«Ele que deixasse os livros, diziam, para os paralíticos e os moribundos.»

Terça-feira, 31 de Maio de 2011

a poesia não me interessa #26



Igual ao deuses é aquele que,
à tua frente, se senta a escutar
as tuas palavras doces e o teu riso
encantador.

É isto que provoca um tumulto
no meu peito. Ao ver-te apenas,
a minha voz treme, a minha língua
paralisa-se.

Logo um delicado fogo percorre
os meus membros; os olhos ficam
cegos e os meus ouvidos
ressoam.

O suor invade o meu corpo; percorre-me
uma ternura. Empalideço mais
que a erva seca e vejo aproximar-se
a morte.

William Carlos Williams, "Paterson", Relógio d'Água, 1998

embora nada lhe doesse

foi morar para uma rua chamada Au.

Segunda-feira, 30 de Maio de 2011

"Decerto já vos chegaram aos ouvidos boatos" #5



Tell'em that I won't be long



And they'll be happy to know
That when you saw me go
I was singing this song

Domingo, 29 de Maio de 2011

iridescência lume



©Reggio,Godfrey;1982

Sábado, 28 de Maio de 2011

Orelhas de Elefante #19




Porque há musicas de outras dimensões.

fazer da cela uma expedição

como quem exercita o corpo depois de uma semana no fundo de uma mina, “considerar, nesse espaço, por menor que seja, as possibilidades que oferece”.


não vá dizendo que eu não

E quando pensei que ia chorar desabou sobre mim um aguaceiro providencial. Agora sim, está tudo limpo. Gostava de saber como é com os outros, isto da chuva.

Man I can understand how it might be / Kinda hard to love a girl like me


Sexta-feira, 27 de Maio de 2011

a temperatura do corpo #8



«Eu sou o anjo do desespero. Com as minhas mãos distribuo o êxtase, o adormecimento, o esquecimento, o gozo e dor dos corpos. A minha fala é o silêncio, o meu canto o grito. Na sombra das minhas asas mora o terror. A minha esperança é o último sopro. A minha esperança é a primeira batalha. Eu sou a faca com que o morto abre o caixão. Eu sou aquele que há-de ser. O meu voo é a revolta, o meu céu o abismo de amanhã.»

Heiner Müller, "O Anjo do Desespero", Relógio d'Água, 1997

morreu devido aos malefícios do amor

Consta que terá explodido, numa noite de Maio, por não poder conter o amor que, de todas as direcções, lhe chegava. Espalhou-se pelos Cosmos. Ou pela parede da sala. Foi um big-bang colossal, testemunhado pelos vizinhos, que já não acudiram a tempo. O lugar ficou vazio. Foi-se, e é só.

Quinta-feira, 26 de Maio de 2011

Perguntas Abandonadas #12

«Aonde estavas tu, quando eu fundava a terra? Faz-mo saber, se tens inteligência.»

(Job 38:4)

Bíblia Ilustrada, "Vol. 4, 1º Crónicas - Job", Assírio & Alvim, 2007

O que faz um poeta em Lisboa?

Cai em granizo.

«Ariza passou o resto da tarde a comer rosas e a ler a carta... e quanto mais lia mais rosas ia comendo»

toni&guy, cilício da pós-modernidade

«Depois de me cumprimentar pergunta, com um sumiço de voz, como quero o cabelo. “Curto, muito curto”. Ele olha-me. Sabe que quando uma mulher arrisca tanto é porque alguma coisa se passa na sua vida. Das duas uma. Ou tem vontade de fechar um capítulo da sua vida e começar de novo, tornando-se numa outra pessoa, ou, então, precisa de se flagelar, de se penitenciar, de se magoar. Cortar o cabelo equivale a uma expiação.»

deve ser isto, a instabilidade

Quarta-feira, 25 de Maio de 2011

dedicatória #12*



* dedicada a todos os amantes deste film noir.
Felizmente ainda há espaços sem sentido que nos deixam respirar



"É preciso que o nome não seja útil.

Substituir o nome"



- Francis Ponge -

Terça-feira, 24 de Maio de 2011

Por vocações de Leitura #3


Katharina Böll

Sofia Gaarder

Guy Bradbury

Segunda-feira, 23 de Maio de 2011

Chamada a pagar no destinatário #8



«Sorry... Wrong Number»

Domingo, 22 de Maio de 2011

Não respire... (ou leituras em apneia) #3



«Pense em mim por vezes como alguém a quem a lição da vida foi contada muito asperamente, mas que a escutou com coragem; como alguém que de facto o amava, mas que se odiava a si mesma tão profundamente que o seu amor lhe era odioso; como alguém que o mandou embora apesar de querer ficar consigo para sempre; que não tinha melhor esperança do que esquecê-lo, nem medo maior do que ser esquecida.»

in "Olalla"

Robert Louis Stevenson, "O Estranho Caso do Dr. Jekyll e do Sr. Hyde e outros contos", Assírio & Alvim, 2007

Pode respirar.

agora o que ia bem aqui era o título de uma música


Nunca me importei com reservas ficcionadas: para ser sincera, tinha que ser eu. Nunca pretendi fazer disto literatura, embora tivesse que escrever. Como quem comunica, sim, mas tantas vezes como quem não consegue nem pode comunicar.

