«Ele que deixasse os livros, diziam, para os paralíticos e os moribundos.»

Quarta-feira, 30 de Novembro de 2011

a subjectividade é a verdade #15

rosa m pratica poesia enquanto a poesia pratica rosa m


HOW TO BE ALONE


Não foi em Kalkbreite nem sequer em Lochergut
mas na Zähringerstrasse, junto à biblioteca. Vinha
de uma dessas avenidas, que todas as cidades têm,
onde lojas de moda convivem com livrarias, casas
de chocolates e um grupinho de punks.

Na memória, uma ideia de pássaro, meu atributo
e uma gratidão quase solene.  

À minha volta, os homens pousavam no lugar vazio
da imaginação e eu olhava, nunca mais de três
segundos, a fim de manter o anonimato. A felicidade
era os versos de um poeta no balcão da despedida

“A Dickinson tem um verso sobre Zurique
e não é triste”

era a Europa de ipod nas orelhas, era eu peninsular
agora ilha desconsolada com aquele livro compelling
and invigorating (cf. Times), no fundo, era essa missa
de corpo presente onde nenhum pater me levava
pela mão,

rapariga sem flor na transparência da língua.

mizé, eu não tenho nada contra galdérias

mas faz-me confusão quando se confunde estilo com mau português.

na caixa de uma livraria, depois do pagamento

- Não preciso do talão, pode deitar fora?
- Não.
- Não?
- Se precisar de trocar...
- Trocar?
- E se tiver algum defeito?
- Ah, eu experimentei.
- Como?
- Mas trocar por quê? Pelo L?

[o livro era Os Passos em Volta]

Terça-feira, 29 de Novembro de 2011

sabes quando estás a escrever uma coisa e de repente percebes que não, não era nada por aí que querias ir?

Deitei-me deviam ser umas onze da manhã, incapaz de dormir. É isto que me acontece quando tenho tempo livre, porque o tempo não é de borla, e eu tenho remorsos. Em sequência, a lista de fenómenos que formam um dia (apenas um) na vida desta pessoa: conversa à mesa da cozinha; conversa em banco de jardim numa das avenidas novas; aquisição de um livro; leitura e redacção de diversos numa esplanada; petite guerra doméstica e telefonema. Como é óbvio, a chave vem por último, neste telefonema (são assim, os efeitos-surpresa da escrita). Quem me ligou foi uma mulher que completará, em Fevereiro próximo, oitenta e oito anos, mulher que, na hierarquia familiar, me vai à frente em duas gerações. Não se trata aqui de cordelinhos ou poderios mas só de alívio, já que, entre ela e o eu que escreve, o karma teve oportunidade de melhorar por duas vezes. Eu sou a terceira. Ligou a fingir que não sabia de mim, como finge que não ouve (alô? alô?) quando a conversa desconversa. Eu, que no setenta e três dou sempre o lugar à primeira velhinha que aparece – que não dou aos velhinhos, que à partida não merecem, porque são homens, e isso não abona a favor de ninguém – com a minha avó, aquela que me dizia, depois de me limpar o rabo, que «parir é dor, criar é amor», acabo sempre a fingir que a ligação caiu, pipipipi, que é o mesmo que enfiar a cara no livro quando entra o tipo de muletas (no setenta e três), isto é, uma indecência.

saída de emergência


heróis do mar






e lá em baixo muito longe muito lá em baixo muito longe muito lá em baixo





«E o que havia de extraordinário era estar ali de pé na sombra com a cabeça livre, as costas bem coladas à parede, olhando para o céu, vendo apenas as estrelas, quando havia estrelas, sozinha afinal, e lá em baixo muito longe muito lá em baixo muito longe muito lá em baixo o rapaz cada vez mais esquecido à medida que o prazer ia nascendo e subindo como se viesse directamente da terra.»

Christiane Rochefort, Os Filhos do Século, Ed. Presença (1988)

modelo de carta de apresentação (actualizado para os padrões de recrutamento actuais)

Exmos. Senhores,

Venho por este meio responder ao anúncio de trabalho com a Ref. SUCK.Nov.11 por V/publicado a 29.11.2011 na página «empregos-alta-cena». 

Não tenho experiência profissional na área embora goste muito de trabalhar, em geral, e creio que, sabendo tão pouco, poderei ser uma mais-valia para a V/empresa. Neste sentido, e porque sou uma pessoa desprovida de qualquer ambição (quer pessoal, quer profissional), desenvolvi, ao longo dos anos, um gosto particular pelo restrito cumprimento de ordens, que creio ser uma das características que definem o cargo para o qual me estou a candidatar. 

