domingo, 19 de junho de 2011

Resposta automática: vou hibernar, não me lixem

Não esquecer: a veia que sobe do pescoço até. Havia também uma frase: la paura crea un'elevata dipendenza. Anotações mentais para um texto que não verá a luz de nenhum dia. Entretenho-me a olhar para o baterista. Para além da veia, usa um fio. De tanto olhar acabo por achar que ele também olha para mim (não é verdade, sei que ele não vê ninguém, sabe-me apenas bem ser menos estrangeira porque vista, concretamente).

O mundo desfaz-se aos poucos. Chove na minha cerveja, ou é como se. Algum tempo depois chegará o Roy e colaremos, com cuspo, as razões de ali estarmos, numa noite de Junho, uma portuguesa e um indiano, à beira de nada.

Não esquecer: é no desconfiar do próprio que começa um dos grandes males do Ocidente. Conclusões afectivas em cima da salada. Ele pediu talheres para mim e insistiu que comêssemos do mesmo prato - não quer perder os hábitos da terra. «Sabes que os casamentos arranjados são quase sempre bem sucedidos?». Eu não sei rigorosamente nada, esclareço. «Se eu tivesse um mau comportamento com as mulheres não poderia confiar em mim. Se não confiasse em mim, não poderia confiar em ninguém.»

Nada (nem o seu contrário) faz muito sentido. Voltamos ao baterista. Voltamos à ideia de que a primeira coisa que uma pessoa tenta fazer, quando está livre, é deixar de estar. Ou então é cinema, é distender ao máximo o arco das possibilidades. No meu caso, nada prático, nada que se faça acontecer: está tudo na ideia do tiro, não no tiro-ele-mesmo. Ou no potencial desse tiro.

Mais notas: que toda a má acção é justificável; que todo o pensamento se anula a si próprio; que é preciso apanhar o autocarro e ir para casa depressa.