«Ele que deixasse os livros, diziam, para os paralíticos e os moribundos.»

Sexta-feira, 31 de Dezembro de 2010

galáxia 2010 #5 (ou the big friend)



porque de hoje para amanhã só muda a data

Uma parte de mim que gostava de acreditar em Deus. A sério. Mesmo sabendo-me incapaz. Gostava de sentir o calor que esses à minha volta sentem. Essa confiança mesmo na dúvida (sim, acho que não há crença sem dúvida...).

Saber que estou nas orações de mãe e filha da minha vida apazigua-me. Não sei bem como nem porquê, mas saber que aquelas duas pessoas rezam por mim em todos os momentos importantes e nos momentos simples do dia-a-dia é algo que não tem propriamente explicação. Sinto-o como uma cama, uma casa. Quando rezam antes das refeições é sempre um momento constrangedor (onde colocar as mãos, como reagir, como olhar…). No entanto, é uma oração tão bonita: pedir a alguém que abençoe, ou nos meus termos, que cuide, de nós, das nossas amizades, dos nossos momentos, como ela dizia ontem: que possamos continuar a ter estes miminhos (e era um jantar…). E a questão é: não pedem nada de especial, pedem simplesmente para que possamos cuidar uns dos outros para que tudo o resto, bom-mau-mais ou menos-indiferente, possa ser vivido, só isso. Não tem que ver com uma wishing list, com uma revolução, com que tudo passe a ser maravilhoso, não, tem que ver só com as pessoas e, eu, passo as palavras também para os meus livros, as minhas músicas, o meu estudo, os meus passeios.

Não acredito em Deus ou deus ou deuses e, talvez, já nem acredite muito nas pessoas, mas tenho uma cama, uma casa.

frappé d'origine

pelas livrarias livres

às que pensam, às que respiram, às que escolhem. às livrarias que defendem, que apontam, que libertam. às livrarias que vendem livros em vez de produtos, que têm leitores em vez de clientes. às livrarias que se afirmam diariamente - porque existem, porque resistem, porque não se vergam. às livrarias menos arrumadas, às livrarias que não têm «caixeiros» mas sim livreiros, às livrarias que se estão nas tintas para mercados, consumidores, tendências, às livrarias que são casas, que são escolas, grutas, ninhos, livrarias de corujas, morcegos, vespas, às livrarias livres, eu desejo o melhor, melhor, dos anos.

A verdade é a morte da intenção


aos Leitores




"A expressão frgmentária permite, em suma, não renunciar a uma relação com a experiência, e nisto a situação do anotador aproxima-se da do leitor: mais do que escrever, ele o mundo."




- Antonio Castronuovo -

chamada a pagar no destinatário

«Esconder significa: deixar rasto. Mas invisível. É a arte da mão leve. Rastelli era capaz de esconder coisas no ar.
Quanto mais arejado for um esconderijo, tanto mais engenhoso será. Quanto mais exposto aos olhares de todos os lados, tanto melhor.»

Walter Benjamin, Imagens de Pensamento, tradução de João Barrento, Assírio&Alvim, 2004


com cinco letrinhas apenas (para quem ainda não percebeu)




"Quer dizer: este extenso livro é mais do que um somatório de capítulos. É uma trama permanente e envolvente, é o desenvolvimento tentacular e multifacetado de uma ideia, de um "pensamento decisivo, de algo de quase físico que dolorosa ou euforicamente se vai inscrevendo num texto. Se,para além do "objectivismo" das realidades conceptuais com que aqui se joga, me pedissem para fornecer uma chave de leitura ajustada a este universo, eu arriscaria dizer que o seu autor não rejeitaria uma frase como: "Sem mim, falta-me qualquer coisa."