Nunca tive, nem terei, espírito de liderança - interessa-me, isso sim, estar incluída num grupo onde nunca venha  a destacar-me, dado que, seja como for, não há em mim nada de destaque. 

Creio não ser pro-activa, nem curiosa e, muito menos, criativa: acredito que numa empresa de sucesso um dos factores determinantes é a organização: cada um faz apenas aquilo que lhe pagam para fazer. Acredito que, se me derem a oportunidade de integrar os vossos quadros temporários, estarão a subcontratar alguém que irá dar o seu melhor - e acrescento que não tenho problemas pessoais, o meu filho nunca adoece, estou livre de Segunda a Domingo, de manhã à noite, part ou full time, em horário rotativo. Por outro lado, não exijo um bom ordenado, não faço pausas para ir à casa de banho e nunca, nunca olho ninguém de frente. 

Para além do meu curriculum vitae, envio em anexo uma fotografia minha na terceira classe - estou mais ou menos na mesma. 

Agradeço desde já a V/atenção, sem mais de momento,

Catarina Barros


Segunda-feira, 28 de Novembro de 2011

o Mal-estar da Civilização #23



«A mesma esquizofrénica humanidade capaz de enviar instrumentos a um planeta para estudar a composição das suas rochas, assiste indiferente à morte de milhões de pessoas pela fome. Chega-se mais facilmente a Marte do que ao nosso próprio semelhante.
Alguém não anda a cumprir o seu dever. Não andam a cumpri-lo os governos, porque não sabem, porque não podem, ou porque não querem. Ou porque não lho permitem aquelas que efectivamente governam o mundo, as empresas multinacionais e pluricontinentais cujo poder, absolutamente não democrático, reduziu a quase nada o que ainda restava do ideal da democracia. Mas também não estão a cumprir o seu dever os cidadãos que somos.»



José Saramago, Estocolmo, 10 de Dezembro, 1998

Sexta-feira, 25 de Novembro de 2011

se ao menos soubesses como é bonita, a luz no meu quarto

Vivemos horrorizados com a ideia de repetição - talvez por não sabermos que tal coisa não existe. Dizia-lhe hoje: o outro é simple um filme noir. Nem é preciso falar de mim: conheço uma data de gente que vive neste temor, de não ser o primeiro, de não único, de não inaugurar nada. Como se a representação do que somos interessasse mais do que aquilo que, de facto, no nosso quotidiano, podemos ser. Como se sofrêssemos sempre pelo símbolo que queremos representar mas que, no nosso imaginário, outros representarão melhor. O fantasma daquela pessoa com quem alguém viveu seis meses, que nunca poderemos superar. A ideia de que com essa pessoa, corria melhor o trabalho dos dias, e que, por isso, tudo fazia mais sentido, era mais sincero, mais confiante. Antes da grande chapada, acreditava-se. E o que há depois? Espera-se quase sempre com algum cinismo. 

Quando me fui embora levei na mala um livro que não era meu. Lá dentro, uma dedicatória, que não era para mim, nem sobre mim, nem sequer me adivinhava em futuro nenhum. Antes o contrário. O que essa dedicatória continha era a minha impossibilidade, a total ausência de um plano de mim, dado que eu, a existir, teria primeiro que falhar esse texto, ou essa promessa, ou esse desejo. Assim, eu seria apenas a consequência de algo que acabou, eu seria a que veio substituir, repetir, e sem a mesma qualidade, porque sem a mesma crença, no fundo, eu seria um embuste, qualquer coisa que serve para esquecer que o verdadeiro tinha, afinal, acabado. 
E não há estupidez maior que esta, a de nos compararmos com o que foi, com o que nos ultrapassa, com o que desconhecemos. Pode gastar-se uma vida nisto, a querer ser-se o que outro foi, apenas por incapacidade de nos sermos, agora. Desperdiçam-se dias de sol, tardes de praia, idas ao Alentejo, porque se está sempre com a pata no que foi, no que não poderá voltar a ser. Estúpidos, estúpidos, estúpidos. 

E isto ocorre-me por causa do tal livro, e porque não tenho trabalho, e porque dei por mim a pensar num anúncio em que me oferecia para escrever cartas de amor, como nesse livro, que não foi comprado comigo, nem para mim, que não foi lido comigo na ideia, cujas personagens nunca fizeram lembrar quem eu sou (porque eu não existia), mas que afinal, porra, estava, e sempre esteve, em nossa casa.

