«Ele que deixasse os livros, diziam, para os paralíticos e os moribundos.»

Segunda-feira, 28 de Fevereiro de 2011

curiosidades

o homem do cão falou-me hoje, pela primeira vez, três anos depois de me ver quase todos os dias. perguntou-me, então o rapaz está bom?

salvar os livros


«Quer a verdade? A filosofia não tem a menor importância. Os romances não têm a menor importância. Só a amizade conta; só o amor conta. Digamos melhor: só o amor e a solidão contam. Melhor ainda: só a vida conta. Os livros fazem parte dela, claro, e é isso que os salva. Mas a vida ainda assim continua... Os livros fazem parte dela; como poderiam fazer as vezes dela?»

o amor é um rock

Long distance call



"Quando os amantes deixam os seus corpos nocturnos, um poisa num ramo ao longe, o outro apoia os cotovelos na janela.
O amor é a alma contra a alma.

O amor faz-se à parte como o pensamento se faz à parte, como ler se faz à parte, como a música se concebe no silêncio, como sonhar se faz na noite do sono."


-"Vida Secreta" - Pascal Quignard

a não perder


Sábado, 26 de Fevereiro de 2011

o reino da Dinamarca

que silêncio.

Sexta-feira, 25 de Fevereiro de 2011

contra mundum

poucas instituições tratarão tão mal os seus interlocutores como o faz a generalidade das editoras portuguesas. para além do serviço que prestam ou não prestam aos seus clientes finais (os leitores), a sua relação com os produtores (os autores) é muitas vezes de desrespeito, e frequentemente de pura prepotência.
algumas editoras e editores afirmam uma relação privilegiada com “os seus autores”, menosprezando todos quantos não se enquadrem no restrito grupo de eleitos. outras desrespeitam uns e outros. empenham-se pouco ou nada na promoção do que publicam, não prestam informações quanto a vendas, raramente há lugar ao pagamento de direitos.
a maior parte trata os autores não publicados com um quase elementar desprezo. é como um favor que aceitam, quando aceitam, os originais. é com manifesta desconfiança que avaliam as propostas. contactar telefonicamente um qualquer responsável editorial é quase impossível. o envio pelo correio é, na maior parte dos casos, a antecipação da recusa. não são incomuns as situações de autores que, recusados por uma editora, são por ela aceites se os mesmos textos lhes chegam por outras vias. nenhuma editora acusa a simples recepção dos originais.
será difícil gerir a quantidade de propostas que algumas casas recebem, mas o profissionalismo passa também por saber gerir essa massa de textos e de expectativas. como norma, é manifesto o desinvestimento nas relações com os novos autores. saber dizer que não é condição da existência de critérios editoriais consequentes. não responder, ou recusar de forma sumária muitos meses ou anos após a recepção dos originais, já é uma forma de crueldade.
haverá excepções, mas não mudam a regra.

H. G. Cancela,
aqui

frase para as pessoas que se chateiam por todas as razões e mais algumas

vamos todos morrer.

o da Joana já está reservado


Miguel-Manso, Quando Escreve Descalça-se, 3ª edição (100 exemplares)

no.vi.da.des

3ª edição
Quando Escreve Descalça-se
Miguel-Manso
capa e paginação de Amélie Bouvier
à venda nesta livraria


3ª edição
Quando Escreve Descalça-se
Miguel-Manso
capa e paginação de Amélie Bouvier
à venda nesta livraria



3ª edição
Quando Escreve Descalça-se
Miguel-Manso
capa e paginação de Amélie Bouvier
à venda nesta livraria

Quinta-feira, 24 de Fevereiro de 2011

merci

Quarta-feira, 23 de Fevereiro de 2011

e vem a noite


Será brando o rigor, firme a mudança,
Humilde a presunção, vária a firmeza,
Fraco o valor, cobarde a fortaleza,
Triste o prazer, discreta a confiança;

Terá a ingratidão firme lembrança,
Será rude o saber, sábia a rudeza,
Lhana a ficção, sofística a lhaneza,
Áspero o amor, benigna a esquivança;

Será merecimento a indignidade,
Defeito a perfeição, culpa a defensa,
Intrépito o temor, dura a piedade,

Delito a obrigação, favor a ofensa,
Verdadeira a traição, falsa a verdade,
Antes que vosso amor meu peito vença.


Soror Violante do Céu

guilty...

Maria Callas a Aristóteles Onassis (quantos faltam?)



"Alinhavar as células uma a uma
até termos um lençol de uivos
caído sobre o ar. Por amor, entregar
a voz, o corpo e a alma. Por amor,
desmaiar sobre o palco com a
depressão a escorrer-nos dos poros.