Sábado, 21 de Maio de 2011

Teoria da Conspiração #25 (ou o Tempo vs. Alfaiate)



«Virem de vez em quando do avesso os forros das algibeiras, porque nessa poeira de coisas, nessa penugem e cotão, é onde se criam e sustentam todos os micróbios. A putrefacção de muita gente, a gangrena da suas vidas, começou por esses algodões obscuros que não se sabe de onde vêm, por esse restos e migalhas misteriosos... Executem como autênticos cirurgiões a operação de arrancar aos vossos bolsos essas tumefacções e esse pus.
São esquírolas do passado, condensações de tempo, detritos do que passou, resultados de pássaros invisíveis que deixam cair essas coisas todas das árvores do tempo.
A higiene dos bolsos dos casacos, das calças, dos coletes, é uma das higienes mais descuradas.
Por mim, a primeira coisa que faço ao meus doentes é descarregar-lhes os bolsos, arrancar esses vermes colados às comissuras dos forros, tudo isso que cresceu na solidão e é concentração do tempo que morreu, final de horas e minutos que caíram mortos nas algibeiras como em rede de caçador.»

Ramon Gómez de la Serna, "O Médico Inverosímil", Antígona, 1998.

Sexta-feira, 20 de Maio de 2011

a vida não é um sonho #11



«Maria ensinou-me - naquela primeira, estranha noite e nos dias seguintes - muita coisa, não apenas jogos desconhecidos e maravilhosos, êxtases dos sentidos, mas também uma nova compreensão, novas perspectivas, um novo amor. O mundo dos dancings e centros de diversão, dos cinemas, dos bares e salões de chá de hotel, que para mim, eremita e esteta, tinham ainda algo de inferior, proibido e degradante, era para a Maria, Hermínia e as suas companheiras pura e simplesmente o mundo, o único mundo que havia; não era bom nem mau, nem admirável nem detestável, mas nele desabrochava e floria a sua vida breve e árida, nele se sentiam aclimatadas e experimentadas.»

Hermann Hesse, "O Lobo das Estepes", Ed. Afrontamento, 1982

A l’école des loups, l’enseignement commence toujours par la faim

mexe qualquer coisa dentro, doida

já qualquer coisa doida dentro mexe

Quinta-feira, 19 de Maio de 2011

quero outra noite no fim do dia #4



«O tempo é a qualidade dos tempos (porque nos foi dito: - "Fazei isto em memória de mim").»

Maria Gabriela Llansol

thoreau, além de difícil de escrever, é quase impronunciável, porra

«Comparada com a opinião que temos de nós mesmos, a opinião pública é uma débil tirana. O que um homem pensa de si mesmo, eis o que determina, ou pelo menos indica, o seu destino.»

[Henry David Thoreau, em Walden]

creio que os pássaros, às 4:37, cantam só para mim

Quarta-feira, 18 de Maio de 2011

alegações finais #6



«- Acabou! – disse alguém por cima dele.
Ouviu estas palavras e repetiu-as na sua alma. “Acabou a morte – disse para si mesmo – Já não existe.”
Sorveu o ar, deteve-se a meio da inspiração, esticou-se e morreu.»

Lev Tolstoi, "A Morte de Ivan Ilitch", Relógio d'Água, 2007

maio é o mês das trovoadas

Leonard Cohen

Ainda que isto pareça um poema
prefiro avisá-los desde o início
de que não tinha que o ser.
Não quero converter tudo em poesia.
Sei tudo sobre o seu papel neste assunto
mas isso não me interessa agora.
Isto é entre tu e eu.
Pessoalmente estou-me a marimbar para quem seduziu quem:
De facto pergunto-me se isso me interessa.
Mas um homem tem de dizer alguma coisa.
A verdade é que lhe deste 5 cervejas MacKewan,
a levaste para o teu quarto, puseste os discos adequados,
e numa hora ou duas estava feito.
Sei tudo sobre a paixão e a honra
mas infelizmente isso nada tinha a ver convosco:
Oh! Tenho a certeza que houve paixão
e mesmo um pouco de honra
mas o importante era pôr os cornos a Leonard Cohen.
Com os diabos, mais valia dizer-vos:
Não tenho tempo para escrever mais nada.
Tenho de dizer as minhas orações.
Tenho de esperar à janela.
Repito: o importante era pôr os cornos a Leonard Cohen.
Gosto desta linha porque nela está o meu nome.
O que na verdade me põe doente
é que tudo continue igual:
Ainda sou uma espécie de amigo,
ainda sou uma espécie de amante.
Mas não por muito tempo:
é por isso que digo a ambos
O caso é que me estou a converter em ouro, a converter em ouro.
É um longo processo, dizem,
acontece por fases.
Só quero informá-los que já me converti em argila.


