Sexta-feira, 30 de Setembro de 2011
twin peaks
No meu caso, encontrar um equilíbrio entre o sentido da culpa e o sentido de justiça continua a ser difícil. Porque a justiça soa a mimo e a culpa a ingratidão. Isto quer dizer qualquer coisa mesmo muito importante que eu agora não posso explicar.
conheça a gama de iogurtes gregos
por mais que tente, não deixo de receber a newsletter do continente on-line.
Quarta-feira, 28 de Setembro de 2011
Domingo, 25 de Setembro de 2011
a mulher-tentativa - parêntesis
depois de tentar em conjunto, em separado, a direito e de viés, de pé, deitada, de joelhos, aos saltos, de costas, com fumo, sem fumo, com copo, sem copo, descobri que o erro não estava tanto na tentativa como no objectivo.
Domingo, 18 de Setembro de 2011
o monstro
Habituei-me a escrever sobre mim. Nunca menti, mas ficcionei, sempre. Agora que dei de caras com aquilo que sou fiquei sem nada para dizer. A realidade é sempre mais pobrezinha, menos interessante que a ficção. Curiosamente, foi a ausência de mim naquilo que me fazia ser eu que me fez chegar a mim. Ou a outra possibilidade de um mim que, nos últimos anos, se vinha a esgotar, depressa. No Lobo da Estepe fala-se disto, de alguma forma, nestes eus que cada um contém, da impossibilidade de se chegar a uma forma final, uma resposta definitiva. E eu sempre vivi nessa busca de uma qualquer unidade que, tchanam, não existe. Não sabia, pronto, não sabia. Estava mesmo convencida de que, através da leitura, do conhecimento, do diálogo e da reflexão, poderia um dia fechar o círculo e dizer: é assim que as coisas são. Ou: é assim que eu sou. Afinal, a leitura traz esclarecimento, mas não traz unidade. O conhecimento ajuda a que a leitura possa ter consequências mais profundas mas não garante grandes mudanças naquilo a que, numa distinção curiosa, chamamos de vida. O diálogo, no meu caso particular, nunca trouxe grande coisa - já que quase sempre significou confronto ou, pelo contrário, consolo, uma coisa mais pequenina, mais primária, da chapada ao beijo na boca. E a reflexão? Mas quem é que não reflecte? E depois?
Já tentei escrever sobre outras coisas. Já tentei poemas, romances, contos. Já tentei escrever sobre mim fingindo que não estava a escrever sobre mim. Já tentei escrever sobre outros e acabei por descobrir que continuava a escrever sobre mim. Também já tentei não escrever. Este texto é justamente essa última tentativa, a de não escrever.
Já fui mais livre do que neste Domingo que agora, com que alívio, vai fechando as portas. Fui mais livre enquanto lia o Séneca e via o meu filho descer o escorrega, fui mais livre quando me pus a acreditar em Deus e Lhe pedi, como a Etty, que me ajudasse a ajudá-Lo. De tempos a tempos preciso de apertar os ombros, de apalpar as pernas, certificar-me que ainda está tudo aqui, como o deixei. Evito olhar-me ao espelho - porque nunca fui tão feia como hoje. Há um conforto imenso na falta de beleza, no desmazelo, nos óculos demasiado grandes, no cabelo demasiado curto. Mas não se pode olhar muitas vezes. Eu sei, eu sei que nunca fui tão feia como hoje, e sirvo-me disso para me chegar aos outros, um bocadinho mais leve de mim, mais ausente. A vida toda foi este exercício hercúleo de me fazer bela para o outro, um outro do tamanho do mundo, que deveria justificar a minha existência. Deu-me sempre tanto trabalho, o exercício de uma beleza tosca, insegura, assente na mentira da minha força. Porque eu sou, dizem, uma pessoa forte. Reparem, o mais engraçado é que, por mais luz, ou por maiores trevas em que esteja, caio facilmente nesse velho vício de me mostrar especial. Aconteceu há pouco tempo, lembro-me, que um estranho acabou a falar-me de mim, conhecendo-me. Era eu, distraída, a mostrar o que não tenho, o que nunca tive, o que se desmontou sempre à menor das convivências.
É isto que espero, afinal: ser amada pelo que não tenho, pelo que não sou. E de dia para dia é só no amor, no amor pela beleza que me falta, que deposito alguma esperança. Quero dizer: apago-me para que, com sorte, e alguma atenção, me possam ver.
Quarta-feira, 14 de Setembro de 2011
geriatria
Quando o telefone tocou eu ia no tram a caminho de não sei onde. Não conseguia ouvir por isso saltei mais cedo, na Parade Platz. Disse-me: tive um cancro, sou impotente, preciso de companhia. Disse-me: não preciso que me toque, basta que se sente ao pé de mim, a ver televisão. Também podemos ir passear. Não tem que andar despida. Disse-me: levei muitas injecções, por isso não posso ter sexo. O que acha? Está interessada?
a rapariga que não sabia ajoelhar-se
«Porque foi para a felicidade que as pessoas foram criadas e quem for completamente feliz tem a honra de dizer a si mesmo: «Cumpri o mandamento de Deus neste mundo.» Todos os justos, todos os santos e todos os mártires foram sempre felizes.»
