sexta-feira, 29 de abril de 2011

Fogo


I
O fósforo
acende o cigarro
e traz
ao horizonte
do poema
sombras,
nuvens
[tenuidades perpassando
no papel
sobre a arquitectura
ainda húmida
da escrita
com essa
velocidade

II
que um pouco
de fulgor impele
para dizer
como o último sol
as acompanha
e o inverno
se dirige
às micro-cidades
silenciosas, às páginas
quase vazias]
nuvens,
sombras
que entristecem
Orfeu:

III
«o meu canto,
Euridice,
esgota-se por fim
na água exígua
das sílabas que vês
aqui
d esp
ed aç ad
a s
entre as chamas
dum inferno
menor
que
o fogo
deste fósforo.»

Carlos de Oliveira