Poemas e Canções, Volume 1, Relógio D'Água, trad. Margarida Vale de Gato e Manuel Alberto,, 1999, comprado na Feira do Livro de 2002

estimado cliente

da próxima vez que entrar numa livraria em insolvência se, por acaso, reparar que todos os livros estão encaixotados e que, no meio, há uma pilha imensa de títulos cuja ordem, aparentemente, não existe, não pergunte se têm livros de viagens, ou melhor, depois de lhe terem dito que não, não insista, por favor, estimado cliente, é a terceira vez que lhe digo que, bem, estamos em insolvência, compreendo que não saiba o que é, felizmente, haja saudinha, mas por aqui as coisas estão desarrumadas, é normal, pode procurar à vontade e não, não lhe posso fazer um embrulho. NÃO. e mesmo que pudesse, sabe, não fazia. não é nada de pessoal - é que não me apetece.

ainda os pássaros

Pousar neste beiral todos os dias, eis a formulação de um desejo maior. Voar de cá para lá e, de novo, de lá para cá, ter uma morada.

isto por aqui está uma animação. não, não me apetece sair. estou-me a divertir imenso em casa. a sério.

Terça-feira, 17 de Maio de 2011

diário dos mesmos pesares #8



«Até aqui nunca lho expliquei, não pense que por deslealdade, mas simplesmente não vamos pôr-nos a explicar às pessoas que de vez em quando vomitamos um coelhito. Como sempre me aconteceu estando sozinho, guardava o facto como se guardam tantas referências do que acontece (ou fazemos acontecer) absolutamente em privado. Não me critique, Andrée, não me critique. Acontece que, de vez em quando, vomito um coelhito. Não é motivo para não viver em qualquer casa, não é motivo para ter vergonha e isolar-me e andar calado.»

in "Carta a Uma Rapariga em Paris"

Julio Cortázar, "Bestiário", Publicações Dom Quixote, 1986

agora que isto faliu já posso confessar

que só quero a sorte de um amor tranquilo. Que não preciso de fama mas já agradecia algum proveito. Que tenho menos jeito para o flirt que para ervilhas com ovos escalfados. Que sou melhor amiga que namorada, embora queira filhos, gatos e serões à volta de temas tão chatos quanto a conta do gás do mês passado ou o livro da Emily Dickinson. Que,

gosto deste medo imenso

são os ventos da mudança.

só nós líamos Whitman

Quando soube ao fim do dia que o meu nome fora aplaudido no capitólio,
mesmo assim nessa noite não fui feliz,
E quando me embriaguei ou quando se realizaram os meus planos, nem
assim fui feliz,
Porém, no dia em que me levantei cedo, de perfeita saúde, repousado,
cantando e aspirando o ar fresco do Outono,
Quando, a oeste, vi a lua cheia empalidecer e perder-se na luz da manhã,
Quando, só, errei pela praia e nu mergulhei no mar e, rindo ao sentir as
águas frias, vi o sol subir,
E quando pensei que o meu querido amigo, meu amante, já vinha
a caminho, então fui feliz,
Então era mais leve o ar que respirava, melhor o que comia, e esse belo
dia acabou bem,
E o dia seguinte chegou com a mesma alegria e depois, no outro, ao
entardecer, veio o meu amigo,
E nessa noite, quando tudo estava em silêncio, ouvi as águas invadindo
lentamente a praia,
Ouvi o murmúrio das ondas e da areia como se quisessem felicitar-me,
Porque aquele a quem mais amo dormia a meu lado sob a mesma manta
na noite fresca,
Na quietude daquela lua de Outono o seu rosto inclinava-se para mim,
E o seu braço repousava levemente sobre o meu peito - nessa noite fui
feliz.

10

Apaga meu pesar,
porque ninguém consegue desfazê-lo;
veja-te o meu olhar,
pois és lume a acendê-lo,
e apenas para ti desejo tê-lo.

S. João da Cruz, Poesias Completas, BI, trad. José Bento

e nisto passa o amolador

acreditas em tudo o que lês?