Fiódor Dostoiévski, Os Irmãos Karamazov
Segunda-feira, 12 de Setembro de 2011
experiência
Na carta escrita à irmã ia uma menção a uma palavra nova, descoberta num filme do Bergman: experiência. A palavra tinha também surgido noutro contexto, que já esquecemos, mas que no momento da escrita fazia o maior dos sentidos. Cada leitura, no entanto, traz novas ideias e, com elas, tudo vai ficando indistinto. Porque a experiência de uma Liv Ullman nas últimas cenas de um filme - que experiência é essa, comparada com a de um Lobo da Estepe? E a minha, que experiência é esta, que se esquece dela mesma, enquanto acumula, e se enche de pó, e se renova a cada dia, e insiste em manifestar-se através daquilo que, despite all this, teima em não mudar?
Perante o meu desespero, uma amiga budista mandou-me fazer uma oração. Disse-lhe que sim, que o faria, embora soubesse que não posso, de forma alguma, cumprir uma coisa destas. Acontece que me falta gravidade para poder cumprir qualquer tipo de ritual. O sagrado dá-me sempre vontade de rir. É também por isto que me é difícil mudar - quando penso em mim bem, toda organizadinha, com a cabeça regulada, o coração no sítio, sem cigarros, uma pele fantástica, vegetariana, assim, quando penso em mim exactamente como gostava de ser, só me apetece rir.
E em tua casa, como é?
Depois de uma jornada de trabalho, a prostituta recusa-se a dormir com o marido. Este, decepcionado, queixa-se de que aos clientes ela não diz que não. É o meu trabalho, responde-lhe ela, faço-o porque me pagam.
Domingo, 11 de Setembro de 2011
new skin for the old ceremony
Ando há dois dias com a frase na cabeça. Disse-a logo de manhã, à professora de chinês que vinha comigo no elevador. Depois, à minha mãe, na cozinha, enquanto o feijão branco acabava de cozer, no meio do refogado e do chouriço. Sim, em voz alta, creio tê-la dito quatro vezes. Não me sai da cabeça. Ich bin so wild nach deinem Erdbeermund. Na galeria dei com uma caixa de cds; nela, uma capa com um Klaus Kinski mais novo do que o do Fitzcarraldo, anunciava a leitura de qualquer coisa. Villon, parece. Ouvi uma vez. E outra. Erd, beer, mund, repito, devagar, sempre com a voz grave, em breve enlouquecida, do outro.
Na varanda, não sei bem a propósito de quê, pus-me a rir-me de mim. Devia estar a apagar o último cigarro, a preparar-me para o Dostoiévski, já não sei. Sei que olhei para o céu, pensei que estava fabuloso, com aquelas nuvens azuis em fundo azul (YKB) que só acontecem à noite, e depois pensei: pensei o quê? Não me lembro. Vivo uma vida isenta de pensamentos dignos de memória.
Sábado, 10 de Setembro de 2011
Sonhei que escrevia. De manhã não pude lembrar-me do texto. Já não importava. Acordou-me, enfim, uma imagem – a de um beijo, na estufa fria
Houve uma noite em que saí de casa sozinha para uma sessão de cinema ao ar livre na Fábrica Vermelha. Sair, hoje em dia, não é coisa que se possa fazer sem pensar. E assim, antes de me fazer à estrada, penso: será hoje, que rio? Tudo quanto penso vem assim, entrecortado. Saí em Stadelhofen, estação à beira lago, e não me lembro se caminhei ou se me meti no tram até à Bürkliplatz, onde se apanha o autocarro que percorre o lago, do lado de lá. A tal da Fábrica, aproveito para explicar, é uma espécie de Trama, gigante, e sem livros. Ou seja – aquilo em que se possa assemelhar à Trama sou eu, e chega. Uma ideia de casa, de pares, por consumar. Talvez venha daí a expectativa, o desejo. Seria preciso que eu soubesse dar o jeito – mas não me apetece mais do que esperar. Como noutras noites, fui. Como noutras noites, esperei. Até vir o frio e, com ele, a vontade de partir. Nada me faz ficar, por enquanto. Abandonei o filme, cruzei a cortina negra, dobrei a esquina. Foi aí que encontrei uma caixinha com livros, cassetes, pequenos objectos e um cartão: para levar. Não demorei muito tempo a encontrar um livrinho do Walser, cujo título nem me lembro, mas creio que era um conjunto de contos. O primeiro, que comecei a ler no autocarro, descrevia uma casa, um homem, e uma rapariga. Digo-o assim, sem verbos, porque a língua que hoje uso me chega tão entrecortada como a maioria do que penso. Lost in translation, penso quase sempre a três, nunca a fundo. Quando cheguei novamente à Bürkliplatz descobri que afinal a ideia de casa, numa cidade, pode estar em qualquer parte. À minha frente, naquilo que me ocorre chamar de coreto, um grupo de pessoas dançava. Talvez seja sensibilidade a mais mas, naquele momento, foi como se me caísse em cima um coração, o enorme coração vivo da cidade. Fui sentar-me, no meio das pessoas, e aquilo era a mais impossível das alegrias, a mais inesperada felicidade. A rapariga ao meu lado estava no mesmo ponto que eu, em ebulição – apaixonada por uma imagem da qual não podia participar se não assim, como espectadora. Perguntou-me se eu ia dançar, se sabia o que era aquilo, se acontecia regularmente. A tudo tive que dizer que não. Quando ela se foi embora, eu fiquei. Não é que não me tenha recriminado – parecia tão sozinha quanto eu, seria ela que me faria rir? Acontece que agora não corro para nada, não insisto, não me faço acontecer. Fico o quanto me apetece e depois vou, sem saber se volto, pensando nisso depois, mais tarde, noutro lado qualquer.
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