«O ser é suspeito. O que dizer então da "vida", que consiste no desvio e no envilecimento do ser?»
Quinta-feira, 31 de Março de 2011
vamos lá ver se me faço entender
Para cada afogado tem que haver uma mão que o possa arrancar às águas, isso é óbvio. O que podem fazer dois afogados juntos, ver quem vai primeiro com a corrente? E depois há os afogados a quem uma mão não basta, grupo em que me incluo, esse tipo de gente que está sempre com um pé na areia e outro no mar, a ver quem passa. Cada qual com o seu método.
De cada vez que me afogo grito do oceano: odeio-te. Tenho sempre esperança que alguém perceba que é a minha forma de pedir socorro. Quase nunca resulta. Por isso, depois de estar ali a esbracejar um bom bocado, grito: foste tu que me empurraste.
De cada vez que me afogo grito do oceano: odeio-te. Tenho sempre esperança que alguém perceba que é a minha forma de pedir socorro. Quase nunca resulta. Por isso, depois de estar ali a esbracejar um bom bocado, grito: foste tu que me empurraste.
Quarta-feira, 30 de Março de 2011
Orelhas de Elefante #17
para rapariguinhas maduras

June Tabor, "Ashore", Topic Records, 2011
para meninos crescidos

Bill Callahan, "Apocalypse", Drag City, 2011
Porque há musicas de outras dimensões.
«Toda a atracção acontece mediante estímulo. Tudo o que nos excita, atrai-nos.»
NovalisTerça-feira, 29 de Março de 2011
a confissão impúdica
Estou em crer que o meu principal problema é sexual - uma disfunção muito simples, chamada "o feminino", ou qualquer coisa assim. Não se trata propriamente de uma malformação, é antes uma condição. É que uma pessoa passa a vida a ler romances mas, na hora da verdade, acaba sempre por exclamar «os homens são horríveis!». Uma pessoa tenta obter alguma instrução, faz pela vida, vê cinema francês, italiano, russo, ouve música, lê os suplementos culturais dos jornais, trabalha, reflecte, escreve, para no fim acabar por dizer uma barbaridade deste tipo, assim, sem mais nem menos, como se isso resumisse tudo. «Os homens» e ponto final. Questiúncula de merda. Oh, se eu pudesse escapar dos meus momentos Nora Roberts, que alívio. Mas há sempre uma Isabel Allende a querer sair de mim, como se esses anos primeiros, cheios de clichés, revistas femininas, histórias de família, tivessem sempre mais força do que todo o empenho em descobrir um pensamento, não mágico, mas pelo menos coerente. É que começa a parecer-me impossível conduzir-me a um lugar onde o que penso coincida com o que sinto. É como se uma cozinheirazeca, uma mãezinha de aldeia, uma mulherzinha amorosa, estivesse sempre aqui dentro em alerta, pronta para dizimar a escritora que não consigo ser, a mulher segura que adio para os 40, e, já sabem o resto, blablabla. Hoje despeço-me do cargo semi-público - qual livreira, qual quê. I'm just a girl, não se deixem impressionar. Tão, tão rapariguinha, que até mete nojo.
Some are born to sweet delight, some to the endless night

"Canto o teu corpo
passados estes tempos:
o prazer que me
acendes
o espasmo que semeias
A seara das pernas
o peito
os teus dentes
a língua que afago
e as ancas estreitas
Canto a tua
febre
fechada no meu ventre
Canto o teu
grito
e canto as tuas veias
Canto o teu gemido
teu hálito
teus dedos
Canto o teu corpo
amor que me encandeia"
- Maria Teresa Horta -
em caso de emergência, Rilke
"É tão novo, está tão no princípio, que eu gostava de pedir-lhe, o mais que posso, caro senhor, que seja paciente quanto a tudo o que está ainda por resolver no seu coração e que tenha amor às próprias interrogações como se fossem salas fechadas e livros escritos numa língua muito estranha. Não indague das respostas que não lhe podem ser dadas porque não as poderia viver. E trata-se de viver tudo. Para já, viva as questões."
e agora?
Ontem à noite, enquanto me esforçava por encontrar alguma razão no sono, percebi que o que me aconteceu foi qualquer coisa como aquilo por que passou certa rapariga de um conto da Flannery O'Connor: mostrei o sítio onde a perna de plástico se une ao corpo.
incerta chama