«Não uses a crueldade como uma desculpa para as tuas limitações."

Dá-lhe, Agustina, dá-lhe.

planos para hoje


CET OBSCUR OBJET DU DÉSIR 
Luis Buñuel, às seis na Cinemateca

teorias para as amigas e o dilema do senso comum

Primeiro o tempo ensina a uma pessoa que, em noventa por cento dos casos, o senso comum dita as respostas aos nossos dilemas. Logo se seguida, o tempo ensina o contrário: que as coisas nem sempre são o que parecem, que não são a preto e branco, que não há caminhos certos, respostas únicas. Penso nisto a propósito das amigas demoradas, das que hesitam, das que, contrariando Chico, não agem vez nenhuma antes de pensar. Esta manhã, por exemplo, eu e uma amiga chegámos à conclusão de que, em 90% dos casos, quando um homem quer conhecer melhor uma mulher, arranja forma de o fazer e que, caso não o faça, não vale a pena ficarmos a pensar que talvez seja tímido ou tenha medo ou não tenha percebido - é mesmo porque não quer. Curiosamente, esta tarde, em conversa com outra amiga, provou-se exactamente o contrário.

O que fazer num mundo em que não há livro, filme, ciência ou sabedoria popular que nos garanta?

Natan mostrava-se ligeiramente enfadado; não gostava de ver Luís Matias beber, mesmo que fosse uma simples limonada.

Uma vez chegou a dizer ao professor:
- Diga-me em que o estou a ofender...
- Não tens idade para criares uma alternativa à ordem estabelecida.
- O que é a ordem estabelecida?
- O que modera as paixões.
- Beber água não é uma paixão.
- Tu bebes limonada, laranjada e sumo de ananás a toda a hora. Um mau hábito é uma paixão raquítica.

Agustina Bessa-Luís, Ordens Menores, Guimarães Editora

o verão de rosa m





Porque o futuro devia ser isto, 
dois corpos que avançam de costas
na expectativa de um embate 
– a redondez do mundo.

Quinta-feira, 24 de Novembro de 2011

Segunda-feira, 21 de Novembro de 2011

Retrato de Família #16



Henri M. Karamazov (1899-1984)

«Não digo nada e deixo desenrolar-se sem comentários o 
incrível jogo de máscaras que continua,
ágil e sem objectivo, sem utilidade e sem relações.»

Domingo, 20 de Novembro de 2011

teorias circulares

Depois de uma análise cuidadosa, eu e a A concluímos que: a) a grande maioria dos homens não é capaz de terminar uma relação se não tiver uma nova em vista; b) pelo contrário, há um grande número de mulheres que decidem "acabar" com tudo tendo por base um mal estar indefinido a.k.a "não sou feliz"; c) no final das contas, estas mulheres acabam por entrar numa relação com os homens da alínea a). 

Para que o João possa compreender este post:

A relação X é composta por A + B, sendo que A é um homem e B uma mulher.
A relação Y é composta por A' + B', correspondência de géneros idêntica. 

Se A conhecer B' termina a relação X e dá início à relação X'.
Se B acabar com A tem só que esperar que A' a conheça para ter coragem para acabar com B' e começar a relação Y'. 
Se entretanto B' achar que a relação já não a satisfaz poderá acabar com A', que fica livre para B. 

Ora, tendo em conta que há mais mulheres do que homens, é preciso que as solteiras tenham em consideração que, daqui por diante: ou encontram homens comprometidos que já estavam mal há muito tempo ou então encontram solteiros abandonados por mulheres que não conseguem estar mal por muito tempo. 

Vá, dêem-me já emprego na Cosmopolitan. 

sim, eu sei




Terminei ontem, pela uma da manhã, os Irmãos Karamázov.

E a vidinha é isto: ficar por casa, ler devagarinho, fazer muitas pausas, não correr para nada (a não ser para as mui raras entrevistas de trabalho). Nove da noite e está tudo em ordem - puto na cama, loiça lavada, quarto arrumado. Daqui por diante, posso fazer o que quiser. Tenho a Magazine Litéraire, que comprei por trazer um dossier imenso sobre a Marguerite Duras, tenho um livro dela Écrire, para começar quando apetecer, tenho a Agustina, que a T. me emprestou, e tenho filmes, carradas deles, que servem mais para minimizar o esforço do que para enriquecer ou aprender ou reflectir. Mais: posso não fazer nada disto e, pura e simplesmente, cumprir aquele ritual maravilhoso do mergulho para a cama, mesmo de frente para a onda do edredon. Poucas coisas me fazem tão feliz.

