Segunda-feira, 28 de Fevereiro de 2011
curiosidades
salvar os livros

Long distance call

"Quando os amantes deixam os seus corpos nocturnos, um poisa num ramo ao longe, o outro apoia os cotovelos na janela.
O amor é a alma contra a alma.
O amor faz-se à parte como o pensamento se faz à parte, como ler se faz à parte, como a música se concebe no silêncio, como sonhar se faz na noite do sono."
-"Vida Secreta" - Pascal Quignard
Sábado, 26 de Fevereiro de 2011
Sexta-feira, 25 de Fevereiro de 2011
contra mundum
algumas editoras e editores afirmam uma relação privilegiada com “os seus autores”, menosprezando todos quantos não se enquadrem no restrito grupo de eleitos. outras desrespeitam uns e outros. empenham-se pouco ou nada na promoção do que publicam, não prestam informações quanto a vendas, raramente há lugar ao pagamento de direitos.
a maior parte trata os autores não publicados com um quase elementar desprezo. é como um favor que aceitam, quando aceitam, os originais. é com manifesta desconfiança que avaliam as propostas. contactar telefonicamente um qualquer responsável editorial é quase impossível. o envio pelo correio é, na maior parte dos casos, a antecipação da recusa. não são incomuns as situações de autores que, recusados por uma editora, são por ela aceites se os mesmos textos lhes chegam por outras vias. nenhuma editora acusa a simples recepção dos originais.
será difícil gerir a quantidade de propostas que algumas casas recebem, mas o profissionalismo passa também por saber gerir essa massa de textos e de expectativas. como norma, é manifesto o desinvestimento nas relações com os novos autores. saber dizer que não é condição da existência de critérios editoriais consequentes. não responder, ou recusar de forma sumária muitos meses ou anos após a recepção dos originais, já é uma forma de crueldade.
haverá excepções, mas não mudam a regra.
no.vi.da.des
Miguel-Manso
capa e paginação de Amélie Bouvier
à venda nesta livraria
Quando Escreve Descalça-se
Miguel-Manso
capa e paginação de Amélie Bouvier
à venda nesta livraria
3ª edição
Quando Escreve Descalça-se
Miguel-Manso
capa e paginação de Amélie Bouvier
à venda nesta livraria
Quinta-feira, 24 de Fevereiro de 2011
Quarta-feira, 23 de Fevereiro de 2011
e vem a noite
Fraco o valor, cobarde a fortaleza,
Triste o prazer, discreta a confiança;
Terá a ingratidão firme lembrança,
Será rude o saber, sábia a rudeza,
Lhana a ficção, sofística a lhaneza,
Áspero o amor, benigna a esquivança;
Será merecimento a indignidade,
Defeito a perfeição, culpa a defensa,
Intrépito o temor, dura a piedade,
Delito a obrigação, favor a ofensa,
Verdadeira a traição, falsa a verdade,
Antes que vosso amor meu peito vença.
Maria Callas a Aristóteles Onassis (quantos faltam?)
"Alinhavar as células uma a uma
até termos um lençol de uivos
caído sobre o ar. Por amor, entregar
a voz, o corpo e a alma. Por amor,
desmaiar sobre o palco com a
depressão a escorrer-nos dos poros.
Tecer a pele e de súbito dizer:
dobra bem nas pontas a fome -
para que se ouça por dentro do gelo
a chama desabrigada dos dedos.
Por amor, entregar a voz, o corpo
e a alma. Desafinar até ao silêncio.
Tactear coma ponta dos calos
as rugas do tempo e no fim suspirar
de alívio. Afinal foi só desmaio.
Estamos vivos e insaciáveis como
as sombras quando adormecem
no colo do sangue. Por amor,
entregar a voz. Por amor entregar."
-"Dança das Feridas" - Henrique Bento Fialho
Terça-feira, 22 de Fevereiro de 2011
tudo o que canto é mal cantado
as tardes têm destas coisas
Corte na Aldeia, Francisco Rodrigues Lobo
Segunda-feira, 21 de Fevereiro de 2011
boa noite
(Vasco Gato, Rusga, Trama, 2010)
Serge Gainsbourg a Jane Birkin (faltam 21 dias)

