sábado, 8 de junho de 2013

timeless charm hotel, esboço de um livro em prosa ditado a partir de Saturno por video-conferência

Eudora senta-se ao piano. É simpatia nossa chamar piano àquilo que ela tem à frente, quer dizer, não é nenhum Steinway, ou assim. Passa um bom bocado a fazer escalas e depois toca uma música dos Beatles. Também poderia tocar o Papagaio Loiro, a Noite Feliz ou até o princípio da marcha nupcial (sabe os acordes). Vai passar o dia assim, de um instrumento para outro, sem nunca fazer qualquer coisa a que se possa chamar de música. Onde é que ela estava ontem? À porta de uma livraria a declinar um charro. Onde é que ela estava anteontem? Enfiada na cama. E antes, antes de anteontem? Treinava o linguado de Thanh (página 36), pago a jantares na praia, copos no Braço de Prata e concertos de jazz. Eudora não queimou sutiãs em Atlantic City, mas só porque não usa. Esteve na Revolução Francesa. Foi uma das primeiras a pintar nas Grutas de Lascaux. Há muito, muito tempo (ontem à noite, na Bica) chamava-se Franny e pedia conselhos para uma edição da Bíblia (esta manhã, antes de voltar para casa, passou numa loja da especialidade - recomendaram-lhe que fosse à Feira do Livro, a palavra de Deus está em saldos até dia 10). Eudora não está morta no Mississipi nem à venda na Sá da Costa. Tem um livro do Nuno Moura na mesa da cozinha, mas sentada ao piano a tocar Beatles isso não faz qualquer diferença. Ninguém sabe o que é ter um cometa na Casa II, a sério. Um centauro. Há gente que tem as coisas mais estranhas em casa, nas paredes, nas gavetas - e até na cabeça - mas um cometa, isso é de poetas, quer dizer, faz todo o sentido. É por isso que Eudora não toca nada, embora ponha as mãos em tudo, e é também por isso que não tem palavra, embora fale bastante. A certa altura, Eudora foi eu, ou eu fui Eudora, e fui tu, e morremos todos a seguir. O que é estranho - por alguma razão a garota de ipanema é tão tocada - é que nenhuma petite morte a faça mais feliz que a casa de um estranho, pelo menos da primeira vez que lá entra, antes do sofá ser só um sítio onde a gente se senta a ver um filme para depois adormecer de trombas para o século inteiro, quer a parte que foi, quer a parte que vem. Lichtenberg contraria aquela ideia feita de que antes de um p e de um b vem sempre um -m. Esta é a magia das línguas. "Eu não quero a luz a partir de mim, nem planeio fazer do deserto o esplendor de um quintal", dizia Eudora em entrevista ao Pedro Mexia, acabado de ler os Diapsalmata. E continua: "Ouça, eu não sei fazer nada com o que leio. Sou tal e qual a irmã do Shakespeare: de um modo geral, sou comida por homens inteligentes."