-"O género intranquilo, anatomia do ensaio e do fragmento" - João Barrento

Quinta-feira, 30 de Dezembro de 2010

outra das hipóteses para 2011

é passar a ser uma gaja fria. chegar aqui e ser chata, citando, copiando, referindo, raras vezes sendo. às vezes parece que compensa. tenho-me sido, aqui e em qualquer parte, em verdade - na verdade, que mente, sempre, porque a verdade de se ser nunca é inteira. mas talvez em 2011 haja lugar para o abandono, talvez vos possa virar as costas, é isso: estar aqui, de costas voltadas. é cansativo, torna-se cansativo, os braços abertos para o que não existe, em dias de livros, em dias de copos, não ter defesas, não saber de vacinas, taewkwondos, nada, que nudez, que transparência, existir-se, mentindo, sinceramente. em 2011 posso ser mais fria. digo: posso corresponder, posso entrar na cena. construir a mística à volta do que cito, do que leio. é tão mais fácil. mais fácil do que trabalhar numa cozinha, mais fácil do que vender camisolas na globe, armar-me em esperta enganando-vos a todos, sendo outra, a que esperam. há quem ache que isto não sou eu. isto o quê? estantes, livros por arrumar, uma profissão, uma certa honra, um meio. e não sou, é bem verdade. mas que interessa, o que sou, o que penso, o que vivo? em 2011 poderei finalmente largar esta coisa cruel de ser alguém que se deixa atravessar. é que aqui é tudo muito pequeno, à volta, tudo muito pequeno, asfixiante, atrevo-me a dizer, confrangedor. em 2011 posso estar-me nas tintas, posso não querer saber de ti, posso enfiar-me no meu buraco, nas minhas leituras, posso ser muito esperta, posso esconder-me, oh, sim, em 2011, posso gozar contigo dando-te um bocadinho da minha luz, só um bocadinho, para que te sintas mais esperto que os outros, para que te rias, deles, de mim, que importa, posso levar a minha vida, dormir, ter pesadelos, esquecer-me de tudo, e tu, o que é que tu vais fazer em 2011, 12, daqui para a frente?

galáxia 2010 #4 (ou a janela prometida)



do Leitor Hábil

"A escrita do fragmento é uma daquelas que realmente pensa no leitor e o valoriza. Pensa no leitor e dá prazer ao autor, como parece querer dizer Benjamin num fragmento de Rua de Sentido Único em que sugere que para os "grandes autores" são os fragmentos nascidos ao fio dos dias, na oficina, o que mais importa, e não a obra acabada".


- "Género Intranquilo" - João Barrento

Última leitura deste ano



- "Género Intranquilo, anatomia do ensaio e do fragmento" - João Barrento

Plano de leitura para o novo ano



- "Danúbio" - Claudio Magris - Dom Quixote / Quetzal

Viagem à Índia



"22

Gostava de um dia regressar a Lisboa, claro,
mas já com a alegria reencontrada
e com uma mulher.
Mas que digo? Avanço de mais.
Antes de contar devo explicar,
mas não serão as duas coisas uma única coisa?
Avanço,pois, e explico ( ou conto).

23

Vou falar de quem amei
(amar um país seria acto ligeiramente perverso.
Como dirigir braços
a algo que não tem comprimento, largura ou altura como
qualquer outra coisa mortal que se preze?)
Vou falar de quem amei, pois, e não de mapas.

25

Diz-se que o essencial de uma língua
está nos sons não verbais que as mulheres emitem.
E a educação minuciosa do ouvido
fio algo que John John Bloom
nunca descurou.
Recebi dele este bom ouvido para a música
e para o amor.

26

No erotismo o que importa é no corpo da amada
não existir saída.
Uma boa luta - amorosa -
é pois aquela onde os dois corpos estão,
um no outro,
como se no meio do famoso labirinto
de onde ninguém consegue sair."



-"Uma viagem à Índia" - Gonçalo M Tavares


(Antes que o André o venha buscar)

Para o M

"...e a santidade não é mais que saber esperar"

o que ficou de 2010



voltar a juntar som e movimento

o que ficou de 2010



o concerto no Maria Matos com esta malta. um luxo!

o que fica de 2010




quando as coisas correm bem sou incansável.
quando as coisas correm menos bem, sou insuportável.


(sorry partner)

também já me disseram

que a Averno é uma editora linda de morrer mas depois pediram-me para não escrever isto, não fosse alguém não achar piada. (para que conste, a Averno é mesmo uma editora linda de morrer)

ouvi outro dia

que o problema dos pedófilos é que, em vez de imaginário, tem um imaginarium sexual.