Era uma mulher tão frágil e, até nisso, tão forte. Vêm sempre de longe, as afirmações mais sinceras. Talvez porque, movidos pela necessidade do outro – necessidade que é, quase sempre, a de receber aquilo que é nosso – encontremos depressa o que nos falta, como se aquilo que foi dado passasse, de repente, à categoria do roubo. A força de uma mulher, que a move, que a impele a decidir, investe-se também de fraquezas. É por isso que, quando chorava na casa de banho, junto à cortina azul YKB, não podia ser abraçada. A força, elemento que atrai, nunca pode ser escancarada, movimento suicida, até ao salto, deve antes libertar o outro da obrigação de estender a mão perante a falésia. Deve ser: eu vou. E não: vamos?

Segunda-feira, 16 de Maio de 2011

o combate com o demónio #3



Heinrich von Kleist (1885–1954)

«O seu rosto mergulha assim na noite que o cobriu com a sua sombra durante trinta e quatro anos; apenas conhecemos o seu tenebroso companheiro: o demónio.»

Stefan Zweig

matando Caetano

A tua acção depende, então, da minha. Depende de mim o princípio, depende de mim o fim. Escolho quando vens, quando vais. Digo: quero-te. E as minhas palavras têm a duração da tua fé, não em mim, em ti. Tu dizes: dormiste com? É a fé a faltar-te. Whatever works, em jeito de resumo. Certo, errado, bem, mal, verdadeiro, falso – quem dita? Importa reconhecer o limite: a dor, própria ou alheia.

não sei se já tinha mencionado que o sentido da vida é só cantar

fidelidade

Desta feita, reservo o meu corpo ao esforço de viver a sós. Do nascimento até aqui, quanta solidão ampliada na temperatura do outro. Guardarei o meu corpo e o meu querer tudo até ao dia em que da memória nasça um fruto. É também este o propósito da viagem, cultivar, de uma vez por todas, o exercício da recordação.

Domingo, 15 de Maio de 2011

a subjectividade é a verdade #12



não há provas de que haja realmente vida deste lado

onde sou só desejo queres não

Há, no meu amor, o grande fardo do ódio. Porque me subtrai, sempre, esse amor esgotante – a espera. O grande coração negro contrai-se. O silêncio, pela primeira vez, é a única expressão possível para esse órgão incompleto – creio que me falta pouco para morrer. Ao acaso, folheio Blanchot, Bodhidharma; como quem se consulta junto de um doutor. Tenho tanta esperança para estas linhas como para mim – tudo se perde, nada se transforma. Sei-o agora, graças ao coração imóvel, ao silêncio, ao grande ódio.
Deixei, ainda há dias, que outro corpo em mim se arriscasse; pergunto-me: poderá haver ainda vida dentro de mim? Lavei-me com água fria; dizem que, se o fizermos logo a seguir, mata tudo.
O egoísmo mais inclassificável é aquele que se disfarça de honestidade, que é apresentado como um gesto de entrega mas que, na verdade, é um acto de covardia. O homem covarde, para se ilibar da culpa que carrega, partilha um segredo. Cabe àquele que não queria ouvir, daí por diante, o fardo que o primeiro não podia suportar. Foi isto que me escureceu o coração.
A vingança, depois de ter lido os clássicos, sugere a necessidade de uma morte. Vinga-se um filho, um irmão insepulto, um companheiro de armada, agindo, segundo indica o dicionário, de forma mais ou menos equivalente. É esta, a história do mundo – e eu decido sair. Vingança como condenação íntima, crime primeiro, inaugural. É, talvez por isto, impossível precisar quem infligiu a primeira dor – se o homem que rasgou o hímen, se a mulher que pariu o ser. Tudo é crime. E depois, tudo é repetição.

Sábado, 14 de Maio de 2011

a poesia não me interessa #25



Fala também tu,
fala em último lugar,
diz a tua sentença.

Fala —
Mas não separes o Não do Sim.
Dá à tua sentença igualmente o sentido:
dá-lhe a sombra.

Dá-lhe sombra bastante,
dá-lhe tanta
quanta exista à tua volta repartida entre
a meia-noite e o meio-dia e a meia-noite.

Olha em redor:
como tudo revive à tua volta! —
Pela morte! Revive!
Fala verdade quem diz sombra.

Mas agora reduz o lugar onde te encontras:
Para onde agora, oh despido de sombra, para onde?

Sobe. Tacteia no ar.
Tornas-te cada vez mais delgado, irreconhecível, subtil!
Mais subtil: um fio,
por onde a estrela quer descer:
para em baixo nadar, em baixo,
onde pode ver-se a cintilar: na ondulação
das palavras errantes.

Paul Celan, "De Limiar em Limiar"

brindemos

De um intolerável a outro, um passo. Neste momento concebe-se uma nova noção de sinceridade. Não vou desenvolver.

