«Ele que deixasse os livros, diziam, para os paralíticos e os moribundos.»

Sábado, 30 de Abril de 2011

Ela tem os teus olhos #1



«Em muitos aspectos, a televisão torna desnecessários os golpes de Estado e as detenções em marcha da minha imaginação. Podemos começar a perceber a irrelevância de tais actos, agora que um golpe mais subtil se aproxima.
Dá-se directamente no espírito, na percepção e nos modelos sociais de cada indivíduo. Um instrumento tecnológico torna-o possível, e talvez inevitável, enquanto impede a consciência de reparar no que está a acontecer.»

Jerry Mander, "Quatro Argumentos Para Acabar com a Televisão", Antígona, 1999

Movimentos no Escuro


Cenas de um Casamento - Ingmar Bergman (1973)

Era no tempo em que existia televisão em Portugal.
Fascínio e desconforto estremeciam connosco,
no centro da sala, diante d'O Sul de Victor Erice,
de Fountainhead, ou Mahabharata. Nessas horas
tiradas ao sono, à indiferença, crescíamos juntos,
e a nossa relação fortalecia-se em temíveis escrutínios.

O primeiro, bem me lembro, foi um ciclo de Godards
armadilhados, entre golpes de desprezo e um aviso:
atenção à direita. Outro: cinco noites de atenção
religiosa, quase imóveis, mão a mão, sob o feitiço
visual de duros golpes japoneses - Kinugasa,
Kobayashi, Mikio Naruse - com as palavras,
no final, a prolongarem-se entre nós como tirantes
de sentido, num jogo semelhante ao do prazer,
em que ganham os dois lados do enleio.

Se não tivesse o nosso amor sobrevivido à pocilga
dos tempos modernos, ao sangue dos malditos,
numa ronda de obscuros objectos de desejo,
seria como se vivêssemos na rua da vergonha,
em zeloso sacrifício. Irmãos de Nosferatu.
Não haveria para nós nenhum futuro radioso:
não teríamos Manhattan, Casablanca, nem o oiro
de Nápoles. E nossas não seriam todas as manhãs
do mundo, com a vida numa corda, musical.
Manhãs em que me acordas, como hoje,
com um «beija-me, idiota». E toda a terra treme.



Morangos Silvestres - Ingmar Bergman (1957)

Um ser humano é um combinado de egoísmo,
sofrimento e necedade. Não comove ninguém.
Uma pedra não comove ninguém. A beleza
é um acidente banal e pressupõe a morte;
muitas vezes se rodeia de sandice, e se nos fala,
chega a ser assustador. A inteligência, refrescante
como um duche, sabe bem, no Estio; mas agora,
que é Inverno toda a vida, que lugar atribuir
à inteligência? O de criada de servir nos aposentos
da ganância. Não comove, é evidente, ninguém.
A bondade, sim, comove. Mas é tão débil
e tão rara que ninguém a ouve. Não é fácil,
assim, encontrar algo que possamos amar. Eu
tenho procurado, eu juro que não sei o que fazer:
tudo me parece, até a música, produto de uma falha.
Vou por essas ruas ao acaso e não acerto a conhecer
quem me convença que bem outra poderia ser
a vida. Tudo se mostra sob espelhos deformantes,
tudo arde numa estranha aceitação. Francamente,
não consigo perceber. E gostava tanto, mas tanto,
que alguém me demonstrasse que não tenho razão.


José Miguel Silva, Movimentos no Escuro

Sexta-feira, 29 de Abril de 2011

Momento Pergaminho #6



«Mãe, posso ir nadar?
Sim, minha querida filha.
Pendura a roupa num ramo de nogueira,
mas não te aproximes da água.»

Mother Goose

Jean Shinoda Bolen, "As Deusas em cada Mulher", Planeta Editora, 1998

"camisa molhada até às entranhas"

Fogo


I
O fósforo
acende o cigarro
e traz
ao horizonte
do poema
sombras,
nuvens
[tenuidades perpassando
no papel
sobre a arquitectura
ainda húmida
da escrita
com essa
velocidade

II
que um pouco
de fulgor impele
para dizer
como o último sol
as acompanha
e o inverno
se dirige
às micro-cidades
silenciosas, às páginas
quase vazias]
nuvens,
sombras
que entristecem
Orfeu:

III
«o meu canto,
Euridice,
esgota-se por fim
na água exígua
das sílabas que vês
aqui
d esp
ed aç ad
a s
entre as chamas
dum inferno
menor
que
o fogo
deste fósforo.»

Carlos de Oliveira

Quinta-feira, 28 de Abril de 2011

a temperatura do corpo #7



«Não é nenhum capricho! exclamou ela.
Então o que é? perguntei apavorado.
Despertou em mim esse instinto, disse ela tranquilamente como que reflectindo; talvez jamais visse a luz do dia se não o tivesse despertado, desenvolvido e agora ele atingiu uma força irresistível que enche meu ser, que me proporciona o prazer mais desejável e apesar disso tu querias que recuasse, tu, mas és tu um homem?»

