domingo, 12 de junho de 2011

Halle 53

Arregalei-me muito - e era só um concerto. Arregalo-me toda, tento não pensar. No concerto as memórias iam e vinham, só o espanto podia pará-las. É preciso que te lembres: estás só. É preciso que te lembres e que te alegres. Às vezes uma pessoa fala consigo própria, tem de ser. Estava um calor de morrer. Ao meu lado, uma rapariga muito baixa com um vestido florido em tons de verde e laranja, esbanjava beleza made in china. Que sufoco, sorrir em frente, para ninguém. Queres ver tudo, apreender tudo, estar em casa - e ao mesmo tempo, a casa és tu, só tu. As pessoas dançam, batem palmas, obedecem ao negro da guitarra - agora digam, e elas dizem. Não importa o quê. Eu também digo, bato palmas. À saída decido espreitar as barraquinhas de artesanato e world food e um mulato precede o meu sorriso com um cumprimento qualquer - minutos depois está atrás de mim, enquanto escolho um porta-chaves novo, a querer saber quem sou, de onde venho, para onde vou. Falamos francês, ele elogia o meu accent. Está bonito, está, insistem em falar com quem não tem nada para dizer, estação - ele leva-me à estação. Diz que me vai mostrar a parte francesa e eu digo porque não. Diz que viveu aqui, acolá, eu digo ah pois. Diz que, e eu, hum hum.

Sigo para o comboio esquecida de tudo isto, olhos fixos nas montanhas, no verde que corre, nas páginas de um livro para crianças que uso para aprender coisas tão complexas como morango, polegar, limoeiro. Se ao menos pudesse explicar o valor de cada palavra, hoje, cada uma. Cada palavra que repito em silêncio, desprovida de contexto, semântica, memória, e que nem sequer sei se alguma vez usarei, se chegará o diálogo em que dela precise, ou se me lembrarei, se conseguirei ir buscá-la a uma memória forjada, feita de viagens de comboio, cartazes publicitários e jornais gratuitos.

Não sei o que lhe terá dito ela, depois de o ter beijado tanto debaixo dos calores do Mali (ela tinha o cabelo curto, loiro, era bonita); e na estação, a mão no rabo universal, que isto dos corpos fala-se em toda a parte, ele na orelha dela a dizer que coisas, com quantos erres e declinações? Não, eu só sei dizer quem sou, sei os nomes de algumas frutas e legumes, sei parentescos, médicos e doenças. O resto, o que é o resto?