Começou por ser um espaço.

Lembro-me – o espaço definia-me, tornava-me clara, era a minha forma de existir. Só a partir desse espaço poderia tocar nos outros, fazer-me notar. Admira-me a demora de cada descoberta, o tempo que a luz leva até desvendar o que sempre esteve, e sempre foi. Pensei nisto depois de ter ido à varanda – chove, é Agosto. De costas para a sala, acendi o cigarro de um texto antigo e vi-me, com uma nitidez de aquário, pelos olhos de outro. Tudo isto é de uma simplicidade absoluta – o que houver de complexo ou esdrúxulo reside apenas no processo de o escrever; faço-o como quem aprende a ajoelhar-se.

Nada me é tão pouco grato como o esforço sincero de me expressar.

Quanto mais me inclino para a honestidade mais me afasto da melhor expressão do que sou.

Podia voltar atrás, pegar no que já foi feito, poupar-me ao exercício da repetição.

Acontece que não sou capaz: recuso-me a olhar para a frente partindo de outro ponto que não este, a mesa desta sala num princípio de noite. Quero dizer que só me interessa começar – porque começo sempre com a impressão de não haver princípio. Interessa-me dizer daqui para a frente, como se o dissesse agora, nunca antes. A memória constrange-me, como me constrange a impossibilidade de me materializar no texto, isto é, de ser, ao invés de preconizar. Creio que é um caso comum, não se estar à altura do que se diz.

Sexta-feira, 18 de Novembro de 2011

Quando eu morrer, o que farão eles, com os blogues no baú?

Argh.

punha-se a ler Lispector, chorava nos cantinhos, deixava bilhetes a ninguém

Vivo cercada de imperativos porque o meu dentro nunca se ajustou ao meu fora. O meu dentro responsabilizava-se por todo o desejo inconsumado, tímido e espalhafatoso. O meu fora estava sempre em preparação, aguardava. Nunca sabia por onde começar a arrumação e, nessa desordem toda, fui fazendo de tudo um pouco. O meu ser vivia encolhido porque o meu fora me esmagava. Eu dizia no mim que ninguém ouve: se as coisas fossem diferentes, o meu ser podia sair. E então trabalhava o fora, adiava o dentro. Às vezes ao contrário.
Agora já me decidi. Voltei para trás, à casa mãe, e me revivo toda, em arrepios e penas.
A minha responsabilidade é a do encantado, não do encantador. Eu sou a que deve abrir os olhos e repetir a maravilha. É preciso tirar este vinco do pescoço, esta marca da dobra que os anos deixaram. Eu sou da paixão, do mistério da paixão. Por isso eu tenho esperança – esperança que não serve para mim. O meu exemplo não é de dentro, deste dentro engasgado, que não se decide, mas de fora, o fora que me envergonhou a vida toda. Porque enquanto eu via no meu fora toda a desistência, o acumulado dos erros, os outros viam, viam o quê? Pato cresce pato, pato repete pato, pato acaba no prato. A minha força era toda superficial.

a gaja gastava o tempo todo a escrever, agora gasta-o a apagar

A minha responsabilidade não é aceitar factos – quanta fatalidade nessa aceitação. Para mim há outra promessa. É por isso que estou aqui, foi por isso que troquei uma repetição por outra. A minha viagem, toda pintada de futuro melhor, é uma viagem para um passado melhor. Isto vai ganhando a transparência de uma bolha de sabão. Sobe. Para rebentar. Vem num sopro, no espanto infantil de me descobrir sem tempo. Sim, havia fortes motivos de ordem prática, era preciso organizar a vida. Mas o meu motor não é esse, essa é a minha condenação. Não podemos misturar os nossos imperativos – nosso trabalho é sempre o de separar. Este é só o primeiro passo – porque todos caminhamos para a coisa só. Ou admitimos já que tudo isto está errado, que é demasiada juventude, muito fogo em pouca lenha. Desejo que o tempo passe, que me esclareça. Desejo os anos em que tudo isto será memória, para eu deturpar. Esse tempo sem futuro, essa gargalhada, esse saber que tudo era certo, só que não precisava ser dito, de ser dito assim.