Leopold von Sacher Masoch, “A Vénus de Kazabaika”, Edições Afrodite,1966

dirty projectors

yo filipe, estou a embriagar-me pela última vez na trama e, bem, estou quite happy com tudo isto, comigo mesma. saberás, por certo, que não soube não ser vaidosa e que muitas vezes andei muito satisfeita comigo mesma, talvez demasiado, tanto quanto envergonhada e insegura, mas agora é tudo mais fácil, a coisa resume-se ao seguinte: quantos, quantos saberão o que é estar a beber uns copos na sua própria livraria, a sós, num final de tarde, com esta luz, dirty projectors a tocar, o volume bem carregado, a porta ainda aberta (porque não?), e este power todo a que a nenhuma juventude escapa, fazendo parte do mundo, sem fazer parte de nada, well well well, a existir, pá, a existir tanto e tão completamente, a sós comigo mesma, a música, filipe, os copos, os livros, as caixas, os pós-dos-livros, e até os malditos peixinhos de prata, tudo aqui e tudo tanto para quem se sente, para quem toca no seu próprio braço e ainda nota: uau, aqui está um braço, que se estende e alcança, que se propõe a chegar a. gosto muito desta maluquice: porque sou daquelas pessoas que pensa demasiado e demasiado é sempre pouco - daquelas pessoas que faz antes de pensar, que pensa depois de fazer, e faz e pensa e pensa e faz, confuso? intensa, ela é muito intensa, dizia-me a sofia, depois de alguém lho ter dito a ela. sem me conhecer, o cabrão. e gosto, repito, gosto de estar aqui, mesmo quando fecho, mesmo quando ponho os livros em caixas, mesmo quando me despeço, quando me explico, quando me justifico, quando me borrifo, quando me entristeço, quando duvido. haverá sempre quem diga coisas tremendas sobre o que aqui fizemos, o melhor e o pior. haverá sempre quem descubra os defeitos, os erros, as falhas, as derrapagens. e haverá ainda quem cobre, quem aponte, quem. mais grave: haverá quem não repare, quem nunca tenha encontrado, quem nunca tenha perdido, quem não faça a mínima ideia, nem queira fazer, de que houve aqui uma livraria e que se chamou trama e que viveu. pela minha parte sobra esta satisfação de um dia, nesse leito-de-morte de que tanto se fala, poder dizer aos meus hipotéticos três filhos: vivi.

ascenção e queda do império de uma leitora (numa semana)

livros iniciados nos últimos dias: o jogador (desisti), os irmãos karamazov (não me apetece), um da Lispector (não saiu da mala), terna é a noite (porque estava na mala), orlando (o único que ameaça, de facto, vir a ser lido) e outros que agora não me lembro. [aqui estava uma frase maldosa que consegui apagar atempadamente, haja sobriedade!]

well, I guess it's too late


liberdade

agora sim, já estou descredibilizada o suficiente para que não levem a sério uma única palavra que aqui é escrita. e não é que estou entusiasmada?

para festejar a feira do livro

vou ficar na trama até acabar a garrafa de vinho do porto.

que nada se esclareça

reparei ontem que não há grandes diferenças entre o que começa e o que acaba - de fora, a mesma desarrumação. o que começa a ficar cheio é igual ao que começa a ficar vazio e eu, senhor, olho com vagar, à espera de saber. quem passa terá mais pressa, não dá para pensar. será que abre, será que fecha? está desarrumado o que ainda não tem lugar como aquilo que deixou de o ter. está em trânsito. and paris is burning. há pacotinhos aqui e acolá: esperarão que alguém os abra ou terão sido agora mesmo fechados? é como aqueles dois que se beijam e se enrolam e se dormem, como paris, rejoyce, é a primeira ou última vez?

não namores com uma miúda que lê, namora com uma miúda que tenha bigode

vai-me mas é buscar uma cerveja, sweety. e não namores com uma miúda que lê, muito menos com uma que escreva. que seja antes gira e bem disposta, leve e ambiciosa: que queira uma casa com quintal, três filhos e uma televisão a cores para verem filmes policiais ao domingo, pés enterrados na areia em agosto e uma ou duas fotografias em paris pelo vosso aniversário. namora com uma rapariga que esteja disposta a andar com uma fotografia tua na carteira, que te dê beijinhos no pescoço quando acordas e que dance - e que dance. que saiba inglês, que arrisque nas ostras, que não vá em implantes. man, as miúdas que lêem têm cabecinhas sobrevalorizadas, barrocas em jeito prafrentex, e mania desde o rouge da unha do pé ao cabelinho que deixam no teu lençol. mania de ficcionar, de querer romance, poesia, aventura no boteco, paixão no supermercado, desamor e quebra-cabeças porque sim, porque sim. miúdas que lêem não suportam rotina e acham sempre que falta qualquer coisa - suspense, acção e sangue. são lindas quando bebem de mais, as miúdas que lêem. ficam iguais às outras.