Falando-se de poesia, por exemplo, alguém diz:
incerta chama
e desde logo esse fragmento da língua estremece e se desdobra. A poesia é dita segundo a forma ou a figura da chama que perpetuamente, ou seja até morrer, oscila e ondula segundo a vertical de uma árvore ou tão-só de uma haste cujo desenho no ar e nos teus olhos a luz movesse. In statu nascendi: perpetuum mobile. No seu movimento perpétuo, a poesia inventa e reinventa a sua origem ou o seu modo de chegar.
Manuel Gusmão, Tatuagem & Palimpsesto: da poesia em alguns poeta e poemas, Assírio & Alvim, 2010
Segunda-feira, 28 de Março de 2011
teoria da Conspiração #22 (ou a Trama Broncodilatadora)

«- Serias um amor, querida Chloé, se as tomasses!
- Eu bem quero - disse Chloé - mas tens de me beijar.
- Combinado - disse Colin. - Não ficas aborrecida por beijares um marido desprezível como eu?...
- É verdade que não és bonito - disse Chloé, arreliadora.
- Não tenho culpa.
Colin baixou o nariz.
- Não durmo o bastante - continuou.
- Beija-me, Colin querido, sou muito má. Dá-me duas pílulas.
- És louca - disse Colin. - Só uma. Vá, engole...
Chloé fechou os olhos, empalideceu e levou a mão ao peito.
- Já está - disse com esforço. - Vai recomeçar...»
Boris Vian, "A Espuma dos Dias", Relógio d'Água, 2001
ninguém sabe que eu não moro cá
Escusado será explicar que nem sempre é possível uma pessoa morrer. Eu rezei muitas vezes para que um carro me passasse por cima e, confesso, ainda hoje, em certos dias, ando pelas ruas com a secreta esperança de que algo muito trágico aconteça. Alguém poderá dizer que seria mais eficiente que, em vez de alimentar este sonho, eu poderia subir a uma ponte e pura e simplesmente saltar. Mas nem sempre é possível uma pessoa morrer, assim, porque quer. É preciso que seja natural, isto é, que a culpa seja da vida e não de alguém, vivo ou morto, a quem se possa apontar o dedo. Então as pessoas diriam: ela não merecia isto. Ou: era tão nova, tinha tanto pela frente.
Mas tudo isto, meus senhores, não é completamente verdade. É que é preciso que ninguém tenha culpa para que todos possam ter culpa. No fundo, faltando amor, que haja ao menos pena, faltando corpo, que sobre um pouco de saudade. Morrer seria a minha forma de chamar a atenção, de uma vez por todas, e agora, percebes? diria eu, deitada no asfalto, morta de contentamento. Mas não há maneira, pronto, é preciso que isto fique claro: nem toda a gente pode morrer. Eu, pessoalmente, agora não posso.
Mas tudo isto, meus senhores, não é completamente verdade. É que é preciso que ninguém tenha culpa para que todos possam ter culpa. No fundo, faltando amor, que haja ao menos pena, faltando corpo, que sobre um pouco de saudade. Morrer seria a minha forma de chamar a atenção, de uma vez por todas, e agora, percebes? diria eu, deitada no asfalto, morta de contentamento. Mas não há maneira, pronto, é preciso que isto fique claro: nem toda a gente pode morrer. Eu, pessoalmente, agora não posso.
Domingo, 27 de Março de 2011
a temperatura do corpo #6

Robert Louis Stevenson, "O Estranho Caso do Dr. Jekyll e do Sr. Hyde e outros contos", Assírio & Alvim, 2007
Sábado, 26 de Março de 2011
Sexta-feira, 25 de Março de 2011
Há frases que escorrem da boca como mel
"Resvalo pela tua tarde como o cansaço pela piedade de um declive.
A noite nova é como uma asa sobre as tuas açoteias."
- Jorge Luis Borges -
Viagem ao fim da noite