stand up tragedy

Lembro-me dos passeios à noite quando inventávamos alguma coisa com que nos rirmos, para nos zangarmos depois. Havia alguma felicidade naquilo, no duche público, de chinelos, no difícil que é dormir no calor da tarde. Numa dessas tardes quis sair, descer ao mar, mas ele não. E havia ali felicidade, no querermos sempre diferente, no dizermos sempre contrário. «Leva as chaves do carro e vai», ele assim para mim. E que orgulho, pegar nas chaves, bater com a porta da tenda, olhar a solidão da minha toalha no areal. Telefone sem rede. Chegar tarde, não só porque estava bom ali, mas para ficar mau, lá, onde ele ficou. Como se fizesse diferença, como se o bem de um fosse sempre um roubo ao bem dos dois. Nisto sei que não havia felicidade nenhuma, neste assalto permanente à propriedade colectiva. Nada nos pertencia.

ó rainha dos começos

acabas com tudo, menos contigo.

Quarta-feira, 16 de Novembro de 2011

diário dos mesmos pesares #11



«Sobretudo um dia virá em que todo meu movimento será criação, nascimento, eu romperei todos os nãos que existem dentro de mim, provarei a mim mesma que nada há a temer, que tudo o que eu for será sempre onde haja uma mulher com meu princípio, erguerei dentro de mim o que sou um dia, a um gesto meu minhas vagas se levantarão poderosas, água pura submergindo a dúvida, a consciência, eu serei forte como a alma de um animal e quando eu falar serão palavras não pensadas e lentas, não levemente sentidas, não cheias de vontade de humanidade, não o passado corroendo o futuro! O que eu disser soará fatal e inteiro!.»


Clarice Lispector, "Perto do Coração Selvagem", Relógio D'Água, 2000

Segunda-feira, 14 de Novembro de 2011

a poesia não me interessa #28




És um rei. Vive só. Escolhe um caminho livre 
E segue por onde te levar tua mente livre; 
Aperfeiçoa os frutos das ideias que te são caras, 
Sem nada esperar por teus nobres feitos.
Em ti estão as recompensas. De ti és o juiz supremo.
Ninguém, com mais rigor, julgará tua obra. 
Judicioso artista, isso te apraz?


Alexander Pushkin (1799-1837)


Andrei Tarkovski, "Esculpir o Tempo", Martins Fontes, 1998

Sábado, 12 de Novembro de 2011

Perguntas Abandonadas #14

«Se um artista tem uma obra dentro de si, deve sacrificar os outros ou a obra?»
   
Agostinho da Silva (1906-1996)

Quarta-feira, 9 de Novembro de 2011

os textos menores de rosa quê?

Descubro nas minhas tardes sem pressa
lugares onde pode alguém deixar-se estar.
Faltam precisamente sessenta e oito minutos
para me ir embora – tempo suficiente para
envelhecer o universo. Lá atrás, um limoeiro.
Biblioteca escura, armazém de impensa em
estantes de ferro, tudo aqui parece desconhecer
o movimento (a funcionária também).

É de oitenta e sete a revista que folheio, debaixo
da mesa os ténis, pé descalço sob a perna, faço-me
ao lugar como se fosse casa. Quero-me daqui agora
entre os papeis, daqui agora na língua que uso
ponte de coração a coração, de inconsciente a
inconsciente, como aquela bétula na montanha
de goodnow, que parece estar a comer uma pedra,
tão daqui, tão agora.

Nada disto significa que passei a gostar de botânica.
Das plantas, interessam-me apenas as que posso usar:
a beladona, que ataca o sistema nervoso, o jarro-maculado
que provoca inchaço de língua, o acónito, uma ligeira
insuficiência cardíaca. E o limoeiro, claro, nosso
soneto de separação, silêncio-abril rumo ao verão.

props pró pessoal


A única coisa interessante no amor é fazer amor.
É uma pena que seja preciso um tipo para isso.

[Anne Fontaine, Coco avant Chanel]

telefona se precisares de mim


- Para que me chamou, Lise?
- Quero informá-lo de um desejo que tenho. Quero que alguém me martirize: se case comigo e, depois, me martirize, me engane, me abandone. Não quero ser feliz!

