«Ele que deixasse os livros, diziam, para os paralíticos e os moribundos.»

Terça-feira, 13 de Dezembro de 2011

a temperatura do corpo #10



«Foi quando a mina alvejou a estrada que Zeca realizou que tinha morrido com ela. Esse conforto demorou um nada de pensar. Uma agulha de som furou-lhe os ouvidos por dentro e um ciclone esvaziou o chão, levantou-lhe os pés e desembainhou-lhe a espinha entre a nuca e o peito. Com este açoite, a dor roubou-lhe a sensação do corpo. Viu o céu rebolar no ar, em trambolhões sem cor, e estatelar-se na areia. O mundo apagou-se no mesmo instante. Nem o pânico chegou a tempo.»


Pedro Rosa Mendes, “Baía dos Tigres”, Publicações Dom Quixote, 2005 

Domingo, 11 de Dezembro de 2011

Sexta-feira, 9 de Dezembro de 2011

Perguntas Abandonadas #15

«Afastada a justiça, o que são, na verdade, os reinos senão grandes quadrilhas de ladrões? Que é que são, na verdade, as quadrilhas de ladrões, senão pequenos reinos?»


Santo Agostinho (354-430)

Quarta-feira, 7 de Dezembro de 2011

o homem de quarta-feira #41


Sonâmbulos,
Porque dormir agora se amanhece devagar? Ainda é belo sentir as palmas a bater.
O que seria desta rua se privada do que inesperadamente nos atrai? Nada foi rasgado.
Todas as nossas sombras desejam descer, mas só o chão sabe quando é tempo de errâncias. 
                                                                                                                       

Segunda-feira, 5 de Dezembro de 2011

viva 2012

Como não tenho dinheiro, não posso comprar. Como não posso comprar, não sou. Como não sou, não penso. E se não penso, não escrevo. 

há como que um imperativo da estreia, entre dois seres que se amam.

A par do desejo de alguma singularidade, na vida do outro, deseja-se estrear. Pode ser uma casa, uma cidade, um projecto. Tem é de ser alguma coisa. Não é justo que o outro já tenha dormido com alguém, antes, que tenha casado, que tenha tido um filho, que tenham ido juntos a Veneza. Justo seria que tivesse esperado por mim. No campo amoroso, a inauguração vale pontos. De cada vez que alguém diz nunca me tinham feito isso há um ego que cresce. Espera-se, no fundo, uma certa virgindade, espera-se abrir um caminho novo, estar onde nunca ninguém esteve. É aqui que o valor da estreia reside, numa falsa ideia de pureza, associada ao desconhecimento. Como se, por ser a segunda (ou a vigésima) vez, o gesto viesse gasto. 

Lembro-me: dizia-se que as raparigas deviam guardar-se para alguém especial. Que isso de dar o corpo, pela primeira vez, é de tal forma importante, que não podia ser com a pessoa errada. Como se houvesse aqui algum tipo de irreversibilidade. Como se, depois de o fazeres uma vez, nunca mais fosses igual. Como se, dando o corpo, desses uma oportunidade - a de alguém vir estrear-te.  

Não há nada mais despótico do que isto, esta tirania da pureza, que se arrasta pela vida toda. Esta ideia infeliz de que as coisas mais importantes são as que nunca tinham sido vividas antes. É por causa disto, que se alastra como uma praga por todos os compartimentos de uma vida, que as pessoas vivem sufocadas nas suas rotinas, convencidas de que precisam de alguma novidade. É por causa disto que se ama pouco, e mal. Que se perde tempo com ciúmes do passado, do símbolo, do mito alheio - um filme muitas vezes a milhas da realidade. 

Aprender a surpresa naquilo que não é novo, isso sim, é um gesto de amor. O gesto que hoje se cumpre vem de trás, foi aprendido noutros lugares, com outras pessoas, mas chega aqui outro, novo, porque enfim, na minha direcção

E o primeiro... Para dizer a verdade, não me lembro do nome dele. 


Domingo, 4 de Dezembro de 2011

é meia-noite no fim do céu #8


«podeis aprender que o homem
é sempre a melhor medida.
Mais: que a medida do homem
não é a morte mas a vida.»

João Cabral de Melo Neto, Paisagem com Figuras, 1956

2000 km, 90 dias


«Com a performance The Lovers, Abramovic e Ulay transformaram a experiência pessoal de terem atingido o fim do seu caminho juntos num simples acto realizado num local geográfico concreto. Eles caminharam em direcção um ao outro partindo cada um do extremo oposto da Grande Muralha, para se separarem de novo, para sempre.»

Mulheres Artistas nos Séculos XX e XXI, Taschen

Sábado, 3 de Dezembro de 2011

Sexta-feira, 2 de Dezembro de 2011

o que não se vê nesta imagem


é que está um peixe dentro da banheira. um peixe laranja. o que não se vê nesta imagem é que, a par do peixe, há uma rapariga, que por acaso existe e está prestes a desmanchar-se a rir.