Na carta escrita à irmã ia uma menção a uma palavra nova, descoberta num filme do Bergman: experiência. A palavra tinha também surgido noutro contexto, que já esquecemos, mas que no momento da escrita fazia o maior dos sentidos. Cada leitura, no entanto, traz novas ideias e, com elas, tudo vai ficando indistinto. Porque a experiência de uma Liv Ullman nas últimas cenas de um filme - que experiência é essa, comparada com a de um Lobo da Estepe? E a minha, que experiência é esta, que se esquece dela mesma, enquanto acumula, e se enche de pó, e se renova a cada dia, e insiste em manifestar-se através daquilo que, despite all this, teima em não mudar?
Perante o meu desespero, uma amiga budista mandou-me fazer uma oração. Disse-lhe que sim, que o faria, embora soubesse que não posso, de forma alguma, cumprir uma coisa destas. Acontece que me falta gravidade para poder cumprir qualquer tipo de ritual. O sagrado dá-me sempre vontade de rir. É também por isto que me é difícil mudar - quando penso em mim bem, toda organizadinha, com a cabeça regulada, o coração no sítio, sem cigarros, uma pele fantástica, vegetariana, assim, quando penso em mim exactamente como gostava de ser, só me apetece rir.