E olhar é um modo de crescer em silêncio



"O mês de março vem ver como é e toca em tudo, e as montanhas descem pela tarde íngreme, nos espelhos tu serás daqui em diante todo o meu braço esquerdo, porque eu vou levantar voo com o braço direito na camisa demasiado azul, meu amor a espuma é uma pressa das águas que chegam à alvorada, nascidas num centro nocturno onde os animais estremecem e dormem- nunca mais terei sono, vou despir-te tão lentamente quanto se tece uma estação, e arderá nos meus dedos uma doçura negra, só depois eu saberei como é leve toda essa roupa exaltada, na atmosfera que treme dás um passo com os teus cabelos, e a paisagem ergue-se e respira, com a cor toda na voz procuro o nosso silêncio, como tu és uma criança passa a sombra do vento, e passa porque estás nua uma vertigem de sal, e ouve: o teu país é pimenta, e então é a noite pintada ao fundo e a lua senta-se, meu amor como um cardume livremente branco, e olhar é um modo de crescer em silêncio, respiras elevada até ser teu corpo um grande pensamento, e tudo se cala para termos muitas mãos por onde compreender, o mês de março está no meio e não se move, sentimos apenas os seus pulmões ardentes na matéria delicada que ferve atrás dos séculos."

-"Vocação Animal" - Herberto Helder

És a minha casa

Esta Trama também é tua Sr Cortázar



"A poesia não deve ser feita por um mas sim por todos". No fundo, o que é a "formação do público" quando se baseia numa criação digna deste nome? É simplesmente, dar a este último a máxima possibilidade de também se sentir criador, concomitantemente como indivíduo e como membro integrante de uma sociedade; não necessariamente um criador de livros, filmes, máquinas ou sistemas científicos mas antes alguém capaz de responder por si próprio aos estímulos culturais que lhe oferecem os outros criadores através das suas obras e chegar assim a converter-se no homem novo, aquele que recebe fogo de Prometeu e o propaga numa vida plena, na alegria de se saber um dos que erguem com os seus irmãos a verdadeira casa do presente e do futuro. Isso é fazer poesia entre todos, como pedia de um modo visionário Lautréamont."


-"Papéis Inesperados" - Julio Cortázar

Cronópios de todo o mundo, uni-vos!



"Então, o panorama é o seguinte: por um lado, os criadores continuam a sua obra de um modo mais solitário que nunca, sabendo estes serem negados ou objectos de resistência, rodeados de desconfiança e receio e, por outro lado, aqueles que se encarregam da formação do público vêem-se na necessidade de cumprir a dupla tarefa de serem criadores e formadores, com o resultado de que o nível da sua criação é regularmente de uma mediocridade bem provada em todos os períodos de sectarismo e a conseguinte "formação" do público cinge-se ao triste quadro que descrevi no começo destas notas. É fatal que os homens incapazes de compreender o fenómeno da mais alta criação, somados aos incontornáveis invejosos e ressentidos que atacam mais baixo, sem confessarem as verdadeiras razões que os movem, se coliguem numa empresa de "formação" do público que não passará da superfície, de uma aparência de cultura que, grito-o uma vez mais, esconde uma motivação mais profunda: o enquadramento, a aceitação de um nível medíocre mal dissimulado pelas grandes palavras ocas que são de rigor nestes casos."


-"Papéis Inesperados" - Julio Cortázar

"não apenas o espaço movido pelos dedos, mas/ o superlativo,/ a dança"

Quarta-feira, 27 de Abril de 2011

Orelhas de Elefante #18



Porque há musicas de outras dimensões.

the time, it's coming near

antologia breve

ando então com uns versos na cabeça: qualquer coisa sobre uma estrela que brilha na aurora, para a qual nada representa. dentro da música, movo-me assim - o poder de uns phones. dentro da música, com uns versos na cabeça, mais uma ou outra ideia que poderia ser escrita e não é. pensei: não é preciso escrevê-la. e depois pensei: brilhar na aurora e, ainda assim, ser invisível. apesar de. brilhar para dentro, mesmo que.

o outro deixará enfim de ser necessário.

"Não se pode acreditar na beleza concentrada/ da gramática/ como que cheia de como que"

nu sobre a jangada

(...)
Bastaria

saber que nunca
nunca nunca a paz
chegaria como o sol chega
nas ilhas tropicais.
(...)
«Adão», in Antologia Breve, William Carlos Williams, trad. José Agostinho Baptista, Assírio&Alvim, 1993

If there's such a thing as love

Se houver ainda



Se houver (ainda) o pequeno corpo de luz deste crepúsculo (cor-
púsculo) que agora alarga - quando
o interpreto - estarás na tarde que é expansiva;
no começo da noite; no uivo distinto
(canino) da distância.