Sexta-feira, 13 de Maio de 2011

Ela tem os teus olhos #2



«Ao passarmos a viver em ambientes completamente artificiais, rompeu-se o nosso contacto directo com o planeta, alterando-se o nosso conhecimento do mesmo. Desligados, como astronautas flutuando no espaço, não podemos agora distinguir o alto do baixo ou a verdade da ficção. Estas condições favorecem a implantação de realidades arbitrárias.»

Jerry Mander, "Quatro Argumentos Para Acabar com a Televisão", Antígona, 1999

Quinta-feira, 12 de Maio de 2011

esquece tudo o que te disse #16




bibliografia precisa-se

Embora seja frequente ouvirmos alguém exclamar que alguma coisa não é arte perante, por exemplo, uma criação plástica contemporânea, no que se refere ao cinema não me lembro de alguma vez ter ouvido alguém queixar-se de igual forma.
Quero dizer: quando um filme desagrada ao espectador ele sai da sala com a impressão de ter visto um mau filme e, talvez no átrio do cinema, se atreva a comentar que aquele filme era, pura e simplesmente, uma merda. Este espectador quase de certeza que não perguntará: mas isto era arte? é a isto que eles chamam arte?
A minha dúvida é então a seguinte: a diferença de atitude perante estas duas peças terá que ver com a instituição do cinema enquanto arte - e por isso ninguém se questiona se determinado filme é ou não arte dado que o cinema é, ele próprio, (e tão generalizadamente) a 7ª arte - ou se, pelo contrário, a transformação da arte em objecto de consumo - como o filme - tem o poder de a tornar apenas num produto que o cliente aceita ou rejeita.
Não há grande originalidade neste tipo de questões, bem sei, mas foi o que me ocorreu durante a depilação [as minhas pernas, Agda, são arte ou um objecto de consumo?].

Quarta-feira, 11 de Maio de 2011

lugares bem frequentados

«... era, juntamente com o marido, inquilina de uma fascinante pensão fundada em Brooklyn Heights pelo falecido George Davis. Entre os que partilhavam a pensão com os Bowles encontravam-se Richard e Ellen Wright, W. H. Auden, Benjamin Britten, Oliver Smith, Carson McCullers, Gypsy Rose Lee e (se bem me lembro) um domesticador de chimpanzés, que vivia lá com uma das suas estrelas.»

Truman Capote no prefácio de Duas Senhoras Bem Comportadas de Jane Bowles

o Mal-estar da Civilização #21



«Não esquecer Lévi-Strauss: a saber, que a "civilização" não é um grau e que não há hierarquias "naturais" a postular desse ponto de vista, mas também que a humanidade é una, pois deriva de um fundo antropológico comum. Por outras palavras, que falar de um "ataque contra a Civilização" não quer dizer nada, não mais, em todo o caso, do que a pretensão de classificar os povos em função da sua adesão a uma fé, muçulmana ou outra. Talvez seja conveniente precisar aqui que o suprematismo não é só "branco": se há quem, nas sociedades muçulmanas, se alie ao islamismo radical de um ponto de vista defensivo, ou seja, por causa da percepção de uma ameaça, a retórica dos chefes de guerra desse islamismo radical pretende-se ofensiva, e o seu proselitismo conquistador justifica-se pela inferiorizarão da civilização "decadente" do Outro.»

Samir Kassir, "Considerações Sobre a Desgraça Árabe", Cotovia, 2006

antes

Não foi há muito tempo que comecei a ouvir os pássaros. Sem qualquer esforço ou vontade, dei por mim a acordar muito cedo, aos primeiros sinais de luz: limitava-me a abrir os olhos e, nesse movimento, passava de um estado ao outro, sem estranheza, sono ou qualquer memória da noite que acabara. O canto das aves era, nesses longos minutos de imobilidade - pois o único movimento havia sido o dos olhos, abrindo-se - de uma intensidade tal que, certa vez, julguei estar noutro lugar, ou ter mudado o mundo ou ter chegado a morte.

Terça-feira, 10 de Maio de 2011

Teoria da Conspiração #24 (ou a Lucidez que embala o Berço)



«Começa provavelmente com traumas ou tacteios a que nem sequer se é capaz de dar uma forma verbal: uma separação, uma cena de violência, uma brusca consciência da monotonia do tempo. É com a leitura de livros - não necessariamente filosóficos - que estes choques iniciais se transformam em perguntas e problemas, dão que pensar. O papel das literaturas nacionais pode aqui ser importante. Não é que se aprendam palavras, mas vive-se "a verdadeira vida que está ausente", que, precisamente, não é utópica. Penso que, no grande medo do livresco, se subestima a referência "ontológica" do humano ao livro que se toma como fonte de informações, ou como um "utensílio" para aprender, como um manual, quando é, na verdade, uma modalidade do nosso ser. Com efeito, ler é manter-se acima do realismo - ou da política -, da preocupação por nós mesmos, sem desembocar, contudo, nas boas intenções da nossas belas almas, nem da idealidade normativa do que "deve ser".»