é bom ter má fama

(sobra-me tempo pra cantar)

contra toda a lógica do jogo

«De que é que estás a rir?»
«Descobri o que tu és para mim.»
Ela fica à espera e ele deixa-a esperar. Sai da cama e vai buscar um maço de cigarros. Dá um à Zana e acende-lho, sem tirar nenhum para ele.
Ela estende-se em cima da cama e ele, que estava nu, mete-se outra vez entre os lençóis.
«Às vezes», diz ele, «quando jogo poker tenho a intuição de guardar uma só carta e pedir quatro. Mesmo que as cinco recebidas sejam uma hipótese de sequência ou full-hand, ou isso.»
«E então?»
Ele ri-se novamente.
«Tu és essa única carta que eu guardo. Contra toda a lógica do jogo.»
Ela vira-se na cama para o olhar de frente. O decote do roupão mostra-lhe o seio direito, porque Zana está inteiramente nua debaixo do roupão. Nos olhos dela acontece o mesmo milagre que da outra vez: vê-los é como se alguém, espreitando do alto da torre de saltos de uma piscina, descobre de repente e estupefacto que esta não tem água no seu fundo. Quem se atirar de cabeça descerá como um raio até ao centro da Terra.

Nuno Bragança em A Noite e o Riso, Dom Quixote, 1995


nova trama, novo ano

as fotografias são um consolo: uma pessoa olha para elas e pensa: afinal este ano não foi uma merda. há gente a rir, festas, picnics, tardes passadas na praia, há o largo de santo antoninho, há bolos em forma de coração, viagens, alentejo, algarve, sertã, há de tudo um pouco, a vida cartografada a luz neste mapa de momentos que garantem: não terá sido em vão. mas 2010 foi afinal bem ranhoso e não deixo de me espantar, ainda assim, por ter sido tão feliz, tantas vezes, mesmo sem uma grande razão. cheguei aqui sabendo que aqui não é lugar nenhum - e por isso, tão bom. estou mais velha e tenho menos medo. venha daí esse novo ano.

resoluções para 2011: ana, ana, ana, ana, ana, ana.















Quarta-feira, 29 de Dezembro de 2010

galáxia 2010 #3 (ou o espectro do silêncio)



o poder curativo de um murro no focinho

são bonitas, as resoluções para 2011. ai são, são.

vamos pedir piedade



Agora eu vou cantar pros miseráveis
Que vagam pelo mundo derrotados


"No entanto a infância era também:
A mãe:
as suas longas pernas, o corpo macio, os vestidos ondulantes e os louros cabelos pelos ombros. Os seus olhos de louça.
De longe, via, espiava-lhe os movimentos, os gestos sempre como que suspensos, ávidos.
A sua distância.
No entanto, a infância era também:
O pai:
a secretária com o seu mundo imenso de palavras, de ciência, de solidão, de ordem, ao qual me prendia fascinada.- Os livros alinhados nas enormes estantes que cobriam as paredes altas e brancas, despojadas; os "maples" cor de mel, o microscópio na sua pequena caixa de madeira envernizada, que me fazia lembrar a caixa onde todas as semanas vinha a imagem da Sagrada Família para passar um dia em nossa casa, no quarto escuro e vazio do fundo da casa.
O quarto então iluminado pela pequena lâmpada de azeite no qual o pavio boiava lento, a resvalar de encontro aos bordos oleosos do vidro baço da lamparina.
De joelhos, nunca rezava, sentia apenas o bater do coração no peito e tomava o medo no redondo gesto de curvar a cabeça e fechar os olhos."


-"Novas Cartas Portuguesas" - Maria Isabel Barreno/ Maria Teresa Horta/ Maria Velho da Costa

Closer



"Légitime mais pauvre besoin de mots.
Pour résister à la mort?
Pour y consentir?


- "Dela mort prochaine" - François Deblue


"Um ensaio é aquela configuração única e imutável que a vida interior de um homem assume num pensamento decisivo. Não foram poucos esses ensaístas, mestres da vida interior pairante, mas não importa agora nomeá-los. O seu reino situa-se entre a religião e o saber, entre o exemplo e a doutrina, entre o amor intellectualis e o poema; são santos com e sem religião, e por vezes são também, simplesmente, homens que se perderam no labirinto de uma aventura."