Fiama Hasse Pais Brandão
Era in Obra Breve
Assírio & Alvim






Terça-feira, 26 de Abril de 2011

"Decerto já vos chegaram aos ouvidos boatos" #3







Novo Fim: Finisterra

Quando a tarde acaba eu esperaria na estrada, e ao fundo
o pássaro branco bate realmente as penas longas,
longe, passa. Mas não será o símbolo, nem dará
o (seu) significado à longitude (linhas),
nem ao olhar, nem a este nada, que por não
me veres é (todo) o panorama: de campo com o sol recente
além, (se vês) as copas, de pinhais, são a superfície em que é possível
(então) sermos humanos. Depois, revejo
a estrada ou finisterra
onde o trajecto é infindo na ante-tarde.


Fiama Hasse Pais Brandão

Segunda-feira, 25 de Abril de 2011

o combate com o demónio #2



Aristides de Sousa Mendes (1885–1954)

«Sousa Mendes desobedeceu a Salazar; Salazar destruiu-o.»

Rui Afonso

Domingo, 24 de Abril de 2011

Corpus Christi Carol #4



«É claro e evidente que constitui um abuso, um erro, uma ilusão, uma mentira e uma impostura querer fazer passar leis e instituições puramente humanas por leis e por instituições sobrenaturais e divinas. Ora, não há dúvida que todas as religiões que existem no mundo são apenas, como disse, invenções e instituições puramente humanas, e não há dúvida que aqueles que as inventaram só se serviram do nome e da autoridade de Deus para melhor e mais facilmente fazerem aceitar as leis e as ordenanças que quiseram estabelecer.»

Jean Meslier, "Memória", Antígona, 2003

Sábado, 23 de Abril de 2011

Sexta-feira, 22 de Abril de 2011

a poesia não me interessa #24



«Não é necessário observar o trabalho de alguém
para saber se é essa a sua vocação,

basta olhá-lo nos olhos:
um cozinheiro apurando um molho,

um cirurgião abrindo a pele,
um escriturário preenchendo uma relação

de embarque, têm a mesma expressão
distraída, embevecidos na sua tarefa.

Que bela é essa devoção
do olho pelo objecto.

Ignorar a deusa sedutora,
abandonar os sacrários magníficos

de Rea, Afrodite, Demeter, Diana,
preferir rezar a S. Focas,

Santa Bárbara, S. Saturnino,
ou outro padroeiro qualquer,

de cujo mistério se seja merecedor,
que passo gigantesco foi dado.

Deveria haver monumentos e odes
aos heróis desconhecidos que começaram,

a quem arrancou as primeiras faíscas
da pederneira e esqueceu o jantar,

ao primeiro coleccionador de conchas
que ficou celibatário.

Se não fossem eles, ode estaríamos?
Ainda ferozes, sem hábitos caseiros,

errando através das florestas,
com nomes sem consoantes,

escravos da Dama gentil, sem
noções da civilidade

e hoje à tarde, para esta morte,
não haveria agentes funerários.»

W.H. Auden, "O Massacre dos Inocentes", Assírio & Alvim, 1994

still

Quinta-feira, 21 de Abril de 2011

esquece tudo o que te disse #15



quinta-feira santa

a intuição é sobrevalorizada. eu sou bastante intuitiva, mas imediatamente estúpida. isto quer dizer que em qualquer caso, quer seja durante a leitura de um livro ou num flirt épico a meio de Agosto, as pequenas cintilações colocam-se diante dos meus olhos, mas toda a narrativa se me escapa diante do nariz.

Quarta-feira, 20 de Abril de 2011

à luz da disponibilidade



©Wong,Kar Wai;2000

my blueberry days

às vezes não podes chegar aqui e escrever - às vezes tudo é tanto que não pode ser dito, assim, de um dia para o outro. não são dias sangrentos, são dias de sol. vestes a camisola, e trabalhas, e arrastas o teu filho pela rua - depois de o teres subornado com uma bubbaloo de amora - e alguém grita golo, golo, golo, e está tudo bem, está tudo bem.

Terça-feira, 19 de Abril de 2011

o homem de quarta-feira #39



«A construção da vida passa neste momento muito mais pela força dos factos do que pelas convicções. Concretamente, de factos que quase nunca e em lugar algum chegaram a transformar-se em fundamento de convicções. Em tais circunstâncias, a autêntica actividade literária não pode ter a pretensão de se desenvolver num âmbito estritamente literário - essa é antes a expressão habitual da sua esterilidade. Uma eficácia literária significativa só pode nascer de uma rigorosa alternância entre acção e escrita. Terá de cultivar e aperfeiçoar, no panfleto, na brochura, no antigo jornal, no cartaz, aquelas formas despretensiosas que se ajustam melhor à sua influência sobre comunidades activas do que o ambicioso gesto universal do livro. Só esta linguagem imediata se mostra capaz de responder activamente às solicitações do momento. As opiniões estão para o gigantesco aparelho da vida social como o óleo para as máquinas: ninguém se aproxima de uma turbina e lhe verte óleo para cima. O que se faz é ejectar algumas gotas em rebites e juntas escondidos que têm de se conhecer bem.»