Tecer a pele e de súbito dizer:
dobra bem nas pontas a fome -
para que se ouça por dentro do gelo
a chama desabrigada dos dedos.
Por amor, entregar a voz, o corpo
e a alma. Desafinar até ao silêncio.

Tactear coma ponta dos calos
as rugas do tempo e no fim suspirar
de alívio. Afinal foi só desmaio.
Estamos vivos e insaciáveis como
as sombras quando adormecem
no colo do sangue. Por amor,
entregar a voz. Por amor entregar."

-"Dança das Feridas" - Henrique Bento Fialho

Trama OST

Terça-feira, 22 de Fevereiro de 2011

Catarina-da-Trama

planeia o seu próximo erro. haverá outra coisa a fazer?

tudo o que canto é mal cantado

Há pouco, enquanto apagava ficheiros antigos do computador, fui parar a uma fotografia da noite em que, pela primeira vez, li poesia na Trama. Quando quis fechá-la, o computador bloqueou. Está ali, ocupa o ecrã todo, imóvel.

as tardes têm destas coisas

- Só o discreto (respondeu Feliciano) sabe ser amante, e por isso perde o juízo nas mãos de amor, que o néscio mal pudera perder nelas o que não tem. E, falando mais ao ponto da vossa dúvida, o amante, polo ser, não fica néscio, mas parece-o em muitas acções dos sentidos e entendimentos, porque, transportado na imaginação do que ama, se descuida de tudo o que não é sua paixão.

Corte na Aldeia, Francisco Rodrigues Lobo

Segunda-feira, 21 de Fevereiro de 2011

boa noite

A nossa situação é, no meio das avalanches, tentarmos um paisagismo.
(Vasco Gato,
Rusga, Trama, 2010)

«I can't explain myself, I'm afraid, Sir, because I'm not myself you see»

Serge Gainsbourg a Jane Birkin (faltam 21 dias)



"Para lá de todas as coisas amáveis,
para lá de todas as coisas desejáveis,
a tua nudez na ponta dos meus dedos,
uma bola de fumo pairando sobre o piano
e cada poro teu tocado como se fosse
uma tecla, uma tecla emitindo o som
de cordas surdas, as tuas veias, cada
um dos teus nervos, e eu enredado
em ti como o insecto na teia da aranha,
para lá de todas as coisas definíveis,
os contornos do teu corpo à luz
de um tecido transparente, beleza
incomparável acossada pela fealdade
das notas, dos acordes atonais, para
lá de ti, para lá de mim, a paixão
capturada pelas máquinas fotográficas,
projectada numa tela à velocidade
iludente do cinema, para lá das salas,
para lá da luz, nós os dois denegridos,
deitados no quarto escuro da paixão."


"A Dança das Feridas" - Henrique Manuel Bento Fialho

Domingo, 20 de Fevereiro de 2011

Sábado, 19 de Fevereiro de 2011

CH #6


de cada viagem interessa-me sempre mais o regresso do que a partida. cada regresso é sempre uma partida. e agora?

Sexta-feira, 18 de Fevereiro de 2011

CH #6


The minute I heard my first love story
I started looking for you, not knowing
how blind that was.
Lovers don't finally meet somewhere.
They're in each other all along.
The Essential Rumi
, trad. Coleman Barks, HarperOne, 2004




O erotismo e a arte

Entendemos de um modo muito mais nítido o que são os estímulos fundamentais, os verdadeiros estímulos do erotismo quando os comparamos com outros processos por intermédio dos quais a imaginação se exprime com energia, em particular com os da criação artística. Estamos, neste caso, em presença de um parentesco profundo, quase se poderia dizer de um parentesco de sangue, pois, no ato do artista, entram em ação e emergem, sob as forças individualmente adquiridas, forças arcaicas de uma apaixonada emoção. Ambos os casos integram misteriosas sínteses do passado e do presente, o que constitui a experiência fundamental, e em ambos existe a embriaguez de sua interação secreta. Nessas obscuras regiões de fronteira, pouco ou quase nada foi ainda estudado sobre o papel que pode desempenhar, em um caso como em outro, o plasma germinativo; mas como o instinto de criação estética e o instinto sexual apresentam analogias tão extensas, o êxtase estético desliza insensivelmente em êxtase erótico,e este tenta involuntariamente se dotar de um adorno estético - ou talvez tenha revestido directamente a animalidade, tendo o corpo como matéria de criação. Tais fatos parecem demonstrar um crescimento germinado a partir da mesma raiz.
(...)

Reflexões sobre o problema do amor e o erotismo Lou Andreas-Salomé
Landy Editora, 2005

Na grande onda...

