segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

há como que um imperativo da estreia, entre dois seres que se amam.

A par do desejo de alguma singularidade, na vida do outro, deseja-se estrear. Pode ser uma casa, uma cidade, um projecto. Tem é de ser alguma coisa. Não é justo que o outro já tenha dormido com alguém, antes, que tenha casado, que tenha tido um filho, que tenham ido juntos a Veneza. Justo seria que tivesse esperado por mim. No campo amoroso, a inauguração vale pontos. De cada vez que alguém diz nunca me tinham feito isso há um ego que cresce. Espera-se, no fundo, uma certa virgindade, espera-se abrir um caminho novo, estar onde nunca ninguém esteve. É aqui que o valor da estreia reside, numa falsa ideia de pureza, associada ao desconhecimento. Como se, por ser a segunda (ou a vigésima) vez, o gesto viesse gasto. 

Lembro-me: dizia-se que as raparigas deviam guardar-se para alguém especial. Que isso de dar o corpo, pela primeira vez, é de tal forma importante, que não podia ser com a pessoa errada. Como se houvesse aqui algum tipo de irreversibilidade. Como se, depois de o fazeres uma vez, nunca mais fosses igual. Como se, dando o corpo, desses uma oportunidade - a de alguém vir estrear-te.  

Não há nada mais despótico do que isto, esta tirania da pureza, que se arrasta pela vida toda. Esta ideia infeliz de que as coisas mais importantes são as que nunca tinham sido vividas antes. É por causa disto, que se alastra como uma praga por todos os compartimentos de uma vida, que as pessoas vivem sufocadas nas suas rotinas, convencidas de que precisam de alguma novidade. É por causa disto que se ama pouco, e mal. Que se perde tempo com ciúmes do passado, do símbolo, do mito alheio - um filme muitas vezes a milhas da realidade. 

Aprender a surpresa naquilo que não é novo, isso sim, é um gesto de amor. O gesto que hoje se cumpre vem de trás, foi aprendido noutros lugares, com outras pessoas, mas chega aqui outro, novo, porque enfim, na minha direcção

E o primeiro... Para dizer a verdade, não me lembro do nome dele.