Walter Benjamin, "Imagens de Pensamento", Assírio & Alvim, 2004

Segunda-feira, 18 de Abril de 2011

Teoria da Conspiração #23 (ou o Fundo Mitológico da Ironia)



«No início havia um deus da noite e da tempestade, um ídolo negro sem olhos, nu e coberto de sangue. Mais tarde, nos tempos da república, havia muitos deuses e suas esposas e crianças, camas que rangiam e raios que explodiam de modo inofensivo. No fim apenas neuróticos supersticiosos traziam nos bolsos pequenas estátuas de sal, representando o deus da ironia. Nessa altura não havia um deus que sobressaísse.

E então vieram os bárbaros. Também eles tinham em grande conta o deus da ironia. Esmagá-lo-iam com os calcanhares e usá-lo-iam para decorar os seus manjares.»

Zbigniew Herbert, "Escolhido Pelas Estrelas", Assírio & Alvim, 2009

Domingo, 17 de Abril de 2011

Chefe, precisamos de mentiras novas #1



«- Que balbúrdia é esta?, perguntou o Chefe. Eu estava desesperado, mas tranquilo. Que vêm agora vocês...?!
- Os economistas dizem que é preciso cortar ainda mais nas despesas! - disseram de uma vez os Auxiliares, com respiração ofegante.
- Quais despesas?
- As dos outros!
- Ah, as dos outros! - Exclamou o Chefe, aliviado.
- Sim, Chefe, mas tal não nos deve descansar. Porque os economistas (e esta palavra era dita como se existisse receio de a repetir em voz alta) quando dizem que é urgente cortar as despesas dos outros não deixam de olhar para nós. E fixamente.
- Para nós?! - exclamou o Chefe, indignado. - Mas nós não somos os outros!
Subitamente todos se calaram, ao mesmo tempo, como se tivessem combinado.»

Gonçalo M. Tavares, "O Senhor Kraus", Caminho, 2005

Sábado, 16 de Abril de 2011

Sexta-feira, 15 de Abril de 2011

o Mal-estar da Civilização #20



«Estou de acordo, o homem é um animal, essencialmente criador, predestinado a aspirar a um fim na vida conscientemente e a dedicar-se à arte da engenharia, ou seja, a abrir para si mesmo um caminho, eterna e ininterruptamente, seja para onde for. Mas talvez lhe apeteça às vezes desviar-se para qualquer lado, precisamente porque é obrigado a abrir esse caminho, e também porque, por mais tolo que seja quem age directamente, talvez lhe aconteça de vez em quando pensar que esse caminho vai sempre seja para onde for e que o principal não consiste em que direcção segue, mas no próprio facto de seguir e em que a criança da boa moral não despreze a arte da engenharia e não se dedique à folga nociva que, como se sabe, é a mãe de todos os males. O homem gosta de criar e de construir caminhos, é indiscutível. Mas por que gosta também apaixonadamente da destruição e do caos? Vá, digam lá!
»

Fiódor Dostoiévski, "Cadernos do Subterrâneo", Assírio & Alvim, 2000

Quinta-feira, 14 de Abril de 2011

K, o elemento estranho da tabela literária #1



«Um dia de manhã, ao acordar dos seus sonhos inquietos, Gregor Samsa deu por si em cima da cama, transformado num insecto monstruoso. Estava deitado de costas, sentia a carapaça dura e, ao elevar um pouco a cabeça, via a barriga arredondada, de cor castanha, dividida em faixas rígidas arqueadas, e no alto dela, a coberta da cama em equilíbrio instável, quase a resvalar. As muitas pernas, penosamente finas em comparação com a sua actual corpulência, tremiam diante dos seus olhos perplexos.
»

Franz Kafka, "A Metamorfose", Quasi Edições, 2008

Quarta-feira, 13 de Abril de 2011

a vida não é um sonho #9



«Quem transforma a vida num ofertório de instantes, quem lança ao mar as horas e o tambor constante é o herdeiro de uma alegria antiga, cobrindo-se de luto e de tinta tinta preta para descansar, e através da música e das imagens recolher-se, em meio aos gritos do feroz sargento que diz Acorde, Deseje, Marrete, Martele, Produza, e contemplar a imagem calma, azul-escura, depois da chuva. Às vezes, ainda de manhã, antes que o relógio introduza o vício, antes que a borra avinagrada de uma outra vida, melhor que esta, deixe de vez a minha boca, consigo agarrar algumas franjas de um sonho enlutado, mas feliz e único.
»

Nuno Ramos, "Ó", Cotovia, 2010

decerto

Terça-feira, 12 de Abril de 2011

"Decerto já vos chegaram aos ouvidos boatos" #1



Nove ;-)


até já.


li algures que os gregos antigos não escreviam necrológios,

quando alguém morria perguntavam apenas:

tinha paixão?