Henry Miller a Anaïs Nin



"Se eu te amasse a horas certas,
abririas as pernas com menos cuidado?
Se eu começasse sempre pela língua,
julgar-me-ias menos bruto?
E se eu não te mordesse o pescoço,
acaso continuarias a cravar-me as unhas nas costas?
Se eu não apagasse a televisão. adormecerias aconchegada à minha cintura?
Se eu tomasse banho depois de fornicarmos,
julgarias o acto mais higiénico?
Se em vez do silêncio depois do orgasmo
passássemos a ter uma confissão no olhar,
perdoar-nos-ia deus o desperdício?
Já agora diz-me: se não dependêssemos
um do outro, como é que explicarias
o teu cheiro nas minhas palavras?"


-"A Dança das Feridas" - Henrique Manuel Bento Fialho

I just need the eggs



"Na minha perspectiva, a realidade foi sempre um lugar duro para se viver, mas ainda é o único sítio onde se pode encomendar comida chinesa."


- "Conversas com Woody Allen - Eric Lax


"you said I was everything
but I am just a small part
of your everything
you want everything and me
I don't want your everything
you are my everything
but when I'm gone
I'll be the one
the s,allest part
that will restrain you
from getting everything you want
and you'll have nothing"


- Natvan Odiney -
canção tradicional

Quinta-feira, 17 de Fevereiro de 2011

CH #5

o livreiro falava aquele tipo de inglês que me deixa com vontade de comprar tudo. consegui um desconto, para começar.

Até amanhã!

pequenos apontamentos #2

pequenos apontamentos #1

da repetição

não me queria repetir, mas também não me queria censurar... olho para o lado e está a Maria Gabriela a sorrir. terei sempre que me repetir porque:


110

Poderíamos construir outro corpo a partir
Do pensamento com imagens e emoções de
Menos engano. Inscrever na química que
Nos vai lembrando memórias de um corpo
Onde não estejamos biologicamente tanto.
Lembrar à fantasia que tudo o que não sou
É eu. Salpicá-lo de respiração conjunta com
As árvores. Pedir ao mito que os livros não
Se enredem nas silvas por destino. Saber que
Luar é este que vem de fora, ir procurando.
Desenhar, porque não?, o seu centro num
Ponto que pronto se desloca. Poderíamos.


Maria Gabriela Llansol, O começo de um livro é precioso


e poderia continuar...

Ouvi dizer que é uma primeira edição



1937

To H. L. Mencken

Rapallo, 24 January

(...) The job of a serious writer is to dissociate the meaning of one word from that of some other which the poor boobs think means the same thing.
Obviously until blokes can define the word "money" and ten or dozen more words occuring with equal frequency in econ. writing, their writing will be tosh and their readers remain in same stew they were to start with.
The act of dissociation can just as well, or better, take place re something daily, and concrete as re something in a washed-out Impressionist painting.
(...)


The Letters of Ezra Pound 1907-1941, Faber and Faber

algumas das palavras




Palavras Pintadas

a Pablo Picasso

Para tudo compreender
Tudo
A árvore de olhar de proa
A árvore adorada dos cipós e lagartos
Para compreender o fogo
Para compreender o cego

Para reunir asa e orvalho
Coração e nuvem dia e noite
Janela e país de qualquer parte

Para abolir
A careta do zero
Que amanhã rolará sobre o ouro

Para talhar
As pequenas maneiras
Dos gigantes que se alimentam de si mesmos

Para ver todos os olhos reflectidos
Por todos os olhos

Para ver todos os olhos tão belos
Como o que vêem
Mar absorvente
Para que nos riamos levianamente
De tudo o que sofremos
Do calor e do frio
Da fome e da sede

Para que falar
Seja tão generoso
Como beijar

Para misturar a mulher e o rio
O cristal e a dançarina da tempestade
A aurora e a estação dos seios
Os desejos e a sabedoria das crianças

Para dar à mulher
Pensativa e só
A forma das carícias
Que ela sonhou

Para que os desertos fiquem à sombra
Em vez de estarem na
Minha
Sombra

Dar
Meu
Bem
Dar
Meu
Direito.


Cours Naturel (1938)


Paul Éluard, Algumas das Palavras
Cadernos de Poesia 6
tradução de António Ramos Rosa e Luiza Neto Jorge
Publicações Dom Quixote, 1969

Se eu soubesse dançar convidava-te para um tango *



* início de um poema de Henrique Manuel Bento Fialho

Arpad Szenes a Vieira da Silva ( faltam 26 dias)



"Queria escrever um poema com o teu silêncio,
decifrar-te as sensações enquanto te massajo
o corpo com óleo de amêndoas doces,
escutar os desejos que circulam no teu sangue
sempre que das massagens passamos à mordedura,
ao beijo, ao corpo comparecendo ao corpo.
Nada de segredos sussurados ao ouvido.
Queria transformar cada gemido numa palavra,
num verso, e aprender a ler nos músculos
do teu rosto o prazer com que cada um de nós sente,
à sua maneira, a ferida que está na origem da beleza."