- Sr Musil -

Fragmentos do Absoluto #1

Ouvir em caso de emergência

já não há vagas à segunda-feira, abrimos novo curso à terça

Curso de Literatura Portuguesa do Século XX
com Rosa Azevedo
18 Jan a 8 Mar 2011 (todas as 3as feiras à noite)
das 21h às 22h
inscrição: 65€


PROGRAMA

18 Janeiro - realismo, naturalismo, simbolismo, revoluções culturais do início do século, abertura para o modernismo

25 Janeiro - modernismo, contexto cultural da época: os intelectuais e a literatura

1 Fevereiro - surrealismo: surrealismo a tempo (Cesariny)

8 Fevereiro - surrealismo tardio (Mário Henrique Leiria), surrealismo disfarçado (Alexandre O'Neill), outros surrealismos (Luiz Pacheco)

15 Fevereiro - neo-realismo: movimento revolucionário com máscara (Mário Dionísio, Soeiro Pereira Gomes, Carlos de Oliveira).

22 Fevereiro - anos 50 a 70: literatura sem marca. Vergílio Ferreira e o Existencialismo.

1 Março - nova literatura: novos autores, consagrados e outros, revistas literárias, consagradas e outras

8 Março - Balanço



FORMADORA

Rosa Azevedo nasceu em 1982 em Lisboa. Terminou em 2004 a licenciatura em Línguas e Literaturas Modernas, maior em variante de estudos de portugueses e franceses e minor em Literaturas do Mundo, e em 2008 o mestrado em Edição de Texto. Tem realizado desde 2007 diversos cursos de literatura dos quais se destaca o Curso de Literaturas do Mundo realizado de Novembro de 2008 a Junho 2009, em parceria com a Associação InterCultura Cidade e o workshop de Literatura Portuguesa do séc. XX na Livraria Trama, em 2010. | www.estoriascomlivros.blogspot.com


INSCRIÇÕES E PAGAMENTOS

Fazemos reservas mediante o pagamento da inscrição – em numerário, na livraria, ou por transferência bancária. As inscrições deverão ser feitas através do mail livraria.trama@gmail.com, indicando o nome e o telefone.

tudo por causa da pianola mecânica, fernando


«(...) é disso que a minha obra trata, do colapso de tudo, do sentido, da linguagem, dos valores, da arte, para onde quer que olhemos só vemos caos e desordem, a entropia a tomar conta de tudo, tecnologia e entretenimento quando cada criança de quatro anos já tem o seu computador, cada um transformado em artista de si próprio donde é que isto veio tudo isto, o sistema binário e o computador donde veio tudo isto, compreendem? Não tenho tempo para aprofundar o assunto, percebem mas é isso que devo fazer para que a minha obra não seja mal interpretada e distorcida e, e transformada numa caricatura porque é uma caricatura, toda aquela multidão narcotizada aí fora à espera que a entretenham, convertendo o artista criativo num actor, numa celebridade como Byron, o homem no lugar da sua obra desde que a teoria das probabilidades entrou em jogo (...)»

William Gaddis, Ágape, Agonia, Ahab, 2010

Terça-feira, 28 de Dezembro de 2010

galáxia 2010 #2 (ou a antiepopeia mental)



Objectivo: Sermão da Sexagésima; 4 horas depois: ganhei o jogo da etiqueta





fragmentos


“…a imagem procura imitar o olhar que nos fere de morte [sem nada vermos senão a potência de ver].”

