Domingo, 30 de Outubro de 2011
o Mal-estar da Civilização #22
«Digno de espanto, se bem que vulgaríssimo, e mais doloroso do que impressionante, é ver milhões de homens a servir, miseravelmente curvados ao peso do jugo, esmagados não por uma força maior, mas aparentemente dominados e encantados apenas pelo nome de um só homem cujo poder não deveria assustá-los, visto que é um só, e cujas qualidades não deviam prezar, porque os trata desumana e cruelmente.
Tal é porém a fraqueza humana: levados à obediência, obrigados a contemporizar, os homens não podem sempre ser os mais fortes.»
Etienne de la Boétie, "Discurso sobre a servidão voluntária", Antígona, 1997
Sexta-feira, 28 de Outubro de 2011
espécie de oração particular #11
«O tédio é pior que a angústia, é mesmo o contrário, quando se está angustiado não se sente tédio; e assim eu passava do tédio à angústia, da angústia ao tédio. Não, já não sinto tédio, não, não pode ser mais nada! Se bem que, lá no fundo, sinta que ela me espreita, me ameaça, e que me pode muito bem vir a crescer, a envolver-me, a atabafar-me. Ah, mas não, o mundo tem imenso interesse, imenso. Basta olharmos. Há gente que se contenta em olhar para as árvores, em passear. Aconselharam-me a passear. Mas esses passeios eram mais entediantes que o próprio tédio, mais tristes do que a tristeza. Oxalá que eu não torne a afundar-me no abismo do tédio. Olhar atentamente em redor, para o mundo; com a maior da atenções. Despi-lo da sua "realidade", lutar por experimentar, a cada passo, o espanto original.»
Eugène Ionesco, "O Solitário", Editora Ulisseia, 1975
Quinta-feira, 27 de Outubro de 2011
como estás?
«Mole. E enjoada comigo mesma como se me tivesse provado. Um pedaço de pão que depois de se mastigar durante muito tempo acabasse sabendo mal. Sabendo a mim própria, aos meus próprios sucos. Cuspi-me com desagrado para cima da cama e aqui fiquei líquida e espapaçada. É um estado de espírito entre calmo e desesperado com uma leve ansiedade à mistura. Por vezes sinto medo desta solidão maior do que nunca foi, imensa. Para onde quer que me volte só dou comigo mesma. Mas já me vi bastante e acabo de reparar que nada mais tenho a dizer-me. Nada mais.»
[Maria Judite de Carvalho, Tanta Gente, Mariana!]
Quarta-feira, 26 de Outubro de 2011
untitled, damn!
And a good man and a good woman
Can't find the good in each other
And a good man and a good woman
Will bring out the worst in the other
The bad in each other
[Feist]
Can't find the good in each other
And a good man and a good woman
Will bring out the worst in the other
The bad in each other
[Feist]
how to be alone
«À pessoa que descansa em si não lhe interessa o tempo; a evolução não deve levar o tempo em conta.»
Etty Hillesum, Diário 1941-1943 (Assírio&Alvim, 2009)
não sou nada, nunca serei nada, não posso querer ser nada
à parte isso, deixei o Dostoiévski no teu carro.
Terça-feira, 25 de Outubro de 2011
A vida não é um sonho #13
Vergílio Ferreira, "Em Nome da Terra", Bertrand Editora, 1990
Segunda-feira, 24 de Outubro de 2011
a lei do deix'andar
É preciso, digo eu, que uma pessoa se habitue a que isto seja assim, a que isto seja a paz, e que a paz seja afinal algo de muito diferente do que se previra. Que a paz não é um estado de graça prolongado, não senhor, mas antes uma dignidade perante toda a emoção, ou falta dela. Quero dizer: a paz de andar feliz por Lisboa, contemplativa, debaixo do milagre; e a paz de andar triste por Lisboa, sem texto, debaixo de milagre outro.
De uma forma mais prática: a paz da tensão pré-menstrual, a paz do mau humor depois da sesta curta, a paz dos transportes públicos sempre muito cheios, a paz das ruas sempre muito sujas. A paz do que não é certo, do que não corre bem, ou do que simplesmente nem chega a correr, a paz do que falha, do que se tenta, e do que não se tenta. A paz do que se conhece e do que está por conhecer.
É por aqui que ando, agora. Às vezes não interessa mudar, interessa aceitar. E aceitando, é deixar andar. Não me julgues.