-"A Dança das Feridas" - Henrique Manuel Bento Fialho - 2011

Quarta-feira, 16 de Fevereiro de 2011

Só mesmo no cinema

Esta senhora mora aqui

CH #4

6) Why should I tell you anything true?

I

Why should I tell you anything true?
Why should I tell you anything?
You're not paying me.
i don't do this for money.

Hold out your hand,
your empty hand.
I see.
if I told you what you hold
in the lines in your hand
which as I said is empty,
is full of emptiness,
you'd be annoyed. Oh surely
not, you'd say, You're far too
dismal. Too severe.

I'm doing this to help you.
What would you prefer?
You'd like me to amuse you?
Do do some jigs, or pranks?
I lack the airiness,
I lack the feathers.
That's not what I do.

What I do: I see
in darkness. I see
darkness. I see you.

Margaret Atwood, The Door, Virago Press, 2007

16 de Fevereiro de 2011, eis:



livros que ganham o dia por nós

Gabriela, Gabriela




108

Desde sempre, meu texto pediu à matéria que
Se revele. Perto está a inteligência da consolação.
Não há lugar vazio entre ambas ____________ e
A sopa arrefece. Lado a lado, à mesma mesa, não
Têm palavras para um diálogo conclusivo. Olham
Uma para a outra e, com aquela voz única, de
Ambas conhecida, dizem: «Come, Gabriela.»
E a matéria come.


O começo de um livro é precioso
Maria Gabriela Llansol

Começar todos os dias...

começar o dia

157

Quando acabou sua cisma, Arnaldo aceitou que
A cena ganhara uma nova força - a de dizer e
Claramente. Porque no teatro que desejo,
Contrariamente à escrita que pratico, a voz é uma
Alta alma oscilando entre palavras. Oras as perturba
(E se escondem por detrás dos gestos), ora se deixam
Comover (e se mostram tais quais). Mas não tem
Palavras.


Maria Gabriela Llansol
O começo de um livro é precioso,
Assírio & Alvim

Terça-feira, 15 de Fevereiro de 2011

CH #3

Félix Valloton
Não entrei numa única livraria, talvez por isso me tenha sentido tão próxima dos livros (dos meus livros). Para + info prima a tecla 6.

mimi



"Aprendo a ver. Não sei por que motivo, tudo penetra em mim mais profundamente e não sei se imobiliza no ponto em que se costumava extinguir. Tenho uma interioridade que desconhecia. Tudo agora para aí se encaminha. Não sei o que aí se passa.
Quando hoje estava a escrever uma carta apercebi-me de que estou aqui há três semanas. Três semanas em qualquer outro lugar, no campo, por exemplo, seriam como um só dia, aqui são anos. Também já não quero voltar a escrever cartas. Para que hei-de dizer a alguém que me estou a transformar? Se me estou a transformar, já não sou aquele que fui, e sou diferente do que era até aqui, por isso é óbvio que não conheço ninguém. E é impossível escrever a pessoas desconhecidas, a pessoas que não me conhecem."


As Anotações de Malte Laurids Brigge,
Rainer Maria Rilke

problemas

porque é que quero colocar todos os livros que gostaria de ler, caso tivesse direito a três ou quatro vidas, na montra?

E eles caem...

bom dia alegria

Estalactite

IV

Localizar
na frágil espessura
do tempo,
que a linguagem
pôs
em vibração,
o ponto morto
onde a velocidade
se fractura
e aí
determinar
com exactidão
o foco
do silêncio.

Carlos de Oliveira, Micropaisagem
in Trabalho Poético, Assírio & Alvim, 2003

Segunda-feira, 14 de Fevereiro de 2011

a temperatura do corpo #5



«Por diversas noites, uma jovem religiosa, que sofria mais do que qualquer outra criatura a renúncia aos prazeres do corpo, recolheu os folhetos que alguém, secretamente, fizera passar por baixo da porta fechada da sua cela. Eram pedaços de um papel muito branco, sobre o qual se distinguia uma marca, provavelmente o desenho de uma parte do rosto. Primeiro um olho, uma madeixa de cabelo, depois uma orelha, a boca, a testa, o queixo. A religiosa, unindo os fragmentos, procurou compor o rosto e, com terror, sofria cada vez mais o fascínio que exalava aquela imagem ainda incompleta. Na última noite, quando estava certa que encontraria o último fragmento para completar o rosto do secreto sedutor, acendeu uma vela para queimar aquela imagem de tentação. E apercebeu-se que se tratava do rosto de Deus. Então, um a um, como se fossem hóstias consagradas, engoliu os fragmentos de todo aquele papel.»