“…na imagem o humano procura ante-ver-se morto e é isso que o faz renascer…”


Tomás Maia, Assombra

para ler daqui a um ano



"O código genético comunica em silêncio"



-"Agenda Ligações Químicas 2011" - 100 Ferrugem


Num atelier



"Com um passo ligeiro
passa
de uma cor para outra
de um fruto para outro

um bom jardineiro
mostra uma flor com um estaca
um homem feliz
o sol azul

depois disso
endireita os óculos
e serve chá
resmunga
acaricia o gato

quando o Senhor criou o mundo
franziu o sobrolho
fez muitos cálculos
é por isso que o mundo é perfeito
e inabitável

pelo contrário
o mundo de um pintor
é bom
e cheio de erros
o olhar vagueia
de uma cor para outra
de um fruto para outro

o olhar resmunga
sorri
recorda

diz que é tolerável
apenas se conseguirmos
entrar lá dentro
onde o pintor está
sem asas
de chinelos que caem
sem Virgílio
com um gato no bolso
uma fantasia benevolente
e uma mão
que sem saber
corrige o mundo"


- "Escolhido pelas estrelas" - Zbigniew Herbert

Recordações da sala vermelha



"Pensei
conheço-a tão bem
vivemos juntos há tanto tempo

conheço
a sua cabeça de pássaro
os seus braços brancos
e o seu ventre

até que um dia
num fim de tarde de Inverno
sentou-se à minha frente
e à luz do candeeiro
por detrás de nós
vi uma orelha rosada

uma cómica pétala de pele
uma concha com sangue vivo
por dentro

não disse nada então -
teria sido bom escrever
um poema acerca de uma orelha rosada
mas as pessoas diriam
que assunto foi ele escolher
está a tentar ser excêntrico

pelo que ninguém sorriria
pelo que compreenderiam que eu proclamo
um mistério

não disse nada
mas nessa noite quando estávamos na cama
delicadamente provei
o gosto exótico
de uma orelha rosada"


-"Escolhido pelas estrelas" - Zbigniew Herbert

das Traduções

Estou a ler um método de Ney que é um fartote. Cá vai um exemplo da tradução turco/ inglês:

"On the other way there are some nays wich aren´t shown in lists because they cant be played due to their bignesses.
For example; the bolahenk nay is so can´t big that it can´t be played."?????!!!!


ok...

GLUP!

Segunda-feira, 27 de Dezembro de 2010

galáxia 2010 #1 (ou a verdade e as suas possibilidades)



...



…não há ser amado ou imagem artística que não nos apareça senão sobre o fundo daquela impossibilidade (da impossibilidade da reincorporação), não há relação por eles instaurada sem que seja anulado – por um instante que fosse – tudo o que é relativo; e no entanto a experiência do absoluto faz-se na suspensão de uma relação, a experiência da impossibilidade é o facto de, por instantes, tudo ser possível.


“Ensaio sobra a origem da imagem”, Tomás Maia
in Assombra, Tomás Maia, fotogramas de Marta Maranha e Diogo Saldanha,
Lisboa, Assírio & Alvim, 2009

ma ligne de chance #8


12 de Agosto de 1940

Uma infinidade de recantos e passagens zigue-zagueantes faz do pinhal uma das salas da natureza que melhor se prestam à descontracção e à meditação dos homens.
Nenhumas folhas se agitam. Mas são tantas as agulhas finas a opor-se ao vento e à luz que daí resulta uma acalmia e como que um malogro quase total, a dissipação das qualidades ofensivas desses elementos e uma emanação de perfumes poderosos. A luz, o próprio vento se encontram aí tamisados, filtrados, refreados, tornados benignos e mais precisamente inofensivos. Enquanto as bases dos troncos estão perfeitamente imóveis, os cinco balançam um pouco apenas...



Francis Ponge
O Caderno do Pinhal, Hiena, 1986

os dias

Na Poesia

Na poesia procuro uma casa onde o eco
existe sem o grito que todavia o gera


Gastão Cruz, Rua de Portugal, Assírio & Alvim, 2002

Sexta-feira, 24 de Dezembro de 2010

Corpus Christi Carol #3



«Dar prendas está a tornar-se cada vez mais difícil. Onde há ainda lugar vago? Oh, esta dor de já não sabermos o que desejar! Foi tudo satisfeito. O que nos falta, dizemos, é a necessidade, como se quiséssemos fazer dela um desejo. E continuamos a dar presentes inexoravelmente. Já ninguém sabe quem, nem o quê, nem quando lhe caiu benevolamente em cima. Saciado e carente era o meu estado quando pus a mim mesmo a pergunta sobre o que queria no Natal e desejara que fosse uma ratazana.»