" Com a tarde
cansaram-se as duas ou três cores do pátio.
Esta noite a luz, o claro círculo,
não domina o seu espaço.
Pátio, céu demarcado.
O pátio é o declive por onde se derrama o céu na casa.
Serena,
a eternidade espera na encruzilhada de estrelas.
Grato é viver na amizade escura
de um saguão, de uma latada e de uma cisterna."
-"Obras Completas Vol1" - Jorge Luis Borges
Quinta-feira, 24 de Março de 2011
Quarta-feira, 23 de Março de 2011
Irmão Karamazov
Que o medo não te tolha a tua mão
Nenhuma ocasião vale o temor
Ergue a cabeça dignamente irmão
Falo-te em nome seja de quem for
No princípio de tudo o coração
como o fogo alastrava em redor
Uma nuvem qualquer toldou então
céus de canção promessa e amor
Mas tudo é apenas o que é
levanta-te do chão põe-te de pé
lembro-te apenas o que te esqueceu
Não temas porque tudo recomeça
Nada se perde por mais que aconteça
uma vez que já tudo se perdeu
Ruy Belo, Todos os Poemas, Assírio&Alvim, 2009
Nenhuma ocasião vale o temor
Ergue a cabeça dignamente irmão
Falo-te em nome seja de quem for
No princípio de tudo o coração
como o fogo alastrava em redor
Uma nuvem qualquer toldou então
céus de canção promessa e amor
Mas tudo é apenas o que é
levanta-te do chão põe-te de pé
lembro-te apenas o que te esqueceu
Não temas porque tudo recomeça
Nada se perde por mais que aconteça
uma vez que já tudo se perdeu
Ruy Belo, Todos os Poemas, Assírio&Alvim, 2009
Segunda-feira, 21 de Março de 2011
a poesia não me interessa #22

«A boca de uma rapariga que tinha jazido muito tempo entre canaviais
estava toda roída.
Quando lhe abriram o peito, o esófago estava todo esburacado.
Finalmente, num recanto sob o diafragma,
encontraram um ninho de jovens ratazanas.
Um dos irmãozinhos estava morto.
Os outros viviam de fígado e de rins,
bebiam o sangue frio, e aqui
tinham passado uma bela juventude.
Bela e rápida foi também a sua morte:
Lançaram-nos todos à água.
Ah, como os pequenos focinhos chiavam!»
Gottfried Benn in "A Alma e o Caos - 100 poemas expressionistas", selecção e tradução de João Barrento, Relógio D' Água, 2001
sofia gomes

e depois sonhei com uma batata que me escorregava continuamente das mãos, e que eu a lavava, para depois voltar a deixá-la cair, não imaginas o horror, e o que sonhei a seguir, cada vez mais improvável: podes tentar enganar-te o dia todo que de noite, darling, acabas sempre afogada.
Domingo, 20 de Março de 2011
Quinta-feira, 17 de Março de 2011
Terça-feira, 15 de Março de 2011
John Lennon a Yoko Ono

"Quando dormes para o lado dos meus sonhos,
das minhas angústias graníticas,
e tocas como os sinos por dentro do meu corpo,
trazendo-me à pele o suor do amor.
Quando espias os meus dedos por baixo dos lençóis,
deixando as promessas prolongarem-se pela carne
como o vento se prolonga pelas sementeiras,
relembrados no sono da criança ao nosso lado adormecida.
Quando dizes: os teus olhos brilham no meu canto,
ouço sem esmero nem glória a música do teu corpo."
-"A Dança das Feridas" - Henrique Manuel Bento Fialho
Segunda-feira, 14 de Março de 2011
[...]
é que de há uns tempos para cá não há nenhum anónimo likes this que me aconchegue o coração. love, love this, please.
Sábado, 12 de Março de 2011
Agio