Tonino Guerra, "Histórias para uma noite de calmaria" Assírio & Alvim, 2002

CH #2

descobre-se, por exemplo, que tu és tu, onde quer que estejas. a altitude interfere menos do que o que se possa pensar.

e chove e chove e chove e

lê-se:

"Estou sentado a ler um poeta. Há muitas pessoas na sala, mas passam despercebidas. Estão embrenhadas nos livros. Por vezes movimentam-se nas páginas como quem está a dormir e se volta entre dois sonhos. Ah, como é verdadeiramente bom estar entre pessoas que lêem. Porque é que elas não são sempre assim? Podes aproximar-te de uma e tocar-lhe ao de leve: ela nada sente. E se, quando te levantares, deres um leve empurrão ao vizinho do lado e pedires desculpa, ele faz um gesto de assentimento para o lado de onde veio a tua voz, o seu rosto vira-se para ti e não te vê, e tem o cabelo como o de alguém que está a dormir."

As anotações de Malte Laurids Brigge, Rainer Maria Rilke, Relógio d'Água

Na onda

- Então? Então? Conta!

- Lembras-te daqueles dois versos - respondeu ele numa voz fraca:

Seria muito divertido -
se não fosse tão triste...

- Lembras-te?

- Claro que me lembro.

- Pois esses versos aplicam-se admiravelmente à minha primeira surtida. Mas não! Em primeiro lugar, cheguei à conclusão de que não há nada mais fácil do que representar um papel. Ninguém sonhou em desconfiar de mim. Mas houve uma coisa com que não contava: é preciso ter preparada com antecedência uma história qualquer... para quando nos perguntem: "Donde vens? Que viste cá fazer?" - e não sabemos o que dizer. Mas, por outro lado, isso ainda não é o mais importante. Basta entrar numa taberna, beber um copo de vodka e mentir à vontade.

- E tu... mentiste? - perguntou Marianna.

- Claro, menti... como pude. Em segundo lugar, decididamente toda agente está insatisfeita, mas ninguém se preocupa em saber como curar essa insatisfação! (...).



Solo Virgem, Ivan Turguéniev

Solo Virgem

- Que fazer, ma tante! É uma lástima, mas sou louca!

- Tens alguma objecção séria contra ele?

- Oh, absolutamente nada. Apenas o desprezo.

Solo Virgem,
Ivan Turguéniev
Relógio d'Água, 2010


carta de rumos



Naviamente

Esse corpo faz tudo
o que eu penso e não
posso, esgoto-lhe
as manobras evidentes
até à doce razão

do ódio. Matá-lo-ei
um dia sem alibi
ou remorso, não
a obra ou a estátua.
Essa sombra afiada,

o punhal, meu deus
de ironias justiceiras
trazendo vida ao bosque
vencido pelo fogo.
Dizer para dentro

a dor
desta alegria
a dor
desta feroz
alegria.


Carta de rumos,
Helder Moura Pereira,
&etc, 1989

I'm the balance of your thighs

Domingo, 13 de Fevereiro de 2011

CH #1

linguagem universal: futebol. outra coisa: tenho saudades tuas.

Sexta-feira, 11 de Fevereiro de 2011

o instante da minha morte

estás a brincar com a chuva

outra mulher, abrigada da chuva, à porta. fica ali, enquanto eu fico aqui. um homem desce a toda a velocidade com um chapéu de chuva aberto e pesca-a. desapareceram.

falar de um evento deste tipo (mulher do outro lado da montra, de costas, a olhar para cima, decide voltar a descer a rua) é falar da intimidade, é contar um segredo: é para isto que eu olho, é isto que eu vejo.

como a conversa que tive há pouco sobre o impacto de um determinado livro em mim, há coisas que me parecem muito mais profundas do que a narrativa literal de uma vida. quando digo: este livro afectou-me profundamente estou a despir-me e a explicar: é aqui que dói. estou ligada a pessoas cuja biografia pouco me interessa, pessoas com quem falo apenas sobre leituras e que, através dessa cumplicidade, desejo possuir. nada disto tem corpo ou, se o tiver, é aquele corpo da palavra, fininho, sobre o papel. o leitor a quem me dou, é meu. levo-o para casa, ou para Zurique, amanhã de manhã, ando com ele de um lado para o outro, guardo coisas para lhe dizer, da próxima e sempre inesperada vez. tudo isto me dá muito prazer, também porque não me exige nada. vender livros é tocar no outro. o meu trabalho é tocar no outro e deixar-me tocar pelo outro. é por isso que vender livros não é o mesmo que vender batatas

porque quando vendo um livro estou a vender-me a mim.

diário

que bonito, uma rapariga à entrada, de costas para a livraria, e o dia lá fora tão cinzento, as pernas muito compridas, as meias pretas, o casaco curto apertado na cintura, e ela em silêncio, à espera de alguém, não sei, nem sempre falo com as pessoas que entram aqui, às vezes não sou capaz. mas vista daqui é apenas: silhueta feminina de costas para os livros. saiu. disse-me adeus e vi-a virar à direita, o cabelo levantou voo.

domínios

decidir a caminhada: para dentro ou para fora. o ideal seria que a viagem pudesse ser feita, simultaneamente, nos dois sentidos. acumular ou distribuir é quase sempre um dilema que não resolvo. se guardo, perco a experiência do toque. se distribuo, corro o risco de esquecer. é sexta-feira, o dia está tão escuro.