Emmanuel Lévinas, "Ética e Infinito", Edições 70, 2010

Cesariny

time after time?




Finda a leitura de Orlando dei por mim a pensar que talvez exista um desfasamento temporal entre os sexos feminino e masculino - como se, tratados de modo tão diferente pela história, vivessem num mesmo espaço mas em séculos diferentes.

o coração pensante

«A poesia está para aquém do julgamento, e isso nada tem a ver com indiferença nem com narcisismo, mas, antes, com o acumular de um tesouro para o pôr a render (...)»

Maria Filomena Molder, «O coração pensante e a faculdade de julgar, Revista Intervalo, Maio de 2006

da minha segunda casa (com amor)




Cesariny

Segunda-feira, 9 de Maio de 2011

espécie de oração particular #9



«Conhecer a sua melhor qualidade
. É necessário cultivar a qualidade mais relevante e ajudar as outras. Qualquer um triunfaria se conhecesse a sua melhor qualidade. Observe-se a maior qualidade e redobre-se a sua utilização: em alguns domina a inteligência, noutros, a coragem. A maioria violenta a sua capacidade e por isso não sobressai em nada. O que a paixão exalta com rapidez, tarde o desengana o tempo.»

Baltasar Gracián, "A Arte da Prudência", Edições Temas da Actualidade, 1994

promessas

Acontece que as bibliotecas crescem e o tempo, esse, encolhe.

Classificados

Procura-se multidão generosa onde , anónimo, possa diluir pequenas verdades particulares.





Alpha ou o princípio de Ruy Belo

MORTE AO MEIO-DIA

No meu país não acontece nada
à terra vai-se pela estrada em frente
Novembro é quanta cor o céu consente
às casas com que o frio abre a praça

Dezembro vibra vidros brande as folhas
a brisa sopra e corre e varre o adro menos mal
que o mais zeloso varredor municipal
Mas que fazer de toda esta cor azul

que cobre os campos neste meu país do sul?
A gente é previdente cala-se e mais nada
A boca é pra comer e pra trazer fechada
o único caminho é direito ao sol

No meu país não acontece nada
o corpo curva ao peso de uma alma que não sente
Todos temos janela para o mar voltada
o fisco vela e a palavra era para toda a gente

E juntam-se na casa portuguesa
a saudade e o transístor sob o céu azul
A indústria prospera e fazem-se ao abrigo
da velha lei mental pastilhas de mentol

Morre-se a ocidente como o sol à tarde
Cai a sirene sob o sol a pino
Da inspecção do rosto o próprio olhar nos arde
Nesta orla costeira qual de nós foi um dia menino?

Há neste mundo seres para quem
a vida não contém contentamento
E a nação faz um apelo à mãe,
atenta a gravidade do momento

O meu país é o que o mar não quer
é o pescador cuspido à praia à luz
pois a areia cresceu e a gente em vão requer
curvada o que de fronte erguida já lhe pertencia

A minha terra é uma grande estrada
que põe a pedra entre o homem e a mulher
O homem vende a vida e verga sob a enxada
O meu país é o que o mar não quer


in “Boca Bilingue” (1966)

Confusion is sex #2

Pois é aí / Ao centro de «Nenhures», / Que sempre o coração vai ter (Yves Namur)

Marche dans l'informe
Et l'irrespirable,

Marche,
Pour que durent en nous
Le peu,

L'obscur

Et
La trace d'une extrême solitude.

_______


Caminha no seio do informe
E do irrespirável,

Caminha
Para que em nós perdurem
O ínfimo,

O obscuro

E
A marca de uma extrema solidão.


Figuras do Mito Obscuro, Cavalo de Ferro, 2005, trad. Fernando Eduardo Carita

De como pode ser a morte mais fácil do que o amor.

«Deixa-me que fuja»
Ainda terei tempo? Ninguém melhor do que tu conhece o caminho, os atalhos, as pedras, as árvores, as marcações dos anos nos sítios destes campos, dos lugares destas esquinas na cidade; ninguém melhor do que tu pode saber as horas que conservo à minha frente.






Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta, Maria Velho da Costa, novas cartas portuguesas, Pub. Dom Quixote, 2010
(org. Ana Luísa Amaral)

rasgar

pequeno ensaio para o próximo inverno

Ich weiß jetzt, dass ein Dichter
ist mehr als oft das Wort Fimbrien

(Sanftmütig)


pesadelos

nessa noite nasceu nela uma dúvida: aquilo que ele acabara de dizer no sonho, teria sido ele ou ela a pensar?

