sexta-feira, 25 de novembro de 2011

se ao menos soubesses como é bonita, a luz no meu quarto

Vivemos horrorizados com a ideia de repetição - talvez por não sabermos que tal coisa não existe. Dizia-lhe hoje: o outro é simple um filme noir. Nem é preciso falar de mim: conheço uma data de gente que vive neste temor, de não ser o primeiro, de não único, de não inaugurar nada. Como se a representação do que somos interessasse mais do que aquilo que, de facto, no nosso quotidiano, podemos ser. Como se sofrêssemos sempre pelo símbolo que queremos representar mas que, no nosso imaginário, outros representarão melhor. O fantasma daquela pessoa com quem alguém viveu seis meses, que nunca poderemos superar. A ideia de que com essa pessoa, corria melhor o trabalho dos dias, e que, por isso, tudo fazia mais sentido, era mais sincero, mais confiante. Antes da grande chapada, acreditava-se. E o que há depois? Espera-se quase sempre com algum cinismo. 

Quando me fui embora levei na mala um livro que não era meu. Lá dentro, uma dedicatória, que não era para mim, nem sobre mim, nem sequer me adivinhava em futuro nenhum. Antes o contrário. O que essa dedicatória continha era a minha impossibilidade, a total ausência de um plano de mim, dado que eu, a existir, teria primeiro que falhar esse texto, ou essa promessa, ou esse desejo. Assim, eu seria apenas a consequência de algo que acabou, eu seria a que veio substituir, repetir, e sem a mesma qualidade, porque sem a mesma crença, no fundo, eu seria um embuste, qualquer coisa que serve para esquecer que o verdadeiro tinha, afinal, acabado. 
E não há estupidez maior que esta, a de nos compararmos com o que foi, com o que nos ultrapassa, com o que desconhecemos. Pode gastar-se uma vida nisto, a querer ser-se o que outro foi, apenas por incapacidade de nos sermos, agora. Desperdiçam-se dias de sol, tardes de praia, idas ao Alentejo, porque se está sempre com a pata no que foi, no que não poderá voltar a ser. Estúpidos, estúpidos, estúpidos. 

E isto ocorre-me por causa do tal livro, e porque não tenho trabalho, e porque dei por mim a pensar num anúncio em que me oferecia para escrever cartas de amor, como nesse livro, que não foi comprado comigo, nem para mim, que não foi lido comigo na ideia, cujas personagens nunca fizeram lembrar quem eu sou (porque eu não existia), mas que afinal, porra, estava, e sempre esteve, em nossa casa.