Gonçalo rules

«Nós temos a noção que se pegarmos num copo de água e a bebermos, é um gesto insignificante. Mas passa a ser significativo se pararmos e pensarmos porque estamos aqui, a fazer aquele gesto. O importante e o insignificante não têm a ver com o acto em si, mas muito mais a ver com o olhar exterior. Se observarmos durante muito tempo uma coisa, essa coisa passa a ser importante.»

Gonçalo M. Tavares na Alice

os outros

«Todo esse devorar de livros, desde pequena, é simplesmente preguiça da minha parte. Deixo que os outros formulem aquilo que eu mesma devia fazer. Procuro a confirmação por toda a parte do que em mim vive e se revolve (...)»

E eu ando a ser espancada pela Etty, que já trato por tu, com quem acordo, almoço, lancho e durmo. Estou cheia de nódoas negras.

Quinta-feira, 10 de Fevereiro de 2011

antena

quantas portas tem uma livraria? entra-se por onde se sai? não sei se os dias são circulares apenas por acabarem onde começam (na cama). uma livraria tem forma? tem fio? e move-se? ou está lá, parada, no lugar de sempre?

cadernos para uma breve história da Trama #6

sobre o mercado dos livros: antigamente usava-se, para trabalhar, o word. hoje tudo é ditado pelo excel.

bora

a pose

estou a perder a pose, é curioso. a pose era um instrumento precioso na defesa daquilo que se quer preservar - a identidade. servia, ou costumava servir, para não se porem a achar que me conheciam de algum lado. agora que a vou perdendo é como se, até mesmo calada, estivesse com as cuecas à mostra. Cuecas brancas grandes e largas, com os elásticos pendurados, como todas as livreiras têm, claro.

Quarta-feira, 9 de Fevereiro de 2011

diário dos mesmos pesares #6



«Odiava, odiava, odiava o mundo. Odiava e evitava tudo o que existia, se movia e vivia. E então chegaste tu, fresco, tolo, desajeitado, insolente e com o aroma de emoções incorruptas em flor, e eu, como é natural, reagi com violência, mas assim que te vi sabia já que tu eras um esplêndido rapaz, caído do céu, enviado e oferecido, assim me parecia, por um deus omnisciente.»

Robert Walser, "Jakob van Gunten", Relógio d´Água, 2005

oh não, mataram o kenny outra vez!

Por razões que ultrapassam o entendimento humano, a Trama tem tentado estar aberta durante o maior número de horas possível. O possível tem vindo a encolher mas, ainda assim, podem contar connosco entre as 11h00 e as 19h00 de segunda a sexta-feira. Ao Sábado fechamos uma hora mais cedo, às 18h00. Assim que o calor aumentar prometemos ficar até mais tarde. Até lá, aproveitem a hora de almoço e passem cá para ver as novidades.

com cinco... ou seis, às vezes

"Talvez agonizássemos todos e todos nós esperássemos cantar, movidos pela agonia alheia, talvez estivéssemos ligados por insondáveis tramas de inocência e culpa, e as vozes fossem um obscuro esforço de libertação." (Herberto Helder)


"Estamos mesmo no princípio, percebes? Como
que antes de tudo.
Com mil e um sonhos para trás de nós e parados."


-"Notas sobre a melodia das coisas" - Rainer Maria Rilke - Averno ( acabadinho de chegar)

Bom dia ( faltam 3 meses)

Terça-feira, 8 de Fevereiro de 2011

até já

senilidade

«Desde logo, com as primeiras palavras que lhe dirigiu, pretendeu avisá-la de que não tencionava comprometer-se com uma relação muito séria. Falou, pois, mais ou menos assim: - Amo-te muito e, para teu bem, desejo que ambos concordemos em agir com precaução. - As suas palavras eram tão prudentes que se tornava difícil acreditar que fossem ditas por amor de alguém e, com um pouco mais de franqueza teriam soado assim: - Gosto muito de ti, mas na minha vida jamais poderás passar de um brinquedo. Tenho outros deveres, a minha carreira, a família...»