[Fiódor Dostoiévski, Os Irmãos Karamazov]

Terça-feira, 8 de Novembro de 2011

espécie de oração particular #12



«Por esse pão pra comer, por esse chão pra dormir
A certidão pra nascer, e a concessão pra sorrir
Por me deixar respirar, por me deixar existir
Deus lhe pague
Pelo prazer de chorar e pelo "estamos aí"
Pela piada no bar e o futebol pra aplaudir 
Um crime pra comentar e um samba pra distrair 
Deus lhe pague
Por essa praia, essa saia, pelas mulheres daqui
O amor malfeito depressa, fazer a barba e partir 
Pelo domingo que é lindo, novela, missa e gibi 
Deus lhe pague
Pela cachaça de graça que a gente tem que engolir
Pela fumaça, desgraça, que a gente tem que tossir 
Pelos andaimes, pingentes, que a gente tem que cair 
Deus lhe pague
Por mais um dia, agonia, pra suportar e assistir
Pelo rangido dos dentes, pela cidade a zunir 
E pelo grito demente que nos ajuda a fugir 
Deus lhe pague
Pela mulher carpideira pra nos louvar e cuspir
E pelas moscas-bicheiras a nos beijar e cobrir 
E pela paz derradeira que enfim vai nos redimir  
Deus lhe pague»


Chico Buarque, "Deus Lhe Pague", Construção, 1971

Segunda-feira, 7 de Novembro de 2011

ALEXANDRA LEAVING / ALEXANDRA LOST

Vim sentar-me n’O Lírio como em tempos
me sentei nas esplanadas da Albisriederplatz.
Não há aqui menos estrangeiros nem eu

me sinto menos só. Na igreja de São Domingos
rezavam a missa: Ich bin der Weg, die Wahrheit
und das Leben; alheios a isto, um homem

transporta cervejas Sagres para a tasquinha
A Sacristia e mulheres de lenço cruzam-se
no pronto-a-vestir Gao Jinyuan. Lisboa.

Não podia estar mais feliz do que neste snack
bar onde nem o acento grave, como é tão habitual
na nossa restauração, se fez substituir pelo agudo:

cozido à portuguesa
vinho branco à pressão
hà sopa da pedra

E não importa o postal Fábrica dos Produtos Coração
que não cheguei a enviar, nem importam os tão mal
remunerados trabalhos do amor, nada disso que

não pude concluir, as aulas de ballet, o curso de piano
ou o plano de recuperação da mãe. Distribuo cigarros,
não me furto aos cinco cêntimos (são p’ra comer)

e reparo, antes de abandonar a cena rumo à Praça
dos Restauradores, num anúncio que me tinha passado
despercebido: hà rapariga sem nada a perder.

sinais de fogo

VOLÚPIA

Prazer, mirra da vida, o recordar das horas
em que encontrei e tive o amor como o buscava.
Prazer, mirra da vida, a mim!, que tanto odiei
que uma aventura se tornasse um hábito.

[1917]


Constantino Cavafy, 90 e Mais Quatro Poemas, Ed. Asa, 2001, trad. Jorge de Sena

Domingo, 6 de Novembro de 2011

Chamada a pagar no destinatário #9



«Who gives a shit about Lulu? I'm Waiting for the Man»

Sábado, 5 de Novembro de 2011

oração de inverno

«Ó Deus, toma-me na tua grande mão e torna-me o teu instrumento, faz-me escrever.»

Sexta-feira, 4 de Novembro de 2011

Quinta-feira, 3 de Novembro de 2011

contas à vida

entretenho-me muito a contar as casas em que vivi, as escolas em que andei, as vezes que fui a tal parte, os meses em que estive com, os meses em que estive sem. nunca decoro o resultado por isso tenho sempre que olhar para trás, rememorando, contando pelos dedos. às vezes as contas são outras, embora as mesmas. hoje, por exemplo, dei por mim a olhar para a sala mais bonita onde já usei um possessivo e pensei: desde que comecei a escrever neste blogue esta é a minha quinta casa. e, como sempre, a preferida.

Meroveu

primeiro pensei que era um filho, mais tarde descobri que era um espelho.

Quarta-feira, 2 de Novembro de 2011

Le nom sur le bout de la langue

Une jeune femme promet à un homme de retenir son nom.
Un jour ce nom lui fait soudain défaut. Ce défaut lui brûle les lèvres. Le désespoir la gagne.

(Monsieur Quignard)

Terça-feira, 1 de Novembro de 2011

falar falência


©Lubitsch,Ernst;1937 

porque é sempre tão necessário, o desnecessário

E se o coração sabe da mentira que a cabeça encerra, o corpo sempre decide, a sós, por onde ir.