"Para lá de todas as coisas amáveis,
para lá de todas as coisas desejáveis,
a tua nudez na ponta dos meus dedos,
uma bola de fumo pairando sobre o piano
e cada poro teu tocado como se fosse
uma tecla, uma tecla emitindo o som
de cordas surdas, as tuas veias, cada
um dos teus nervos, e eu enredado
em ti como o insecto na teia da aranha,
para lá de todas as coisas definíveis,
os contornos do teu corpo à luz
de um tecido transparente, beleza
incomparável acossada pela fealdade
das notas, dos acordes atonais, para
lá de ti, para lá de mim, a paixão
capturada pelas máquinas fotográficas,
projectada numa tela à velocidade
iludente do cinema, para lá das salas,
para lá da luz, nós os dois denegridos,
deitados no quarto escuro da paixão."
"A Dança das Feridas" - Henrique Manuel Bento Fialho
Domingo, 20 de Fevereiro de 2011
Sábado, 19 de Fevereiro de 2011
Sexta-feira, 18 de Fevereiro de 2011
CH #6

The Essential Rumi, trad. Coleman Barks, HarperOne, 2004
O erotismo e a arte
Entendemos de um modo muito mais nítido o que são os estímulos fundamentais, os verdadeiros estímulos do erotismo quando os comparamos com outros processos por intermédio dos quais a imaginação se exprime com energia, em particular com os da criação artística. Estamos, neste caso, em presença de um parentesco profundo, quase se poderia dizer de um parentesco de sangue, pois, no ato do artista, entram em ação e emergem, sob as forças individualmente adquiridas, forças arcaicas de uma apaixonada emoção. Ambos os casos integram misteriosas sínteses do passado e do presente, o que constitui a experiência fundamental, e em ambos existe a embriaguez de sua interação secreta. Nessas obscuras regiões de fronteira, pouco ou quase nada foi ainda estudado sobre o papel que pode desempenhar, em um caso como em outro, o plasma germinativo; mas como o instinto de criação estética e o instinto sexual apresentam analogias tão extensas, o êxtase estético desliza insensivelmente em êxtase erótico,e este tenta involuntariamente se dotar de um adorno estético - ou talvez tenha revestido directamente a animalidade, tendo o corpo como matéria de criação. Tais fatos parecem demonstrar um crescimento germinado a partir da mesma raiz.
(...)
Reflexões sobre o problema do amor e o erotismo Lou Andreas-Salomé
Landy Editora, 2005
Henry Miller a Anaïs Nin

"Se eu te amasse a horas certas,
abririas as pernas com menos cuidado?
Se eu começasse sempre pela língua,
julgar-me-ias menos bruto?
E se eu não te mordesse o pescoço,
acaso continuarias a cravar-me as unhas nas costas?
Se eu não apagasse a televisão. adormecerias aconchegada à minha cintura?
Se eu tomasse banho depois de fornicarmos,
julgarias o acto mais higiénico?
Se em vez do silêncio depois do orgasmo
passássemos a ter uma confissão no olhar,
perdoar-nos-ia deus o desperdício?
Já agora diz-me: se não dependêssemos
um do outro, como é que explicarias
o teu cheiro nas minhas palavras?"
-"A Dança das Feridas" - Henrique Manuel Bento Fialho
I just need the eggs

"you said I was everything
but I am just a small part
of your everything
you want everything and me
I don't want your everything
you are my everything
but when I'm gone
I'll be the one
the s,allest part
that will restrain you
from getting everything you want
and you'll have nothing"
- Natvan Odiney - canção tradicional
Quinta-feira, 17 de Fevereiro de 2011
da repetição
110
Poderíamos construir outro corpo a partir
Do pensamento com imagens e emoções de
Menos engano. Inscrever na química que
Nos vai lembrando memórias de um corpo
Onde não estejamos biologicamente tanto.
Lembrar à fantasia que tudo o que não sou
É eu. Salpicá-lo de respiração conjunta com
As árvores. Pedir ao mito que os livros não
Se enredem nas silvas por destino. Saber que
Luar é este que vem de fora, ir procurando.
Desenhar, porque não?, o seu centro num
Ponto que pronto se desloca. Poderíamos.
Maria Gabriela Llansol, O começo de um livro é precioso
e poderia continuar...
Ouvi dizer que é uma primeira edição
1937
To H. L. Mencken
(...) The job of a serious writer is to dissociate the meaning of one word from that of some other which the poor boobs think means the same thing.
Obviously until blokes can define the word "money" and ten or dozen more words occuring with equal frequency in econ. writing, their writing will be tosh and their readers remain in same stew they were to start with.
The act of dissociation can just as well, or better, take place re something daily, and concrete as re something in a washed-out Impressionist painting.
(...)
The Letters of Ezra Pound 1907-1941, Faber and Faber
algumas das palavras
Palavras Pintadas
Para tudo compreender
Tudo
A árvore de olhar de proa
A árvore adorada dos cipós e lagartos
Para compreender o fogo
Para compreender o cego
Para reunir asa e orvalho
Coração e nuvem dia e noite
Janela e país de qualquer parte
Para abolir
A careta do zero
Que amanhã rolará sobre o ouro
Para talhar
As pequenas maneiras
Dos gigantes que se alimentam de si mesmos
Para ver todos os olhos reflectidos
Por todos os olhos
Para ver todos os olhos tão belos
Como o que vêem
Mar absorvente
Para que nos riamos levianamente
De tudo o que sofremos
Do calor e do frio
Da fome e da sede
Para que falar
Seja tão generoso
Como beijar
Para misturar a mulher e o rio
O cristal e a dançarina da tempestade
A aurora e a estação dos seios
Os desejos e a sabedoria das crianças
Para dar à mulher
Pensativa e só
A forma das carícias
Que ela sonhou
Para que os desertos fiquem à sombra
Em vez de estarem na
Minha
Sombra
Dar
Meu
Bem
Dar
Meu
Direito.
Paul Éluard, Algumas das Palavras
Cadernos de Poesia 6
tradução de António Ramos Rosa e Luiza Neto Jorge
Publicações Dom Quixote, 1969
Se eu soubesse dançar convidava-te para um tango *
* início de um poema de Henrique Manuel Bento Fialho
Arpad Szenes a Vieira da Silva ( faltam 26 dias)