AOS POUCOS A VIDA
Arrumar aos poucos
a vida nas gavetas:
blusas de cetim
vestidos de musselina
sobre postais bilhetes fotografias
- e um ligeiro aroma a sândalo.
Confiar os pequenos adereços
aos seus lugares de esquecimento
e guardar com eles a complexa
indefinição da memória,
como se todos os refúgios
fossem um tempo subtraído à vida.
Sara M. Felício
Antonin, Antonin...
«Reencontrar-se num estado de extrema comoção, esclarecida de irrealidade, com pedaços do mundo real num recanto de si próprio.»
see line
Não sei em que gaveta se deve guardar o que nunca terá perdão. Suponho que haja formas de seguir em frente - por exemplo, apagando um número de telefone, evitando certas ruas, fingindo que uma ou outra página não só não existem como, na verdade, nunca existiram. Outra ideia: negando a crença antiga, o amor passado, a performance desempenhada, isto é, dizendo que aquilo que na altura vivemos não era bem o que pensávamos estar a viver, mas outra coisa, diversa, que só agora entendemos. A perspectiva está na origem da crença e não há um lugar seguro de onde avistar os navios. Um juízo forte pode ter por base essa coisa que chamamos de Razão, mas pode, pelo contrário, vir de uma intuição de outro lado do mundo. Para encontrar algum equilíbrio, tenho que intercalar Musil com Artaud. Não aguento com o peso de uma visão justa se não puder estar também por detrás dos olhos de um louco.
Para me livrar daquilo que não tem perdão li, ainda sem o saber, o diário da Etty Hillesum. Nesses dias visionários não só perdoei como dei graças a tudo quanto compõe a minha pequena história. Digo pequena não por motivos de duração mas sim porque o é, efectivamente, na história do mundo. E num momento de fervor vi-me de cima, fui subindo, de olhos postos numa noite qualquer, afastei-me da terra, desviei-me dos astros nomeáveis, cheguei até onde não há nada que conheçamos, e quando olhei para baixo eu já não existia. E se eu não existo, se tudo isto, à luz do porvir, não é nada, então o perdão também não existe - o mal nunca foi uma coisa pessoal, os meus arqui-inimigos nunca o foram, realmente, se não na minha cabeça (agulha), não existe o pai, a violência silenciosa de uma cidade do interior, a solidão da maternidade, a traição, o erro estratégico em loop.
Para me livrar daquilo que não tem perdão li, ainda sem o saber, o diário da Etty Hillesum. Nesses dias visionários não só perdoei como dei graças a tudo quanto compõe a minha pequena história. Digo pequena não por motivos de duração mas sim porque o é, efectivamente, na história do mundo. E num momento de fervor vi-me de cima, fui subindo, de olhos postos numa noite qualquer, afastei-me da terra, desviei-me dos astros nomeáveis, cheguei até onde não há nada que conheçamos, e quando olhei para baixo eu já não existia. E se eu não existo, se tudo isto, à luz do porvir, não é nada, então o perdão também não existe - o mal nunca foi uma coisa pessoal, os meus arqui-inimigos nunca o foram, realmente, se não na minha cabeça (agulha), não existe o pai, a violência silenciosa de uma cidade do interior, a solidão da maternidade, a traição, o erro estratégico em loop.
Sexta-feira, 11 de Março de 2011
redenção
o que me safa é que cada generalização é redimida por cada particularização. isto é: o mundo é uma coisa horrorosa / gosto tanto da joana jacinto.
dicotomias de um catálogo (e de uma vida)
(a propósito, os livros da Assírio&Alvim hoje e amanhã estão com 20% de desconto sobre o preço de venda)
há clientes a folhear livros mas eu estou a fingir que não os vejo
o que é estranho é que somos egocêntricos quando queremos que nos achem importantes (no sentido íntimo da coisa) mas não somos egocêntricos o suficiente para que o sentirmo-nos importantes (de nós para nós) nos baste. é preciso que o outro venha confirmar o que já achávamos. e se esse outro não nos achar tão importantes como nós achamos que ele devia achar há problemas. os blogues, sem que o saiba explicar, têm qualquer coisa a ver com isto.
se não me perguntarem, não digo