De uma forma mais prática: a paz da tensão pré-menstrual, a paz do mau humor depois da sesta curta, a paz dos transportes públicos sempre muito cheios, a paz das ruas sempre muito sujas. A paz do que não é certo, do que não corre bem, ou do que simplesmente nem chega a correr, a paz do que falha, do que se tenta, e do que não se tenta. A paz do que se conhece e do que está por conhecer.
É por aqui que ando, agora. Às vezes não interessa mudar, interessa aceitar. E aceitando, é deixar andar. Não me julgues.
Sábado, 22 de Outubro de 2011
Quinta-feira, 20 de Outubro de 2011
Imediatamente embora pouco a pouco #13
«O leitor sabe que está consciente e sente que está em pleno acto de conhecer, porque o subtil relato imagético, que está agora a fluir na corrente dos seus pensamentos, manifesta o conhecimento de que o seu proto-si foi modificado por um objecto que agora mesmo se torna saliente na sua mente. O leitor sabe que existe porque, nesta narrativa, o leitor é o protagonista do acto de conhecer. O leitor eleva-se, transitória mas incessantemente, acima da linha de água do conhecimento, sob a forma de organismo sentido, imparavelmente renovado em cada novo instante, graças a toda e qualquer coisa que afecte a sua maquinaria sensorial, vinda do exterior ou recordada da memória. O leitor sabe que existe e que está a ver esta página porque a história da consciência narra um personagem — o leitor no acto de ver. O leitor sabe agora de si, e a primeira base para o si consciente é um sentimento que surge na re-representação do proto-si não consciente, no processo de ser modificado. O primeiro truque da consciência é a criação do relato desta modificação, e a sua primeira consequência é o sentimento do conhecer.»
António Damásio, "O Sentimento de Si. O corpo, a emoção e a neurobiologia da consciência", Publicações Europa-América, 2000
Quarta-feira, 19 de Outubro de 2011
à porta da biblioteca Galveias
encontrei um homem com um colete azul que dizia "leitor ao serviço da edp".
Terça-feira, 18 de Outubro de 2011
Chefe, precisamos de mentiras novas #3
«Solto-me das aparências e contudo fico preso a elas; ou melhor: fico a meio caminho entre essas aparências e aquilo que as anula, aquilo que não tem nome nem conteúdo, aquilo que é nada e é tudo. Nunca serei capaz de dar o passo decisivo para fora delas. A minha natureza obriga-me a flutuar, a eternizar-me no equívoco, e, se tentasse optar por um sentido ou pelo outro, perder-me-ia por causa da minha salvação.»
E. M. Cioran, "Do Inconveniente de Ter Nascido", Letra Livre, 2010
Segunda-feira, 17 de Outubro de 2011
os textos menores de rosa m
Para melhor cuidar do amor
tenho de deitar-me cedo, dormir
as oito horas colectivas, ser de todos
a primeira a acordar. Há muito
que intuía estes cuidados
embora só hoje, com o amor a milhas,
os execute com minúcias delicadas.
Deixei a carne, as unhas, o vinho.
Continuo a usar o vestido da tua
mãe (os anos setenta), sobretudo agora
às portas deste Agosto carregado
sem nada para fazer a não ser procurar
no corpo, e a sós, o que me ensinaste,
a tua metodologia clara,
o teu descaramento limpo. Logo eu,
que esperava de um homem um
silêncio obsceno, tento na língua,
uma força de centauro tímido.
Acordo cedo para que a manhã
afaste os sonhos em que todos
vão morrendo: primeiro a mãe,
depois a avó, até dar cabo de todo
o agregado. Ou faço renascer certos
mortos, há muito dados por perdidos,
que vêm de noite chorar os que
deixaram – e que eu agora mato.
Sei que já não somos necessários,
basta cumprir esse sono estipulado,
pousar nos olhos a página
de um livro, a aresta de uma chávena,
a fundura de um umbigo.
[...]
tenho de deitar-me cedo, dormir
as oito horas colectivas, ser de todos
a primeira a acordar. Há muito
que intuía estes cuidados
embora só hoje, com o amor a milhas,
os execute com minúcias delicadas.
Deixei a carne, as unhas, o vinho.
Continuo a usar o vestido da tua
mãe (os anos setenta), sobretudo agora
às portas deste Agosto carregado
sem nada para fazer a não ser procurar
no corpo, e a sós, o que me ensinaste,
a tua metodologia clara,
o teu descaramento limpo. Logo eu,
que esperava de um homem um
silêncio obsceno, tento na língua,
uma força de centauro tímido.