Günter Grass, "A Ratazana", Publicações Dom Quixote, 1999

Natal, aqui vou eu



boas festas

Quinta-feira, 23 de Dezembro de 2010

ma ligne de chance #7


Crítica de Miguel Gomes a Funny Games de Michael Haneke


Quando surge o primeiro cadáver

depois de Haneke

ter esticado a tensão até ao limite

somos abandonados

no vazio.

Os agressores eclipsam-se

como se tivessem sido apenas

uma trágica projecção nascida do tédio

da «upper class».

Ficamos sobre uma televisão

coberta de sangue – onde carros

de granturismo perpetuam o absurdo

movimento circular –

ou sozinhos com as vítimas

num estarrecedor plano-sequência

imóvel

e com mais de cinco minutos.

Daniel Jonas in Poemas com Cinema, organização de Joana Matos Frias, Luís Miguel Queirós e Rosa Maria Martelo, Assírio & Alvim, 2010

ma ligne de chance #6

Número 13

Treize – j’eus un plaisir cruel de m’arrêter sur ce nombre.

Marcel Proust

Le remploiment vierge du livre, encore, prête à un sacrifice dont saigna la tranche rouge des anciens tomes; l’introduction d’une arme, ou coupe-papier, pour établir la prise de possession.

Stéphane Mallarmé

I. Os livros e as prostitutas podem levar-se para a cama.

II. Os livros e as prostitutas entretecem o tempo. Dominam a noite como o dia e o dia como a noite.

III. Olhando os livros e as prostitutas não nos apercebemos de como cada minuto lhes é precioso. Mas quando lidamos com eles mais de perto, começamos por notar como têm pressa. Contam o tempo connosco à medida que nos afundamos neles.

IV. Os livros e as prostitutas sempre tiveram um amor infeliz um pelo outro.

V. Livros e prostitutas: ambos têm aquela espécie de homens que vivem deles e os maltratam. No caso dos livros, os críticos.

VI. Livros e prostitutas em casas públicas – para estudantes.

VII. Livros e prostitutas – raramente aquele que os possui assiste ao seu fim. Costumam desaparecer da nossa vida antes de se apagarem.

VIII. Os livros e as prostitutas contam com o mesmo agrado e a mesma hipocrisia a história de como se tornaram no que são. Na verdade, frequentemente nem eles próprios dão por isso. Anda uma pessoa anos a fio correndo atrás de tudo «por amor», e um belo dia vemos no engate de rua, com um corpus bem nutrido de carnes, aquilo que, «por razões de estudo», sempre pairou acima dele.

IX. Os livros e as prostitutas gostam de mostrar a lombada, de nos voltar as costas quando se expõe.

X. Livros e prostitutas têm muitas crias.

XI. Livros e prostitutas – «velha beata – jovem puta». Quantos livros, aqueles pelos quais a juventude hoje aprende, não foram difamados!

XII. Os livros e as prostitutas têm as suas zangas diante de toda a gente.

XIII. Livros e prostitutas – as notas de rodapé estão para aqueles como as notas de banco na meia para estas.

Walter Benjamin, Imagens de Pensamento,

tradução de João Barrento, Assírio & Alvim, 2004

Quarta-feira, 22 de Dezembro de 2010

dicionário das causalidades #4



D

Destino

«Ó minha vontade, esquina de todas as necessidades, necessidade inteiramente minha,
preserva-me das vitórias mesquinhas!
Ó destino da minha alma, a quem chamo Destino, tu que estás em mim, acima de mim,
preserva-me, reserva-me para um grande destino!
E a tua grandeza suprema, - mostra-te inexorável na vitória. Ai!, quem é que não sucumbe à sua vitória?
Ai!, que olhos não se turvaram no crepúsculo dessa embriaguez? Ai, que pé não tropeçou e não desaprendeu a firmeza, na vitória?
Faz com que esteja um dia pronto e preparado para o grande Meio-Dia; pronto e preparado como o bronze em fusão, como a nuvem que carrega o raio, como o úbere inchado de leite,
preparado para mim próprio e para a minha vontade mais secreta - arco que aspira à flecha,
flecha que aspira à estrela, estrela pronta e madura no seu meio-dia,
ardente e trespassada por uma flecha, desmaiada sob as flechas destruidoras do sol,
ela mesma sol e vontade solar inexorável, pronta a tudo destruir na sua vitória.
Ó vontade, esquina de qualquer necessidade, ó necessidade toda minha,
reserva-me para uma grande e única vitória!