Domingo, 8 de Maio de 2011

tenho pena

Da mesma forma que o Ramón Gómez de la Serna escreveu todo um tratado sobre os seios, talvez alguém devesse debruçar-se sobre os cabelos da mulher. Pode não parecer muito interessante, à partida, mas alguém que fosse genial saberia por onde começar esta teoria da cabeleira feminina. Por exemplo, de uma mulher de cabelo curto, mais do que falar de jean seberg&afins, poder-se-ia dizer que é livre e não guarda memórias - pois sempre que pode, corta-os, aos cabelos, e com eles todas as mãos que os prenderam. Isto é, claro, uma coisa muito improvisada. Alguém com talento poderia dizer mais, muito mais, do que eu.

"Decerto já vos chegaram aos ouvidos boatos" #4


das parábolas

Há uma rapariga que se desloca a partir de determinado ponto (chamemos-lhe ponto A). Segue daí, em linha recta, para outro ponto, que podemos designar por ponto B. Está cansada. De A até B conta-se, aproximadamente, um quilómetro, talvez menos, talvez um pouco mais. Mas não podemos esquecer o cansaço acumulado depois de uma longa tarde em passeio junto ao rio. Hesita: segue a pé ou espera que um autocarro passe? Decide andar. Alguns metros depois da primeira paragem, onde decidira não ficar à espera, passa por ela o primeiro autocarro - o 6. Encolhe os ombros e, decidida, caminha ainda. Há sempre a paragem seguinte. Acontece que também nessa paragem ela decide seguir. E alguns metros à frente sucede exactamente o mesmo - passa o segundo autocarro, desta feita o 27.

Isto, que podia ser um passeio, ou o fim de um passeio, torna-se, de repente, numa parábola ou, pelo menos, numa breve explicação de toda uma vida. Incapaz de esperar, esta rapariga perde todos os autocarros. No entanto, chegará ao seu destino, o tal ponto B, como toda a gente. Mais cansada, talvez.

Nunca saberá ao certo o que teria acontecido se tivesse ficado na primeira paragem e entrado no 6 ou se, mais à frente, tivesse esperado uns minutos para depois entrar no 27 e fazer o resto do percurso sentada. Mas está aqui. Foi a pé e chegou. Não aconteceu nada, entre A e B. Na verdade, tudo o que interessa, tinha acontecido antes, no passeio, na longa tarde, no rio. Talvez num desses autocarros as coisas pudessem ter mudado. Talvez não. Chegou. Cheguei. Prossigo.

planos para _______

mudar.

A thing of beauty is a joy for ever: / Its loveliness increases; it will never / Pass into nothingness


Bright Star

Sábado, 7 de Maio de 2011

Ontem fui ao cinema e odiei

É raro, odiar um filme. Tinha dito a uma amiga, semanas antes, que era tanta a minha necessidade de olhar, que, no pior que visse, havia sempre de encontrar alguma coisa que valesse a pena. Daí as séries, antes de dormir. E os filmes manhosos, antes de acordar. Não é preciso explicar, uma pessoa tem que fazer alguma coisa com as suas noites, não é? E então, dizia, em tudo quanto vejo há sempre qualquer coisa para guardar, à excepção do filme de ontem, cujas críticas tenho medo de ler, não vá alguém convencer-me de que aquilo era bom. Que o amor não pode salvar, que uma espécie de carinho (tenderness) pode ser a solução para aquilo que, no fundo, é um ódio generalizado. Está bem, talvez seja por isso que ande toda a gente a dormir com toda a gente. Mas, para mim, isso não chega para fazer um filme. A não ser que o rabo do actor, por si mesmo, valha enquanto obra.

olha, cortei o mal pela raiz

Imediatamente embora pouco a pouco #11



«Dentro de seis meses o mais tardar, ou se calhar amanhã, estarei cego. É a minha triste, triste vida que continua.
Os que me puseram no mundo hão-de pagar-mas, dizia eu comigo antigamente. Até hoje ainda não pagaram. Porém, eu agora tenho de apartar-me dos meus olhos. A sua perda definitiva há-de livrar-me de atrozes sofrimentos, é tudo o que se pode dizer. Uma manhã terei as pálpebras cheias de pus. Depois é só o tempo de fazer inutilmente algumas experiências com nitrato de prata, e acaba-se com eles. Há noves anos, a minha mãe disse-me: "Preferia que não tivesses nascido."»

