domingo, 23 de junho de 2013

a causa das coisas

Eram cinco rapazes: o Marco, o André, o David, o Pedro e o Luís. Moravam todos num monte, a uns seis quilómetros do Cacém, na parte antiga de uma nova urbanização. Eu morava nos prédios, mesmo nos de cima, uns cor de rosa com vista para a Serra de Sintra. É claro que de minha casa não se via serra nenhuma - a minha mãe comprou um dos apartamentos virados para trás, que era mais barato que os outros. Eles viviam do lado norte, na zona das vivendas, e a diferença não seria maior se estivessem a seiscentos quilómetros de distância. Tenho a impressão que os conheci no 140 - a bem ou a mal, todos tínhamos que apanhar o mesmo autocarro para a escola. O Marco e o André eram primos e viviam na mesma casa porque os pais do André estavam emigrados em França, onde ele tinha uma irmã. Eram completamente diferentes (tenho a certeza porque namorei com os dois) e não se davam especialmente bem. À noite, depois de jantar, costumavam esperar todos à minha porta. Às vezes subíamos ao telhado do prédio onde a mãe do Marco tinha a loja e ficávamos ali, de forma ilegal, a contemplar as luzinhas do Tagus Park, que parecia uma estação espacial, cheios de medo de ser apanhados (mas não de cair). Noutras alturas íamos à zona deles, ao centro recreativo, jogar pingue-pongue. Para eles, eu era obscena. Há uma idade em que as raparigas encostam os rapazes aos muros dos quintais e eles ficam muito sérios, transidos de medo. É a idade em que elas podem fazer tudo, gozá-los, bater-lhes, apalpá-los, que eles não reagem, quero dizer, não se revoltam, não se indignam, não pedem um tempo para pensar. As raparigas são, para a idade breve dos rapazes, um enorme espanto.