Acordo cedo para que a manhã
afaste os sonhos em que todos
vão morrendo: primeiro a mãe,
depois a avó, até dar cabo de todo
o agregado. Ou faço renascer certos
mortos, há muito dados por perdidos,
que vêm de noite chorar os que
deixaram – e que eu agora mato.
Sei que já não somos necessários,
basta cumprir esse sono estipulado,
pousar nos olhos a página
de um livro, a aresta de uma chávena,
a fundura de um umbigo.
[...]
Domingo, 16 de Outubro de 2011
Quinta-feira, 13 de Outubro de 2011
Dicionário das causalidades #7
G
Guilhotina
«O sangue que treme na cama: a cama
que treme na casa: a casa
que treme, A paisagem arrancada
ao chão,
Furos de lume, Os tecidos do corpo,
Não é doce esta bolsa
de sangue, Que te adiantes: cabeça
estrelar de tigre, O dia empurra as suas massas,
Máquina planetária: Deus: uma faísca
em cheio, Ou um dedo apenas direito
estendido:
com a unha veemente entrando,
Que a obra espacial da luz se acomode
à tua plumagem, em que poça de ouro
se implanta
soberbamente a mão?,»
Herberto Helder, "A Cabeça Entre As Mãos", Assírio & Alvim, 1982
Terça-feira, 11 de Outubro de 2011
o caminho
é para dentro. A intuição manda-me para fora, sempre, e eu digo-lhe, dizendo-me: não. Há anos que escrevo como uma secretária, faço do texto um mapa, um relatório. Procuro, antes de mais, a eficiência de comunicar-me. O leitor, se o houver, deverá compreender-me, e eu, se existir, deverei guiá-lo até mim, até à minha experiência, matéria em ebulição, dia que nunca se fechou. E então volto a escrever para encerrar capítulos, para fechar a história, a minha história, que insiste em enrolar-se e desenrolar-se sem nunca rebentar. Dava tudo
tudo para que uma onda me levasse, desde que a culpa não fosse minha. Nada mais fake do que isto, chegar ao texto morrente, num fio chorante, e sair vitoriosa, tão seca e vazia.
tudo para que uma onda me levasse, desde que a culpa não fosse minha. Nada mais fake do que isto, chegar ao texto morrente, num fio chorante, e sair vitoriosa, tão seca e vazia.
torel
Não fecha assim, o mar. Côncavo. De tarde deitei-me num banquinho de jardim. O espanto era a luz, sobre as pálpebras (fechadas). Férias, infância, qualquer coisa de memória. Mas era agora. Creio ter adormecido, entre tudo isso. Havia um impulso, uma queda para a escrita - embora eu soubesse que, assim que a mão se encostasse à primeira linha, silêncio. Tentei.
A escrita não recupera quase nada daquilo que, debaixo das maiores palmeiras de Lisboa, me fazia texto.
E depois esta impressão: um último reduto, eu. Se pudesse revelar-me debaixo de um véu, se pudesse andar na rua de cara tapada, se me desse ao luxo do anonimato, se adoptasse um nome falso, daria tudo, tudo eu, em texto. Porque fora de mim, fora de mim há o quê?
A escrita não recupera quase nada daquilo que, debaixo das maiores palmeiras de Lisboa, me fazia texto.
E depois esta impressão: um último reduto, eu. Se pudesse revelar-me debaixo de um véu, se pudesse andar na rua de cara tapada, se me desse ao luxo do anonimato, se adoptasse um nome falso, daria tudo, tudo eu, em texto. Porque fora de mim, fora de mim há o quê?
Domingo, 9 de Outubro de 2011
Teoria da Conspiração #27 (ou a Invenção da Banha da Cobra)
«A esta perseguição dos tigres se ajuntou outra de piolhos, a qual posto que parecia leve, foi tal que a alguns tirou as vidas, e a todos geralmente pôs em risco de as perderem; porque enquanto andávamos quase nus, trazendo somente vestidos uns farrapos por que nos apareciam as carnes em muitos lugares, ali se criavam tantos, que visivelmente nos comiam sem lhe podermos valer, e conquanto escaldávamos o fato muito amiúde, e o catávamos cada dia três e quatro vezes por ordenança; mas como era praga dada por castigo de nossos erros, nenhuma cousa aproveitava, antes parecia que quanto mais trabalhávamos por os apoquentar, então cresciam em maior quantidade; porque quando cuidávamos que os tínhamos todos mortos, dali a pouco espaço eram outra vez tantos, que com um cavaco os ajuntávamos pelo fato, e os levávamos a queimar ou soterrar, por se não poder matar tanta soma de outra maneira, mas com todos este remédios, a um Duarte Tristão, e outros dous ou três homens fizeram tais gaivas pelas costas e cabeças, que disso claramente faleceram.»
