terça-feira, 29 de março de 2011

a confissão impúdica

Estou em crer que o meu principal problema é sexual - uma disfunção muito simples, chamada "o feminino", ou qualquer coisa assim. Não se trata propriamente de uma malformação, é antes uma condição. É que uma pessoa passa a vida a ler romances mas, na hora da verdade, acaba sempre por exclamar «os homens são horríveis!». Uma pessoa tenta obter alguma instrução, faz pela vida, vê cinema francês, italiano, russo, ouve música, lê os suplementos culturais dos jornais, trabalha, reflecte, escreve, para no fim acabar por dizer uma barbaridade deste tipo, assim, sem mais nem menos, como se isso resumisse tudo. «Os homens» e ponto final. Questiúncula de merda. Oh, se eu pudesse escapar dos meus momentos Nora Roberts, que alívio. Mas há sempre uma Isabel Allende a querer sair de mim, como se esses anos primeiros, cheios de clichés, revistas femininas, histórias de família, tivessem sempre mais força do que todo o empenho em descobrir um pensamento, não mágico, mas pelo menos coerente. É que começa a parecer-me impossível conduzir-me a um lugar onde o que penso coincida com o que sinto. É como se uma cozinheirazeca, uma mãezinha de aldeia, uma mulherzinha amorosa, estivesse sempre aqui dentro em alerta, pronta para dizimar a escritora que não consigo ser, a mulher segura que adio para os 40, e, já sabem o resto, blablabla. Hoje despeço-me do cargo semi-público - qual livreira, qual quê. I'm just a girl, não se deixem impressionar. Tão, tão rapariguinha, que até mete nojo.