terça-feira, 18 de junho de 2013

XIII

       Leio nas Meditations que existem quatro tipos de memória: a memória automática ou mecânica, que funciona através das parecenças, afinidades e contrastes; a memória lógica, que usamos com esforço  racional (quando, por exemplo, para chegarmos à informação pretendida percorremos mentalmente outras informações auxiliares); a memória moral, nutrida pelo coração, semelhante a um acto mágico (trazida pela via dos afectos); e a memória vertical ou reveladora que não tem um sentido horizontal (hoje, ontem, anteontem) mas vertical (aqui, mais acima, ainda mais acima) que reproduz a experiência e o saber em transcendência. 

      Esta manhã, no autocarro, um grupo de velhos discutia sobre qual seria a melhor paragem para ir ao número 11 de certa avenida, consistindo a conversa numa repetição incessante das mesmas frases, como se a informação objectiva (racional, lógica) tivesse que ser dita várias vezes a fim de não ser esquecida, como se o sentido das coisas demorasse mais tempo a instalar-se, enfim, como se a realidade fosse precedida por uma enorme hesitação. E enquanto assistia a tudo isto pensava na facilidade com que recordariam aquilo que sentiram, há quarenta anos atrás, enquanto eu, que percebi em dez segundos qual a melhor paragem de autocarro, sou incapaz de perceber o que senti, sei lá, segunda-feira à noite? 

      Car on sait véritablement lorsqu'on comprend ce que l'on sait, lorsqu'on sent ce que l'on a compris et lorsqu'on met en pratique ce que l'on a compris et senti.