quando alguém morre também eu quero saber da qualidade da sua paixão:

se tinha paixão pelas coisas gerais,

água,

música,

pelo talento de algumas palavras para se moverem no caos,

pelo corpo salvo dos seus precipícios com destino à glória,

paixão pela paixão,

tinha?

e então eu indago de mim se eu próprio tenho paixão,

se posso morrer gregamente,

que paixão?

os grandes animais selvagens extinguem-se na terra,

os grandes poemas desaparecem nas grandes línguas que desaparecem,

homens e mulheres perdem a aura

na usura,

na política,

no comércio,

na indústria,

dedos conexos, há dedos que se inspiram nos objectos à espera,

trémulos objectos entrando e saindo

dos dez tão poucos dedos para tantos

objectos do mundo

?e o que há assim no mundo que responda à pergunta grega,

pode manter-se a paixão com fruta comida ainda viva,

e fazer depois com sal grosso uma canção curtida pelas cicatrizes,

palavra soprada a que forno com que fôlego,

que alguém perguntasse: tinha paixão?

afastem de mim a pimenta-do-reino, o gengibre, o cravo-da-índia,

ponham muito alto a música e que eu dance,

fluido, infindável, apanhado por toda a luz antiga e moderna,

os cegos, os temperados, ah não, que ao menos me encontrasse a paixão e eu me perdesse nela,

a paixão grega

Herberto Helder

If you love something, give it away

Segunda-feira, 11 de Abril de 2011

diário dos mesmos pesares #7





















«Aqui
É tudo,
Nada
Entre Tudo e Nada.
Movimento
Gosto
E
Quando
Mais
Fim,
Causa Amante.»

MGL

funeral blues

onde escrevi insolvência devia ter escrito uma série de palavrões e onde escrevi culpa não devia ter escrito nada. onde escrevi nós devia ter escrito eu e o que não pude dizer, não pude dizer. apetece-me pedir-vos desculpa.

comentários

os posts estão temporariamente sem comentários. caso queiram dizer-nos alguma coisa entrem por favor em contacto através do e-mail: livraria.trama@gmail.com.

rima com incontinência mas não tem nada a ver

Exmos. Senhores

A Trama Livraria, Lda. entrou em insolvência há escassos dias. Durante os próximos tempos entrará numa espécie de período de "liquidação" que tem por objectivo escoar todos os livros que foram adquiridos (em segunda mão, maioritariamente) ao longo de mais ou menos três anos de trabalho.

Suponho que o nosso encerramento seja uma surpresa para muitos - sobretudo para aqueles que não têm aparecido mas, para dizer a verdade, estava na cara.

Como todos sabemos, nenhum negócio vive de amigos, primos, vizinhos ou entusiastas. Um negócio, qualquer que ele seja, precisa de clientes para poder cumprir com um sem fim de obrigações que passam pela renda, pelos impostos, pelas contas (água, luz, net, telefone, essas coisas) e, com sorte (não a nossa, convenhamos), pelos ordenados.

Como podem ver não fomos bem sucedidos - isto se acreditarmos nesse conceito misterioso chamado "sucesso". A meu ver - e se nos seguem há tempo suficiente bem sabem que aquilo que acho serve de pouco ou nada - fomos muito, muito bem sucedidos. Falhou o guito. Falharam várias coisas, todas passando pelo guito.

Durante três anos fizemos tudo quanto podia ser feito - concertos, leituras, conversas, edição de dois livros, teatro, festarolas, cinema, actividades infantis e sabe-se lá mais o quê. Todas estas coisas foram feitas, essencialmente, por acreditarmos que eram necessárias, pese embora nunca tenham sido lucrativas. Mas que se lixe, não estávamos nisto pelo lucro e, imaginem, nem sequer somos de esquerda. O objectivo sempre foi o mesmo, desde essa tarde de 2007 em que concebemos a Trama, até há uns meses atrás: fazer aquilo de que gostávamos e em que tínhamos alguma experiência, continuar a aprender e... partilhar. Fúria juvenil, ímpeto irracional, inexperiência, falta de jeito para o negócio, chamem-lhe o que quiserem.

Não queremos que lamentem, que tenham pena, que nos consolem. Não estamos arrependidos e, creio, fazíamos tudo outra vez. Talvez agora soubéssemos uma ou duas coisas que tornariam este desfecho diferente... mas a verdade é que se as tivéssemos sabido há mais tempo, a Trama, como a conhecem, nunca teria existido.

Um erro, sim
mas belo

belo
belo
belo

Não queremos que se sintam culpados. Mas se se sentirem também não faz mal.

Até já

Domingo, 10 de Abril de 2011

a subjectividade é a verdade #10



«E já não enfrentamos a morte, de sempre trazê-la conosco»

Cada dia que passa incorporo mais esta verdade, de que eles não vivem senão em nós
e por isso vivem tão pouco; tão intervalado; tão débil.
Fora de nós é que talvez deixaram de viver, para o que se chama tempo.
E essa eternidade negativa não nos desola.
Pouco e mal que eles vivam, dentro de nós, é vida não obstante.
E já não enfrentamos a morte, de sempre trazê-la conosco.