e assim se resume a minha pouco interessante vida. quanto melhor estou menos tenho para dizer. é bom porque vos poupo. é mau porque me sinto ausente. é que ainda não consegui decidir o que prefiro: esta paixão muito terna pela vida (que é um bocado pirosa, convenhamos) ou andar por aí aos caídos com uma meia cor-de-rosa rota num joelho. a via do meio parece-me impossível, simplesmente.
heróis
A ansiedade em que ficamos quando, por alguma razão, deixamos de intervir naquele que consideramos o nosso cenário terá que ver, penso eu (que estou com frio nos pés), com o problema que é descobrir uma identidade alheia a um contexto. Associamos quem somos ao que fazemos e quando não o fazemos deixamos de saber quem somos. E depois escrevemos pequenos textos em que falamos de nós sem saber muito bem se devíamos era estar a falar de mim.


Quinta-feira, 10 de Março de 2011
depois de comer o i da Assírio
nos dias 11 e 12 de Março, sexta-feira e sábado, todos os livros da Assírio&Alvim estarão com 20% de desconto aqui na livraria.
(hoje estou a comer letras, estúpida)
(hoje estou a comer letras, estúpida)
estilhaços da madrugada (chi)
Quarta-feira, 9 de Março de 2011
crimes exemplares
"No ano de 1992, quando eu ainda acreditava que a função do crítico literário fosse a de produzir avaliações, vereditos e sentenças, caiu-me nas mãos Sonhos tropicais, o décimo-segundo romance de Moacyr Scliar. Há muito deixei de ver no crítico um espécie de juiz de peruca, que interroga, absolve, ou condena uma obra. Naquela época, contudo, por insegurança, por teimosia, por medo de errar, ainda insistia em dizer se um livro era bom, ou era ruim.
Não gostei de Sonhos tropicais e, em uma resenha que escrevi para uma revista semanal, disse isso com todas as letras. Baseado na vida do sanitarista Oswald Cruz _ figura central na vida de Scliar, ele próprio um médico sanitarista _, Sonhos tropicais me pareceu um livro temeroso em que seu autor, refém das rigorosas exigências da pesquisa, não conseguiu se dar a liberdade que deveria e merecia se dar.
Hoje não sei se teria a mesma opinião. De fato, não aprecio as biografias romanceadas, gênero que me parece, em geral, preguiçoso e frouxo. Ocorre que Scliar não apresentava seu livro como uma biografia romanceada, mas como um romance _ e foi isso, talvez, o que me incomodou. Talvez, pensei, ele não tivesse se decidido muito bem a respeito do livro que queria escrever. Talvez... mas o que importa! Nunca mais voltei a ler Sonhos tropicais, mas planejo fazer isso em breve, para matar um pouco as saudades do amigo que hoje perdi.
Publicada minha desagradável resenha, pensei: Scliar me odiará para sempre. Não o procurei mais, nem ele me procurou, o que parecia provar a tese da ruptura. Quase um ano depois, porém, caminhava eu pela Rua da Praia, em Porto Alegre, quando o avistei de longe. Vinha em minha direção. Pensei em mudar de caminho, mas o correto era seguir em frente e enfrentá-lo, e foi o que fiz.
"Precisamos nos falar por dois minutos", ele me disse, sem disfarçar a ansiedade. Pensei: "Pronto: chegou a hora de ouvir o que mereço ouvir". Não me deixou pensar, foi rápido: "Por que não tomamos um café?" Aceitei; eu não tinha escolha. Na esquina, nos perfilamos diante do balcão de uma confeitaria. Durante um ou dois minutos, nem eu, nem Scliar conseguíamos dizer qualquer coisa. Até que ele, num desafogo, me disse: "Você sabe no que estou pensando". Não podia negar que sabia: "É claro, no livro do Oswaldo Cruz".
Admitiu, então, que, ao ler minha resenha, ficara furioso. Mais ainda, ficara decepcionado, pois nela sentira a ponta secreta de uma traição. Durante alguns dias, recordou ainda, ensaiou respostas incisivas que me daria em um telefonema. Aos pouco, contudo, a dor abrandou e, me disse Scliar já com um esboço de sorriso, ele conseguiu enfim a pensar.
