domingo, 16 de junho de 2013

Lendo um texto de Michaux sobre a pintura: "Levando uma vida excessivamente facial, temos também uma febre perpétua de rostos."

Faltam precisamente sete meses e doze dias para o trigésimo aniversário de Inácia. Segundo o mapa da google, ela vive a mil novecentos e setenta e quatro quilómetros de distância de nós, o que corresponde a umas quatrocentas e nove horas a pé. Supondo que o mapa se não tenha lembrado das pausas para comer e/ou dormir, talvez tenhamos que duplicar este número e concluir que, de casa de Inácia até nós, ou de nossa casa até Inácia, demoraremos trinta e quatro dias. Como Herzog, teremos que dormir em celeiros, enquanto lá fora as raparigas andam de patins. Comeremos lebre, sopa, rebuçados de alcaçuz. Seremos ultrapassados por tractores e por camiões carregados de madeira, e outras coisas tão pouco prováveis quanto papel de arroz, cânfora e algodão. À desolação da paisagem, nos dias de chuva, opor-se-ão miragens de espigas. Uma vez que o trajecto indicado no mapa (o mais rápido) nem sempre contempla caminhos pedonais, seremos forçados, por mais do que uma vez, a meter pela floresta.
O que não sabemos, teremos de inventar. Inácia, a mulher de quem nos ocupamos, não existe. Não devemos espantar-nos com a inexistência de quem temos à frente, é assim com todos, especialmente com aqueles que amamos.