Mas, como estão longe, ao mesmo tempo que nossos atuais habitantes
e nossos hóspedes e nossos tecidos e a circulação nossa!
A mais ténue forma exterior nos atinge.
O próximo existe. O pássaro existe.
E eles também existem, mas que oblíquos! e mesmo sorrindo, que disfarçados.

Há que renunciar a toda a procura.
Não os encontraríamos, ao encontrá-los.
Ter e não ter em nós um vaso sagrado,
um depósito, uma presença contínua,
esta é nossa condição, enquanto,
sem condição, transitamos
e julgamos amar
e calamo-nos.

Ou talvez exista somente neles, que são omissos, e nossa existência,
apenas uma forma impura de silêncio, que preferiram.

Carlos Drummond de Andrade, Antologia Poética, Dom Quixote, 2003

Sábado, 9 de Abril de 2011

a poesia não me interessa #23



«Basta de escavar, de dilapidar a nossa mais próxima parte.
O pior está em todos nós, caçador, no nosso flanco. Vós que aqui não sois mais do que uma pá levantada pelo tempo, voltai-vos sobre o meu amor, que soluça a meu lado, e despedaçai-me, peço-vos, fazei-me morrer de uma vez por todas.»

René Char, "Furor e Mistério", Relógio d'Água, 2000

let's cut the crap

Sexta-feira, 8 de Abril de 2011

Imediatamente embora pouco a pouco #10



Instruções para chorar

«Prescindindo dos motivos, vamos ater-nos à maneira correcta de chorar, ou seja, um pranto que não ingresse no escândalo, nem insulte o sorriso com paralela e torpe semelhança. Consiste o pranto médio ou corrente numa contracção geral do rosto e num som espasmódico acompanhado de lágrimas e ranho, este último no final, já que o pranto termina no momento em que uma pessoa se assoa energicamente. Para chorar, dirija a imaginação para si mesmo, e se isto lhe for impossível por haver contraído o hábito de acreditar no mundo exterior, pense num pato coberto de formigas ou nesses golfos do estreito de Magalhães onde nunca ninguém entra. Quando o pranto começar, cobrirá com decoro o rosto, usando para tal ambas as mãos com as palmas viradas para dentro. As crianças chorarão com a manga do bibe a tapar a cara, e de preferência a um canto do quarto. Duração média do pranto, três minutos.»

Julio Cortázar, "Histórias de Cronópios e de Famas" Editorial Estampa, 1973

Quinta-feira, 7 de Abril de 2011

O milagre do código genético



©Kubrick,Stanley;1987

Quarta-feira, 6 de Abril de 2011

outra coisa

Eu sei que é fácil de montar o aparato da menina que é culta. Se sei. Antes um bom busto que este embuste.

abro um livro ao acaso

"No amor, como em quase todas as relações, o compromisso é sempre o resultado de um mal-entendido."

(Até o Baudelaire sabe mais da minha vida do que eu própria.)

Retrato de Família #14



Hermann B. Karamazov (1886-1951)

«Quem vai sobre as ondas do mar não tem objectivo e não pode cumprir-se: está encerrado em si mesmo. Nele o possível dormita. Quem quer que seja que o ame só o pode amar pelo que ele promete, pelo que repousa nele, não pelo que atingiu ou pelo que atingirá. Por isso o homem da terra firme ignora o amor e toma por amor a ansiedade em que vive.»

é sempre reconfortante voltar aos clássicos

chamo a atenção para o 10º conselho que Dale Carnegie dá aos maridos-de-todo-o-mundo no livro Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas: "Agradece à sua companheira de todos os dias os pequenos trabalhos que lhe faz, como pregar um botão, coser as meias ou mandar as suas roupas para a tinturaria?"
O que é um corpo, afinal? Hoje parece-me qualquer coisa muito semelhante a uma pedra, desde que em voo picado em direcção a parte alguma. Uma pedra que cai, sem nunca bater no chão. É nesse movimento que o corpo acontece - e acontece que em pedra bata a pedra e o corpo se transforme. O que resta, mais tarde, ao olhar para o céu? Nada, não se consegue ver nada, porque tudo é demasiado longe. Não hei-de amar uma pedra.

i fear no fate



anywhere
i go you go,my dear

Terça-feira, 5 de Abril de 2011

Por vocações de Leitura #2


Alice Carroll

Isabel Somerset Maugham

Gabriela Mann

o pecado

Não tenho nada a dizer sobre o equilíbrio - posso apenas dar algumas explicações sobre excesso e defeito: no primeiro está a decisão que só tem de ser tomada daqui a um mês e que se toma já hoje. No segundo, o incumprimento diário do que foi decidido. Os livros, no entanto, movem-se. A casa, no entanto, espera. Alguém diz: tá d'abalada. Processo de redecisão - leitura d'O Homem Sem Qualidades, até. Pelo menos o primeiro volume. Está completamente proibida a consulta de websites de conteúdo mais ou menos aquoso, blogues de apego. Para quê? Não tenho nada a dizer sobre.

aquela angústia que te oprime o peito

na maior parte das vezes é só um sutiã demasiado apertado.

