesse ter ido a uma "grande superfície", aí não me perguntam "Isso é um livro?", vêm o código de barras e fazem plim, mas não fui, meti-me num supermercado a comprar iogurtes, voltei para casa, tristonho, sem o meu cobiçado Nariz (salvo seja). (…) »
Velho livrariófilo (não é bibliófilo, é viciado em livrarias e estantes), desconfio destas livrarias onde os vendedores se precipitam para as máquinas à procura de stocks, não sabem o que está nas estantes, nem a cor do livro, nem me aconselham outra edição, ou mesmo outra obra ou outra ainda. Embora já o tenha, teria comprado as Almas Mortas tivesse a rapariga dito um "este saiu há menos tempo e é uma tradução do russo". E teria comprado Kafka, se me tivesse dito "são parecidos"; e então se tivesse apontado o que de Gógol há em Rodrigues Miguéis, cá trazia eu para casa mais uma Gente da Terceira Classe.
Depois da lenta consulta — e eu a querer fumar —, lá disse a assertiva jovem (também há jovens imbecis): "Isso não existe." A outra, mais simpática, trouxe-me até à porta e sussurrou: "Vá àquela ali, é melhor, nós não percebemos nada disto. "Lamentei, cá para mim, as misérias da vida que obrigam uma moça alegremente ignorante a trabalhar numa livraria e não numa lojinha de bugigangas, segui o conselho.
Pois não é que a empregada desta outra livraria, a "melhor", empregada mais antiga que fazia crochet, interrompe o passatempo e me olha, aterradora: "Isso é um livro?" pergunta. "É. E saiu há uns dois anos." "Ó Não-sei-Quantas chega aqui, conheces uma editora que se chama O Nariz?" grita para o fundo. "Não é uma editora, é uma novela, a edição é da Assírio & Alvim." "Dessa, temos umas coisas" disse, pousando o crochet e deixando-me com ténue esperança. "Não sei bem o quê, mas temos." E lá atacou o amaldiçoado computador. "Olhe, temos o Fernando Pessoa, esse temos, não quer?"
"Não, queria o Gógol" repeti, e já passara meia hora desde que me dera aquele desejo maldito de comprar uma das mais belas novelas desde sempre e jamais. "Isso é um livro?" repetiu a livreira, e foi a terceira vez que, numa livraria, me fizeram esta pergunta. Lá disse que supunha que, nas livrarias, se vendem livros (embora, para dizer a verdade, durante esta já quase hora, não tenha eu visto nem um cliente nem uma venda).
Talvez pudesse ter ido a uma "grande superfície", aí não me perguntam "Isso é um livro?", vêm o código de barras e fazem plim, mas não fui, meti-me num supermercado a comprar iogurtes, voltei para casa, tristonho, sem o meu cobiçado Nariz (salvo seja). (…) »
Público, Mil Folhas, 5 de Outubro de 2002
Jorge Silva Melo, in "Século Passado", Cotovia, 2007
Domingo, 10 de Outubro de 2010
Saudades da Assírio

José Gomes Pedro e Isabel Silva Santos, Flores da Arrábida - Guia de Campo, Assírio&Alvim, 2010
será que o Pedro já encomendou este?
será que o Pedro já encomendou este?
Terça-feira, 5 de Outubro de 2010
Domingo, 3 de Outubro de 2010
só para não dormir
apanho-o no quarto a folhear um livro às escuras. repreendo-o e ele defende-se: que nem está a ler, que vai adormecer a mexer no livro. tiro-lho, em primeiro lugar porque acho indecente que o meu filho me chantageie desta maneira, e logo de seguida porque - não sei porquê.
outubro
fazer contas à vida, ao tempo, às noites mal dormidas, aos dias de entusiasmo, aos outros, de querer fugir, fazer contas aos amigos, ao que se gasta em psicanálise, contas aos textos, às cartas, aos poemas, às mensagens escritas, aos mails, aos blogues, aos posts, aos copos, aos degraus da Bica, aos seguranças que batem em rapazes no Cais do Sodré, aos dias que vi sair da terra e colocarem-se bem altos, no pico das doze,
tanta coisa onde gastar-se alguém
tanta coisa onde gastar-se alguém
aerofone
Comecei a ler Transa Atlântica pelas cinco da manhã, acabei eram sete. Leitora satisfeita com o tesão de um livro livre. A cada virar de bunda uma surpresa. Recuso-me a ler o novo tão cedo.
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