sábado, 7 de maio de 2011

mármore

Ao mesmo tempo que tento adivinhar em quantas caixas cabe uma vida, descubro que Orlando vive já há 300 anos - facto que, páginas antes, eu já intuíra através de uma certa estranheza perante tantas aventuras e tão pouca idade. Orlando, ao fim de 300 anos, é ainda jovem, como eu, ao fim de tantas caixas. Dizia-me certa pessoa: tu decides. Dizia-me também: és assim, desta maneira. E eu a agonizar porque, 300 anos ou 300 caixas depois, sou assim, desta maneira. Se as pessoas mudam ou não, não posso saber. A triste conclusão a que cheguei é que, apesar de tudo e de tanto, eu não mudei. Assim, aquela pessoa que eu julgava não poder reconhecer-me, que eu queria que estivesse tão para trás no tempo que não pudesse saber se não aquilo que eu fui e não mais quero ser, olha para mim e vê. Sabe. Por isso, ainda ontem na Barroca, quando ela me disse que já não vai fazer as coisas da mesma maneira, que vai fazer assim, e assado, eu ri-me e disse: eu vou fazer tudo igual. Porque esta coisa da identidade (que outro ele questionava há uns dias atrás), esta coisa de sermos quem somos e de, permanentemente, acharmos que se fossemos outros as coisas correriam melhor, bem, não é bem assim. Mesmo a leitura, que nos permitiria alguma modificação, creio que vem apenas confirmar um bocadinho mais aquilo que já somos, só. Até a mais revolucionária das ideias, que se nos encaixa tão bem, já tinha, provavelmente, o seu espaço em nós. Nada é assim tão novo - porque se for, rejeitamos. Creio que, no amor, é mais ou menos isto que acontece. Só funciona se reconhecermos, se houver um espaço em nós onde aquela pessoa encaixe, um espaço preparado para receber certas formas, certa densidade e certo peso. Se for tão novo que seja preciso limar, cortar, ajustar - nunca vai caber, nunca vai encaixar tão bem que não se note, que não se sinta ali uma certa estranheza, que não nasça o lugar da dúvida. De qualquer modo, as pessoas são formas pouco trabalháveis, não lhes vejo grandes semelhanças com o mármore.