Henri Michaux, "Antologia", Relógio d'Água, 1999

e do outro lado da linha ninguém diz nada

mármore

Ao mesmo tempo que tento adivinhar em quantas caixas cabe uma vida, descubro que Orlando vive já há 300 anos - facto que, páginas antes, eu já intuíra através de uma certa estranheza perante tantas aventuras e tão pouca idade. Orlando, ao fim de 300 anos, é ainda jovem, como eu, ao fim de tantas caixas. Dizia-me certa pessoa: tu decides. Dizia-me também: és assim, desta maneira. E eu a agonizar porque, 300 anos ou 300 caixas depois, sou assim, desta maneira. Se as pessoas mudam ou não, não posso saber. A triste conclusão a que cheguei é que, apesar de tudo e de tanto, eu não mudei. Assim, aquela pessoa que eu julgava não poder reconhecer-me, que eu queria que estivesse tão para trás no tempo que não pudesse saber se não aquilo que eu fui e não mais quero ser, olha para mim e vê. Sabe. Por isso, ainda ontem na Barroca, quando ela me disse que já não vai fazer as coisas da mesma maneira, que vai fazer assim, e assado, eu ri-me e disse: eu vou fazer tudo igual. Porque esta coisa da identidade (que outro ele questionava há uns dias atrás), esta coisa de sermos quem somos e de, permanentemente, acharmos que se fossemos outros as coisas correriam melhor, bem, não é bem assim. Mesmo a leitura, que nos permitiria alguma modificação, creio que vem apenas confirmar um bocadinho mais aquilo que já somos, só. Até a mais revolucionária das ideias, que se nos encaixa tão bem, já tinha, provavelmente, o seu espaço em nós. Nada é assim tão novo - porque se for, rejeitamos. Creio que, no amor, é mais ou menos isto que acontece. Só funciona se reconhecermos, se houver um espaço em nós onde aquela pessoa encaixe, um espaço preparado para receber certas formas, certa densidade e certo peso. Se for tão novo que seja preciso limar, cortar, ajustar - nunca vai caber, nunca vai encaixar tão bem que não se note, que não se sinta ali uma certa estranheza, que não nasça o lugar da dúvida. De qualquer modo, as pessoas são formas pouco trabalháveis, não lhes vejo grandes semelhanças com o mármore.

Sexta-feira, 6 de Maio de 2011

Chamada a pagar no destinatário #7



«I will change my life... and I will also help you»

Vidrado


Se a chuva parasse
continuarias a não estar aqui
pelo que prefiro que a chuva prossiga
como sulfúreo castigo;

se te olho através da vidraça
é porque penso ser um dia o namorado
fantasma
a espreitar-te do pára-brisas estilhado
como de insistente postigo.


Daniel Jonas, Os Fantasmas Inquilinos
Cotovia

«é este amor tão fino e tão delgado, / que quem o tem não sabe o que deseja»

ERA SÓ ISSO?


É só isto
se me beijares já
vem para uma demora
de seguinte:

eu amo-te, por-te que eu te amo? Sim,
eu amo-te eu
te
eu amo-te porque é esses pés que tu tens e mostras-me
por vezes nas minhas pernas varas em cima
e pelos joelhos, eu gosto dos meus joelhos
segurando-te a fonte
onde que mais faço se seguir-te
pelo atrás do teu chão
logo junto aos meus
joelhos

gosto dessa forma firme de arrebanhar a pele,
os riachos de sangue escuro redondos e finos
a verem-se pela fonte
pelo mato-te a sede
eu sede-te
é eu amo-te essa pele
firme nessa forma

onde mato
na fonte a sede
de mato-te
amo-te
eu gosto-te
nos meus
joelhos as minhas mãos
nos teus
pés.

Eu amo-te também
as pernas
por onde me eriço nas pernas
ao resto.

Ao resto dos pés nos meus joelhos
nas minhas mãos.

Nuno Moura, Soluções do Problema Anterior, &etc


é preciso esquecer. é preciso não esquecer.

Quinta-feira, 5 de Maio de 2011

a vida não é um sonho #10



«Continuo de pé em cima da mina. Tínhamos partido esta manhã em patrulha e eu ia em último como de costume, todos passaram ao lado, mas eu senti o clique debaixo do pé e parei logo. Elas só rebentam quando se tira o pé. Atirei para os outros o que trazia nos bolsos e disse-lhes para se irem embora. Estou sozinho. Devia esperar que eles voltem, mas disse-lhes que não voltassem. Podia tentar atirar-me de barriga para o chão, mas teria horror a viver sem pernas. Fiquei apenas com o meu bloco e o lápis. Vou atirá-los para longe antes de mudar o peso para a outra perna, é que tenho mesmo que o fazer porque estou farto da guerra e estou a sentir um formigueiro.»

Boris Vian, "As Formigas", Relógio d´Água, 2004