Assim falava Zaratustra.»

Friedrich Nietzche, "Assim Falava Zaratustra", Guimarães Editores, 1964

nova trama, novos cursos

Curso de Literatura Portuguesa do Século XX
com Rosa Azevedo
17 Jan a 7 Mar 2011 (todas as 2as feiras à noite)
das 21h às 22h
inscrição: 65€


PROGRAMA

17 Janeiro - realismo, naturalismo, simbolismo, revoluções culturais do início do século, abertura para o modernismo

24 Janeiro - modernismo, contexto cultural da época: os intelectuais e a literatura

31 Janeiro - surrealismo: surrealismo a tempo (Cesariny)

7 Fevereiro - surrealismo tardio (Mário Henrique Leiria), surrealismo disfarçado (Alexandre O'Neill), outros surrealismos (Luiz Pacheco)

14 Fevereiro - neo-realismo: movimento revolucionário com máscara (Mário Dionísio, Soeiro Pereira Gomes, Carlos de Oliveira).

21 Fevereiro - anos 50 a 70: literatura sem marca. Vergílio Ferreira e o Existencialismo.

28 Fevereiro - nova literatura: novos autores, consagrados e outros, revistas literárias, consagradas e outras

7 Março - Balanço



FORMADORA

Rosa Azevedo nasceu em 1982 em Lisboa. Terminou em 2004 a licenciatura em Línguas e Literaturas Modernas, maior em variante de estudos de portugueses e franceses e minor em Literaturas do Mundo, e em 2008 o mestrado em Edição de Texto. Tem realizado desde 2007 diversos cursos de literatura dos quais se destaca o Curso de Literaturas do Mundo realizado de Novembro de 2008 a Junho 2009, em parceria com a Associação InterCultura Cidade e o workshop de Literatura Portuguesa do séc. XX na Livraria Trama, em 2010. | www.estoriascomlivros.blogspot.com


INSCRIÇÕES E PAGAMENTOS

Fazemos reservas mediante o pagamento da inscrição – em numerário, na livraria, ou por transferência bancária. As inscrições deverão ser feitas através do mail livraria.trama@gmail.com, indicando o nome e o telefone.

Hoje acordei MESMO assim

"Nos últimos tempos, a universidade elaborou uma teoria geral da citação para uso próprio. Convém recordar a quem julgue que pode manipular , com a habitual irresponsabilidade académica, esta prática arriscada, extrapolando-a da obra de um filósofo, que a palavra entre aspas só espera pela primeira oportunidade para se vingar. E nenhuma vingança é mais subtil e mais irónica do que a sua . Quem alguma vez colocou uma palavra entre aspas nunca mais se livrará dela. Uma humanidade que só soubesse exprimir-se entre aspas seria uma humanidade infeliz que, à força de pensar, teria perdido a capacidade de levar um pensamento até ao fim."


- Giorgio Agamben -

Nebel / Leben

how can i tell the dancer from the dance?

Palavras sábias



"É delicado e difícil para a filosofia empreender a cura da tagarelice. Pois seu remédio, a palavra, é feito para aqueles que ouvem, e os tagarelas não ouvem ninguém, já que estão sempre falando. Eis o primeiro mal contido na incapacidade de se calar: a incapacidade de ouvir."


-"Sobre a tagarelice e outros textos" - Plutarco

Só por dentro de ti rebentam flores #3



"para nós
fugir à rotina
era conseguirmos um carro
e seguir a roda da frente

fugir à rotina
era conseguirmos um carro

fugir à rotina
era peão e travão de mão
dentro do carro

dentro do carro
seguimos a roda da frente

espera

seguir a roda da frente
pode hipnotizar-nos

hipnotizados
podemos entrar numa inversão"


- Nuno Moura -

Artepensamento



Esta obra reúne ensaios sobre artistas e filósofos que pensaram a questão da arte.
Uma história das ideias através da arte.
Alguns capítulos:

