terça-feira, 7 de junho de 2011

I love dancing, crazy romancing

É imaginar uma rapariga sentada nas escadas de uma estação - Stadelhofen, chamemos-lhe, vinda, talvez, de Bellevue - calças de ganga, ténis, nada a relatar, um ipod na mala e é só. Depois, é imaginar que a música é qualquer coisa assim: Ain't got no home, ain't got no shoes / Ain't got no money, ain't got no class / Ain't got no skirts, ain't got no sweater / Ain't got no perfume, ain't got no beer / Ain't got no man. A rapariga, claro, sou eu. E logo a seguir, o verso que não me sai da cabeça: 'One cannot lose what one has not possessed.' Nunca a liberdade foi tão inteira: não tens, não perdes. E ainda assim, dás.

Em Zurique os clochards juntam-se em bancos de jardim para beber cerveja e falar muito alto. Ficam ali, à beira dos parques, como os miúdos que foram. Parecem inofensivos. Um, esta manhã, aguentou a porta to Tram para que eu, saída da aula e da conversa breve com o Roy, um indiano que está a fazer um doutoramento em medicina, pudesse ir à minha vida - ou à minha falta de vida. Quando saiu, olhou para mim e lançou um adios arrastadíssimo, lá do fundo da moca, enorme. Desta vez não sorri - clochards, para mim, são Rayuela e La Maga, onde anda?

Well, I'm feeling good aber ich spreche nicht deutsch - nem leio, nada, de nada, de nada. Aqui em Babilónia andam gazelas nos telhados, isso posso garantir-vos. Vejo-as, de manhã, saltam com os pássaros. E há duendes de loiça (que hei-de comprar para o jardim da Cat).

Hoje, no intervalo da aula, perguntaram-me: Então e tu, estás aqui a fazer o quê? Ao que eu respondi: nada. Haverá melhor coisa do que não fazer nada? É que agora sim, posso fazer o que quero, escrever o que quero - sem que me entrem em casa, queridos leitores, a perguntar se eu sou eu. É que não sou.





I got my heart, I got my soul / I got my back, I got my sex / I got my arms, I got my hands / I got my fingers, Got my legs / I got my feet, I got my toes / I got my liver, Got my blood