quinta-feira, 16 de junho de 2011

sem título (colecção privada do artista)

Parecia-me que concretizava um poema - sozinha, no mercado que todas as quartas-feiras se realiza na estação principal. Sozinha, percorri uma fila de banquinhas: sumos naturais, frutos secos e cristalizados, legumes biológicos, pão italiano, mel, azeite, doces caseiros. Interessei-me sobretudo pelas cerejas que repousavam, muito vermelhas, numa pilha enorme. Fruta italiana, dizia no letreiro, nas costas do tipo que me terá perguntado qualquer coisa (quer provar uma? vai levar alguma coisa?). Eu terei dito que não, que não falo alemão, e até sair dali, apressada e sem compras, acabei por dizer, na língua que não falo, quem sou, o que faço, de onde venho, que línguas falo. À despedida ele disse-me: aprende depressa. E riu-se.

Não, eu não aprendia a escolher legumes no centro da Babilónia, sozinha, não pude algemar Deus.

À tarde, segui de braço dado com a Jessica, rumo à cidade velha. Miradouros, igrejas, parques. Jessica não suporta Caetano ou Chico, prefere Cazuza, Legião Urbana, rock brasileiro e em geral. Deitadas na relva, com o iphone dela, ouvimos Sabonetes, queimamos as pernas, o tempo. É sempre no tram que nos divertimos mais, é lá que falamos de namoros, transas, climas. Paradas, pousamos para o postal que a todo o minuto se desenha na cabeça de cada uma. Isso é bem chique, né? pergunta uma, pensando no glamour de um lago no meio das montanhas, lembrando já a juventude que se foi. Dentro de uma semana, adeus Jessica, vai lá para o teu fuso cinco horas atrasado, foi bom enquanto durou.

À noite já não penso em nada disto. Também não penso no que ficou para trás. É como se tudo quanto vivo me acrescentasse pele, peso de roupa, um casaco de inverno. É como se todos os dias ganhasse alguma coisa, um acessório, uma mala, alguma maquilhagem. As alegrias são periféricas e servem para manter equilibradas as funções vitais. O coração bate, asseguro-me disso assim que acordo, porque quase não dou por ele. Sei que bate, claro, bateu quando ele me pediu para aprender depressa a língua que podíamos falar, mas não bateu por ele, talvez por mim, surpreendida por, apesar de tudo, estar viva. Uma pessoa faz tudo quanto pode para morrer e, ainda assim, vive. Sem texto, sem banda sonora, toda corpo, passo, a fazer-se à terra que pisa.

A verdade é que nem sequer tenho vontade de escrever. Faço-o como uma condenada, como quem expia o pecado de ter largado tudo para ser feliz com nada. Tudo o que antes era uma espécie de "blog material" agora é só um jeito de existir, como uma assombração, na casa que o morto não quer deixar. Depois lembro-me que não interessa, seja como for, justificar o que quer que seja, não é preciso que tudo tenha uma razão de ser, ou que essa razão se explique desde logo. É preciso lembrar-me dos ideais antigos, do «que nada se esclareça», e não ter medo. Como tal, nem vou reler este texto. Não te assustes.