domingo, 8 de maio de 2011

das parábolas

Há uma rapariga que se desloca a partir de determinado ponto (chamemos-lhe ponto A). Segue daí, em linha recta, para outro ponto, que podemos designar por ponto B. Está cansada. De A até B conta-se, aproximadamente, um quilómetro, talvez menos, talvez um pouco mais. Mas não podemos esquecer o cansaço acumulado depois de uma longa tarde em passeio junto ao rio. Hesita: segue a pé ou espera que um autocarro passe? Decide andar. Alguns metros depois da primeira paragem, onde decidira não ficar à espera, passa por ela o primeiro autocarro - o 6. Encolhe os ombros e, decidida, caminha ainda. Há sempre a paragem seguinte. Acontece que também nessa paragem ela decide seguir. E alguns metros à frente sucede exactamente o mesmo - passa o segundo autocarro, desta feita o 27.

Isto, que podia ser um passeio, ou o fim de um passeio, torna-se, de repente, numa parábola ou, pelo menos, numa breve explicação de toda uma vida. Incapaz de esperar, esta rapariga perde todos os autocarros. No entanto, chegará ao seu destino, o tal ponto B, como toda a gente. Mais cansada, talvez.

Nunca saberá ao certo o que teria acontecido se tivesse ficado na primeira paragem e entrado no 6 ou se, mais à frente, tivesse esperado uns minutos para depois entrar no 27 e fazer o resto do percurso sentada. Mas está aqui. Foi a pé e chegou. Não aconteceu nada, entre A e B. Na verdade, tudo o que interessa, tinha acontecido antes, no passeio, na longa tarde, no rio. Talvez num desses autocarros as coisas pudessem ter mudado. Talvez não. Chegou. Cheguei. Prossigo.