"Queria escrever um poema com o teu silêncio,
decifrar-te as sensações enquanto te massajo
o corpo com óleo de amêndoas doces,
escutar os desejos que circulam no teu sangue
sempre que das massagens passamos à mordedura,
ao beijo, ao corpo comparecendo ao corpo.
Nada de segredos sussurados ao ouvido.
Queria transformar cada gemido numa palavra,
num verso, e aprender a ler nos músculos
do teu rosto o prazer com que cada um de nós sente,
à sua maneira, a ferida que está na origem da beleza."
-"A Dança das Feridas" - Henrique Manuel Bento Fialho - 2011
Quarta-feira, 16 de Fevereiro de 2011
CH #4
I
Why should I tell you anything true?
Why should I tell you anything?
You're not paying me.
i don't do this for money.
Hold out your hand,
your empty hand.
I see.
if I told you what you hold
in the lines in your hand
which as I said is empty,
is full of emptiness,
you'd be annoyed. Oh surely
not, you'd say, You're far too
dismal. Too severe.
I'm doing this to help you.
What would you prefer?
You'd like me to amuse you?
Do do some jigs, or pranks?
I lack the airiness,
I lack the feathers.
That's not what I do.
What I do: I see
in darkness. I see
darkness. I see you.
Margaret Atwood, The Door, Virago Press, 2007
Gabriela, Gabriela
começar o dia
Quando acabou sua cisma, Arnaldo aceitou que
A cena ganhara uma nova força - a de dizer e
Claramente. Porque no teatro que desejo,
Contrariamente à escrita que pratico, a voz é uma
Alta alma oscilando entre palavras. Oras as perturba
(E se escondem por detrás dos gestos), ora se deixam
Comover (e se mostram tais quais). Mas não tem
Palavras.
Maria Gabriela Llansol
O começo de um livro é precioso,
Assírio & Alvim
Terça-feira, 15 de Fevereiro de 2011
CH #3
mimi
bom dia alegria
IV
Localizar
na frágil espessura
do tempo,
que a linguagem
pôs
em vibração,
o ponto morto
onde a velocidade
se fractura
e aí
determinar
com exactidão
o foco
do silêncio.
Carlos de Oliveira, Micropaisagem
in Trabalho Poético, Assírio & Alvim, 2003
Segunda-feira, 14 de Fevereiro de 2011
a temperatura do corpo #5

CH #2
e chove e chove e chove e
- Lembras-te daqueles dois versos - respondeu ele numa voz fraca:
se não fosse tão triste...
- Lembras-te?
- Claro que me lembro.
- Pois esses versos aplicam-se admiravelmente à minha primeira surtida. Mas não! Em primeiro lugar, cheguei à conclusão de que não há nada mais fácil do que representar um papel. Ninguém sonhou em desconfiar de mim. Mas houve uma coisa com que não contava: é preciso ter preparada com antecedência uma história qualquer... para quando nos perguntem: "Donde vens? Que viste cá fazer?" - e não sabemos o que dizer. Mas, por outro lado, isso ainda não é o mais importante. Basta entrar numa taberna, beber um copo de vodka e mentir à vontade.
- E tu... mentiste? - perguntou Marianna.
- Claro, menti... como pude. Em segundo lugar, decididamente toda agente está insatisfeita, mas ninguém se preocupa em saber como curar essa insatisfação! (...).
Solo Virgem, Ivan Turguéniev
Solo Virgem
carta de rumos