Bernardo Gomes De Brito, "História Trágico-Marítima", Círculo De Leitores, 1994
Quinta-feira, 6 de Outubro de 2011
o homem de quarta-feira #40
«Do vasto corpus da literatura utópica
apenas em Andrei Platonov encontramos uma reflexão essencial
sobre o “corpo utópico”.18
Por falta de espaço, limitemo-nos a algumas observações
sucintas, para recolocarmos o problema. Em O Poço da
Fundação19, publicado apenas em 1987, mas que foi escrito nos
meses de inverno de 1929 e 1930, o “corpo utópico” entra em
cena ao mesmo tempo que a “utopia” se esvanece, enterrada no
“poço” que ela própria originara: o de construir um “casa”
perfeita, um “mundo” absolutamente feliz. A história tem a ver
com a construção de uma casa para os futuros jovens nascidos na
“revolução”. Alegoricamente está em causa o retorno da
“humanidade” a casa, da única maneira como pode ser pensada.
Construíndo-a. Sucede que o plano da casa é tão incomensurável
e infixável, por razões misteriosas, que as fundações exigem um
“poço” que vai crescendo desmesuradamente. Finalmente não há mais que um enorme buraco, esse imenso poço. Por uma “casa” que não chega a ser construída, de que apenas ficou o poço, todos os trabalhadores abandonaram as suas, os kulaks foram expulsos, as mortes sucedem-se, e no fim, até Nastya, a rapariguinha que parece representar o “novo começo”, também ela acaba por morrer.»
18 Andrei Platonov é autor de obras densas e fantasmagóricas, caso de O poço das Fundações e Chevengur, que tendo sido escritas nos finais dos anos 20, só foram publicadas, em russo, nos anos oitenta.
19 Em Inglês o título é The Foundation Pit, e em Francês La Fouille.
José A. Bragança de Miranda, "Corpo utópico", cadernos pagu (15) 2000: pp.249-270
Terça-feira, 4 de Outubro de 2011
a temperatura do corpo #9
«Estremeceu. Poderia ainda continuar? Poderia ainda arrastar-se, cheia de febre, extenuada, em ferida, pela serra a cabo? E as dores cada vez mais apertadas, que a varavam de lado a lado, a princípio rastejantes, quase voluptuosas, e depois piores que facadas? Não, não podia continuar. Agora só atirar-se ao chão e, como no dia de São Martinho, rolar sobre a terra em brasa, negra, saibrosa, eriçada de tocos carbonizados, sem palha centeia a quebrar a dureza das arestas, e sem o desavergonhado do Armindo a cantar-lhe loas ao ouvido...»
Miguel Torga, "Bichos", Edições do Autor, 1970
od&velas
foi só quando vi o cristo rei que me pus a sentir. o meu filho, no avião, dizia: tantos portugueses, tantos portugueses. agora interrompe o texto, de cuecas, e à porta do que poderia ter sido a próxima frase pergunta: é verão?
Domingo, 2 de Outubro de 2011
a poesia não me interessa #27
Demasiado só estou no mundo, porém não o bastante
para cada hora consagrar.
Demasiado pequeno sou no mundo, porém não o bastante
para diante de ti como uma coisa estar
obscura e operante.
Quero a minha vontade e quero com minha vontade acompanhar
os caminhos do actuar;
e quero, em tempos de serenar ou de um pouco hesitar,
quando algo se aproximar,
entre os cientes me encontrar
ou a solidão habitar.
Quero ser teu reflexo sempre de corpo intrépido,
e nunca ser cego ou demasiado decrépito
para tua imagem pesada e vacilante suster.
Quero crescer.
Em nenhum lugar quero ficar distorcido,
pois é mentido o que ficar distorcido.
E quero o meu sentido
verdadeiro diante de ti. Quero de mim imagem dar
como o quadro que pude contemplar,
longamente e a curta distância também,
como palavra compreendida,
como minha diária bebida,
como o rosto de minha mãe,
como um barco afinal,
que me pôde transportar
atravessando a tormenta mais mortal.
Rainer Maria Rilke, "O Livro das Horas", Assírio & Alvim, 2009
Sábado, 1 de Outubro de 2011
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