Não adoçou as palavras: "Quero lhe dizer que você tem toda razão no que escreveu". Abriu, então, um sorriso vasto e longo, de alívio, mas também de gratidão. Enfim, continuou: "Depois que a raiva passou e que controlei a vaidade, consegui enfim aceitar o que você me diziar". Nos dias seguintes, refletiu sobre seu caminho literário, lutou para se observar desde fora. Quanto a mim, estava imobilizado. Cedesse à vaidade, e passaria a acreditar, enfim, que era um "grande crítico". Quanta tolice! Minha resenha era não só pequena, mas despretenciosa. Limitei-me a esboçar uma impressão muito breve. Forte era Scliar que, machucado por minhas palavras, soube, ainda assim, lhes emperstam uma grandeza que não tinham.
Vitória do leitor: são os leitores, no fim das contas, que fazem os grandes livros. Era só nisso, na verdade, que eu conseguia pensar. Se ainda tinha dúvidas a respeito do destino de nossa conversa, elas se dissiparam quando Scliar me disse: "Deixe eu lhe dar um abraço. De agradecimento. Agradecer pela sua coragem, e lhe dizer que você me obrigou a ser corajoso também". É com dificuldades que recordo as palavras que trocamos. Não só porque muitos anos se passaram, mas também porque estávamos, ambos, engolfados pela emoção. Em silêncio, nos abraçamos _ e aquele abraço foi mais eloquente que qualquer palavra. Guardava uma força crítica que, em minhas resenhas literárias, jamais consegui. Não era uma crítica para me destruir, era uma crítica para me acolher. Era para dizer: "Podemos divergir e, apesar disso, caminhar juntos".
Não que, quando escrevi minha resenha de Sonhos tropicais, eu tenha desejado destruir a reputação de Scliar _ tarefa, aliás, em que eu teria sido derrotado. Ao contrário: julguei que, ao escrever, apenas me submetia às exigências da verdade _ e Scliar foi grande o bastante para entender isso. Existem, porém, muitas maneiras de dizer uma mesma coisa. Só um coração corajoso como o de Scliar suportaria meus restos de imaturidade (aos 40 anos!) e meus atropelos.
"Você tira um elefante de minhas costas", consegui, enfim, dizer. "Eu sempre me perguntei se tinha sido cruel. Se errara não só no que pensava, mas na maneira de dizer o que pensava". Nesse momento, o médico Scliar se impôs ao escritor Scliar. Ele me interrompeu: "A verdade é sempre dolorosa, mas precisa ser dita". Desde então, uma amizade muito funda, sincera, um forte laço de confiança, nos ligou. Nunca fomos amigos íntimos, mas nos tornamos amigos intensos."
Não gostei de Sonhos tropicais e, em uma resenha que escrevi para uma revista semanal, disse isso com todas as letras. Baseado na vida do sanitarista Oswald Cruz _ figura central na vida de Scliar, ele próprio um médico sanitarista _, Sonhos tropicais me pareceu um livro temeroso em que seu autor, refém das rigorosas exigências da pesquisa, não conseguiu se dar a liberdade que deveria e merecia se dar.
Hoje não sei se teria a mesma opinião. De fato, não aprecio as biografias romanceadas, gênero que me parece, em geral, preguiçoso e frouxo. Ocorre que Scliar não apresentava seu livro como uma biografia romanceada, mas como um romance _ e foi isso, talvez, o que me incomodou. Talvez, pensei, ele não tivesse se decidido muito bem a respeito do livro que queria escrever. Talvez... mas o que importa! Nunca mais voltei a ler Sonhos tropicais, mas planejo fazer isso em breve, para matar um pouco as saudades do amigo que hoje perdi.