[Italo Svevo]

alteração de horário para hoje

Hoje temos que fechar mais cedo, não porque me esteja a saber muito bem ler o Diário da Etty, mas porque é assim o dia-a-dia, cheiinho de surpresas. Saímos às 18h30 e regressamos às 21h00 para o curso de Literatura Portuguesa.

adormeci assim

Segunda-feira, 7 de Fevereiro de 2011

em nome da Tulipa



©Solondz,Todd;2009

cadernos para uma breve história da Trama #5

Quando tens uma livraria há sempre muita gente disposta a dizer-te o que deves fazer - aquilo que, se tivessem tido uma livraria, teriam feito.

Actuação Escrita



"Pode-se escrever

Pode-se escrever sem ortografia
Pode-se escrever sem sintaxe
Pode-se escrever sem português
Pode-se escrever numa língua sem se saber essa língua
Pode-se escrever sem saber escrever
Pode-se pegar na caneta sem haver escrita
Pode-se escrever na escrita sem haver caneta
Pode-se pegar na caneta sem haver caneta
Pode-se escrever sem caneta
Pode-se sem caneta escrever caneta
Pode-se sem escrever escrever plume
Pode-se escrever sem escrever
Pode-se escrever sem sabermos nada
Pode-se escrever nada sem sabermos
Pode-se escrever sabermos sem nada
Pode-se escrever nada
Pode-se escrever com nada
Pode-se escrever sem nada

Pode-se não escrever"


- Pedro Oom - " A Intervenção Surrealista" -
"The only person standing in your way is you."




The answer we are looking for is art


"El ojo que tu ves no es ojo porque lo veas es ojo porque te ve"

- António Machado -

"La poésie ne rythmerà plus l'action: elle serà en avant"



- Sr Rimbaud -
"que fazer para ab(r)an(d)ar o mundo?
sentar
sobre uma esteira e parar

dançar sobre velhos hábitos?
correr à velocidade da luz para alcançar a iluminação moderna?
abraçar ou deixar de abraçar?
esperar?
deixar claro que as grandes dificuldades
existem apenas para superar?
sentar na areia e fazer de trinta
minutos uma vida?
usar fórmulas antigas?
vaguear o olhar pela cidade
deixar olhos
ofuscados de excessos
à janela
e escutar a voz de Blake
antes de derramado e
exausto sobre visões
deca
ssi
lábicas
vértice da construção
planar
tronco
justo encostado
da mesma raiz se erguem
perdi
a conta das alianças
e sobre elas
sei
que vivo minha terceira vida
mais antiga"


- Adamac Ibn Aras -

Sábado, 5 de Fevereiro de 2011

a vida não é um sonho #8



«Mas chegámos a uma estação de comboios. Aqueles que tinham lugar perto das janelas disseram-nos o nome da estação:
- Auschwitz.
Ninguém tinha ouvido falar daquele nome.
O comboio não voltava a partir. O meio-dia passou lentamente. Depois, as portas do vagão deslizaram. Podiam sair dois homens para procurar água.
Quando voltaram, contaram que tinham conseguido saber, em troca de um relógio de ouro, que se tratava do término. Íamos desembarcar. Aqui existia um campo de trabalho. Com boas condições. As famílias não seriam separadas. Somente os jovens iriam trabalhar nas fábricas. Os velhos e os doentes tratariam da terra.
O barómetro da confiança deu um salto. Era a súbita libertação de todos os terrores das noites anteriores. Demos graças a Deus.»

Elie Wiesel, "Noite", Texto Editora, 2003

Sexta-feira, 4 de Fevereiro de 2011

a Trama é uma livraria mimada

um texto da Rosa sobre o tal pomposo curso de Literatura Portuguesa.

António Maria Lisboa

«Olhar é desaparecer.»

que parva que eu sou

de Abarcar toda a realidade sem exclusão


"Politicamente a Metaciência ao pronunciar-se dirá que a verdadeira democracia só será possível quando todos os homens forem poetas. Mas isso não chama ela democracia - mas ANARQUIA!

Cesariny, quanto gostaria de ver a meu lado tu e todos os outros - desta vez não com a sombra de um Breton - mas com os nossospróprios corpos! na conquista de mais um impossível, de mais um mundo que está perdido - a elaborar a imaginação do Mundo!"


- António Maria Lisboa -
-"A Intervenção Surrealista"

"No círculo da sua acção, todo o verbo cria o que afirma"

não bastasse o Karamazov

só me lixam.

diz o Francisco que foi o Esteves Cardoso que escreveu

"Quero fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão. Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado.
Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria.
Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em "diálogo". O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios. Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam "praticamente" apaixonadas.
Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço. Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje.
Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do "tá tudo bem, tudo bem", tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas. Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo?
O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso "dá lá um jeitinho sentimental". Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade. Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar. O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto.
O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A "vidinha" é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não dá para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende. O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem.
Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir.
A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a vida inteira, o amor não. Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também."