- Kant: juízo estético e reflexão
- O que está vivo e o que está morto na estética de Hegel
- Arte e filosofia no "Zaratustra" de Nietzsche
- Valéry: os exercícios do espírito
- A luta com o anjo: Baudelaire e Delacroix
- De Schiller a Schonberg: da ideia moral ao ideal poético
- Duchamp: crítica da razão visual
- Eisenstein: a construção do pensamento por imagens
- Seis nomes, um só Adorno

do Tempo #1


"O génio, afinal, não se revela na perfeição absoluta de uma obra, mas sim na absoluta fidelidade a si próprio, no compromisso com sua própria paixão. O anseio apaixonado do artista de encontrar a verdade, de conhecer o mundo e a si próprio dentro desse mundo, confere um significado especial até mesmo aos trechos mais obscuros de suas obras, ou, como se costuma dizer, "menos bem-sucedidos".
Pode-se ir ainda mais longe, não conheço uma só obra-prima que não tenha suas fraquezas ou que esteja inteiramente isenta de imperfeições, pois as tendências pessoais que criam o génio e a integridade de propósitos que sustenta a sua obra constituem a fonte não apenas da grandeza de uma obra-prime mas também das suas falhas. Volto a dizê-lo - pode dar-se o nome de "falha" a um componente orgânico de uma visão do mundo integral? O génio não é livre. Como escreveu Thomas Mann: " Só a indiferença é livre. O que tem carácter distintivo nunca é livre; traz a marca do seu próprio selo; é condicionado e comprometido."


- "Esculpir o Tempo" - Tarkovski

Terça-feira, 21 de Dezembro de 2010

aforismos de vieira numa manhã de ressaca

Os partidos na televisão são ainda mais feios do que seriam ao vivo caso existissem.

*

A sociedade tem que ser livre de se suicidar para renascer em biliões de Dalai-Lamas.

*

Só temos uma coisa a perder: o computador, o carro, o dinheiro, a mulher (ou o «marido»), a liberdade, a vida e, hipoteticamente, a vida depois da morte.

«Livro Rosé de Sua Santidade o Camarada Presidente Vieira»
Assírio&Alvim

b fachada é para meninos

prenda no sapatinho, é certo, agora que dei com ele a cantar (senhor, que mal fiz eu?) gaga-u-gaga, ou lá o que é, não me parece a xuxa, não.

uma palavra ao telefone e tudo muda

da noção de "gato por lebre"



Polícia Schauva lá fora em tom de censura - Apanhaste de novo uma lebre, Azdak. E tinhas prometido que isso não aconteceria mais.

Azdak severo - Não fales de coisas que não entendes, Schauva. A lebre é um animal perigoso e nocivo, que come as plantas, particularmente as chamadas ervas daninhas, e, portanto, deve ser exterminada.

Schauva - Azdak, não sejas cruel comigo. Perderei o meu emprego se não providenciar contra ti. Eu sei que tens bom coração.

Azdak - Não tenho bom coração coisa nenhuma. Quantas vezes já te disse que sou um intelectual?

Schauva astuto - Eu sei Azdak. És um homem superior, tu mesmo o dizes; por conseguinte, eu, pobre de Cristo, te pergunto: se roubam uma lebre ao Príncipe, e eu sou da polícia, que devo fazer com o criminoso?


-"Círculo de Giz Caucasiano" - Bertold Brecht

Assim parece...



"O poema
inspira-se no poeta para se escrever
e vira-se
um barco no mar
à distância de um cabelo longo de mulher"


-"Amor Único" - António Barahona

Hoje acordei mesmo assim (old school)



Porque há um certo baixista que não pára de tocar isto nos ensaios de 5a feira...

fixe

«I like your haircut» disse-me uma rapariga que entrou para saber onde é que se apanha o 28. Volto à teoria de sempre: I like your Perec? I like your History of Reading? I like your António Tenreiro? Nope, na hora da verdade nada disso importa.

nicho de mercado


foto: sofia gomes

há por aí um estudo qualquer que diz que as raparigas solteiras lêem mais do que as raparigas que têm o seu amorzinho.
[não há nada, acabei de inventar isto agora.]

não será um ano de crise