quarta-feira, 12 de junho de 2013

Recomposições de Metades


«Passar muito tempo ao ar livre, ao sol e ao vento provocará sem dúvida uma certa rudeza de carácter - fará crescer uma membrana mais espessa sobre as qualidades mais delicadas da natureza humana, e também no rosto e nas mãos, tal como um árduo trabalho manual retira às mãos a sua sensibilidade. Do mesmo modo, o hábito de ficar em casa pode induzir, por seu lado, uma certa indolência e brandura, para não dizer finura de pele, acompanhadas por uma sensibilidade maior a certas impressões. Talvez fôssemos mais susceptíveis a algumas influências importantes para o nosso desenvolvimento moral e intelectual se o sol nos fosse mais gentil e o vento mais brando. E não há dúvida de que é coisa difícil uma justa proporção entre macieza e aspereza. Todavia, parece-me que se trata de uma membrana que se retira facilmente - e que o remédio natural se encontra na proporção que existe entre a noite e o dia, o Inverno e o Verão, o pensamento e a experiência. Quanto mais ar e luz do sol nos nossos pensamentos, melhor. As mãos calejadas do homem do campo conhecem, melhor do que os dedos lânguidos de um ocioso, os requintados tecidos do amor-próprio e do heroísmo, cujo toque arrebata o coração. É mero sentimentalismo o de quem dorme de dia e se pensa alvo e puro, avesso à experiência que tisna e caleja.» 

Henry David Thoreau, "Caminhada", Antígona, 2012