Da utilização descarada das palavras de outros para enviar mensagens secretas ou sobre a atenção aos presságios ou desta casa que será sempre tua


"O que regula então a passagem de um a outro dos termos opostos, ou a sua unidade desequilibrada e concreta, é uma forma de contingência e a reunião do cálculo e do acaso, da premeditação e da compulsão."

Manuel Gusmão sobre Rimbaud
Tatuagem & Palimpsesto, Assírio & Alvim, 2010

a pergunta era, obviamente, retórica

um leitor não responde. nem isso pode ser esperado, quero dizer, seria terrivelmente desagradável se os leitores desatassem a falar. se o objectivo fosse esse, marcava-se uma reunião, um chá, uma jantarada.

estou muito cansada, hoje

O silêncio é uma forma de vingança. Um atentado. Acima de tudo, outra maneira de dizer as mesmas coisas. Não estou a falar de amor mas sim de trabalho, quando o trabalho é falar. O silêncio não é mais que uma nova língua, uma nova gramática (por favor pensar em gramática como estrutura do pensamento). Mas voltando às culpas: este silêncio indica chatices. Onde estás, leitor?

Segunda-feira, 4 de Abril de 2011

espécie de oração particular #8



«O Sol secará e o vento esgotará a sordidez e imundice da natureza. Como quando o vento do sul faz derreter os bancos de neve e a face da terra reverdesce com ele, assim também o espírito que avança cria ornamentos à sua passagem e transporta consigo a beleza que visita e a canção que o encanta. Criará belos rostos, corações ternos, palavras sábias e actos heróicos à sua passagem, até que o Mal deixe de existir. O reinado do Homem sobre a Natureza, que não provém da observação - um domínio que, por agora, se encontra para além do seu sonho de Deus -, será alcançado com o mesmo deslumbramento que o de um cego que gradualmente é devolvido à visão perfeita.»

Ralph Waldo Emerson, "A Natureza", Sinais de Fogo, 2001

Domingo, 3 de Abril de 2011

Dedicatória #11*



* dedicada a todos os que só desligam as luzes quando o adversário deixa a sala.

jaime

tens dúvidas?

uma livreira está sempre bem.

Sábado, 2 de Abril de 2011

Dicionário das causalidades #5



E

Exercitação

«Difícil é que o raciocínio e o ensino, ainda que de bom grado lhes demos fé, sejam assim assaz poderosos para nos encaminharem à acção, se, ademais, não exercitarmos e formarmos pela experiência a alma ao andamento a que a pretendemos acomodar: de outro modo, quando ela estiver na iminência de agir, sem dúvida que se sentirá embaraçada. Eis porque, entre os filósofos, os que quiseram atingir uma maior excelência, receando que ela os surpreendesse inexperientes e novatos no combate, não se contentaram em esperar no remanso do abrigo pelos rigores da Fortuna, antes, foram ao seu encontro e deliberadamente se expuseram à prova das dificuldades: uns abandonaram os bens materiais para se exercitarem na pobreza voluntária; outros andaram à cata de fadigas e buscaram uma penosa austeridade de vida para se endurecerem contra a dor e o sofrimento; outros ainda, privaram-se das mais preciosas partes do corpo, tais como os olhos e os membros genitais, não fosse a sua utilização, demasiado prazenteira e amena, relaxar e amolecer a firmeza da sua alma. Porém, a morrer, a maior tarefa que temos de fazer, a exercitação não nos pode ajudar. Podemos, pela usança e pela experiência, fortalecermo-nos contra as dores, a vergonha, a indigência e outros acidentes que tais, mas, quanto à morte, só a podemos ensaiar uma vez - quando a ela chegarmos, todos somos aprendizes.
Houve na Antiguidade homens tão exímios a gerir o seu tempo que, na própria morte, tentaram degustá-la e saboreá-la, e que entesaram o espírito para ver o que é que, afinal, era o passamento, mas não voltaram cá para nos dar novas»

Montaigne, "Ensaios", Relógio d'Água, 1998

Sexta-feira, 1 de Abril de 2011

Toda a humilhação leva à morte #11



«Na verdade, por minúscula que seja, uma obra de arte acrescenta ao que já é qualquer coisa que não estava lá. O que não deveria normalmente acontecer causa embaraço. Mesmo uma tradição que reaparece pode ser intrusa e por assim dizer perturbadora. Um segundo ponto torna a arte embaraçosa: não só aumenta o que é imprevisível, como odeia a morte. Os artistas são assassinos da morte. Neste sentido, é normal serem castigados pelos que tem como profissão tanto administrá-la, como aumentá-la.»

Pascal Quignard, "As Sombras Errantes", Gótica, 2003