Naviamente
Esse corpo faz tudo
o que eu penso e não
posso, esgoto-lhe
as manobras evidentes
até à doce razão
do ódio. Matá-lo-ei
um dia sem alibi
ou remorso, não
a obra ou a estátua.
Essa sombra afiada,
o punhal, meu deus
de ironias justiceiras
trazendo vida ao bosque
vencido pelo fogo.
Dizer para dentro
a dor
desta alegria
a dor
desta feroz
alegria.
Carta de rumos,
Helder Moura Pereira,
&etc, 1989
Domingo, 13 de Fevereiro de 2011
Sexta-feira, 11 de Fevereiro de 2011
estás a brincar com a chuva
falar de um evento deste tipo (mulher do outro lado da montra, de costas, a olhar para cima, decide voltar a descer a rua) é falar da intimidade, é contar um segredo: é para isto que eu olho, é isto que eu vejo.
como a conversa que tive há pouco sobre o impacto de um determinado livro em mim, há coisas que me parecem muito mais profundas do que a narrativa literal de uma vida. quando digo: este livro afectou-me profundamente estou a despir-me e a explicar: é aqui que dói. estou ligada a pessoas cuja biografia pouco me interessa, pessoas com quem falo apenas sobre leituras e que, através dessa cumplicidade, desejo possuir. nada disto tem corpo ou, se o tiver, é aquele corpo da palavra, fininho, sobre o papel. o leitor a quem me dou, é meu. levo-o para casa, ou para Zurique, amanhã de manhã, ando com ele de um lado para o outro, guardo coisas para lhe dizer, da próxima e sempre inesperada vez. tudo isto me dá muito prazer, também porque não me exige nada. vender livros é tocar no outro. o meu trabalho é tocar no outro e deixar-me tocar pelo outro. é por isso que vender livros não é o mesmo que vender batatas
diário
domínios
Gonçalo rules
os outros
E eu ando a ser espancada pela Etty, que já trato por tu, com quem acordo, almoço, lancho e durmo. Estou cheia de nódoas negras.
Quinta-feira, 10 de Fevereiro de 2011
antena
cadernos para uma breve história da Trama #6
a pose
Quarta-feira, 9 de Fevereiro de 2011
diário dos mesmos pesares #6

oh não, mataram o kenny outra vez!
com cinco... ou seis, às vezes
Terça-feira, 8 de Fevereiro de 2011
senilidade
alteração de horário para hoje
Segunda-feira, 7 de Fevereiro de 2011
cadernos para uma breve história da Trama #5
Actuação Escrita

"Pode-se escrever
Pode-se escrever sem ortografia
Pode-se escrever sem sintaxe
Pode-se escrever sem português
Pode-se escrever numa língua sem se saber essa língua
Pode-se escrever sem saber escrever
Pode-se pegar na caneta sem haver escrita
Pode-se escrever na escrita sem haver caneta
Pode-se pegar na caneta sem haver caneta
Pode-se escrever sem caneta
Pode-se sem caneta escrever caneta
Pode-se sem escrever escrever plume
Pode-se escrever sem escrever
Pode-se escrever sem sabermos nada
Pode-se escrever nada sem sabermos
Pode-se escrever sabermos sem nada
Pode-se escrever nada
Pode-se escrever com nada
Pode-se escrever sem nada
Pode-se não escrever"
- Pedro Oom - " A Intervenção Surrealista" -
sentar
sobre uma esteira e parar
dançar sobre velhos hábitos?
correr à velocidade da luz para alcançar a iluminação moderna?
abraçar ou deixar de abraçar?
esperar?
deixar claro que as grandes dificuldades
existem apenas para superar?
sentar na areia e fazer de trinta
minutos uma vida?
usar fórmulas antigas?
vaguear o olhar pela cidade
deixar olhos
ofuscados de excessos
à janela
e escutar a voz de Blake
antes de derramado e
exausto sobre visões
deca
ssi
lábicas
vértice da construção
planar
tronco
justo encostado
da mesma raiz se erguem
perdi
a conta das alianças
e sobre elas
sei
que vivo minha terceira vida
mais antiga"
- Adamac Ibn Aras -
Sábado, 5 de Fevereiro de 2011
a vida não é um sonho #8

