quarta-feira, 9 de novembro de 2011

os textos menores de rosa quê?

Descubro nas minhas tardes sem pressa
lugares onde pode alguém deixar-se estar.
Faltam precisamente sessenta e oito minutos
para me ir embora – tempo suficiente para
envelhecer o universo. Lá atrás, um limoeiro.
Biblioteca escura, armazém de impensa em
estantes de ferro, tudo aqui parece desconhecer
o movimento (a funcionária também).

É de oitenta e sete a revista que folheio, debaixo
da mesa os ténis, pé descalço sob a perna, faço-me
ao lugar como se fosse casa. Quero-me daqui agora
entre os papeis, daqui agora na língua que uso
ponte de coração a coração, de inconsciente a
inconsciente, como aquela bétula na montanha
de goodnow, que parece estar a comer uma pedra,
tão daqui, tão agora.

Nada disto significa que passei a gostar de botânica.
Das plantas, interessam-me apenas as que posso usar:
a beladona, que ataca o sistema nervoso, o jarro-maculado
que provoca inchaço de língua, o acónito, uma ligeira
insuficiência cardíaca. E o limoeiro, claro, nosso
soneto de separação, silêncio-abril rumo ao verão.