Quinta-feira, 3 de Fevereiro de 2011

Retrato de Família #13



Jack L. Karamazov (1876-1916)

«O dinheiro... só podia deitar-me numa cama de cada vez, e de que valia um rendimento diário de cem cervejarias quando só podia comer numa?»

História não autorizada de Bizâncio



-"The Secret History" - Procópio de Cesareia

-Belisarius and Antonina
- Justin, Justinian and Theodora
- The crimes of Theodora
- The Ruin of Various Classes of the Community
- The Arrogance of the Imperial Pair

É tão bom que até a foto saiu desfocada



-"Bestiário" - Julio Cortázar

Uma delícia



-"Contos de Odessa" - Isaac Babel

"A minha carne é o teu nevoeiro perpétuo"*





*- Pedro Oom -

Je ne mange pas de ce pain-là



"De Mário Cesariny para o poeta Jorge de Sena:«Meu caro Jorge de Sena / Recebida a sua carta-circular onde me anuncia estar eu incluído no terceiro volume das Líricas Portuguesas por si, Jorge de Sena, organizado, mas ainda, felizmente, em preparação, venho dizer-lhe que será de meu total desagrado a efectivação de tal anúncio, pelo que muito lhe peço e recomendo me não faça participar do vosso ramalhete dos talentos. Como sabe, esteja eu certo, esteja errado - não é para discutir - são-me sumamente repelentes as alegrias excursionistas proporcionadas por esse tipo de assembleia nacional. Se não lhe faz um transtorno por aí além, prefiro solitário o meu próprio detrito - evola-se muito mais depressa sem acumulação por monturo nos terrenos baldios da capital. Creio, aliás, e isto é uma resposta à sua proposta de sugestões, que: antologias, só tendenciosíssimas, apaixonadamente tendenciosas; como seria de organizar algumas se entretretanto não estivéssemos todos a morrer. / Da inclusão do meu camarada António Maria Lisboa falará, como é óbvio, a sua própria obra.
Pela parte que me toca no assunto, fecho-o com uma pergunta: será possível que você, Jorge de Sena, a ter lido o que o António Maria Lisboa publicou, pense, presencisticamente, em incluí-lo, cadáver, poemas, ossos, tudo, em banquete tão sociedade de recreio e tão concomitante gracinha do meio editorial português?
J. de S. não só inclui os poetas em questão como lhes estabelece fichas biobibliográficas tão retorcidas como a cabeça dele."


-"A Intervenção Surrealista" - Mário Cesariny

Quarta-feira, 2 de Fevereiro de 2011

O que é um corpo?


É uma respiração que fala.


Metamorfoses do Corpo, José Gil,
Relógio d'Água, 1997

Perseguido por este poema



"Transforma-se o amador na coisa amada, com seu
feroz sorriso, os dentes,
as mãos que relampejam no escuro. Traz ruído
e silêncio. Traz o barulho das ondas frias
e das ardentes pedras que tem dentro de si.
E cobre esse ruído rudimentar com o assombrado
silêncio da sua última vida.
O amador transforma-se de instante para instante,
e sente-se o espírito imortal do amor
criando a carne em extremas atmosferas, acima
de todas as coisas mortas.

Transforma-se o amador. Corre pelas formas dentro.
E a coisa amada é uma baía estanque.
É o espaço de um castiçal,
a coluna vertebral e o espírito
das mulheres sentadas.

Transforma-se na noite extintora.
Porque o amador é tudo, e a coisa amada
é uma cortina
onde o vento do amador bate no alto da janela
aberta. O amador entra
por todas as janelas abertas. Ele bate, bate, bate.
O amador é um martelo que esmaga.
Que transforma a coisa amada.

Ele entra pelos ouvidos, e depois a mulher
que escuta
fica com aquele grito para sempre na cabeça
a arder como o primeiro dia do verão. Ela ouve
e vai-se transformando, enquanto dorme, naquele grito
do amador.
Depois acorda, e vai, e dá-se ao amador,
dá-lhe o grito dele.
E o amador e a coisa amada são um único grito
anterior de amor.

E gritam e batem. Ele bate-lhe com o seu espírito
de amador. E ela é batida, e bate-lhe
com o seu espírito de amada.
Então o mundo transforma-se neste ruído áspero
do amor. Enquanto em cima
o silêncio do amador e da amada alimentam
o imprevisto silêncio do mundo e do amor."



- Herberto Helder -

Quem se esconde por trás de Agustina Izquierdo?



-"Um Amor Puro" - Agustina Izquierdo


Agustina Izquierdo é um pseudónimo, por detrás do qual se esconde seguramente um grande escritor francês.
Quem será?

da Sedução



-"Textos Secretos" - Marguerite Duras