Sexta-feira, 4 de Fevereiro de 2011
de Abarcar toda a realidade sem exclusão

"Politicamente a Metaciência ao pronunciar-se dirá que a verdadeira democracia só será possível quando todos os homens forem poetas. Mas isso não chama ela democracia - mas ANARQUIA!
Cesariny, quanto gostaria de ver a meu lado tu e todos os outros - desta vez não com a sombra de um Breton - mas com os nossospróprios corpos! na conquista de mais um impossível, de mais um mundo que está perdido - a elaborar a imaginação do Mundo!"
- António Maria Lisboa -
-"A Intervenção Surrealista"
diz o Francisco que foi o Esteves Cardoso que escreveu
Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria.
Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em "diálogo". O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios. Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam "praticamente" apaixonadas.
Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço. Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje.
Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do "tá tudo bem, tudo bem", tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas. Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo?
O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso "dá lá um jeitinho sentimental". Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade. Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar. O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto.
O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A "vidinha" é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não dá para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende. O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem.
Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir.
A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a vida inteira, o amor não. Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também."
Quinta-feira, 3 de Fevereiro de 2011
Retrato de Família #13

História não autorizada de Bizâncio
Je ne mange pas de ce pain-là
"De Mário Cesariny para o poeta Jorge de Sena:«Meu caro Jorge de Sena / Recebida a sua carta-circular onde me anuncia estar eu incluído no terceiro volume das Líricas Portuguesas por si, Jorge de Sena, organizado, mas ainda, felizmente, em preparação, venho dizer-lhe que será de meu total desagrado a efectivação de tal anúncio, pelo que muito lhe peço e recomendo me não faça participar do vosso ramalhete dos talentos. Como sabe, esteja eu certo, esteja errado - não é para discutir - são-me sumamente repelentes as alegrias excursionistas proporcionadas por esse tipo de assembleia nacional. Se não lhe faz um transtorno por aí além, prefiro solitário o meu próprio detrito - evola-se muito mais depressa sem acumulação por monturo nos terrenos baldios da capital. Creio, aliás, e isto é uma resposta à sua proposta de sugestões, que: antologias, só tendenciosíssimas, apaixonadamente tendenciosas; como seria de organizar algumas se entretretanto não estivéssemos todos a morrer. / Da inclusão do meu camarada António Maria Lisboa falará, como é óbvio, a sua própria obra.
Pela parte que me toca no assunto, fecho-o com uma pergunta: será possível que você, Jorge de Sena, a ter lido o que o António Maria Lisboa publicou, pense, presencisticamente, em incluí-lo, cadáver, poemas, ossos, tudo, em banquete tão sociedade de recreio e tão concomitante gracinha do meio editorial português?
J. de S. não só inclui os poetas em questão como lhes estabelece fichas biobibliográficas tão retorcidas como a cabeça dele."
-"A Intervenção Surrealista" - Mário Cesariny
Quarta-feira, 2 de Fevereiro de 2011
Perseguido por este poema

"Transforma-se o amador na coisa amada, com seu
feroz sorriso, os dentes,
as mãos que relampejam no escuro. Traz ruído
e silêncio. Traz o barulho das ondas frias
e das ardentes pedras que tem dentro de si.
E cobre esse ruído rudimentar com o assombrado
silêncio da sua última vida.
O amador transforma-se de instante para instante,
e sente-se o espírito imortal do amor
criando a carne em extremas atmosferas, acima
de todas as coisas mortas.
Transforma-se o amador. Corre pelas formas dentro.
E a coisa amada é uma baía estanque.
É o espaço de um castiçal,
a coluna vertebral e o espírito
das mulheres sentadas.
Transforma-se na noite extintora.
Porque o amador é tudo, e a coisa amada
é uma cortina
onde o vento do amador bate no alto da janela
aberta. O amador entra
por todas as janelas abertas. Ele bate, bate, bate.
O amador é um martelo que esmaga.
Que transforma a coisa amada.
Ele entra pelos ouvidos, e depois a mulher
que escuta
fica com aquele grito para sempre na cabeça
a arder como o primeiro dia do verão. Ela ouve
e vai-se transformando, enquanto dorme, naquele grito
do amador.
Depois acorda, e vai, e dá-se ao amador,
dá-lhe o grito dele.
E o amador e a coisa amada são um único grito
anterior de amor.
E gritam e batem. Ele bate-lhe com o seu espírito
de amador. E ela é batida, e bate-lhe
com o seu espírito de amada.
Então o mundo transforma-se neste ruído áspero
do amor. Enquanto em cima
o silêncio do amador e da amada alimentam
o imprevisto silêncio do mundo e do amor."
- Herberto Helder -















