quarta-feira, 5 de junho de 2013

de volta a casa

Aquilo de que ela mais gostava era quando, ao fim de algumas horas a desembaraçar-se das frases, começava a ficar au point. Não o texto, que esse era sempre uma comichão na cabeça, mas ela mesma. Costumava partir de uma imagem, qualquer coisa testemunhada no metro logo de manhã, e sentava-se à mesa de trabalho pronta para apagar o resto. Lucidez negativa: isto não serve, isto não serve, isto não serve. Quando se impacientava, abria um livro ao calhas, A Condição Humana, isto não serve, o Ulisses, isto não serve. Às vezes agarrava num molho de correspondência por abrir (não é verdade, checava o e-mail) e atirava versos aos trôpegos, aos pândegos e aos endividados. O pior de tudo era de repente parar de rir, parar de escrever, parar para pensar. Tinha logo uma impressão no nariz. Uma dorzinha nas costas. Ó Deuses, aquilo de que ela mais gostava era de estar sozinha em casa, de andar sozinha na rua, de se sentar sozinha no El Corte Inglès, e depois contar tudo a alguém. Andava a martelar na História do Mundo, volume primeiro, pelo que a recolha de material se fazia in loco e com isenção de horário. Por vezes era interrompida pelo inusitado. Não raro, precisava de enfiar qualquer coisa entre as pernas. E mesmo enquanto o fazia, aquilo em que pensava era em trabalho, por exemplo, no tempo que ganharia se tivesse sempre um homem debaixo da mesa.