Publicada minha desagradável resenha, pensei: Scliar me odiará para sempre. Não o procurei mais, nem ele me procurou, o que parecia provar a tese da ruptura. Quase um ano depois, porém, caminhava eu pela Rua da Praia, em Porto Alegre, quando o avistei de longe. Vinha em minha direção. Pensei em mudar de caminho, mas o correto era seguir em frente e enfrentá-lo, e foi o que fiz.
"Precisamos nos falar por dois minutos", ele me disse, sem disfarçar a ansiedade. Pensei: "Pronto: chegou a hora de ouvir o que mereço ouvir". Não me deixou pensar, foi rápido: "Por que não tomamos um café?" Aceitei; eu não tinha escolha. Na esquina, nos perfilamos diante do balcão de uma confeitaria. Durante um ou dois minutos, nem eu, nem Scliar conseguíamos dizer qualquer coisa. Até que ele, num desafogo, me disse: "Você sabe no que estou pensando". Não podia negar que sabia: "É claro, no livro do Oswaldo Cruz".
Admitiu, então, que, ao ler minha resenha, ficara furioso. Mais ainda, ficara decepcionado, pois nela sentira a ponta secreta de uma traição. Durante alguns dias, recordou ainda, ensaiou respostas incisivas que me daria em um telefonema. Aos pouco, contudo, a dor abrandou e, me disse Scliar já com um esboço de sorriso, ele conseguiu enfim a pensar.
Não adoçou as palavras: "Quero lhe dizer que você tem toda razão no que escreveu". Abriu, então, um sorriso vasto e longo, de alívio, mas também de gratidão. Enfim, continuou: "Depois que a raiva passou e que controlei a vaidade, consegui enfim aceitar o que você me diziar". Nos dias seguintes, refletiu sobre seu caminho literário, lutou para se observar desde fora. Quanto a mim, estava imobilizado. Cedesse à vaidade, e passaria a acreditar, enfim, que era um "grande crítico". Quanta tolice! Minha resenha era não só pequena, mas despretenciosa. Limitei-me a esboçar uma impressão muito breve. Forte era Scliar que, machucado por minhas palavras, soube, ainda assim, lhes emperstam uma grandeza que não tinham.
Vitória do leitor: são os leitores, no fim das contas, que fazem os grandes livros. Era só nisso, na verdade, que eu conseguia pensar. Se ainda tinha dúvidas a respeito do destino de nossa conversa, elas se dissiparam quando Scliar me disse: "Deixe eu lhe dar um abraço. De agradecimento. Agradecer pela sua coragem, e lhe dizer que você me obrigou a ser corajoso também". É com dificuldades que recordo as palavras que trocamos. Não só porque muitos anos se passaram, mas também porque estávamos, ambos, engolfados pela emoção. Em silêncio, nos abraçamos _ e aquele abraço foi mais eloquente que qualquer palavra. Guardava uma força crítica que, em minhas resenhas literárias, jamais consegui. Não era uma crítica para me destruir, era uma crítica para me acolher. Era para dizer: "Podemos divergir e, apesar disso, caminhar juntos".
Não que, quando escrevi minha resenha de Sonhos tropicais, eu tenha desejado destruir a reputação de Scliar _ tarefa, aliás, em que eu teria sido derrotado. Ao contrário: julguei que, ao escrever, apenas me submetia às exigências da verdade _ e Scliar foi grande o bastante para entender isso. Existem, porém, muitas maneiras de dizer uma mesma coisa. Só um coração corajoso como o de Scliar suportaria meus restos de imaturidade (aos 40 anos!) e meus atropelos.
"Você tira um elefante de minhas costas", consegui, enfim, dizer. "Eu sempre me perguntei se tinha sido cruel. Se errara não só no que pensava, mas na maneira de dizer o que pensava". Nesse momento, o médico Scliar se impôs ao escritor Scliar. Ele me interrompeu: "A verdade é sempre dolorosa, mas precisa ser dita". Desde então, uma amizade muito funda, sincera, um forte laço de confiança, nos ligou. Nunca fomos amigos íntimos, mas nos tornamos amigos intensos."
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