domingo, 15 de maio de 2011

onde sou só desejo queres não

Há, no meu amor, o grande fardo do ódio. Porque me subtrai, sempre, esse amor esgotante – a espera. O grande coração negro contrai-se. O silêncio, pela primeira vez, é a única expressão possível para esse órgão incompleto – creio que me falta pouco para morrer. Ao acaso, folheio Blanchot, Bodhidharma; como quem se consulta junto de um doutor. Tenho tanta esperança para estas linhas como para mim – tudo se perde, nada se transforma. Sei-o agora, graças ao coração imóvel, ao silêncio, ao grande ódio.
Deixei, ainda há dias, que outro corpo em mim se arriscasse; pergunto-me: poderá haver ainda vida dentro de mim? Lavei-me com água fria; dizem que, se o fizermos logo a seguir, mata tudo.
O egoísmo mais inclassificável é aquele que se disfarça de honestidade, que é apresentado como um gesto de entrega mas que, na verdade, é um acto de covardia. O homem covarde, para se ilibar da culpa que carrega, partilha um segredo. Cabe àquele que não queria ouvir, daí por diante, o fardo que o primeiro não podia suportar. Foi isto que me escureceu o coração.
A vingança, depois de ter lido os clássicos, sugere a necessidade de uma morte. Vinga-se um filho, um irmão insepulto, um companheiro de armada, agindo, segundo indica o dicionário, de forma mais ou menos equivalente. É esta, a história do mundo – e eu decido sair. Vingança como condenação íntima, crime primeiro, inaugural. É, talvez por isto, impossível precisar quem infligiu a primeira dor – se o homem que rasgou o hímen, se a mulher que pariu o ser. Tudo é crime. E depois, tudo é repetição.